A Tenda, o Altar e a Peregrinação: A Vida de Fé de Abrão
Gênesis • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 19 viewsNotes
Transcript
Gênesis 12:8-20
Onde Paramos
Retornamos a exposição da Palavra de Deus no ponto crucial da história da redenção: o chamado de Abrão. Vimos que o Deus da Glória irrompeu na vida de um idólatra em Ur dos Caldeus, proferindo um imperativo radical: "Sai!" (Gn 12:1). A essa ordem, Ele anexou sete promessas magníficas, cujo clímax é a promessa messiânica: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12:3). Esta palavra de bênção contrabalança as palavras de maldição proferidas contra os construtores da Torre de Babel 6. O chamado de Abrão, portanto, é o redirecionamento divino do curso da história, da maldição para a bênção universal.
A resposta de Abrão foi a obediência da fé (Gn 12:4). Ele partiu, sem saber para onde ia, confiando apenas na Palavra. Ao chegar à terra prometida, em Siquém, deparou-se com a realidade: a terra estava ocupada pelos cananeus (Gn 12:6). É nesse momento de tensão entre a promessa e a realidade que o Senhor lhe aparece novamente, reconfirmando a promessa. A resposta imediata de Abrão foi erguer um altar (Gn 12:7), um memorial da presença de Deus e um ato público de consagração.
- Ainda desejo ressaltar alguns aspectos do texto do último sermão.
v.4 – “Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o Senhor...”
O texto afirma que Abrão prontamente obedeceu a voz do Senhor, não houve questionamento, empecilhos, ou qualquer problema que lhe impedisse de seguir.
- Em segundo lugar, ele assume a responsabilidade de tudo o que Deus lhe ordenou. Ele não discute com ninguém se aquilo é ou não a palavra de Deus. Uma vez que Deus tem falado, ele conduz prontamente a sua casa em obediência.
v.5-7 – “5 Levou Abrão consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã. Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram. 6 Atravessou Abrão a terra até Siquém, até ao carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra. 7 Apareceu o Senhor a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao Senhor, que lhe aparecera”.[1]
- Destaco aqui, como Abrão procedeu, e como sua família prontamente o acompanhou, todos estavam prontos para seguirem Abrão sem qualquer hesitação.
A partir de Gênesis 12:8, a narrativa nos apresenta os marcos essenciais da vida de fé de Abrão, que se tornam o modelo de nossa própria peregrinação cristã.
Texto Base: Gênesis 12:8-20
8 Passando dali para o monte ao oriente de Betel, armou a sua tenda, ficando Betel ao ocidente e Ai ao oriente; ali edificou um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor. 9 Depois, seguiu Abrão dali, prosseguindo ainda para o Neguebe. 10 E sobreveio uma fome na terra; e desceu Abrão ao Egito, para aí morar, porquanto a fome era grande na terra. 11 E aconteceu que, estando ele para entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher formosa à vista; 12 e será que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é sua mulher; e me matarão a mim e a ti te guardarão em vida. 13 Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma por amor de ti. 14 E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios a mulher, que era mui formosa. 15 E viram-na os príncipes de Faraó e gabaram-na diante de Faraó; e a mulher foi levada à casa de Faraó. 16 E fez bem a Abrão por amor dela; e ele teve ovelhas, e bois, e jumentos, e servos, e servas, e jumentas, e camelos. 17 Feriu, porém, o Senhor a Faraó e a sua casa com grandes pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão. 18 Então, chamou Faraó a Abrão e disse: Que é isto que me fizeste? Por que não me disseste que ela era tua mulher? 19 Por que disseste: É minha irmã? De maneira que a tomei por mulher. Agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te. 20 E Faraó deu ordens aos seus homens a respeito dele; e acompanharam-no, a ele, e a sua mulher, e a tudo o que tinha.
I. O Altar e a Tenda: Os Marcos da Peregrinação (v. 8-9)
O versículo 8 é uma das passagens mais ricas de toda a narrativa de Abraão. Ele nos apresenta dois elementos que se tornam a marca registrada da vida do patriarca: o Altar e a Tenda. A jornada de Abrão pela terra, do norte ao sul, de Siquém ao Neguebe, é caracterizada, sobretudo, pelo seu culto 6.
A. O Altar: A Prioridade da Adoração
Abrão se move de Siquém para uma região montanhosa entre Betel (que significa "Casa de Deus") e Ai (que significa "Ruína"). Ali, ele repete o ato de Siquém: "edificou um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor."
O altar é o centro da vida de Abrão. É o lugar da revelação (Deus fala), da expiação (sacrifício) e da consagração (entrega). O ato de "invocar o nome do Senhor" (qara’ beshem Yahweh) é uma declaração pública de fé e adoração. É o ato de se identificar com o Deus verdadeiro em meio a um mundo pagão. O altar de Abrão é uma expressão de gratidão (cf. Gn 8:20) e de consagração da Terra Prometida a Deus 6. Ao edificar o altar em Siquém, perto do carvalho de Moré (que significa "mestre" ou "oráculo"), Abrão santifica um local que era potencialmente pagão, dedicando-o ao único e verdadeiro Deus 6.
O Rev. Hernandes Dias Lopes comenta sobre a importância desse ato: "O altar é o lugar da comunhão com Deus. Onde quer que o povo de Deus esteja, o altar deve ser o primeiro marco. A adoração é a prioridade da vida do crente. Antes de armar a tenda, Abrão armou o altar. Isso significa que a comunhão com Deus é mais importante do que a segurança e o conforto da vida.”
Para o crente reformado, o altar é a lembrança de que a vida não é centrada em si mesmo, mas em Deus. Nossa adoração é a resposta à graça soberana que nos chamou.
B. A Tenda: A Postura do Peregrino
Ao lado do altar, Abrão armou a sua tenda. A tenda, em contraste com as casas de tijolos de Ur, simboliza a transitoriedade e a peregrinação. Abrão não construiu uma casa permanente; ele vivia como estrangeiro na terra que lhe havia sido prometida.
O autor de Hebreus capta essa verdade: "Pela fé, habitou na terra da promessa como em terra alheia, morando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa" (Hb 11:9). A tenda simboliza a cidadania celestial do peregrino, que busca uma cidade cujo arquiteto e edificador é Deus (Hb 11:10) 6. A fé demanda um abandono irrestrito do passado, das seguranças e das velhas formas de culto, em prol da visão revelada 6.
O Dr. Augustus Nicodemus Lopes enfatiza essa dualidade:
<cite>"A vida de Abraão é marcada por dois símbolos: a tenda e o altar. A tenda fala da sua condição de peregrino, de que ele não estava apegado a este mundo. O altar fala da sua devoção a Deus. O crente deve viver entre a tenda e o altar: desapegado do mundo, mas apegado a Deus."</cite>
A vida cristã é uma peregrinação constante (v. 9: "prosseguiu ainda para o Neguebe"). Somos chamados a viver com a mentalidade de que nossa verdadeira pátria é celestial (Fp 3:20). A tenda é a nossa declaração de que somos forasteiros, e o altar é a nossa declaração de que servimos ao Rei.
II. O Desvio da Fé: A Descida ao Egito (v. 10-16)
O versículo 10 marca uma mudança abrupta e dramática na narrativa: "E sobreveio uma fome na terra; e desceu Abrão ao Egito, para aí morar, porquanto a fome era grande na terra."
A. A Prova Inesperada
A fome era um teste. Abrão estava na terra da promessa, mas a provisão falhou. Onde estava a fé que o fez sair de Ur? A descida ao Egito, o lugar da segurança material e da idolatria, revela a fragilidade da fé humana, mesmo no "pai da fé."
O Egito, na tipologia bíblica, é o símbolo do mundo, da autoconfiança e da escravidão. Abrão trocou a incerteza da promessa de Deus pela segurança visível do Nilo. É notável que esta narrativa se coaduna com outras duas cenas (Gn 20 e Gn 26) nas quais a matriarca se encontra em risco em um harém pagão 6. Este padrão de falha recorrente sublinha a fragilidade humana e a necessidade da intervenção divina.
B. O Pecado da Desconfiança
A descida ao Egito leva Abrão a um pecado ainda mais grave: a mentira (v. 11-13). Temendo por sua vida, ele instrui Sarai a dizer que é sua irmã (o que era uma meia-verdade, pois era sua meia-irmã, mas usada para enganar).
Este é o resultado inevitável da desconfiança em Deus. Quando a fé vacila, o medo assume o controle, e o crente recorre a esquemas humanos e à mentira para se proteger. Abrão, o homem que acabara de invocar o nome do Senhor no altar, agora confia em sua própria astúcia e coloca em risco a promessa de Deus (Sarai, a mãe da semente).
O Rev. Hernandes Dias Lopes adverte:
O Egito é o lugar onde a fé morre e a carne prevalece. A descida ao Egito é a primeira grande falha de Abraão. Ele trocou a dependência de Deus pela dependência da carne. O crente não deve buscar refúgio no mundo quando a provação aperta, mas sim no Altar."
A mentira de Abrão não apenas o desonra, mas também coloca em perigo a pureza da linhagem messiânica. O pecado de Abrão é um lembrete solene de que a fé não é uma posse estática, mas uma batalha diária.
III. A Graça Soberana e a Intervenção Divina (v. 17-20)
Apesar da falha de Abrão, a história não termina em tragédia, mas em um testemunho poderoso da fidelidade de Deus.
A. Deus Protege a Promessa (v. 17)
Deus intervém diretamente, não por causa da fé de Abrão, mas por causa de Sua própria promessa. "Feriu, porém, o Senhor a Faraó e a sua casa com grandes pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão."
Deus age para proteger Sarai e, consequentemente, a linhagem messiânica. A intervenção divina no Egito é um prenúncio do Êxodo, onde Deus ferirá o Egito para libertar Seu povo. A salvação de Abrão não é resultado de sua astúcia, mas da graça protetora de Deus.
O Dr. Augustus Nicodemus Lopes destaca a soberania de Deus neste episódio: 2
"Deus não depende da nossa fidelidade para cumprir Suas promessas. Mesmo quando Abraão falha miseravelmente, Deus, por causa de Seu próprio nome e de Sua aliança, intervém para proteger a semente. A fidelidade de Deus é a âncora da nossa salvação, não a nossa."
B. A Repreensão do Pagão (v. 18-20)
O clímax da humilhação de Abrão é a repreensão que ele recebe de Faraó, um pagão (v. 18-19). O homem de Deus é envergonhado por um idólatra.
"Então, chamou Faraó a Abrão e disse: Que é isto que me fizeste? Por que não me disseste que ela era tua mulher?"
Abrão, que deveria ser luz para as nações, torna-se um tropeço. Ele sai do Egito não por sua própria iniciativa, mas porque Faraó o expulsa (v. 20). Deus usa até mesmo o pagão para restaurar Seu servo ao caminho da peregrinação.
Conclusão: A Volta ao Altar
A narrativa de Gênesis 12:10-20 é um parêntese sombrio, mas essencial. Ela nos ensina que a vida de fé não é uma linha reta de perfeição, mas uma jornada de altos e baixos, onde a fidelidade de Deus é a única constante. O chamado de Deus a Abrão é a previsão furtiva para o resto da Bíblia 6. A expansão da promessa de salvação individual para a nacional e, finalmente, para a universal é o movimento essencial da Escritura, que é um guia missionário preocupado em levar salvação a todas as famílias da terra 6. Abrão, como portador de bênção, é uma antecipação do Cristo, o gerador de bênção.
1. O Perigo do Egito: A provação (a fome) não deve nos levar a buscar refúgio no mundo (o Egito), mas a nos agarrar mais firmemente à Palavra de Deus. 2. A Soberania da Graça: Nossa salvação e a continuidade da promessa não dependem de nossa força, mas da intervenção graciosa de Deus. Ele nos protege, mesmo quando falhamos.
O próximo capítulo (Gênesis 13:3-4) nos mostra o retorno de Abrão: "E fez as suas jornadas do sul até Betel, até ao lugar onde a princípio estivera a sua tenda, entre Betel e Ai; ao lugar do altar que, dantes, ali fizera; e Abrão invocou ali o nome do Senhor."
O verdadeiro arrependimento e a restauração se manifestam na volta ao Altar. O crente que caiu deve retornar ao lugar onde a Palavra foi ouvida e o nome do Senhor foi invocado.
Que a nossa vida seja marcada pela Tenda (desapego do mundo) e pelo Altar (apego a Deus), e que, mesmo em nossas falhas, possamos confiar na graça soberana que nos chama e nos restaura. Amém.
[1]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Gn 12.5–7.
