O Verbo que se fez Carne
Encarnação do Verbo • Sermon • Submitted • Presented
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🎚 SERMÃO 4 – “O VERBO SE FEZ CARNE”
🎚 SERMÃO 4 – “O VERBO SE FEZ CARNE”
João 1:14
Quarto Domingo da Série O Verbo Se Fez Carne
SUMÁRIO DO SERMÃO:
SUMÁRIO DO SERMÃO:
1- INTRODUÇÃO
1- INTRODUÇÃO
2. EXEGESE VERSO A VERSO
2. EXEGESE VERSO A VERSO
3. APLICAÇÕES PASTORAIS
3. APLICAÇÕES PASTORAIS
1. INTRODUÇÃO – O TÚMULO DE DEUS ENTRE OS HOMENS
1. INTRODUÇÃO – O TÚMULO DE DEUS ENTRE OS HOMENS
Chegamos ao ápice do prólogo e ao centro do Natal.
Cada verso anterior apontava para este:
O Verbo eterno (v.1)
O Verbo criador (v.3)
O Verbo luz (v.4–9)
O Verbo rejeitado/recebido (v.10–13)
Agora João revela o golpe mais profundo, mais surpreendente e mais escandaloso da história:
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…”
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós…”
Nada na Bíblia é mais chocante do que isso.
Não é o clímax apenas do prólogo — é o clímax da revelação cristã.
E aqui entra o ponto máximo da Teologia Reformada:
A encarnação é o início do estado de humilhação do Verbo eterno.
Louis Berkhof afirma (TS, pp. 306–309):
“A encarnação, ao ser propriamente considerada, faz parte da humilhação de Cristo, pois o Logos assumiu a carne como ela é desde a Queda — fraca, sujeita ao sofrimento e à morte.”
Hoje celebramos a glória que se dobra, a majestade que se esvazia, o Deus eterno que assume humanidade.
CONTEXTOS
CONTEXTOS
📘 1. CONTEXTO GERAL DO LIVRO (MACRO-ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO)
📘 1. CONTEXTO GERAL DO LIVRO (MACRO-ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO)
1.1. Autor
1.1. Autor
A tradição cristã unânime (Pais da Igreja: Irineu, Clemente, Orígenes, Tertuliano, Eusébio) atribui o Evangelho a João, o apóstolo, filho de Zebedeu.
O próprio texto sugere um autor judeu, com profundo conhecimento:
do templo
da geografia da Palestina
da teologia judaica
do funcionamento das festas judaicas
O autor se identifica como “o discípulo a quem Jesus amava” (Jo 21:20–24).
A autoria joanina explica o alto nível teológico, a profundidade espiritual e a precisão de detalhes testemunhais.
1.2. Data
1.2. Data
Provavelmente entre 85–95 d.C., já ao final da vida de João, em Éfeso.
O evangelho reflete uma igreja madura, enfrentando:
falsos mestres pré-gnósticos
judaísmo hostil e reorganizado após 70 d.C.
crescimento gentílico
1.3. Objetivo Teológico
1.3. Objetivo Teológico
O próprio evangelho declara seu propósito:
“Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus,
e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.”
(Jo 20:31)
Três grandes eixos estruturam o livro:
Cristologia elevada — Jesus é o Verbo eterno que se fez carne.
Sinais — milagres como testemunhos teológicos da divindade de Cristo.
Vida eterna — a vida de Deus dada pela fé.
Ele não escreve apenas história, mas teologia em forma narrativa.
1.4. Diferenças entre João e os Sinóticos
1.4. Diferenças entre João e os Sinóticos
João escreve com uma estratégia própria:
Não contém parábolas; contém discursos longos.
Não contém exorcismos; apresenta conflitos teológicos profundos.
Organiza o ministério de Jesus em Jerusalém mais que na Galileia.
Estrutura-se em sinais, discursos e revelações.
Enquanto os Sinóticos são histórico-disciplinares, João é teológico-revelacional.
📗 2. CONTEXTO IMEDIATO (JOÃO 1:1–18)
📗 2. CONTEXTO IMEDIATO (JOÃO 1:1–18)
O prólogo funciona como:
Resumo teológico do evangelho inteiro
Introdução à cristologia joanina
Antecipação dos temas centrais
Os grandes blocos do prólogo:
Os grandes blocos do prólogo:
João 1:1–5 — O Verbo eterno, criador e luz
– pré-existência
– divindade
– mediação da criação
– luz que confronta as trevas
João 1:6–8 — Ministério de João Batista
– contraste entre testemunha e Luz
– a luz necessita ser anunciada
João 1:9–13 — A rejeição e a recepção do Verbo
– depravação humana
– adoção divina
– regeneração monergística
João 1:14–18 — O clímax: a Encarnação
– o Tabernáculo de Deus entre os homens
– glória visível
– graça e verdade
– revelação final do Pai
O prólogo é intencionalmente construído como um Gênesis da nova criação, onde o Verbo gera uma humanidade regenerada.
📜 3. CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DO TEXTO
📜 3. CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DO TEXTO
Para entender João 1, precisamos olhar o mundo judaico do Primeiro Século, o mundo greco-romano, e o ambiente teológico onde João escreve.
3.1. Judaísmo do Segundo Templo
3.1. Judaísmo do Segundo Templo
João escreve num contexto em que o judaísmo:
valorizava profundamente o monoteísmo
criara uma teologia sofisticada da Palavra de Deus
esperava o Messias libertador
tinha se reorganizado após a destruição do Templo (70 d.C.)
O conceito judaico de “Palavra” (MEMRA / DABAR):
O conceito judaico de “Palavra” (MEMRA / DABAR):
A “Palavra” de Deus era vista como:
agente da criação (Sl 33:6)
poder ativo de Deus (Is 55:11)
revelação divina (Êx 19–20)
manifestação da sabedoria (Pv 8)
A tradição aramaica dos Targuns usava “MEMRA” (a Palavra) como o modo de Deus agir no mundo.
Isso prepara o terreno para João dizer:
O Verbo não é força; é Pessoa.
3.2. Mundo Grego / Helenista
3.2. Mundo Grego / Helenista
O termo Logos era carregado de significado:
Para Heráclito: princípio racional que ordena o cosmos.
Para os estóicos: alma racional do universo.
Para Fílon: intermediário metafísico entre o Deus transcendente e o mundo.
João, porém, apresenta uma correção radical:
O Logos é Deus, não uma força.
O Logos se faz carne, não mito.
3.3. Ambiente teológico do final do século I
3.3. Ambiente teológico do final do século I
João responde à ameaça precoce do proto-gnosticismo, que dizia:
a carne é má
o mundo é mau
Deus não pode se tornar homem
Daí João escrever:
“O Verbo se fez carne.”
É um golpe direto contra o gnosticismo nascente e contra visões docetistas.
📙 4. CONTEXTO LITERÁRIO-GRAMATICAL DO TEXTO
📙 4. CONTEXTO LITERÁRIO-GRAMATICAL DO TEXTO
4.1. Gênero Literário
4.1. Gênero Literário
O Evangelho de João é:
narrativa teológica
cristologia elevada
apologética contra heresias
convite à fé
testemunho ocular
Diferente dos sinóticos, João não visa cronologia, mas revelação progressiva.
4.2. Estrutura gramatical do prólogo
4.2. Estrutura gramatical do prólogo
O prólogo é altamente poético, em forma de hino:
paralelismos
repetições
contrastes (luz/trevas, vida/morte, receber/rejeitar)
ritmo quase litúrgico
4.3. Notas gramaticais cruciais
4.3. Notas gramaticais cruciais
Aqui estão os pilares textuais da teologia joanina:
● Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος
● Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος
Imperfeito de “ser”: existência contínua, eterna.
● πρὸς τὸν θεόν
● πρὸς τὸν θεόν
Relação face-a-face, comunhão íntima.
Não é “junto a Deus”, mas voltado para Deus.
● θεὸς ἦν ὁ λόγος
● θεὸς ἦν ὁ λόγος
O Logos é da mesma natureza de Deus.
A ausência do artigo enfatiza “qualidade”, não “indefinição”.
● ἐγένετο (fez-se / tornou-se)
● ἐγένετο (fez-se / tornou-se)
Usado para a criação e para a encarnação.
Deus entra na história por “tornar-se” carne.
● ἐσκήνωσεν (tabernaculou)
● ἐσκήνωσεν (tabernaculou)
Evoca a glória de Deus no deserto.
Cristo é o novo santuário.
● μονογενής (único do gênero)
● μονογενής (único do gênero)
Filho único por natureza, não por criação.
● χάριτος καὶ ἀληθείας
● χάριτος καὶ ἀληθείας
Graça e verdade = fórmula hebraica para caráter divino.
2. EXEGESE DE JOÃO 1:14
2. EXEGESE DE JOÃO 1:14
✦ 1. “καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο”
✦ 1. “καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο”
“E o Verbo se fez carne.”
“E o Verbo se fez carne.”
A palavra σάρξ (sárx — carne) é propositalmente forte.
Não diz:
“o Verbo se tornou homem” (ἀνθρωπος)
“o Verbo tomou um corpo”
Diz: CARNE
A carne frágil.
A carne cansada.
A carne sujeita ao frio, dor, fome, cansaço, morte.
MONUMENTAL VERDADE REFORMADA:
MONUMENTAL VERDADE REFORMADA:
Berkhof explica que isso significa:
Não houve mudança na natureza divina
Cristo não deixou de ser Deus.
O esvaziamento não foi perda de atributos.
Mas houve adição real da natureza humana completa
corpo e alma
emoções humanas
limitações não-pecaminosas
O Verbo assumiu a carne pós-queda
sujeita à fraqueza
sujeita ao sofrimento
sujeita à morte
Não há doutrina mais grandiosa:
O Infinito entrou no finito sem deixar de ser infinito.
✦ 2. “καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν”
✦ 2. “καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν”
“e habitou entre nós”
“e habitou entre nós”
Literalmente: “armou sua tenda entre nós”.
Aqui João evoca Êxodo 25–40.
Assim como Deus habitou no Tabernáculo
Agora habita em Cristo
Cristo é:
o verdadeiro Tabernáculo
a presença de Deus
a glória ambulante entre os homens
Na teologia reformada, isso é a união hipostática na prática:
Deus habitando na humanidade, não por símbolo, mas por união real.
✦ 3. “καὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦ”
✦ 3. “καὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦ”
“e vimos a sua glória”
“e vimos a sua glória”
A glória que ninguém podia ver no AT (Êx 33:20), agora pode ser vista:
em Cristo curando, ensinando, perdoando
em Cristo tocando leprosos
em Cristo chorando em Betânia
em Cristo lavando os pés dos discípulos
em Cristo pendurado na cruz
A humilhação de Cristo não apaga Sua glória.
Ela a revela de modo mais profundo.
✦ 4. “δόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρός”
✦ 4. “δόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρός”
“glória como do unigênito do Pai”
“glória como do unigênito do Pai”
μονογενής = único no gênero, singular, exclusivo.
Não é “gerado” biologicamente apenas.
É “único” na relação eterna com o Pai.
Ele é o Filho único por natureza.
Nós somos filhos por adoção (Jo 1:12).
✦ 5. “πλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας”
✦ 5. “πλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας”
“cheio de graça e de verdade”
“cheio de graça e de verdade”
Esta expressão ecoa Êxodo 34:6:
“abundante em bondade e verdade”
João está dizendo:
A mesma glória revelada a Moisés agora se encarna em Cristo.
Graça → salvação
Verdade → revelação
Cristo é a plenitude de ambos.
3. A TEOLOGIA REFORMADA EM JOÃO 1:14
3. A TEOLOGIA REFORMADA EM JOÃO 1:14
1. A encarnação é humilhação
1. A encarnação é humilhação
Berkhof:
“O Logos assumiu carne como ela é desde a Queda.”
Não uma humanidade ideal.
Mas uma humanidade sofredora.
2. A encarnação é voluntária
2. A encarnação é voluntária
Fp 2:6–7 — “ele mesmo se esvaziou”.
Não foi acidente.
Não foi derrota.
Foi ato soberano do Redentor.
3. A encarnação é o início da obra redentora
3. A encarnação é o início da obra redentora
Não há cruz sem manjedoura.
Não há sangue sem carne.
Não há expiação sem encarnação.
4. A encarnação é necessária para a adoção
4. A encarnação é necessária para a adoção
O Filho se faz servo (humilhação)
Para que servos se tornem filhos (graça).
5. A encarnação é a habitação definitiva de Deus
5. A encarnação é a habitação definitiva de Deus
Cristo tabernacula conosco.
E nós tabernacularemos com Deus para sempre (Ap 21:3).
4. APLICAÇÕES PASTORAIS PROFUNDAS
4. APLICAÇÕES PASTORAIS PROFUNDAS
✦ 1. A encarnação mostra o valor que Deus dá ao corpo humano.
✦ 1. A encarnação mostra o valor que Deus dá ao corpo humano.
O Verbo se fez carne — não espírito flutuante.
Rejeitar o corpo é rejeitar a encarnação.
✦ 2. A encarnação mostra que Deus não se mantém distante.
✦ 2. A encarnação mostra que Deus não se mantém distante.
Ele se aproxima.
Ele entra na miséria.
Ele toca a ferida.
Ele sofre conosco.
✦ 3. A encarnação mostra a profundidade da graça.
✦ 3. A encarnação mostra a profundidade da graça.
Deus não envia um mensageiro — Ele vem pessoalmente.
✦ 4. A encarnação mostra que a verdade é uma Pessoa.
✦ 4. A encarnação mostra que a verdade é uma Pessoa.
A verdade não é uma filosofia.
A verdade anda de sandálias.
✦ 5. A encarnação mostra que toda a vida cristã é Cristo.
✦ 5. A encarnação mostra que toda a vida cristã é Cristo.
Não é uma ideologia.
Não é um sistema moral.
É relacionamento pessoal com o Deus encarnado.
5. CONCLUSÃO – O MAIOR MILAGRE DO UNIVERSO
5. CONCLUSÃO – O MAIOR MILAGRE DO UNIVERSO
João 1:14 é o maior milagre da Bíblia:
Maior que abrir o Mar Vermelho
Maior que parar o sol
Maior que ressuscitar mortos
Porque aqui o próprio Deus entra no tempo, no espaço, na carne.
O infinito cabe em uma manjedoura.
A eternidade cabe no tempo.
A glória cabe em um corpo frágil.
O Criador dorme nos braços de uma criatura.
Isso é o Natal reformado:
A glória que se rebaixa, a graça que se encarna, o Deus que se aproxima.
O Verbo se fez carne.
Deus conosco.
Deus por nós.
Deus em nós.
Amém.
