Quando Jesus chama
Notes
Transcript
Texto base:
Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: “Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”. No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente seu pai e o barco, o seguiram. Jesus foi por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Notícias sobre ele se espalharam por toda a Síria, e o povo lhe trouxe todos os que estavam padecendo vários males e tormentos: endemoninhados, epiléticos e paralíticos; e ele os curou.Grandes multidões o seguiam, vindas da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e da região do outro lado do Jordão.
Uma mudança em mim
Uma mudança em mim
Nessa semana, estive conversando com um irmão aqui da igreja a respeito de chamado e propósito. E em meio a essa conversa, Deus me fez lembrar de alguns momentos da minha vida que me trouxeram até aqui. Embora eu já tenha falado algumas vezes sobre isso, e sempre acabe até brincando com essa questão, é interessante para mim lembrar que o que eu entendia como chamado de Deus para minha vida, era algo completamente diferente do que eu entendo e vivo hoje.
Talvez, se anos atrás me perguntassem o que eu gostaria de fazer pelo resto da minha vida e sem o que eu não conseguiria viver, eu responderia prontamente: cantar e tocar. No entanto, hoje, eu carrego uma certezaque nada tira do meu coração de que Deus me chamou para isso: para pregar, para ensinar.
Embora esse texto de Mateus funcione apenas como uma breve transição da primeira parte desse Evangelho para o primeiro grande discurso de Jesus que Mateus nos apresenta, ao meditar nesse texto e tendo em mente as coisas que Deus me lembrou ao longo dessa semana, eu quero explorar com você alguns pontos a respeito do que Jesus está fazendo aqui nesse relato e daquilo que Ele continua fazendo em nossos dias.
Recapitulando o Evangelho de Mateus
Recapitulando o Evangelho de Mateus
Fazendo uma breve recapitulação: já fomos apresentados à descendência e à linhagem do Rei. Descobrimos como a notícia de que o verdadeiro Rei chegou e de que está entre nós gerou reações diversas em pessoas diferentes. Ouvimos falar do arauto do Rei — João Batista — e da coroação real, quando Jesus é reconhecido em seu batismo por Deus diante dos outros.
Também vimos a respeito do teste que o Rei enfrenta e de como Ele vence um dos nossos principais inimigos. Por fim, descobrimos o tipo de pessoa para quem o Rei veio. E aqui, no nosso texto, o Rei não apenas está chamando súditos para o seu reino, como também está convocando trabalhadores que servirão o reino e o Rei.
Em outras palavras, esse texto nos fala a respeito de trabalho, mas não de qualquer tipo de trabalho, e sim de um trabalho no Reino de Deus. Ou, como normalmente falamos em nossas igrejas, esse texto nos ensina a respeito de chamado.
Tudo começa em Deus
Tudo começa em Deus
A primeira coisa que fica clara no nosso texto, e que devemos aprender, é que todo chamado e toda convocação de Deus começam em Deus. Eu sei que isso pode parecer redundante para alguns e óbvio para outros, mas chamado não é algo que começa em nós.
Não é uma simples vontade que surgiu na sua mente ou um mero desejo dos eu coração que nos torna aptos e prontos para trabalhar para Deus. É verdade que ninguém gosta de se sentir inútil. No entanto, esse sentimento de querer fazer algo, não pode nos conduzir a algo que, em primeiro lugar, não depende de nós.
Não é Pedro, nem Tiago ou João que se voluntaria a cumprir a obra de Deus, mas é o próprio Jesus que os observa e os chama.
O chamado não nasce da nossa carência ou daquilo que acreditamos que precisamos fazer, mas nasce da soberania de Deus, ou seja, nasce do fato de somente Ele conhecer e ter o controle de todas as coisas.
O nosso inicial campo de ação
O nosso inicial campo de ação
Partimos então para a segunda coisa que é possível notar no nosso texto, e que devemos aprender, que é: enquanto não ouvirmos a voz de Jesus nos chamando, devemos estar firmes naquilo que Deus nos colocou para fazermos, até o momento certo.O nosso campo de ação é exatamente onde estamos.
Particularmente, eu acho interessante o fato de o nosso texto exalar normalidade. Mateus inicia o v.18 dizendo que Jesus estava caminhando à beira do mar da Galileia. O cenário é comum. Homens pescando, cuidando das suas redes, estando em seus barcos. Em outras palavras, eles estavam vivendo uma vida normal, em um dia normal, em um trabalho normal. A verdade é que Deus costuma falar em dias comuns, usando cenários comuns, com pessoas que estão sendo fiéis às coisas que são ordinárias.
Embora esse ponto possa parecer estranho para algumas pessoas, e talvez até nada espiritual, o contrário se mostra verdadeiro. Afinal, muitas vezes vemos na Palavra de Deus que, antes de existir um chamado direto dos céus para a vida de alguém, essa pessoa vive uma vida normal, trabalha em um trabalho comum e honra a Deus com as coisas simples da vida.
Esse é o caso de Davi cuidando das ovelhas do seu pai antes de ser rei. É o caso de Eliseu cuidando do gado antes de se tornar discípulo de Elias, e é o caso desses pescadores, antes de ouvirem o chamado de Jesus. A questão é que aquilo que fazemos, independentemente de onde estamos hoje, acaba sendo um instrumento de Deus para a nossa formação e preparo para aquilo que Ele vai nos usar no futuro. O ordinário de hoje é o campo de treinamento de Deus para o extraordinário de amanhã.
Note que Deus chama homens que eram pescadores de peixes para, a partir de agora, serem pescadores de homens. O ponto é que Jesus aproveita características da vida ordinária, — da vida comum — para aquilo que Ele vai fazer de extraordinário na vida desses homens.
Pense comigo: um pescador era alguém ativo, alguém que não costumava passar o dia inteiro sem fazer nada. Em uma hora estava no mar aberto, em outra estava limpando as redes, em outro momento estava cuidando dos barcos e, muitas vezes, pensando no dia seguinte, na próxima pesca. Assim também deveriam ser aqueles que seriam pescadores de homens.
Os pescadores também precisavam ser corajosos e pacientes, e assim também devem ser aqueles que levam pessoas até Cristo. Eles eram habilidosos e inteligentes para saber quais eram os melhores lugares e os melhores momentos para pescar no mar. Da mesma forma, o discípulo de Cristo também deve ser quando se trata de trazer pessoas para o Evangelho.
Talvez hoje você não perceba, mas o que tem acontecido na sua vida e o lugar onde você está têm servido como um potencializador nas mãos de Deus para aquilo que Ele conta com você no futuro. Entenda: nada na nossa vida é desperdiçado quando Deus está nos formandos.
Nunca sozinhos!
Nunca sozinhos!
A terceira coisa que é possível notar no nosso texto, e que devemos aprender, é que o chamado de Deus nunca é uma convocação para atuarmos sozinhos.
Mateus é bem explícito no v.18, quando diz que Jesus viu dois irmãos e assim os chamou. No v.21, Mateus continua dizendo que Jesus viu outros dois irmãos e então também os chamou.
Embora existam momentos na nossa caminhada com Cristo em que a solidão é uma companhia amarga para os nossos dias, o chamado de Deus para as nossas vidas só faz sentido quando entendemos que o cumprimos, principalmente, quando andamos próximos de outras pessoas. Deus não te chama para andar sozinho. Chamado só se torna missão, quando vivemos em comunhão, caso contrário, se torna peso; se torna um fardo.
É bem verdade que nem todos os discípulos eram irmãos. Mas o que fica claro, sobretudo no decorrer da história narrada nos evangelhos, é que Jesus prezava pela cooperação e pela diversidade na hora de trabalhar pelo Reino. Tenha em mente! No capítulo 10 de Mateus, quando Jesus envia os 12, Ele os envia de dois em dois.
E se isso ainda não nos convencer, precisamos nos atentar e relembrar o fato de que o Filho de Deus foi aquele que escolheu doze homens para andar com Ele e realizar a sua obra.
Chamado não é algo que acontece de maneira isolada.
Começa com Ele e continua com Ele
Começa com Ele e continua com Ele
A quarta coisa que é possível notar no nosso texto, e que devemos aprender, é que, assim como o chamado se inicia em Jesus, a capacitação e o aperfeiçoamento também dependem dEle. No v.19, lemos:
E disse Jesus: “Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”.
Nesse ponto, o nosso foco deve estar no “e eu os farei”. Embora esses homens já tivessem capacidades e características que poderiam ser reorientadas para essa nova missão, certamente eles ainda não estavam prontos e precisavam ser capacitados e formados para aquilo que Jesus os estava chamando.
É claro que fazer aquilo que está ao nosso alcance é importante.Com toda certeza, devemos estudar, investir a nossa energia naquilo que nos prepara e que, de certa forma, coopera com o chamado de Deus em nossas vidas. Mas não podemos perder de vista que aquele que nos chamou é quem não apenas nos dá a missão, como também é o responsável pelo sucesso da missão. O chamado nos convida a seguir, mas a transformação é obra exclusiva de Jesus.
Poderíamos gastar todo o nosso dinheiro em cursos, workshops e preparações para cumprir da melhor maneira possível o chamado de Deus em nossas vidas e, ainda assim, falhar miseravelmente se nos esquecermos de que a verdadeira capacitação e o verdadeiro aperfeiçoamento de que precisamos vêm de Deus.
E infelizmente, é nesse ponto que muitos vacilam! Muitos passam a acreditar que podem fazer mais e melhor sozinhos e, nesse instante, acabam caindo e se desviando. Afinal, preparação sem dependência de Deus gera técnica, e não fruto.
Devemos sempre nos lembrar das palavras do apóstolo, independentemente das dificuldades que estamos enfrentando:
Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus.
O chamado exige uma resposta
O chamado exige uma resposta
E chegamos então à quinta coisa que clara no nosso texto, e que devemos aprender, mas que certamente é uma das mais difíceis. A quinta coisa é que o chamado que vem de Deus exige de nós renúncia.
O que nesses dois casos nós não podemos ignorar é que o chamado de Jesus nunca vem desacompanhado de uma resposta concreta. Seguir a Jesus não é apenas mudar de opinião, é mudar de direção. Não é apenas sentir algo no coração, é deixar algo para trás.
No nosso texto, as redes, o barco e até mesmo o pai representam a antiga vida, a segurança, o sustento, aquilo que fazia sentido para aqueles homens naquele momento.
O nosso grande problema, nos nossos dias, é que, muitas vezes, romantizamos demais o chamado. Acreditamos que Jesus chamou aqueles homens, e nos chama hoje, para tentar encaixar o Reino de Deus em nossa vida. No entanto, o chamado, o propósito e a vocação de Deus para nós são uma convocação para reorganizarmos as nossas vidas a partir do Reino.
As redes não eram pecaminosas, o barco não era algo errado e o trabalho não era indigno. Quando falamos de renúncia por causa do propósito de Deus para as nossas vidas, não estamos falando de desprezar o passado, mas de entender que tudo o que passou e aconteceu na nossa história não pode mais governar o nosso presente.
Acreditar que Deus tem algo para as nossas vidas, acreditar que Deus conta conosco de alguma forma, e ao mesmo tempo imaginar que isso não vai nos custar nada, é um grande engano. O chamado de Deus sempre nos alcança pela graça, mas ele nunca nos deixa exatamente como estamos.
Seguir Jesus implica escolhas. Implica abrir mão de muitas coisas, rever prioridades, ajustar os passos. Não porque Deus quer nos empobrecer ou nos limitar, mas porque Ele sabe que não é possível caminhar em duas direções ao mesmo tempo. Não dá para seguir a Jesus carregando tudo aquilo que nos prende ao que éramos antes.
Cada um de nós temos redes que nos prendem ao que éramos no passado e nos distancia do que Deus tem para o nosso futuro. Cada um de nós temos barcos que devemos deixar para trás, para cumprir o que Deus tem para nossas vidas.
Guarde essa palavra em seu coração: Se não te custa nada, se não exige nenhuma mudança ou transformação, então essa é uma resposta clara de Deus para você, de que isso não vem dEle.
“Não a nós Senhor, mas ao teu Nome seja a Glória”
“Não a nós Senhor, mas ao teu Nome seja a Glória”
É então que Mateus finaliza essa primeira parte do seu Evangelho. Poderíamos pensar que, depois de tudo isso, finalmente esses homens estariam trabalhando por Jesus. Poderíamos pensar que, enfim, eles se tornariam pescadores de pessoas. Mas, surpreendentemente, o nosso texto não segue esse caminho.
A verdade é que Mateus resume muitos momentos do ministério de Jesus nesses poucos e últimos versículos do capítulo 4 e, desde o chamado que Jesus faz a esses homens, nós só veremos os discípulos entrando em ação muitos capítulos depois.
Poderíamos pensar que, depois de tudo o que ouvimos, já estamos prontos para trabalhar por Cristo. Mas o que o nosso texto deixa claro é que não.
Eu confesso que tive dificuldade para compreender o que estava acontecendo aqui. Conversando com a minha esposa a respeito desse texto, e sobre como não entrava na minha cabeça essa aparentemente ruptura que Mateus faz, ao colocar os discípulos que foram chamados por Jesus novamente no anonimato, ela disse algo que clareou a minha mente.
Do v.23 ao 25, o que nós encontramos é uma grande verdade que, muitas vezes, queremos ignorar. Afinal, se fomos chamados por Deus e se temos algo a fazer pelo Reino, facilmente pensamos que Deus finalmente nos tirou do anonimato e nos colocou como protagonistas da história. No entanto, o que esse texto nos ensina é que, mesmo depois de sermos chamados, mesmo depois das promessas que ouvimos, mesmo depois das renúncias que fizemos, quem continua ensinando nas sinagogas, pregando as boas-novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo é Jesus.
O chamado de Deus não é um convite para assumirmos o controle, nem para ocuparmos o centro do palco. A fama que se espalha e o nome que se torna conhecido é o de Jesus. O chamado de Deus é um convite para andarmos com Jesus e sermos instrumentos nas mãos dEle. Quem faz a obra é Ele. Quem transforma vidas é Ele. Quem salva, quem cura, quem restaura e anuncia o Reino é o próprio Cristo. Ele é o mensageiro e a mensagem. Ele é o profeta e a profecia. Ele é o pregador e a pregação.
Muito mais sobre “estar” do que sobre “o que fazer”
Muito mais sobre “estar” do que sobre “o que fazer”
O chamado de Jesus não é apenas sobre o que nós fazemos por Ele, mas, antes de tudo, é sobre estarmos com Ele. Nem todos serão pastores, nem todos serão pregadores, nem todos serão cantores, nem todos servirão em algum ministério específico da igreja. Até porque eu entendo que chamado é muito mais amplo do que uma função institucional.
Jesus chama pais e mães que irão ensinar e cuidar dos próximos “Billy Grahams” desse mundo. Jesus chama empresários que abrirão espaço em suas empresas para pessoas que hoje trabalham como CLTs comuns, mas que, no futuro, serão grandes evangelistas que alcançarão muitas pessoas. No entanto, acima de qualquer coisa que possamos fazer por Ele, o chamado se resume, em primeiro lugar, em estar com Ele.
O chamado de Jesus é, antes de tudo, um convite para caminhar com Jesus. Talvez você saia daqui hoje sem respostas claras sobre o que Deus espera que você faça. Talvez você ainda não saiba qual ministério deve assumir, qual direção deve tomar ou qual vai ser o próximo passo da sua vida. Mas, enquanto essa resposta não vem, existe algo que você pode e deve fazer: Esteja perto de Jesus!
Perto o suficiente para ouvir a sua voz no momento certo. Perto o suficiente para que Ele trabalhe no seu coração e transforme você. Perto o suficiente para que Ele te capacite e te aprimore exatamente para aquilo que Ele espera que você faça por Ele.
Porque, no final das contas, antes de nos usar, Jesus nos chama para estarmos com Ele. E tudo o que vem depois nasce desse relacionamento.
Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 14 de dezembro de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
