A PAIXÃO DO SENHOR
Evangelho de Lucas • Sermon • Submitted • Presented
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Lucas 23:1-32
No último sermão, nossa meditação nos conduziu ao sombrio e, ao mesmo tempo, glorioso cenário do tribunal religioso. Vimos nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias prometido, suportar o escárnio e a zombaria dos guardas e, em um clímax de inabalável soberania, declarar-se o Filho do Homem assentado à direita do Poder de Deus (Lc 22:69). O Sinédrio, em sua cegueira e depravação, selou a condenação de Cristo por blasfêmia, cumprindo, sem o saber, o decreto eterno de Deus.
O que se segue, no texto de hoje, é a transição do tribunal religioso para o civil. Os líderes judeus, incapazes de executar a pena de morte, transferem o Justo para as mãos do poder romano. A acusação muda, mas a malícia permanece. A blasfêmia religiosa se transforma em sedição política.
O texto de Lucas 23:1-32 não é apenas um relato histórico da maior injustiça já cometida; tenho afirmado que temos aqui a prova cabal da Depravação Total da humanidade e, paradoxalmente, a manifestação da Soberania Absoluta de Deus que transforma a iniquidade humana no caminho perfeito para a nossa redenção.
Neste sermão, examinaremos a série de julgamentos perante Pilatos e Herodes, a escolha fatal da multidão e a marcha profética de Cristo rumo ao Calvário.
I. O Inocente Perante o Poder Secular: Pilatos (v.1-7)
Lucas 23:1-2: Levantando-se toda a assembleia, levaram Jesus a Pilatos. E ali passaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei.
O ódio religioso se disfarça de zelo cívico. A acusação de blasfêmia, que condenou Jesus perante o Sinédrio, não teria peso para o governador romano Pôncio Pilatos. Por isso, os líderes judeus forjam três acusações políticas graves:
1. Perverter a nação: Agitação social.
2. Vedando pagar tributo a César: Traição fiscal contra Roma.
3. Afirmando ser ele o Cristo, o Rei: Sedição, ameaça direta ao poder imperial.
- A malícia dos acusadores é evidente. Eles usam a mentira e a manipulação política para alcançar seus fins. João Calvino observa que os judeus "não hesitam em usar a mentira mais descarada para destruir a Cristo, mostrando que a inimizade contra Deus não conhece limites".
- Esses homens formam um “colegiado”, se unem como uma assembleia para decidirem o mal. Eles não apenas aprovam as falsas acusações, eles buscam a execução do seu plano maligno.
Lucas 23:3-5:“Então, lhe perguntou Pilatos: És tu o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Tu o dizes. Disse Pilatos aos principais sacerdotes e às multidões: Não vejo neste homem crime algum. Insistiam, porém, cada vez mais, dizendo: Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui”.
- Estamos reafirmando um ponto do último sermão, quando falamos da inocência Atestada (v.4): Pilatos, o juiz pagão, declara a inocência de Cristo: "Não vejo neste homem crime algum." Esta é a primeira de três declarações de inocência neste capítulo (v.4, 14, 22).
- Este atestado legal é teologicamente vital. Para que a Expiação Substitutiva fosse eficaz, o Cordeiro de Deus deveria ser sem mácula (1 Pe 1:19). O juiz secular, sem o saber, estabelece a base legal para a nossa justificação.
- O Desvio Covarde (v.6-7): A menção à Galileia (v.5) oferece a Pilatos uma saída política: enviar Jesus a Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia, que estava em Jerusalém. Pilatos tenta se livrar da responsabilidade, mas não pode escapar do decreto divino.
II. O Silêncio Profundo Perante a Frivolidade: Herodes (v.8-12)
Lucas 23:8-9: Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia.
- Herodes queria assistir algum truque de mágica realizado por Jesus.
- Herodes Antipas, o mesmo que havia assassinado João Batista, representa a frivolidade do poder. Sua alegria não era de fé, mas de curiosidade superficial, buscando um "sinal" ou milagre para seu entretenimento.
- Nesse trecho, destaca-se o Silêncio de Cristo: Diante da curiosidade vã e das acusações veementes (v.10), Jesus permanece em silêncio.
- Este silêncio é a eloquência do cumprimento profético. Ele é o Servo Sofredor de Isaías 53:7: "como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca." O silêncio de Cristo condena a futilidade de Herodes, que não buscava a verdade, mas o espetáculo.
Lucas 23:11-12: Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparatoso, e o devolveu a Pilatos. Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se reconciliaram, pois, antes, viviam inimizados um com o outro.
- O escárnio de Herodes e seus soldados (vestindo-o com um manto de realeza falsa) é a continuação da zombaria iniciada pelos guardas do Sinédrio (Lc 22:63).
- A humanidade, em suas esferas mais altas de poder, se une para desprezar o seu Criador. A reconciliação entre Pilatos e Herodes (v.12) é um testemunho sombrio de que o ódio a Cristo é capaz de unir até mesmo inimigos políticos.
- Essa cena é animalesca, vestir de Jesus com trajes que remetam ao reinado, e zombar dele. Esse é o ápice da soberba humana, a criação se volta contra o seu criador. É nesse momento, para fazer uma referência a Orwell, que os porcos tomam o lugar do dono da fazenda.
III. A Escolha Fatal: Barrabás e a Covardia de Pilatos (v.13-25)
Lucas 23:13-16: Então, reunindo Pilatos os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, disse-lhes: Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais. Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. É, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte. Portanto, após castigá-lo, soltá-lo-ei.
- Pilatos reitera a inocência de Jesus pela segunda e terceira vez (v.14, 22). Ele tenta uma solução de compromisso: castigar o Inocente para satisfazer a turba e, em seguida, soltá-lo.
- A covardia de Pilatos é a tentativa de conciliar a justiça com a conveniência política.
- Se é inocente, por que o castigar? Bem esse era o modo de tentar amenizar a situação. Mas, como veremos a seguir, os homens religiosos não querem ferimentos em Jesus, eles não se contentam com chicotes rasgando seu corpo, eles querem o seu sangue todo derramado.
Lucas 23:18-25: Toda a multidão, porém, gritava: Fora com este! Solta-nos Barrabás! Barrabás estava no cárcere por causa de uma sedição na cidade e também por homicídio. Desejando Pilatos soltar a Jesus, insistiu ainda. Eles, porém, mais gritavam: Crucifica-o! Crucifica-o! [...] Soltou aquele que estava encarcerado por causa da sedição e do homicídio, a quem eles pediam; e, quanto a Jesus, entregou-o à vontade deles.
- A multidão faz a escolha mais profunda e terrível da história: a rejeição do Cristo e a escolha de Barrabás.
- O nome Barrabás significa "filho do pai". Ele era um sedicioso e homicida (v.19). A escolha da multidão é um retrato da condição humana caída: preferimos o criminoso, o rebelde, o filho do pai terreno, ao Filho de Deus, o Inocente.
A Substituição Divina: A libertação de Barrabás em troca da condenação de Jesus é a ilustração mais vívida da Doutrina da Substituição Vicária. O culpado é libertado, e o Inocente é condenado em seu lugar. Charles Spurgeon certa vez pregou sobre este momento, enfatizando que o nosso pecado foi o verdadeiro clamor pela crucificação:
"O que matou Jesus não foram os açoites, nem os soldados, nem o suplício da cruz, fomos nós, os nossos pecados. Ele morreu pelos nossos pecados."
Pilatos, ao lavar as mãos, não se isenta da culpa. Ele entregou-o à vontade deles (v.25). A vontade humana, depravada e sedenta por sangue, prevalece sobre a justiça terrena, mas apenas para cumprir a vontade soberana de Deus (Atos 4:27-28).
IV. A Marcha Profética e o Aviso Solene (v.26-32)
Lucas 23:26: E, como o conduzissem, constrangendo um cireneu, chamado Simão, que vinha do campo, puseram-lhe a cruz sobre os ombros, para que a levasse após Jesus.
- A fraqueza física de Jesus, após a noite de julgamento e os açoites, é tal que Ele não consegue carregar a cruz sozinho.
- Simão de Cirene é constrangido a carregar o instrumento de morte. Este é um lembrete de que o caminho da cruz é pesado, e que Deus, em Sua providência, usa até mesmo a coerção para cumprir Seus propósitos.
Lucas 23:27-31: Seguia-o numerosa multidão de povo, e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! [...] Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco?
- O lamento das mulheres é de compaixão humana, mas Jesus as redireciona para a reflexão teológica. Ele as adverte sobre o juízo iminente que cairia sobre Jerusalém (a destruição de 70 d.C.).
- Eram palavras terríveis aos ouvidos de uma mulher judia. Para ela, sempre era uma desgraça não ter filhos. A ideia de chegar um tempo em que não ter filhos seria uma bênção deveria ter sido um novo e terrível pensamento em sua mente. Apesar disso, foram palavras que se cumpriram literalmente no prazo de cinquenta anos! O cerco de Jerusalém pelos exércitos romanos, sob o comando de Tito, trouxe para todos os habitantes da cidade os mais horríveis sofrimentos que se podem imaginar. Sabemos que as mulheres realmente comeram seus filhos durante o cerco por falta de comida. Sobre nenhuma outra pessoa, os últimos juízos enviados à nação judaica caíram tão severamente quanto sobre as esposas, as mães e os filhos.[1]
- O Lenho Verde e o Lenho Seco: Esta é uma metáfora poderosa de juízo.
•Lenho Verde: Jesus, o Inocente, o Justo, cheio de vida espiritual. Se o juízo de Deus é derramado sobre Ele, o Justo, em Sua humilhação, quão terrível será o juízo sobre...
•Lenho Seco: A nação impenitente, espiritualmente morta, pronta para ser consumida pelo fogo do juízo divino.
O teólogo J. C. Ryle interpreta este versículo como um solene aviso:
"Se a ira de Deus se acendeu contra o Seu Filho, quando Ele estava apenas carregando os pecados dos outros, quão mais terrível será a Sua ira contra os pecadores que carregam os seus próprios pecados!"
- Tenhamos cuidado em pensar que o Senhor Jesus oferece aos homens somente misericórdia, perdão e amor. Sem dúvida alguma, ele tem misericórdia abundante. Ele se deleita na misericórdia; mas não podemos esquecer que nele há tanto justiça como misericórdia. Juízos estão preparados para os impenitentes e incrédulos. O evangelho revela ira para aqueles que endurecem a si mesmos na impiedade. A mesma nuvem que era luz para o povo de Israel era trevas para os egípcios. O mesmo Senhor Jesus que convida os cansados e sobrecarregados a virem a ele, para encontrar descanso, declara com muita clareza que, se o homem não se arrepender e crer, perecerá e será condenado (Lc 13.3; Mc 16.16). O mesmo Salvador que agora retém sua ira dos rebeldes e desobedientes virá, um dia, “em chama de fogo, tornando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho” (2Ts 1.8). Permitamos que essas verdades se aprofundem em nosso coração. Cristo é realmente muitíssimo gracioso. Mas o dia da graça terminará. Por fim, o mundo incrédulo descobrirá, assim como os habitantes de Jerusalém naquela época, que em Deus há tanto o julgamento como a misericórdia. Nenhuma outra demonstração de ira virá com tanto poder quanto aquela que há muito tempo está sendo entesourada e acumulada.[2]
Conclusão e Aplicação: O Triunfo da Soberania
O julgamento de Jesus perante Pilatos e Herodes é a prova irrefutável de que a Soberania de Deus não é anulada pela iniquidade humana. Pelo contrário, a maldade dos homens (a malícia dos líderes, a covardia de Pilatos, a frivolidade de Herodes e a fúria da multidão) foi o instrumento que Deus usou para executar o Seu plano de salvação.
1. A Inocência de Cristo e a Nossa Justificação: A tripla declaração de inocência de Pilatos é o nosso fundamento. Jesus foi condenado como culpado para que nós, os verdadeiros culpados (os Barrabás de hoje), fôssemos declarados inocentes. A justiça de Cristo é imputada a nós pela fé.
2. A Seriedade do Pecado e do Juízo: A advertência de Jesus às mulheres de Jerusalém ("chorai por vós mesmas") nos chama à reflexão profunda. Se o Justo sofreu tal castigo, o que acontecerá com aqueles que rejeitam o Cordeiro e permanecem como "lenho seco"? A cruz nos mostra o amor de Deus, mas também a seriedade de Sua ira contra o pecado.
3. O Chamado à Submissão Soberana: O apóstolo Pedro nos lembra que Cristo, "quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças" (1 Pe 2:23). A paciência e o silêncio de Cristo nos chamam a abandonar a autoconfiança e a murmuração, e a nos submeter à vontade soberana de Deus, mesmo em meio às injustiças.
Que o Espírito Santo nos conceda a graça de contemplar a cruz não apenas como um ato de injustiça humana, mas como o triunfo da justiça divina, onde o Inocente foi condenado para que o culpado fosse salvo. Amém.
Reflexão Profunda e Chamado:
A cena de Lucas 23 nos força a olhar para dentro de nós mesmos. O clamor da multidão por Barrabás não é apenas um evento histórico; é o eco da nossa própria natureza depravada que, por vezes, prefere a rebelião e o pecado (o Barrabás em nós) à pureza e à soberania de Cristo.
Reflexão 1: Onde está o seu Barrabás? Assim como Pilatos, somos confrontados diariamente com a escolha: Cristo ou o mundo? O que você tem preferido? A sedição do seu próprio ego, o homicídio da sua consciência pela indiferença, ou a vida eterna oferecida pelo Cordeiro Imaculado? A verdadeira fé reformada exige que reconheçamos a nossa total incapacidade de nos salvar e a nossa total dependência da obra substitutiva de Cristo. O Evangelho é a troca divina: o nosso Barrabás pela Sua Inocência.
Reflexão 2: O Lenho Seco e a Urgência da Graça. Se a justiça de Deus não poupou o Lenho Verde, o Seu Filho amado, quando Ele carregava o nosso pecado, como escaparemos nós, o Lenho Seco, se negligenciarmos tão grande salvação? (Hb 2:3). Não há tempo para a frivolidade de Herodes, que buscava entretenimento, nem para a covardia de Pilatos, que buscava a conveniência. A vida é breve, e o juízo é certo. A única esperança é o arrependimento e a fé no Inocente que foi condenado em nosso lugar.
Chamado Final: Voltemo-nos para a cruz. Ali, a maior injustiça humana se encontrou com a perfeita justiça divina. Ali, a soberania de Deus triunfou sobre a maldade do homem. Que a profundidade desta verdade nos leve a uma vida de santidade, submissão e gratidão inabalável. Que a nossa resposta ao sacrifício de Cristo seja a entrega total de nossas vidas, vivendo para a glória Daquele que nos amou e se entregou por nós.
Soli Deo Gloria.
[1]J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Lucas, org. Tiago J. Santos Filho, 2aEdição (São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018), 536.
[2] J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Lucas, org. Tiago J. Santos Filho, 2aEdição (São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2018), 536–537.
