A PAIXÃO DO SALVADOR

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Lucas 22.63 – 23.26
A Palavra de Deus nos conduz a um dos momentos mais sombrios e, paradoxalmente, mais gloriosos da história da redenção: a série de julgamentos que culminou na crucificação de nosso Senhor Jesus Cristo. Na semana passada meditamos sobre a queda de Pedro, que nos ensinou sobre a fragilidade da autoconfiança humana, hoje somos confrontados com a fragilidade e a depravação da própria humanidade em sua rejeição ao seu Criador e Redentor.
Buscaremos a exposição, como já realizamos muitas vezes aqui, por blocos de versículos, a fim de cobrir uma maior parte dos acontecimentos aqui. O texto de Lucas 22.63 a 23.26 não é apenas um relato histórico de uma injustiça colossal; é a revelação do plano eterno de Deus sendo executado com precisão soberana. Vemos aqui a manifestação da inimizade do homem contra Deus, mas também a inabalável fidelidade do Pai em entregar o Filho para cumprir a promessa de salvação.
Quando olhamos atentamente para o texto, vemos que a série de julgamentos injustos de Jesus, perante o Sinédrio, Pilatos e Herodes, revela a profundidade da depravação humana e a inabalável soberania de Deus, que transformou a maior injustiça na única e perfeita justiça para a salvação de Seu povo.
- Oro para que a exposição dessa noite, dirija sua mente e coração a dimensionar a grandeza do sacrifício de Jesus, onde a maior das injustiças tornou justiça perfeita para nossa salvação.
v.63-64 – “Os que detinham Jesus zombavam dele, davam-lhe pancadas e, 64 vendando-lhe os olhos, diziam: Profetiza-nos: quem é que te bateu? 65 E muitas outras coisas diziam contra ele, blasfemando”. [1]
- No início do julgamento no Sinédrio e paralelamente às negações de Pedro, Jesus teve de suportar o escárnio dos guardas. Isso era comum após as prisões, pois os soldados e a polícia do templo fazem desporto e se divertem um pouco às custas do criminoso.
- A zombaria e a surra (Mt 26.67 acrescenta que eles “cuspem”) foram projetadas para quebrar a vontade do acusado e fazê-los desistir mesmo antes da crucificação.
- Eles são destinados por Deus a mostrar a extensão da rejeição (Jó 30.10; Is 50.5; 53.3), e Jesus havia predito este evento inimaginável e sem nenhum tipo de lógica (Lc 13.33). 32 pois será ele entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado e cuspido; 33 e, depois de o açoitarem, tirar-lhe-ão a vida[2]” (Lucas 18.32)
Atividades e zombarias eram uma versão do jogo “cabra-cega”. De olhos vendados, o acusado seria colocado no meio de um círculo de soldados, que o atingiriam de vários ângulos e diriam: “Quem te bateu? Ao desafiá-lo a “profetizar”, eles zombavam da afirmação de que ele era um profeta. O comentário de Lucas de que eles estavam “insultando-o” é na verdade blasphēmountes; eles estavam “blasfemando” contra ele e zombando de sua herança religiosa. Eles não estavam apenas zombando dele, mas do Deus que o enviou. O fato de que a maioria deles era levita e oficiais do templo, ilustra a apostasia da nação ao se voltar contra o Filho de Deus.[3]
Aplicação:
Temos aqui uma demonstração da desesperadora corrupção da natureza humana. Os excessos de malignidade selvagem praticados muitas vezes pelos ímpios e o intenso prazer que sentem em pisotear os mais corretos e mais puros dos homens quase justificam a importante afirmação de um falecido teólogo: “O homem entregue a si mesmo possui uma parte animalesca e uma parte demoníaca”. Ele odeia Deus e a todos que em si retratam a imagem dele. “O pendor da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7).
- Temos pouca ideia do que o mundo poderia tornar-se se não existisse a constante restrição que Deus, misericordiosamente, impõe sobre o mal. Não é exagero afirmar que, se os incrédulos tivessem plena liberdade de seguir seus próprios caminhos, a terra logo se tornaria igual ao inferno.
A calma submissão de nosso Senhor diante dos insultos aqui descritos manifesta a profundidade de seu amor pelos pecadores.
- Se desejasse, ele poderia ter cessado a insolência de seus inimigos em um momento. Ele, que, com uma palavra, expulsara demônios, poderia ter convocado multidões de anjos para estar ao seu lado e desbaratar aqueles perversos instrumentos de Satanás.
- Mas o coração de nosso Senhor estava focalizado na grandiosa obra que viera realizar no mundo. Ele se comprometera a comprar nossa redenção por meio de sua própria humilhação e não se esquivaria de pagar o preço, até as últimas consequências.
- Ele se determinara a beber o cálice amargo do sacrifício vicário para salvar os pecadores e, “em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia” (Hb 12.2); e bebeu todo o cálice de sofrimento.
- A paciência que nosso Senhor demonstrou deve ensinar uma lição muito preciosa a todos os verdadeiros crentes. Devemos abandonar toda murmuração, queixas e irritação de espírito quando formos maltratados pelo mundo. O que representam os insultos aos quais às vezes temos de nos sujeitar em comparação aos insultos lançados sobre nosso Senhor? “Ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças” (1Pe 2.21–23). Ele nos deixou o exemplo para que sigamos seus passos. Portanto, devemos agir de maneira semelhante.[4]
v.66-71 “66 Logo que amanheceu, reuniu-se a assembleia dos anciãos do povo, tanto os principais sacerdotes como os escribas, e o conduziram ao Sinédrio, onde lhe disseram: 67 Se tu és o Cristo, dize-nos. Então, Jesus lhes respondeu: Se vo-lo disser, não o acreditareis; 68 também, se vos perguntar, de nenhum modo me respondereis. 69 Desde agora, estará sentado o Filho do Homem à direita do Todo-Poderoso Deus. 70 Então, disseram todos: Logo, tu és o Filho de Deus? E ele lhes respondeu: Vós dizeis que eu sou. 71 Clamaram, pois: Que necessidade mais temos de testemunho? Porque nós mesmos o ouvimos da sua própria boca. [5]
Esse texto narra o julgamento matinal de Jesus perante o Sinédrio, a suprema corte judaica. Este evento, embora um simulacro de justiça, é teologicamente crucial, pois revela a soberania inabalável de Cristo em meio à maior injustiça humana.
I. O Tribunal da Hipocrisia (v.66)
A reunião do Sinédrio ao amanhecer não visava a verdade, mas sim conferir uma aparência de legalidade a uma condenação já decidida na noite anterior. O processo era ilegal sob diversos aspectos da própria lei judaica (realizado à noite, sem testemunhas concordantes, e com a sentença executada no mesmo dia).
A teologia reformada reconhece neste ato a manifestação da Depravação Total da humanidade, onde até mesmo a autoridade religiosa se corrompe para rejeitar a Luz. O Sinédrio, movido pela inveja e pela cegueira espiritual, transforma a câmara do concílio em um tribunal de hipocrisia, onde a lei é pervertida para condenar o Justo.
II. O Interrogatório Vazio (v.67-68)
Os líderes questionam Jesus: "Se tu és o Cristo, dize-o a nós" (v.67). Jesus, conhecendo a malícia de seus corações, desmascara a futilidade da pergunta: "Se eu vos disser, não o crereis; e se eu vos perguntar, não me respondereis" (v.67-68).
Este é um momento de profunda ironia. O Messias está diante daqueles que deveriam reconhecê-Lo, mas que se recusam a aceitar a verdade. A resposta de Jesus não é de evasão, mas de denúncia profética. Ele expõe a hipocrisia de Seus juízes, que não buscavam a verdade, mas apenas um pretexto legal para Sua execução.
III. A Declaração de Soberania (v.69-71)
O clímax do julgamento é a declaração ousada e definitiva de Jesus, que transforma o réu no Juiz:
"Mas, desde agora, o Filho do Homem estará assentado à direita do Poder de Deus" (v.69).
Esta afirmação é a chave teológica do texto. Jesus não se intimida, mas reivindica para Si a autoridade messiânica e divina, citando diretamente Daniel 7.13-14 (o Filho do Homem com domínio eterno) e Salmo 110.1 (o Senhor assentado à direita de Deus).
1.O Título Messiânico: Ao usar "Filho do Homem", Jesus se identifica com o Messias escatológico que virá em glória.
2.A Posição Divina: "Assentado à direita do Poder de Deus" é uma reivindicação de igualdade com Deus e de Sua exaltação futura. A humilhação presente é apenas o caminho para a glória.
Os juízes entendem a implicação teológica: "Logo, tu és o Filho de Deus?" (v.70). A resposta de Jesus, "Vós dizeis que eu sou" (v.70), é uma confirmação corajosa que sela Sua condenação por blasfêmia.
O Sinédrio, ao condenar Jesus, cumpre involuntariamente o decreto eterno de Deus. A blasfêmia, para eles, era a verdade que tornava a cruz necessária para a salvação. A condenação do Inocente é o meio pelo qual a justiça de Deus é satisfeita e a redenção é alcançada.
Em Síntese:
O julgamento perante o Sinédrio é a prova de que a condenação de Cristo não foi um erro judicial, mas o cumprimento soberano do plano de Deus. A hipocrisia humana O condenou, mas a soberania de Cristo transformou o tribunal da injustiça no palco da Sua exaltação. O Messias, em Sua humilhação, revela Sua glória e Seu poder como o único Rei e Salvador.
Avançaremos para Lucas 23. Isso significa uma transição, Jesus é julgado religiosamente, e condenado, e agora teremos o julgamento civil, que será realizado pelas autoridades romanas.
Antes de mais nada deixe-me diferenciar os níveis de julgamento que acontecerá nos próximos versículos. O nível de julgamento é entendido através da autoridade que julgam. O Julgamento começa com Pilatos, que o encaminhará para Herodes, que reencaminhará Jesus para Pilatos, onde será, então, sentenciado à Cruz.
Quanto às diferenças entre Pilatos e Herodes, vale entender que eles pertenciam a contextos de poder distintos:
Pôncio Pilatos era um oficial romano, diretamente subordinado ao império de Roma. Seu governo na Judeia era como representante do imperador romano, e ele tinha autoridade civil e militar para lidar com a administração e a justiça na região. Ele tinha o controle sobre as questões políticas e jurídicas, mas sua autoridade era limitada pelos interesses romanos.
Herodes Antipas, por outro lado, era um governante tetrarca da Galileia e Perea, uma região separada da Judeia, sob a autoridade indireta de Roma. Ele era descendente de Herodes, o Grande, e governava como um "rei" local, mas seu poder era limitado e ele ainda estava sujeito à autoridade de Roma. Herodes Antipas é mais conhecido na Bíblia por ter ordenado a decapitação de João Batista e por ter se envolvido no julgamento de Jesus, sendo ele quem, segundo os Evangelhos, o enviou para Pilatos.
Portanto, a principal diferença é que Pilatos era um representante direto de Roma, com autoridade legal e militar, enquanto Herodes Antipas era um monarca clientelista, governando sob a supervisão romana, mas com maior autonomia sobre a região da Galileia.
v.1-7 “Levantando-se toda a assembleia, levaram Jesus a Pilatos. 2 E ali passaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei. 3 Então, lhe perguntou Pilatos: És tu o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Tu o dizes. 4 Disse Pilatos aos principais sacerdotes e às multidões: Não vejo neste homem crime algum. 5 Insistiam, porém, cada vez mais, dizendo: Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui. 6 Tendo Pilatos ouvido isto, perguntou se aquele homem era galileu. 7 Ao saber que era da jurisdição de Herodes, estando este, naqueles dias, em Jerusalém, lho remeteu”. [6]
O segundo estágio do julgamento de Jesus move-se do tribunal religioso para o civil, perante o governador romano Pôncio Pilatos e, brevemente, Herodes. Este segmento revela a inocência legal de Cristo e a covardia moral do poder secular, ambos instrumentos da soberania divina.
I. A Transferência do Ódio: Do Sinédrio a Pilatos (v.1-2)
Incapazes de executar a pena de morte, os líderes judeus transferem Jesus para Pilatos. A acusação muda drasticamente de blasfêmia (religiosa) para sedição política os líderes judeus planejaram todas as manobras: "Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei" (v.2).
A mudança estratégica expõe a malícia do coração não regenerado, que usa a mentira e a manipulação política para alcançar seus fins. O ódio religioso se disfarça de zelo cívico. A teologia reformada vê neste ato a prova de que a inimizade contra Cristo se manifesta em todas as esferas da vida humana, seja na religião ou na política.
II. A Inocência Atestada e o Silêncio Profético (v.3-5)
Pilatos, após interrogar Jesus sobre Sua realeza ("És tu o rei dos judeus?" - v.3), declara a Sua inocência por três vezes: "Não acho neste homem culpa alguma" (v.4).
1.A Inocência Legal: A declaração de Pilatos é o atestado legal da impecabilidade de Cristo. Este é um ponto teológico vital: para que a Expiação Substitutiva fosse eficaz, o Cordeiro deveria ser sem mácula. O juiz pagão, sem o saber, estabelece a base legal para a nossa justificação.
- Imagine que Pilatos está avaliando o sacrifício que será oferecido, e como normalmente era realizado com cordeiro, agora ele avalia, atesta a perfectibilidade do cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Nenhuma cena, nenhum ato, nenhuma palavra é por acaso.
2.O Silêncio Profético: Diante das acusações veementes, Jesus permanece em silêncio (v.5). Este silêncio é a eloquência do cumprimento profético, identificando-O como o Servo Sofredor de Isaías: "como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca" (Isaías 53.7). O silêncio de Cristo é Sua defesa mais poderosa, condenando a futilidade de Seus acusadores.
v.8-12 – “8 Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. 9 E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia. 10 Os principais sacerdotes e os escribas ali presentes o acusavam com grande veemência. 11 Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparatoso, e o devolveu a Pilatos. 12 Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se reconciliaram, pois, antes, viviam inimizados um com o outro”. [7]
I. A Frivolidade do Poder (v.8-9)
Herodes, é o mesmo que havia decapitado João Batista por repreensão moral (Lucas 3.19-20), alegra-se em ver Jesus. Sua alegria, contudo, era carnal e superficial:
"Pois havia muito que desejava vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; e esperava ver algum milagre operado por ele" (v.8).
Herodes representa o ceticismo frívolo, vazio, que busca o entretenimento no lugar da verdade. Ele não estava interessado no ensino ou na missão redentora de Jesus, mas em um espetáculo sobrenatural.
Diante das muitas perguntas de Herodes, Jesus permanece em silêncio absoluto (v.9). Este silêncio é um ato de juízo. O Filho de Deus recusa-se a entreter a curiosidade de um homem lascivo e impenitente. O silêncio de Cristo é a condenação da superficialidade que não reconhece a seriedade da Sua missão.
II. A Ferocidade dos Acusadores (v.10)
Enquanto Jesus se cala, os principais sacerdotes e escribas, que O acompanharam, "o acusavam com grande veemência" (v.10).
A ferocidade dos acusadores contrasta com o silêncio do Acusado. Eles, que deveriam ser os guardiões da fé, unem-se ao poder secular para clamar pela morte do Messias. A teologia reformada sublinha que a inimizade contra Cristo é tão profunda que a religião e o Estado se unem em um libelo acusatório comum.
III. O Escárnio e a Reconciliação (v.11-12)
Percebendo que Jesus não faria milagres, Herodes e seus soldados O tratam com desprezo e escárnio, vestindo-O com uma "roupa aparatosa" (v.11) antes de devolvê-Lo a Pilatos.
O escárnio de Herodes é o cumprimento da profecia do Servo Sofredor (Isaías 53). No entanto, o texto revela um detalhe crucial:
"Naquele mesmo dia, Pilatos e Herodes se reconciliaram, pois antes eram inimigos um do outro" (v.12).
A inimizade humana, seja ela política ou pessoal, é desfeita quando há um objeto comum de desprezo e ódio: Jesus Cristo. Este ato de reconciliação, ironicamente, cumpre o que o Salmo 2.2 profetiza: "Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido". A soberania de Deus usa a inimizade e a frivolidade humanas para orquestrar o caminho da cruz.
Em Síntese:
O interlúdio com Herodes demonstra que a rejeição a Cristo manifesta-se tanto na covardia (Pilatos) quanto na frivolidade (Herodes). O silêncio de Jesus é o juízo sobre a superficialidade, e a reconciliação dos inimigos é a prova de que a inimizade contra o Messias é a única causa que une o mundo caído. O propósito de Deus, contudo, prevalece sobre a malícia e a curiosidade humanas.
v.13-24 “13 Então, reunindo Pilatos os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, 14 disse-lhes: Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais. 15 Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. É, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte. 16 Portanto, após castigá-lo, soltá-lo-ei. 17 [E era-lhe forçoso soltar-lhes um detento por ocasião da festa.] 18 Toda a multidão, porém, gritava: Fora com este! Solta-nos Barrabás! 19 Barrabás estava no cárcere por causa de uma sedição na cidade e também por homicídio. 20 Desejando Pilatos soltar a Jesus, insistiu ainda. 21 Eles, porém, mais gritavam: Crucifica-o! Crucifica-o! 22 Então, pela terceira vez, lhes perguntou: Que mal fez este? De fato, nada achei contra ele para condená-lo à morte; portanto, depois de o castigar, soltá-lo-ei. 23 Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E o seu clamor prevaleceu. 24 Então, Pilatos decidiu atender-lhes o pedido. 25 Soltou aquele que estava encarcerado por causa da sedição e do homicídio, a quem eles pediam; e, quanto a Jesus, entregou-o à vontade deles. [8]
- Grandes mentes do mundo já fizeram uma análise psicológica de Jesus, e chegaram a conclusão que ele precisa, necessariamente ser quem Ele É para suportar tudo isso.
- Estamos falando de alta traição, abandono completo, rejeição daqueles há quem ele alimentou, salvou, curou. Juntando-se a isso, temos as falsas acusações, a desmoralização moral, o escárnio público, as declarações mentirosas levantadas contra ele. Mesmo diante de toda a pressão e opressão Ele permanece de pé, firme, pronto para seguir até o fim.
Vemos que após o exame infrutífero perante Herodes, Pilatos retorna ao pretório e, pela segunda vez, proclama a inocência de Jesus: "Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais. Nem tampouco Herodes" (Lucas 23:13-15).
- Repetindo o que falamos anteriormente, Pilatos, governante romano, reconhece que nenhum crime – político ou religioso – se sustenta, revelando a depravação total dos acusadores, cujos corações, corrompidos pelo pecado (Romanos 3:23), distorcem a verdade para satisfazer sua inveja (Marcos 15:10).
Aqui, a soberania de Deus brilha: o que parece uma hesitação covarde de Pilatos é, na verdade, o instrumento pelo qual o Senhor expõe a culpa humana e afirma a imaculada inocência de Cristo, o Cordeiro sem mancha (1 Pedro 1:19).
- Deus usa até a fraqueza de um juiz pagão para avançar Seu plano eterno de redenção, cumprindo Isaías 53:9: "E puseram a sua sepultura com os ímpios, mas com o rico esteve na sua morte, ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca".
As Meias-Medidas de Pilatos: Covardia Disfarçada de Clemência
Convencido da inocência, Pilatos propõe uma meia-medida: "Portanto, depois de o castigar, soltá-lo-ei" (v. 16,22). Essa sugestão revela não misericórdia, mas covardia: se Jesus é inocente, por que submetê-lo ao flagelo romano, um tormento bárbaro que rasgava a carne com tiras de couro cravejadas de metais e ossos, frequentemente levando à morte ou loucura? Como observam comentadores como Barclay e Pohl, o açoite expunha as costas do réu a lacerações profundas, simbolizando a crueldade do pecado que dilacera a alma humana.
- Essa hesitação de Pilatos contrasta com a justiça perfeita de Deus, ilustrando a imputação: o castigo devido ao pecador é transferido ao Inocente (2 Coríntios 5:21). Pilatos, temendo mais o tumulto que a verdade (João 19:12), compromete a retidão, mas o Senhor transforma essa falha em cumprimento profético, preparando o corpo de Cristo para a cruz – não por erro humano, mas pela presciência divina (Atos 2:23).
A Escolha Fatídica: Fazer o Certo da Forma Errada
Pilatos tenta contornar a pressão invocando o costume pascoal de libertar um prisioneiro (v. 17), contrapondo Jesus a Barrabás, um agitador homicida preso por sedição e assassinato (v. 19; Marcos 15:7; João 18:40).
- Esperando que a multidão escolha o inocente, ele subestima a depravação do coração humano: o povo clama por Barrabás, o símbolo da rebelião contra Deus (Atos 3:14).
- Como Barclay e Rienecker notam, essa eleição revela as preferências do homem sem Deus – ilegalidade sobre lei, violência sobre paz, ódio sobre amor – uma demonstração perigosa de deixar o "povo decidir" sobre verdade e justiça.
Na perspectiva reformada, essa inversão destaca a eleição soberana de Deus: enquanto o homem escolhe o culpado, o Senhor elege o Inocente para morrer em lugar dos réus (Efésios 1:4-5). Barrabás, libertado, prefigura a redenção dos pecadores; Jesus, condenado, satisfaz a ira divina, provando que a salvação não vem da voz popular, mas da graça irresistível.
A Rendição à Turba: Inocência Traída pela Pressão
Pilatos, convencido da inocência e da inveja dos líderes (Marcos 15:10), insiste em soltá-lo (v. 20), mas a multidão, transformada em turba frenética, grita: "Crucifica-o!" (v. 21).
- Hendriksen descreve esse refrão como um canto espantoso, ecoando a fúria pecaminosa que rejeita o Autor da vida (Atos 3:15). Pela terceira vez, Pilatos questiona: "Que mal fez este? Nada achei contra ele" (v. 22), mas sua consciência, encurralada entre verdade e ambição (João 19:8,12), cede à pressão: "Se soltas a este, não és amigo de César!" (João 19:12).
- Stott identifica quatro forças – clamor, pedido, vontade e pressão da multidão – que dobram Pilatos, ilustrando a teologia da queda: o homem, escravizado ao pecado (Romanos 6:20), prioriza conveniência sobre caráter.
- Contudo, a soberania divina prevalece: Pilatos entrega Jesus (v. 24-25), libertando Barrabás, em um ato que Morris vê como sombra da substituição vicária – o culpado perdoado, o Inocente crucificado (1 Tessalonicenses 2:15). Deus orquestra essa injustiça para cumprir a redenção, usando a malícia humana como meio para a justiça eterna.
O Escárnio e a Lavagem de Mãos: Culpa Coletiva na Cruz
Sucumbindo, Pilatos permite o escárnio: soldados vestem Jesus de púrpura, coroam-no de espinhos e zombam de sua realeza e divindade (Marcos 15:16-20), ecoando as acusações de sedição e blasfêmia.
- Pilatos, lavando as mãos (Mateus 27:24), protesta inocência, mas Wiersbe acerta: ele silencia a consciência por reputação, traindo a verdade. Essa cena expõe a culpa universal – judeus, romanos, multidão – mas afirma a inocência de Cristo, sob o controle soberano de Deus para nossa salvação.
O que podemos dizer diante de tudo isso? "Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Coríntios 5:21).
Conclusão
Ao contemplarmos a Paixão do Salvador em Lucas 23:1-26, somos confrontados com a profundidade da nossa depravação e a glória da redenção soberana de Deus. A inocência de Jesus, traída pela covardia humana e pela fúria da multidão, não foi derrota, mas vitória eterna na cruz. Oremos para que agora, que essa verdade nos transforme de forma prática e urgente.
- (1) Primeiro, confessemos nossos pecados com humildade. Como Pilatos e a turba, nós também distorcemos a verdade, cedemos à pressão e rejeitamos o Rei justo em momentos de fraqueza.
- Não tentemos "lavar as mãos" com racionalizações; em vez disso, venhamos a Cristo em confissão sincera, pois "se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1 João 1:9). Reconheça sua culpa hoje – ela foi pregada na cruz por Ele.
- (2) Segundo, busquemos a santidade como súditos do Reino eterno. Rejeite as meias-medidas e compromissos morais que o mundo impõe; viva com a firmeza de Jesus, suportando insultos sem revidar, priorizando a verdade sobre a aprovação popular. "Sede santos, porque eu sou santo" (1 Pedro 1:16) – isso significa submissão diária à soberania de Deus, amando o próximo e testemunhando a graça em um mundo hostil.
- (3) Por fim, abrace a redenção plena em Cristo. A cruz transforma nossa maior injustiça em justiça perfeita: Ele, o Inocente, levou nossa culpa para que recebêssemos sua justiça (2 Coríntios 5:21). Se você ainda não o fez, creia nessa graça irresistível agora – a eleição soberana de Deus o chama para a vida eterna. Para os redimidos, viva em gratidão, proclamando: "Cristo nos libertou para que sejamos verdadeiramente livres" (Gálatas 5:1).
Que o Espírito Santo nos capacite a confessar, santificar e viver redimidos. Amém.
SDG.
[1] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 22.63–65.
[2] Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 18.31–33.
[3] Grant R. Osborne, Evangelho de Lucas, trad. Renato Cunha, Comentário Expositivo do Novo Testamento (Bellingham, WA; São Paulo: Lexham Press; Editora Carisma, 2023), 539–540.
[4] J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Lucas, org. Tiago J. Santos Filho, 2aEdição (São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018), 525–526.
[5]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 22.66–71.
[6]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 23.1–7.
[7]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 23.8–12.
[8]Almeida Revista e Atualizada (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993), Lc 23.13–25.
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