Gn 1.1-2.3: A Criação - Do Caos a Ordem Divina

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I - O princípio da criação dos céus e da terra (Gn 1.1-2)

No princípio - בְּרֵאשִׁ֖ית

- (re’shit) significa “início” ou “princípio”, e pode representar um ponto de partida, como claramente demonstrado em Gênesis 1.1: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”. Este termo רֵאשִׁית (re’šît) indica o “início” de algo, podendo marcar o começo e o fim de um ano, por exemplo.

É interessante notar que raramente este termo é usado isoladamente. No caso de Gênesis 1.1, a construção parece apontar para a singularidade do evento: no início, Deus criou, mas o fez com o fim já em vista.

Além disso, o início da criação é caracterizado na Escritura como ex nihilo - ou seja, Deus criou no início dos tempos a partir do nada, apenas por seu poder puro.

Teologicamente, este conceito de início está profundamente ligado à compreensão de Cristo como Criador. A primeira criação no Filho aponta para a nova criação, onde Cristo é o princípio de todas as coisas, mantendo tudo unido e sendo o meio de reconciliação.

Criou - בָּרָ֣א

O verbo בָּרָ֣א (bārāʾ) significa “criar”, e é importante notar que ocorre exclusivamente com Deus como sujeito ou agente da criação. Criar é algo que somente Deus faz. Embora a expressão “do nada” não apareça explicitamente no texto, a maioria dos estudiosos aceita essa nuance por trás da história da criação, ou seja, que Deus não utilizou nenhum material previamente existente para criar “os céus e a terra” (uma expressão que denota toda a realidade).

O verbo בָּרָ֣א refere-se especificamente ao poder criativo único de Deus. No início, Deus criou todas as coisas, incluindo a humanidade, simplesmente falando-as à existência.

Como consequência dessa criação, todas as coisas pertencem a Deus, sendo ele o Criador soberano e Senhor. Diversos passagens nos Salmos e em Isaías confirmam essa compreensão.

Interessantemente, o conceito de criação de Deus não se limita apenas às coisas físicas. Ele também criou um povo para si mesmo, a nação de Israel, e esse tema se estende no Novo Testamento com a criação do “novo homem” em Cristo Jesus.

Deus - אֱלֹהִ֑ים

- (Elohim) é um substantivo hebraico que significa “Deus”, e está centrado no conceito teológico judaico fundamental de que existe apenas um Deus verdadeiro. No Antigo Testamento, Deus é apresentado como o Criador do mundo e do homem, sendo transcendente e claramente distinto da criação. Em Gênesis 1.1, especificamente, Elohim é usado no contexto da criação, estabelecendo uma distinção fundamental entre o Criador e o mundo criado.

A tradição judaica enfatiza a unicidade de Deus, rejeitando veementemente a adoração de outros deuses. Elohim é o único Deus verdadeiro, digno de adoração e sacrifício. Interessantemente, o nome provavelmente está relacionado ao verbo hebraico “ser”, significando que Yahweh é o único Deus verdadeiramente existente.

Em Gênesis 1.1, Elohim é especificamente apresentado como o Criador dos céus, sendo o céu considerado sua habitação real, embora sua presença não seja limitada a um único lugar. Apesar de habitar nas alturas, Deus reina na terra, sendo entronizado e dominando todos os domínios.

o começo e o fim? - אֵ֥ת

A Função Gramatical do 'et (אֵת)

No hebraico bíblico, a partícula אֵת ('et) tem uma função muito específica e técnica. Ela não é uma palavra com tradução direta para o português (como "mesa" ou "amor").

O que ela é: Um marcador de Objeto Direto Definido.

O que ela faz: Ela avisa ao leitor: "A próxima palavra é a coisa que sofreu a ação do verbo".

A estrutura de Gênesis 1:1:(No princípio criou Deus [marcador] os céus e [marcador] a terra).

"Curiosamente, a partícula gramatical usada aqui é formada pela primeira e última letra do alfabeto, sugerindo que Deus criou a totalidade de todas as coisas, do princípio ao fim."

Aqui também temos uma referência oculta a Cristo, baseando-se em Apocalipse 1:8; 22:13: "Eu sou o Alfa e o Ômega" (Alfa e Ômega são a primeira e última letras do grego, equivalentes ao Aleph e Tav hebraico). Para essa linha de pensamento, o próprio Cristo (o Verbo) está assinado gramaticalmente na criação.

os céus e a terra - הַשָּׁמַ֖יִם וְאֵ֥ת הָאָֽרֶץ

1. A Criação da Totalidade (Ex Nihilo) A frase "os céus e a terra" é um merismo, uma figura de linguagem que descreve a totalidade ou "tudo" (o cosmos organizado), ao identificar os extremos – do alto dos céus à terra abaixo. Portanto, a declaração "No princípio Deus criou os céus e a terra" significa que Deus criou tudo o que existe no universo. O ato de criar, utilizando o verbo hebraico bārā’, é reservado exclusivamente para Deus no Antigo Testamento, significando uma obra que é unicamente d'Ele e que manifesta Seu poder imensurável. Embora bārā’ nem sempre signifique "criação a partir do nada," o contexto de Gênesis 1:1 implica que Deus criou o universo ex nihilo (do latim, "a partir do nada"), contrastando com a ideia de matéria coexistindo eternamente com Deus. Deus chamou a matéria à existência, demonstrando Sua liberdade e poder soberano.

2. Implicações Teológicas Fundamentais - Gênesis 1:1 estabelece várias verdades essenciais para o restante da Bíblia:

• A Existência e Eternidade de Deus: O versículo pressupõe a existência de Deus, que existia antes de haver um universo e persistirá após o seu perecimento.

• Monoteísmo e Soberania: O relato é consistentemente monoteísta, afirmando que há apenas um Deus, em forte contraste com as narrâncias de criação politeístas do Antigo Oriente Próximo. Deus é o Criador soberano, e a criação está totalmente sujeita a Ele e dependente d'Ele para sua subsistência.

• Transcendência: Deus é distinto de tudo o que criou. O universo não é uma emanação de Deus, mas um produto de Sua vontade pessoal e criativa.

• O Início Absoluto: A frase "No princípio" (bĕrēʾšît) marca o início de uma sequência de eventos, o que implica que a criação não apenas inaugurou o tempo, mas também foi iniciada com um propósito futuro.

• A Natureza de Deus: Embora o substantivo hebraico para Deus (’Elohim) seja plural (possivelmente para denotar majestade ou reverência especial), o verbo "criou" é singular, indicando que Deus é pensado como um ser. A abertura de Gênesis estabelece que Deus, em Sua sabedoria inescrutável, poder soberano e majestade, é o Criador de todas as coisas que existem. Este ato de criação é o fundamento para a história bíblica subsequente, a Lei de Deus e a teocracia. O relato serve como uma poderosa polêmica contra as noções pagãs de que o sol, a lua, as estrelas ou os monstros marinhos eram divindades, insistindo que eles são meramente criaturas submissas à palavra de Deus. Em suma, Gênesis 1:1 não apenas registra um fato histórico, mas também serve como uma declaração teológica fundamental que convida o leitor a curvar-se em humildade perante o poder, majestade e mistério do Criador. O ato de Deus de criar os céus e a terra é como um arquiteto que não só projeta a casa inteira, mas também traz à existência cada tijolo e viga do nada, garantindo que toda a estrutura, da fundação ao telhado, dependa inteiramente de Sua vontade e permaneça sob Seu domínio.

“E a terra era/tornou-se caos e vazio, e escuridão sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.”

Alguns pontos importantes sobre esta tradução:

O versículo começa com um “vav disjuntivo” (traduzido como “porém”), que introduz tecnicamente uma afirmação circunstancial1.

Os atos criativos subsequentes pressupõem uma “terra” já criada, mas inicialmente “sem forma, vazia e escura”, sobre a qual Deus estabelecerá distinções2.

Alguns teólogos sugerem que seria mais preciso traduzir como “A terra, porém, se tornou sem forma e vazia”, indicando uma consequência de um evento catastrófico1.

Tecnicamente, isso não seria uma criação do nada (creatio ex nihilo), mas o que os teólogos chamam de “creatio secunda” – um processo de elaborar e completar o estado inicial não formado da realidade terrena2.

A tradução literal preserva a riqueza teológica e linguística do texto original hebraico.

1. A Condição Primitiva da Terra (tōhû wāḇōhû)

O versículo começa descrevendo que "a terra era um deserto e uma terra devastada" (tradução comum para a frase hebraica tōhû wāḇōhû).

• Significado Literal: Esta frase é frequentemente traduzida como "sem forma e vazia". O termo tōhû por si só é usado no Antigo Testamento para denotar inutilidade, algo que não tem substância, ou uma terra desabitada e improdutiva, como um deserto. A expressão, portanto, indica que a Terra carecia de ordem e conteúdo.

• A Estrutura do Relato: Este estado desordenado (tōhû wāḇōhû) serve como o plano que Deus endereça nos seis dias de criação:    

◦ Dias 1–3: Deus dá forma ou estrutura (resolvendo o tōhû).    

◦ Dias 4–6: Deus enche e povoa a terra (resolvendo o wāḇōhû).

• Aspecto Temporal (Teoria da Lacuna): A construção gramatical desta cláusula (wĕhāʾāreṣ hāyĕṯâ) é disjuntiva e circunstancial. Isso significa que ela descreve a condição da terra no momento em que Deus iniciou Sua obra de organização (v. 3), e não uma ação sequencial ou um julgamento posterior ("a terra se tornou..."). A sintaxe do hebraico favorece a ideia de que a Terra foi criada em um estado inacabado e não preenchido (formless and empty).

2. Trevas sobre as Profundezas (tĕhôm)

A segunda parte do versículo afirma que "a escuridão estava na face das profundezas".

• As Trevas: Embora a escuridão seja frequentemente um símbolo de mal ou caos na Bíblia, aqui ela é tratada como uma entidade física que precede a luz. No contexto de Gênesis 1:2, as trevas não são uma ameaça primordial ao Criador, mas sim um elemento sob Seu domínio, que Ele nomeará subsequentemente.

• O Abismo (tĕhôm): O "abismo" ou "profundezas" refere-se às águas profundas ou subterrâneas que cobriam a superfície da terra. Enquanto em mitologias vizinhas do Antigo Oriente Próximo, como o Enuma Elish babilônico, o tĕhôm (Tiamat) é uma deusa caótica e antagônica que precisa ser combatida para que a criação aconteça, Gênesis 1:2 apresenta essas águas simplesmente como parte da criação, sujeitas à supervisão de Deus. Não há conflito na narrativa bíblica para trazer a ordem.

3. A Ação do Espírito Divino

O versículo conclui com a imagem de "o Espírito de Deus pairava sobre a superfície das águas".

• O Espírito de Deus (rûaḥ ’ĕlōhîm): A palavra hebraica rûaḥ pode significar "vento", "sopro" ou "espírito". Embora "vento forte" seja uma possibilidade, a tradução "Espírito de Deus" é a mais aceita, pois se encaixa melhor no contexto do capítulo, que é consistentemente teocêntrico, e atribui uma força vivificadora e benéfica à presença divina, em contraste com o caos estático. O Espírito de Deus aqui é visto como a energia criativa ou o poder em ação de Deus.

• Pairando (mĕraḥep̄eṯ): O verbo hebraico é incomum, mas é usado em Deuteronômio 32:11 para descrever uma águia agitando (ou pairando) sobre seus filhotes para protegê-los.

• Significado Teológico: Esta imagem didática sugere que o Espírito estava supervisionando, protegendo e aquecendo a criação, preparando o mundo estático e passivo para as ordens criativas de Deus que se seguiriam no versículo

4. O comentário cria um senso de expectativa de que algo está prestes a acontecer.

Em resumo, Gênesis 1:2 não apenas descreve o cenário pré-organizado – uma massa escura e desordenada coberta por águas – mas também introduz a presença ativa do Espírito de Deus, que, com domínio soberano, prepara o palco para que a Palavra de Deus comece a trazer ordem, luz e vida no dia seguinte. O estado da terra no versículo 2 é como uma tela em branco coberta por névoa e aguardando a intervenção artística e ordenadora do Criador.

II - Criação dos domínios (dar forma) - vv. 3-13

💡Primeiro dia: Luz (Gn 1.3-5) A luz entra no lugar das trevas.

1. A Palavra Criativa (Gênesis 1:3)

"E Deus disse: 'Haja luz', e houve luz." O versículo 3 introduz o método de criação característico deste capítulo: o poder do comando divino.

• "E Deus disse": Esta é a primeira das dez "palavras da criação" registradas em Gênesis 1. Este anúncio destaca a onipotência de Deus e o fato de que Ele cria meramente falando, um conceito que exalta a diferença radical entre o Criador e a criatura. O discurso de Deus é a força criativa que vence o caos e o vazio.

• A Criação por Decreto (Fiat Lux): A frase "Haja luz, e houve luz" é o único item criado estritamente por um decreto simples neste capítulo, e o fato de que a criação responde imediatamente, "e houve luz," enfatiza a obediência total da criação ao comando divino.

• Luz Antes do Sol: A criação da luz neste primeiro dia é crucial, pois ocorre antes da criação do Sol, da Lua e das estrelas (Dia Quatro). Essa cronologia sublinha que a fonte última da luz é o próprio Deus, e não os luminares celestes, servindo como uma polêmica contra as religiões pagãs que adoravam o sol e a lua como divindades.

2. A Avaliação e a Separação (Gênesis 1:4)

"Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. "Este versículo detalha a primeira avaliação divina e o primeiro ato de ordenação.

• "Deus viu que a luz era boa": Esta é a primeira das avaliações divinas. O termo hebraico ṭôḇ ("bom") não se refere apenas à qualidade estética, mas também implica que a luz é benéfica, desejável e cumpriu seu propósito divino de dissipar as trevas que cobriam a terra. O universo físico é um lugar bom porque Deus o fez.

• A Separação: O ato de "separar" (bāḏal) é fundamental na obra de Deus para trazer ordem ao caos. A separação da luz das trevas é o primeiro dos três atos de separação que ocorrem nos dias iniciais (luztrevas, águas acimaáguas abaixo, terra seca/mares), os quais estabelecem as esferas e a estrutura do universo para sustentar a vida. Ao distinguir os elementos, Deus lhes confere identidade e integridade.

3. A Soberania e o Tempo (Gênesis 1:5)

"Deus chamou à luz ‘Dia’ e às trevas chamou ‘Noite’. E houve tarde e houve manhã, o primeiro dia." A conclusão do primeiro dia envolve a demonstração da soberania de Deus sobre o tempo e a instituição de um ciclo fundamental.

• O Ato de Nomear: Ao nomear a luz de "Dia" e as trevas de "Noite," Deus exerce Seu domínio e controle sobre o tempo. No pensamento bíblico, dar nome indica autoridade, e, neste caso, Deus estabelece o propósito dos elementos criados.

• A Estrutura do Tempo: A criação do tempo é o primeiro ato de Deus (Dia 1), antes mesmo do espaço (Dia 2 e 3). A frase "houve tarde e houve manhã" estabelece o arcabouço cronológico para a narrativa. Esta sequência (tarde, depois manhã) ajuda o leitor a seguir o fluxo da passagem, definindo o fim de um período de trabalho e o início da preparação para o próximo.

• O Primeiro Dia como Modelo: O ciclo de trabalho e descanso (culminando no Sétimo Dia) é construído com base neste padrão. A ordem dos dias de criação serve como um paradigma para a atividade humana, uma semana de seis dias de trabalho seguida de descanso. O Primeiro Dia, portanto, não apenas ilumina o universo, mas também estabelece a autoridade inquestionável de Deus (por Sua Palavra) e o princípio da ordem (pela separação do tempo).

🌌Segundo dia: Firmamento (Gn 1.6-8) A atmosfera terrestre é criada

1. O Comando Divino e o Propósito da Separação (Gênesis 1:6)

O dia começa com o comando de Deus: "Haja uma abóbada no meio das águas, e que seja um separador entre águas e águas."

• Rāqîaʿ: A palavra hebraica traduzida como "abóbada" ou "expansão" (em algumas versões, "firmamento") é rāqîaʿ. Este termo deriva de um verbo que significa "espalhar-se" ou "martelar," como cobrir algo com uma folha fina de metal. A imagem, vista de uma perspectiva terrestre (fenomenológica), é de uma abóbada ou cúpula que se estende sobre a Terra.

• A Separação: A função crucial do rāqîaʿ era estabelecer uma separação ou distinção entre as águas. O ato de Deus de fazer distinções entre os elementos lhes confere integridade e identidade.

2. A Realização da Estrutura (Gênesis 1:7)

"Então, Deus fez a abóbada e separou as águas abaixo da abóbada e as águas acima dela. E foi assim."

• As Duas Águas: O ato de Deus resultou na divisão das águas em duas massas distintas: as "águas abaixo da abóbada" (as águas superficiais e terrestres) e as "águas acima dela" (as águas atmosféricas ou nuvens, que fornecem chuva).

• Autoridade Inquestionável: O narrador afirma a execução imediata e total da ordem divina com a frase "E foi assim". Este versículo enfatiza a soberania e o poder absoluto de Deus sobre a criação.

• Contraste Teológico: O relato bíblico está em claro contraste com as cosmogonias pagãs do Antigo Oriente Próximo. Nesses mitos, as águas primordiais eram frequentemente vistas como divindades caóticas e antagônicas (como Tiamat), que precisavam ser combatidas e derrotadas para que a ordem surgisse. Em Gênesis, a água é simplesmente um material criado que serve como instrumento na mão do único Criador soberano, sem oferecer qualquer resistência ou ameaça a Ele.

3. O Nome e a Conclusão do Dia (Gênesis 1:8)

"Deus chamou a abóbada de 'céu'. E houve tarde e manhã — um segundo dia."• Nomeação e Domínio: Ao nomear a expansão de šāmayim ("céu" ou "céus"), Deus exerce Seu domínio e autoridade sobre essa esfera. O termo "céu" se refere ao que é visível ao olho humano, incluindo a atmosfera onde os pássaros voam e o espaço onde os luminares seriam colocados (Dia Quatro).

• Estrutura do Tempo: A conclusão, "E houve tarde e manhã — um segundo dia," demarca o ciclo semanal de trabalho de Deus.

Aspecto Didático: A Ausência da Avaliação "Bom" É um ponto notável que Gênesis 1:8 é o único versículo em que a declaração "E Deus viu que era bom" está ausente ao final do dia. A omissão desta avaliação pode indicar que o Dia Dois foi um trabalho preliminar ou incompleto. O rāqîaʿ forneceu o espaço, mas somente no Dia Três, quando a terra seca e a vegetação foram criadas, é que os sistemas de suporte à vida estariam totalmente em vigor, permitindo que Deus declarasse a criação "boa" (o que acontece duas vezes no Dia Três).O Dia Dois, portanto, é um passo fundamental na formação da Terra para torná-la habitável, mas ainda não a deixa pronta para ser considerada "boa" em sua função completa.

🌎Terceiro dia: Separação água e terra seca (Gn 1.9-13) Onde havia somente águas no planeta dar lugar também a terra firme.

1. A Terceira Separação: Terra Seca e Mares (Gênesis 1:9–10)

O primeiro ato do terceiro dia foca em organizar as águas que cobriam a Terra (o estado de "deserto e terra devastada" ou "sem forma e vazia" mencionado em 1:2):

• O Comando de Separação (v. 9): Deus ordena que "as águas que estão abaixo do céu se reúnam em uma só coleção e que apareça a terra seca". Os dois desenvolvimentos — a concentração das águas e o surgimento da terra — são vistos como eventos concomitantes (simultâneos).

• Nomeação e Domínio (v. 10): Deus demonstra Sua soberania e controle ao nomear os elementos criados. Ele chamou a terra seca de "Terra" e a coleção de águas de "Mares". Dar nome é uma indicação de domínio. Este é o terceiro e último ato de separação de Deus.

• Ordem e Limites: Ao reunir as águas e estabelecer fronteiras para os mares, Deus controlou o poder destrutivo dessas águas. Este relato contrasta fortemente com as mitologias pagãs, onde as águas primordiais são forças caóticas ou divindades que precisam ser combatidas; em Gênesis, as águas são simplesmente sujeitas ao comando de Deus.

• Primeira Avaliação de "Bom" (v. 10): Após essa estruturação inicial, "Deus viu como era lindo" (ṭôḇ, "bom"). A avaliação "bom" neste ponto indica que a terra agora estava ordenada de forma benéfica, com os sistemas de suporte à vida entrando em vigor.

2. O Ato Criativo da Vegetação (Gênesis 1:11–12)

O segundo ato criativo do Dia Três trata da ornamentação e produtividade da Terra, preparando o caminho para as criaturas móveis dos dias subsequentes.

• Comando Indireto (v. 11): Deus não cria a vegetação diretamente com Suas mãos, mas comanda à própria Terra: "Que a terra produza verdura". A Terra atua como o agente pelo qual Deus media Seu poder gerador, mas Deus continua sendo a fonte última da vida.

• Provisão de Alimento: A criação de plantas e árvores assegura um suprimento abundante de alimento para os animais e, crucialmente, para a humanidade, que será criada no Dia Seis.

• Princípio da Espécie: A vegetação é criada para produzir sementes "cada uma segundo a sua espécie". Este princípio de reprodução (mîn) indica que Deus estabeleceu os meios de autoperpetuação para as diferentes ordens da criação. As espécies são divididas em categorias amplas, como plantas que dão sementes e árvores que dão frutos com sementes.

• Segunda Avaliação de "Bom" (v. 12): A vegetação é novamente avaliada como "boa" por Deus. O fato de Deus ter declarado "bom" duas vezes no Dia Três enfatiza que Ele completou os sistemas fundamentais de suporte à vida.

3. Conclusão do Dia (Gênesis 1:13)

O dia conclui com o refrão que estabelece a ordem cronológica: "E houve tarde e manhã: um dia terceiro".O Dia Três é o clímax da primeira tríade (Dias 1-3), dedicada a dar forma (separar luztrevas, céuáguas, terra/mares) e produzir a base (vegetação) para a segunda tríade (Dias 4-6), que se concentrará em preencher esses espaços e habitats com criaturas vivas.

III - Preenchimento dos domínios (preencher o vazio) vv. 14-31

Quarto dia: Luzeiros (Gn 1.14-19)

1. O Comando e o Propósito dos Luminares (v. 14-15, 17-18)

Deus ordenou que houvesse luzeiros na expansão do céu (ou firmamento) para cumprir uma função tripla:

• Separar o dia da noite: As luminárias são colocadas no firmamento para diferenciar o dia e a noite, reiterando a separação inicial de luz e escuridão feita no primeiro dia. Este ato de separação ajuda a dar forma ao mundo material.

• Servir como indicadores de tempos e estações: O propósito principal desses corpos celestes é marcar o tempo. Eles servem de sinais para estações (ou "tempos determinados"), dias e anos,,. É provável que as referências a "estações" (v. 14) aludam aos períodos e padrões estabelecidos no calendário hebraico para a adoração e as festividades religiosas, como a Páscoa. A decisão de Deus em ordenar e definir a passagem do tempo segundo Seus propósitos é destacada.

• Iluminar a terra: O terceiro propósito é prover luz sobre a terra,, o que está em contraste com a escuridão que caracterizava a terra antes da criação. A criação da luz no Dia 1 antes do sol no Dia 4 sugere que Deus é a fonte última da luz e que Sua luz não depende dos luzeiros.

2. A Criação e a Polêmica Antimitológica (v. 16)

O verso 16 relata que Deus fez (‘asah) os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite, e também as estrelas.

• Terminologia Polemizada: O texto evita propositalmente os termos hebraicos comuns para sol (šemeš) e lua (yārēaḥ),. Em vez disso, usa as expressões "o luminar maior" e "o luminar menor". Esta escolha terminológica é um repúdio deliberado (uma polêmica) às ideias pagãs, nas quais o sol e a lua eram nomes de divindades poderosas, como Rá e Thoth no Egito. Gênesis afirma que eles são meramente objetos inanimados criados por Deus para servir, e não divindades a serem servidas.

• O Domínio Designado: Os luminares são colocados para "governar" o dia e a noite (v. 18), mas seu domínio é restrito ao céu, enquanto a humanidade receberá o mandato de domínio sobre a esfera terrestre no Dia 6.

• As Estrelas: A menção às estrelas é extremamente breve, quase como se fosse uma reflexão posterior. Essa brevidade é um ponto polêmico intencional,, visando diminuir a importância que os povos antigos (como os babilônios) davam às estrelas, frequentemente as adorando como deuses ou acreditando que dirigiam os destinos humanos (astrologia). O foco é na soberania de Deus, que criou e governa tudo,.

3. Avaliação e Conclusão (v. 18-19)

Deus viu que o que tinha feito era bom (ṭôḇ). A criação dos luzeiros é considerada boa porque cumpre seu propósito de preencher os céus e estabelecer a ordem do tempo. O quarto dia termina com o refrão: "E houve tarde e houve manhã, o quarto dia" (v. 19).

Didática - A criação dos luzeiros no Quarto Dia ensina lições fundamentais sobre a soberania de Deus e o lugar da criação:

1. Ordem e Dependência Divina: O universo é estruturado e ordenado segundo a vontade de Deus, que estabeleceu até mesmo os ritmos de tempo (dias, estações). A luz não é autônoma, pois Deus a gerou antes mesmo de criar as fontes de luz, mostrando que tudo é dependente d'Ele.

2. Rejeição da Idolatria: Ao descrever o sol, a lua e as estrelas como meros "luzeiros" e "servos", o texto funciona como uma polêmica contra as crenças pagãs do Antigo Oriente Próximo, que cultuavam esses corpos celestes como divindades. Os israelitas eram lembrados de que não deveriam adorar as criações, mas sim o Criador que as controla.

3. A Perfeição da Obra: A criação dos luzeiros completa o preenchimento da esfera criada no Dia 1, permitindo que Deus a declare "boa", reafirmando que o mundo físico é um lugar bom porque foi feito por Deus. O Quarto Dia estabelece que os ciclos cósmicos que governam o tempo são ordenanças funcionais de um Deus soberano, destinadas a sustentar a vida e a adoração de Sua criação na Terra. Podemos pensar nos luzeiros como relógios cósmicos instalados no céu pelo Criador, para que a humanidade possa ordenar sua vida e cumprir seus compromissos, incluindo as festas sagradas,.

Quinto dia: Repteis e aves (Gn 1.20-23)

1. O Comando Criativo (v. 20)

Deus ordenou que as águas "fervilhassem" de seres viventes e que as aves voassem sobre a terra, ao longo da expansão do céu. Este comando é um ato criativo indireto, no qual Deus ordena que as águas produzam vida, o que demonstra que a água não é uma força divina, mas serve aos propósitos de Deus. As criaturas que vivem na água e no céu são designadas pelo termo hebraico nepeš ḥayyâ ("criaturas viventes" ou "seres viventes"), a mesma expressão usada posteriormente para a vida animal e humana. A palavra "fervilhassem" (teem) sugere uma ideia de abundância e movimento que essas criaturas trouxeram aos mares.

2. A Criação dos Seres Viventes (v. 21)

O verso 21 detalha a execução do comando, destacando a criação de:

• As grandes criaturas marinhas: Estas são referidas pelo termo hebraico tannînim.

• Toda espécie de criatura viva rastejante que abunda nas águas (peixes menores e criaturas aquáticas diminutas).

• Toda espécie de ave com asas. O verso 21 é significativo porque usa novamente o verbo hebraico bārā’ ("criou"). O uso de bārā’ (não usado desde o v. 1) sublinha a autoridade de Deus sobre as grandes criaturas marinhas e marca este ponto como um dos momentos cruciais da criação: a criação da primeira vida animada.

Polêmica Antimitológica: A referência às grandes criaturas marinhas (tannînim) funciona como uma polêmica contra as mitologias pagãs do Antigo Oriente Próximo. Em culturas vizinhas (como a Cananeia ou Babilônica), monstros marinhos como o Leviatã, Raabe ou Tiamat eram retratados como dragões caóticos e antagônicos que rivalizavam com os deuses criadores. Gênesis, no entanto, rebaixa essas criaturas temidas, descrevendo-as apenas como criações de Deus, sobre as quais Ele tem poder completo e soberano, e que são meramente instrumentos para servi-lO. Todas as criaturas, tanto aquáticas quanto aéreas, foram criadas "segundo as suas espécies". Este princípio demonstra que Deus estabeleceu limitações divinas que garantem categorias sistemáticas e autossustentáveis na ordem criada.

3. A Bênção Divina (v. 22)

Pela primeira vez na narrativa, Deus fala diretamente a uma parte da criação. Deus abençoou os peixes e as aves, conferindo-lhes a capacidade de procriar. A bênção de Deus é a capacidade de serem férteis e se multiplicarem, de modo a encher as águas e a terra. O tema da bênção aqui (v. 22) e a criação da vida animada são essenciais, pois ligam a história do cosmos às promessas aos patriarcas sobre a proliferação e o sucesso.

Contraste com a Criação Humana: A bênção concedida aos animais aquáticos e aéreos é semelhante àquela dada aos humanos no Dia Seis (v. 28), mas omite os comandos para "subjugar" e "dominar".

4. Avaliação e Conclusão (v. 21, 23)

Deus viu que a obra era "boa". A avaliação é positiva porque a criação do Dia Cinco cumpriu o propósito de Deus de preencher a terra vazia e tornar o mundo habitável. O dia se encerra com o refrão: "E houve tarde e houve manhã, o quinto dia".

Didática - O Quinto Dia da Criação nos ensina que:

1. Soberania sobre a Natureza: Deus exerce autoridade irrestrita sobre todos os elementos, incluindo aqueles que eram temidos ou deificados nas mitologias antigas, como os monstros marinhos. O tannîn é simplesmente uma criatura, mostrando que não há forças na natureza que possam rivalizar ou ameaçar o Criador.

2. A Vida é um Dom e uma Bênção: A vida animada, desde a menor criatura até a maior, é um dom direto de Deus, evidenciado pelo uso do verbo bārā’ e pela bênção da fertilidade que garante a perpetuação das espécies. Essa bênção demonstra a generosidade de Deus e Sua intenção de que o mundo seja abundante em vida.

3. Ordem e Distinção: A criação de seres "segundo as suas espécies" enfatiza a ordem e a estrutura que Deus impôs ao universo, um princípio que estabelece parâmetros e limites para a criação. O Quinto Dia é como a inauguração de um aquário e um aviário cósmicos pelo Criador. Ele não só construiu os habitats (Dia 2), mas os preencheu com seres vivos, garantindo-lhes a capacidade de prosperar e se multiplicar com Sua própria bênção e comando, demonstrando que toda a vida flui de Sua palavra, e não de qualquer força caótica ou deuses rivais.

Sexto dia: Animais terrestres e o homem (Gn 1.24-31)

1. Criação dos Animais Terrestres (Gn 1:24-25)

Deus ordena: "Produza a terra toda espécie de criatura vivente". Assim como ocorreu com a vegetação, a terra é o agente intermediário que a Palavra de Deus usa para produzir a vida animal terrestre. Essas criaturas viventes (nepeš ḥayyâ) são separadas em três categorias amplas, que refletem como os pastores nômades as experimentariam:

1. Gado: Quadrúpedes grandes e domesticáveis.

2. Répteis: Criaturas rastejantes ou rastejadoras, como lagartos e cobras.

3. Animais selvagens (ou bestas da terra): Animais de caça maiores e predadores. Deus fez (‘asah) esses animais. Assim como as criaturas aquáticas e aéreas, os animais terrestres foram criados "segundo as suas espécies". Este princípio estabelece as categorias sistemáticas e os limites divinamente impostos para a criação, garantindo que as espécies se autopropaguem e se perpetuem. É notável que, ao contrário dos peixes e das aves (v. 22), os animais terrestres não são os destinatários diretos de uma bênção divina explícita, talvez porque a bênção principal esteja reservada para a vida humana no mesmo dia. Deus avalia o que foi feito e "viu como era bom".

2. O Ato Coroador: Criação da Humanidade (Gn 1:26-27)

O pináculo da obra de Deus é a criação do ser humano (’adam), o que é evidenciado por vários marcadores literários e teológicos:

A Deliberação Divina ("Façamos") Pela primeira vez na narrativa, a ordem impessoal "Haja" é substituída por uma deliberação pessoal: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (v. 26).O uso dos pronomes plurais ("nós... nossa... nossa"):

• Indica que o autor se prepara para algo de grande importância.

• Tem sido interpretado por cristãos como um vislumbre da Trindade (pluralidade dentro da Deidade).

• Pode ser entendido como Deus se dirigindo à Sua corte celestial de anjos, embora o homem não seja feito à imagem dos anjos.

• Pode ser um plural de plenitude ou deliberação, onde Deus fala consigo mesmo (uma conversa intra-divina).

• É importante notar que, em contraste com o plural usado na deliberação (v. 26), o verso seguinte usa o pronome singular: "À imagem de Deus ele o criou" (v. 27), reafirmando que Deus sozinho é o Criador.

A Imagem de Deus (Imago Dei) O ser humano, diferentemente de todas as outras criaturas, é criado "à sua imagem" e "conforme a sua semelhança". A criação da humanidade à imagem de Deus é fundamental.

• Significado: A imagem de Deus é a base da humanidade e a separa do restante da criação. O termo hebraico para "imagem" (ṣelem) e "semelhança" (dĕmût) são frequentemente vistos como sinônimos. A semelhança serve para atenuar a nuance física da imagem, garantindo que o homem é apenas um fac-símile (cópia), e não igual a Deus.

• Natureza: O Imago Dei não se limita a um aspecto (físico ou espiritual), mas se refere ao homem como uma unidade psicossomática (o ser humano como um todo). Inclui capacidades como razão, moralidade, linguagem, e a capacidade de relacionamento.

• Função (Domínio): O significado principal da imagem está ligado ao exercício de domínio (v. 26), o que significa que a humanidade é dotada de autoridade para governar a terra como representante ou vice-regente de Deus. Esta linguagem real é democratizada: toda a humanidade possui este status real, não apenas um rei.

• Ênfase Exclusiva: O verbo criou (bārā’) é repetido três vezes no verso 27, o que sublinha a singularidade e a importância deste ato criativo, que só Deus pode realizar.

Homem e Mulher - Deus criou o homem "homem e mulher ele os criou" (v. 27).

• Igualdade: Ambos, homem e mulher, compartilham a imagem de Deus. O gênero é um presente de Deus e é essencial para o cumprimento de Seu mandato.

• Pluralidade: A criação de duas pessoas com distinção sexual é a forma como a humanidade expressa a imagem de Deus em relacionamento.

3. O Mandato Divino e a Provisão (Gn 1:28-30)

A Bênção e o Domínio (v. 28)

Deus abençoou a humanidade, proferindo o mais longo dos cinco atos de bênção na criação. A bênção é um dom de potência e poder para procriar. O mandato cultural é duplo:

1. Procriação: "Sede abundantemente fecundos, enchei a terra e sujeitai-a". Este motivo se repete por Gênesis e estabelece a base para a família e o casamento. A fertilidade é uma dádiva direta de Deus e não depende de rituais pagãos.

2. Domínio: "Exerça domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem sobre a terra".    

◦ Subjugar (kāḇaš) e Dominar (rāḏá) significam que a humanidade deve administrar os recursos da terra para seu benefício. "Subjugar a terra" é semanticamente paralelo a "lavrar e guardar a terra" (em Gênesis 2), implicando agricultura e povoamento.   

 ◦ Este domínio é uma mordomia responsável e compassiva, no modelo do próprio Deus, e não uma licença para a exploração gananciosa.

Provisão de Alimento (v. 29-30)

Deus, o provedor benfeitor, especifica a dieta original para a criação:

• Humanos: Devem comer plantas que dão sementes e frutos de árvores.

• Animais: Devem comer toda planta verde. O uso repetido de "toda" enfatiza a provisão abundante e generosa de Deus. O domínio inicialmente não incluía a matança de criaturas para alimentação (a dieta era vegetariana para humanos e animais), o que só foi sancionado mais tarde (Gênesis 9:3). Isso contrasta com mitos mesopotâmicos onde o homem era criado para fornecer alimento aos deuses; aqui, Deus provê alimento para o homem.

4. Conclusão e Avaliação (Gn 1:31)

Deus examina toda a Sua obra criativa finalizada e a declara "muito bonito" (ou "muito bom", mĕʾōd ṭôḇ). O acréscimo de "muito" (mĕʾōd) à avaliação "bom" (repetida sete vezes na narrativa total) marca a perfeição e a completude da criação em sua totalidade, especialmente após a criação do homem e da mulher. A criação é declarada boa porque cumpre os propósitos de Deus, e essa bondade se mantém antes da intrusão do pecado. O dia se encerra com a fórmula cronológica: "E houve tarde e houve manhã, o sexto dia". O uso do artigo definido neste ponto ("o sexto dia"), e no sétimo dia (2:1-3), também enfatiza o clímax da narrativa. A criação do homem e da mulher à imagem de Deus, com o mandato de domínio sobre a terra, é como o Criador nomeando a humanidade para ser a família real encarregada de administrar Sua fazenda cósmica. Ele lhes concede Sua própria imagem como símbolo de autoridade e lhes provê tudo para prosperarem, garantindo que o projeto seja "muito bom" antes que qualquer erro humano pudesse introduzir desordem.

IV - O ápice do repouso

Sétimo dia: O dia de descanso (Gn 2.1-3)

1. A Conclusão da Obra (v. 1)

O verso 1 fornece uma declaração sumária final, sublinhando que a obra criativa de Deus estava completa e perfeitamente executada:

• "Assim, os céus e a terra foram completados". O verso 1 serve como complemento a 1:1, separando os seis dias iniciais do sétimo dia sagrado.

• "e todo o seu vasto exército" (ou "toda a sua companhia" / "todo o seu exército"). O termo hebraico ṣāḇāʾ refere-se à totalidade organizada e disciplinada do universo, incluindo os corpos celestes (sol, lua, estrelas) e os habitantes vivos da terra e do céu (criados nos dias cinco e seis). O verbo "completou" (kālá) indica que o universo não estava mais em processo de criação, mas havia alcançado um estado de perfeição e totalidade.

2. O Descanso de Deus (v. 2)

O verso 2 detalha a ação de Deus no sétimo dia, que se distingue dos dias anteriores por não conter uma fórmula de anúncio ("E Deus disse").

• "E Deus completou a sua obra... no sétimo dia, e Deus descansou no sétimo dia...". A tradução "completou" ou "terminou" é mais bem entendida como "havia terminado" (pluperfeito), o que esclarece que a atividade criativa de Deus estava completa antes do sétimo dia. A obra criativa de Deus, referida como mĕlāʾḵá (trabalho de um artesão qualificado), foi concluída no sexto dia.

• "ele descansou". O verbo hebraico šāḇaṯ (do qual deriva o substantivo "Sábado") significa "cessar" ou "parar" a atividade criativa, e não que Deus estivesse cansado, o que estaria implícito na facilidade de sua criação no capítulo 1. O descanso de Deus indica que Sua criação estava completa e perfeita. Embora Deus tenha cessado Seu trabalho de criação, as fontes notam que Ele continua a trabalhar na providência e, posteriormente, na redenção.

3. A Consagração do Dia (v. 3)

O clímax da semana da criação é alcançado neste verso, onde o sétimo dia é singularmente investido de bênção e santidade.

• "Deus abençoou o sétimo dia". Este é o único caso em que Deus abençoa uma unidade de tempo durante o processo de criação. A bênção de Deus para o dia está ligada à Sua intenção de que aqueles que observam o descanso desfrutem dessa bênção.

• "e o santificou". Santificar (qādaš) significa separar algo ou alguém para o serviço e posse exclusivos de Deus. Ao santificar o tempo, Deus estabeleceu uma ordem de polaridade entre o cotidiano e o solene. A santificação do dia de descanso é a primeira ocorrência do conceito de santidade na Torá.

• A ausência do refrão "e houve tarde e houve manhã" no encerramento deste dia sugere que o descanso sabático de Deus é perpétuo.

Implicações Didáticas e Teológicas

O Sétimo Dia é o clímax da estrutura da semana e não um mero apêndice, contrastando com os seis dias nos quais o espaço foi subjugado; no sétimo dia, o tempo é santificado.

1. Modelo para a Humanidade: O descanso de Deus (šāḇaṯ) serve como um padrão para a atividade humana (Êxodo 20:8-11). A vida humana foi planejada para incluir o ritmo de trabalho e descanso, permitindo ao homem imitar o Criador. Este descanso do Sábado não é apenas a recuperação do trabalho, mas uma oportunidade para compartilhar o deleite de Deus em Sua boa criação e na adoração.

2. Fundamento Teológico do Sábado: A bênção e santificação do sétimo dia estabelecem a base para a futura obrigação de Israel de guardar o Sábado como o sinal da aliança de Deus. A observância do Sábado recorda a Israel que Deus é o Senhor de tudo e que a criação é uma obra completa.

3. Natureza da Criação: O descanso divino sugere que o propósito da criação era se tornar um lugar de habitação divina ou um santuário. O conceito de que Deus santificou o tempo (o dia), e não primariamente o espaço, enfatiza que Deus governa a passagem do tempo segundo os Seus propósitos.

4. Escatologia (O Descanso Contínuo): A ausência da fórmula "tarde e manhã" levou muitos a concluir que o sétimo dia ainda continua. Este descanso eterno aponta para o descanso consumado que os crentes buscam (Hebreus 4:3-11), que será totalmente manifestado na ressurreição em Cristo.

O Dia de Repouso é o ponto de chegada da orquestra cósmica regida por Deus: após a conclusão de todos os movimentos e a execução perfeita de todas as notas (os seis dias), o Criador se detém em Seu trono, não por exaustão, mas em plena satisfação e admiração pela beleza e ordem de Sua obra, e convida Sua criação a sentar-se com Ele para celebrar o resultado.

Conclusão

O prólogo de Gênesis (1:1–2:3) estabelece as bases para toda a história bíblica, proclamando o Deus único e soberano como o Criador transcendente de tudo o que existe.

1. A Soberania e a Origem

Deus (’Elohim) criou os céus e a terra (o universo), agindo com poder irrestrito, de modo que tudo é totalmente dependente Dele. Inicialmente, a terra era "sem forma e vazia" (tōhû wāḇōhû), envolta em escuridão e coberta pelo abismo, com o Espírito de Deus pairando sobre as águas, pronto para trazer ordem. Deus manifesta Sua onipotência criando simplesmente por Sua Palavra ("E Deus disse").

2. O Estabelecimento da Ordem (Os Seis Dias)

A criação se desenrola em seis dias de trabalho, estruturados em duas tríades paralelas, movendo-se da organização do espaço ao seu preenchimento:

Dias 1-3 (Forma/Separação)

Dia 1: Criação da Luz e separação do dia e da noite.

Dia 2: Criação do Firmamento/Expansão, separando as águas acima (céu) das águas abaixo (mar).

Dia 3: Formação da Terra Seca e dos Mares; a terra é ordenada a produzir vegetação (plantas e árvores) para servir de alimento.

Dias 4-6 (Preenchimento/Governo)

Dia 4: Criação dos Luminares (Sol, Lua e estrelas) para governar o tempo (estações, dias, anos) e prover luz, servindo como uma polêmica contra a adoração pagã de corpos celestes.

Dia 5: Criação das Aves e das Criaturas Marinhas (incluindo os grandes monstros marinhos, os tannînim), preenchendo o céu e a água. Deus abençoou estes seres com a capacidade de serem férteis e se multiplicarem.

Dia 6: Criação dos Animais Terrestres e, como clímax, a Humanidade.

3. O Ponto Central: A Humanidade

A criação do ser humano (’adam) é o evento culminante.• Imagem e Domínio: A humanidade, criada "à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (tanto homem quanto mulher), recebe um papel único: serem representantes de Deus na terra.• Mandato Cultural: Deus os abençoou, dando-lhes o duplo mandato de serem férteis, multiplicarem-se e encherem a terra, e de subjugarem e dominarem todas as outras criaturas.• Avaliação Final: Após a criação da humanidade e a provisão de alimentos (vegetarianos) para todas as criaturas, Deus viu toda a Sua obra e declarou que era "muito bom" (mĕʾōd ṭôḇ), indicando a perfeição e completude da criação.4. A Consagração do Tempo (O Sétimo Dia)O sétimo dia é o clímax da semana criativa.• Conclusão e Descanso: Deus completou (cessou) Sua obra criativa. O descanso de Deus não implica cansaço, mas sim que Sua obra estava finalizada e perfeita.• Santificação do Tempo: Deus abençoou o sétimo dia e o santificou (separou), estabelecendo-o como um tempo distinto dos seis dias de trabalho. Este ato estabelece o ritmo de trabalho e descanso (Sabbath) como um modelo para a humanidade, que deve imitar o Criador. O fato de este dia não ter a fórmula de encerramento ("houve tarde e houve manhã") sugere que o descanso sabático de Deus é contínuo.

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