O Reino dos Improváveis

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Matthew 4:12–17 NVI
Quando Jesus ouviu que João tinha sido preso, voltou para a Galiléia. Saindo de Nazaré, foi viver em Cafarnaum, que ficava junto ao mar, na região de Zebulom e Naftali, para cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías: “Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz”. Daí em diante Jesus começou a pregar: “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo”.

Uma história improvável

É impressionante como, ao analisar cada desdobramento dessa história — a história da salvação — ela se mostra uma história de improváveis. Um homem e sua esposa estéril são chamados para serem pais de uma nação escolhida por Deus. Esse povo recebe uma terra cercada de inimigos e que é, por muitas vezes, considerada como a periferia do mundo.
Mas aqui, lembrando de tudo aquilo que nós já ouvimos nos últimos domingos, trazemos à nossa memória também outros improváveis.
Como por exemplo o fato improvável do Deus Todo-Poderoso decidir nascer de uma mulher. Ou fato improvável do grande Rei ter nascido em uma cidadezinha, numa estrebaria, e não em um grande palácio. Ou até mesmo do fato improvável do Messias prometido e esperado finalmente chegar ao mundo, e o Seu próprio povo, que tanto zelava e aguardava o comprimento das promessas, não perceberem.
O que o evangelista Mateus nos apresenta, a partir do v.12, é a continuação dessa história improvável. E é por esse motivo que ele nos dá algumas informações que, aparentemente, não fazem muito sentido para nós, leitores modernos.
Mateus nos informa que, ao saber da prisão de João Batista, Jesus — que estava na Judeia, onde fora batizado — retorna para Nazaré. E, de Nazaré, decide instituir o seu quartel-general na cidade de Cafarnaum, que, segundo o texto, ficava junto ao mar, na região de Zebulom e Naftali.
Esse é um ponto no texto que normalmente passamos e não gastamos muito tempo. No entanto, se observarmos, Mateus quer que prestemos atenção no fato de Jesus decidir viver na região de Zebulom e Naftali.

Quem são os súditos do Rei?

Voltando um pouco no tempo, quando o povo sai da escravidão do Egito em direção à Terra Prometida, Deus não somente havia prometido uma terra para o Seu povo, como também já havia destinado um espaço dessa terra para cada tribo de Israel, ou seja, para cada filho de Jacó.Ao entrar na Terra Prometida, todas as tribos foram instruídas por Deus a expulsarem os inimigos dessas terras. No entanto, nenhuma tribo cumpre essa ordem de Deus por completo. E tribos como as de Zebulom e Naftali não apenas deixam de expulsar os inimigos cananeus, como passam a viver entre eles e ainda obrigam alguns desses povos a trabalhos forçados.
O resultado dessa desobediência é que o povo de Deus, principalmente nessas regiões, passa a ser influenciado pela cultura, pela religião e pelas práticas pagãs. Isso acabou ocasionando na perda da pureza, na idolatria de outros deuses e um ciclo de apostasia que domina o livro de Juízes.
Porém, essa mistura entre o povo de Deus e outros povos que existia na região de Zebulom e Naftali não se dá apenas pelo período da tomada da Terra Prometida, mas também pelo fato de serem territórios mais ao norte de Israel.E, por fazerem fronteira com outras nações, eram territórios altamente influenciados por outros povos e estavam mais expostos a invasões vindas do Norte.
Naftali é uma das primeiras regiões a serem atacadas pelos assírios, como vemos em 2 Reis 15. E os assírios, além de invadirem a região, levavam parte do povo cativo para outros lugares e traziam gente de outras nações para se instalar ali. A mistura se torna tão grande que, em Isaías 09, essas regiões passam a ser descritas como a “Galileia das Nações”, a “Galileia dos Gentios”, que significava simplesmente “círculo/distrito dos gentios”.
Agora, saber de tudo isso nos leva a um questionamento: por que Mateus quer que prestemos atenção no fato de Jesus decidir viver nessa região? A resposta é que:
No capítulo 1Mateus nos apresenta quem o Rei é;
No capítulo 2, como o Rei é recebido;
No capítulo 3, a coroação do Rei;
E no início do capítulo 4, o teste do Rei;
Agora, aqui no v.12 em diante, Mateus nos mostra o tipo de pessoa para quem o Rei veio, em outras palavras,quem são os súditos do Rei.

Jesus veio para gente desprezada

Em primeiro lugar, continuando essa história improvável: Jesus não decide viver em Jerusalém. Isso é improvável, pois é lá onde se tinha o templo, onde se encontravam os líderes religiosos, os sacerdotes, os sacrifícios, mas não. Jesus decide viver em uma região que era totalmente desprezada na época.
Desde o momento em que Deus chama um povo para si, a orientação divina sempre foi que esse povo não deveria se misturar com outras nações. No entanto, o que nós encontramos durante todo o Antigo Testamento são dois extremos. Ou o povo desobedecia e se misturava com outras nações, como no caso de Naftali e Zebulom. Ou o povo nutria um orgulho patriótico que fazia com que aqueles que pertenciam a Israel acreditassem que eram melhores do que as outras nações. É esse segundo tipo de pensamento que reinava no coração de muitos na época de Jesus (principalmente dos religiosos).
Por esse motivo, a região em que Jesus decide viver, e que era conhecida como Galileia dos gentios, era uma região desprezada. Uma região vista como impura religiosa e cerimonialmente, porque, afinal, era possível encontrar não somente pessoas que faziam parte do povo de Israel, mas também muitas pessoas de diversas outras nações. E esse é o primeiro tipo de pessoa para quem o Rei veio.
Jesus não vai pra Jerusalém, o centro religioso, o lugar onde as pessoas se achavam espirituais e moralmente superiores. Não. Ele decide viver em um lugar que carregava um rótulo, num lugar que era chamado de impuro, num lugar que ninguém valorizava, num lugar onde ninguém apostava mais nada. Jesus começa exatamente onde muitos já desistiram.
Talvez você conheça alguém assim! Alguém que carrega um rótulo durante toda a vida. Alguém que já foi descartado pelos outros. Ou talvez essa pessoa seja você! Alguém que já ouviu que não ia dar em nada. Alguém que foi abandonado, foi colocado de lado e se sente desprezado pelos outros.
E é exatamente para você! É para esse tipo de pessoa que o Rei veio. Para aqueles que foram esquecidos. Para aqueles que foram abandonados. Para aqueles que os homens olham e não desejam a companhia.

Jesus veio para gente confusa

Porém, o Rei também veio para um segundo tipo de pessoas. O v.16 diz:
Matthew 4:16 NVI
“o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz...”
As regiões da Galileia, por viverem em meio a uma mistura de povos, acabaram sendo marcadas pela idolatria, pela confusão religiosa, pela perda da identidade e pela influência constante de culturas pagãs.
Essa era uma região marcada por séculos de confusão espiritual.Por gente tentando encontrar respostas em caminhos que não levavam a Deus. Era o tipo de lugar onde a escuridão não era apenas moral, mas existencial e espiritual.
Jesus não veio alcançar apenas aqueles que foram rejeitados socialmente, como vimos antes. Ele também veio para quem está perdido por dentro, para quem vive em meio a uma escuridão que ninguém vê.
Há um tipo de confusão que dificulta andarmos de maneira correta.Jesus veio para aqueles que têm a sensação de que a vida ficou pesada demais. Aqueles que estão cansados de tentar e desistiram até mesmo de dar o próximo passo.
Sabe aquela pessoa que não consegue nem explicar o que está sentindo? Aquela pessoa que vive com o coração pesado? O Rei veio para aqueles que estavam longe, esquecidos, deixados de lado, mas Ele veio também para aqueles que estavam quebrados por dentro, confusos, sem rumo.

Jesus veio para gente sem esperança

E então chegamos ao terceiro tipo de pessoas para quem o Rei veio:
Matthew 4:16 NVI
"...obre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz”.”
É interessante que vemos, por diversas vezes, esse termo “sombra da morte” durante toda a história bíblica. Porém, uma coisa é certa: não estamos falando apenas de morte física, mas, principalmente, neste caso, de desesperança, de cansaço extremo, de pessoas que estão respirando, mas que não vivem de verdade. Pessoas que até sorriem, mas não sentem alegria. Pessoas que carregam um peso que parece não ter fim e que vivem debaixo de uma opressão, que, por vezes, impede de avançar.
Esse é o terceiro tipo de pessoa por quem o Rei veio: aqueles que estão mergulhados numa escuridão interior, aqueles que olham ao redor e não veem saída, aqueles que estão cercados por pessoas, mas que se sentem sozinhos, vazios. Pessoas que não enxergam mais propósito e sentido no viver. Esse é o tipo de pessoa.

A Mensagem do Rei

Esse é o quadro geral dos que habitavam aquela região. Gente sofrida. Pessoas que foram esquecidas, deixadas de lado. Pessoas quebradas por dentro. Gente que já não sabia o que é sorrir e, principalmente, o que é viver. Gente como a gente.
Eu confesso que, nas últimas semanas, tenho experimentado um sentimento terrível de desesperança. Um sentimento de frustração, misturado com desgosto, que, por alguns momentos, me roubava o ânimo e até mesmo a alegria. Conversando sobre isso com a minha esposa, ela me perguntou: “Por que isso? Qual o motivo desse sentimento?” E a verdade é que eu não sabia e ainda não sei como responder.
Nós somos o tipo de pessoa pelo qual o Rei veio! Nós somos os convidados a participar desse Reino. Porém, aquilo que o texto deixa claro é que o Rei não veio apenas ao encontro de pessoas assim, mas também trouxe consigo uma mensagem para essas pessoas. E é nesse ponto do texto que existe uma quebra de expectativa.
Afinal, poderíamos esperar uma mensagem de conforto e de esperança.Poderíamos esperar que o Rei olhasse nos nossos olhos e dissesse: “Não temas, eu sou contigo”. No entanto, a mensagem para aqueles que foram desprezados, que se encontram em trevas e vivem na sombra da morte, é a seguinte:
Matthew 4:17 NVI
“Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo”.
A mensagem de Jesus pode ser uma quebra de expectativa para nós, mas não é uma novidade. E não é uma novidade no sentido de que, a alguns versículos atrás, encontramos a mesma mensagem, com as mesmas palavras, porém não na voz de Jesus, mas sim nos lábios de João Batista.
E esse é um ponto interessante, porque se lembrarmos, João Batista pregava no deserto da Judéia. Ele pregava a uma multidão que vinha até o deserto para ouvir o que ele tinha a dizer. No entanto, era essa sua pregação que gerava um certo alvoroço e que tinha também como alvo os fariseus e saduceus, os líderes religiosos da sua época.
João pregava para gente que se considerava luz, ou que pelo menos estava mais próxima da luz. João pregava para gente que acreditava que já tinha as respostas, que conhecia as promessas. E até pregava para muitos que acreditavam que não precisavam mudar.
Agora, Jesus está na Galileiaum lugar esquecido, desprezado, rotulado, misturado. Gente nas trevas, gente perdida, gente quebrada por dentro. E o que encontramos é exatamente a mesma mensagem.
A verdade é que, diante de Deus, todos nós carregamos algum tipo de escuridão. Seja a escuridão de um coração religioso que pensa que está tudo bem, mas vive longe da verdade. Seja a escuridão de alguém que cresceu ouvindo que não vale nada. Ou seja, a escuridão de quem está confuso, cansado, angustiado, vivendo na sombra da morte.
Todos nós carregamos algum tipo de escuridão. Não importa se são trevas sofisticadas, escondidas atrás de rituais e aparências espirituais, ou trevas doloridas, vividas por alguém que já se perdeu de si mesmo.
A necessidade de todo homem e de toda mulher é a mesma: precisamos de luz. E essa é a essência da mensagem do Rei.
Porque, afinal, o chamado ao arrependimento é uma convocação para mudarmos de direção. É o reconhecimento que estávamos no caminho errado e precisamos de mudança. Seja em Jerusalém ou em Cafarnaum, no deserto da Judeia ou nas regiões de Zebulom e Naftali. É disso que precisamos: de luz.
Até quando estamos tristes, até quando estamos cansados, quando a desesperança invade o nosso coração, precisamos ter a rota das nossas vidas mudadas, precisamos trilhar um novo e vivo caminho.
E essa é a beleza da mensagem do Rei: ela alcança a todos, ela confronta a todos, ela transforma a todos.

A Luz que vence a escuridão

Guarde isso no seu coração hoje: Se o Rei veio para gente assim, então ainda existe esperança para todos nós. Jesus fez uma escolha por Zebulom e Naftali. Jesus fez uma escolha por regiões de gente esquecida e desprezada. Ou seja, Ele não tem dificuldade alguma em entrar e fazer parte da minha e da sua história.
Aqui no nosso texto, ao decidir retornar para a Galileia, a luz que brilha, e que é Jesus, não apenas muda de endereço. Ela anuncia que ninguém está longe demais para ser alcançado. A luz que é Jesus sempre foi e continuará indo ao encontro daqueles que precisam.
O Rei continua a caminhar e a fazer morada na Galileia dos gentios.Mas hoje, somos nós que habitamos nessas terras. Somos nós os improváveis, somos nós os quebrados. Somos nós os que carregam trevas que talvez não apareçam no rosto, mas moram lá dentro. Porém, o Rei chegou.
E aquilo que Jesus nos diz hoje não é: “Você já está melhor?” ou “Você já resolveu tudo aí dentro?”. Não! O que Ele nos oferece é um convite: Venha para a luz!
Para você de Zebulom e Naftali, para você que habita em Cafarnaum, ou até mesmo você que mora em uma esquecida e sem importância Nazaré, saiba: não é tarde demais! Não existe escuridão densa que essa luz não consiga vencer.
Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 07 de dezembro de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
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