A Esperança que atravessa o ano

Ano Novo  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Boa noite, igreja. Nós estamos aqui numa noite que tem um peso diferente. O dia 31 de dezembro costuma ser uma fronteira emocional. Para alguns, é celebração, para outros é cansaço, para outros é um silêncio que ninguém percebe. Tem gente que chega com gratidão, tem gente que chega com culpa. Tem gente que chega aliviada porque terminou, tem gente que chega com medo do que começa amanhã.
E é curioso como essa noite funciona. O relógio avança, o calendário muda, a cidade solta fogos, e a gente é tentado a acreditar que, se o número do ano mudou, então alguma coisa essencial dentro de nós também mudou. Mas a verdade é que a virada não apaga perdas. A virada não desfaz palavras ditas. A virada não cura automaticamente uma ansiedade que se instalou. A virada não remove tentações, não resolve conflitos, não restaura relacionamentos quebrados. O calendário vira, mas o coração muitas vezes permanece do mesmo jeito, com as mesmas idolatrias, com as mesmas fugas, com as mesmas feridas, com as mesmas perguntas.
Por isso, nessa noite, eu queria te fazer uma pergunta simples e direta. O que você está trazendo para dentro do novo ano, na sua memória e no seu coração? Quais cenas, quais conversas, quais dores, quais vitórias, quais medos, quais pecados, quais saudades? O que ficou martelando na sua mente nos últimos meses? Porque, na prática, muita gente não entra no novo ano com esperança, entra com lembranças. E as lembranças podem ser boas, mas também podem ser prisões.
Deus, na sua Palavra, não trata esperança como um sentimento automático. A Bíblia nunca nos manda fingir que está tudo bem. A Bíblia não romantiza a vida. E, ainda assim, a Bíblia nos ensina um caminho para esperança real, uma esperança que não depende de circunstâncias favoráveis. É por isso que o texto que vamos ler hoje é tão poderoso para esta noite.
Lamentações de Jeremias 3.21–25 NAA
21 Quero trazer à memória o que pode me dar esperança. 22 As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; 23 renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. 24 A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. 25 O Senhor é bom para os que esperam nele, para aqueles que o buscam.
Lamentações é um livro escrito em meio a ruínas. Não é um devocional leve. É a voz de um homem vendo a cidade destruída, vendo consequências do pecado, vendo sofrimento, e colocando tudo diante de Deus. E, no meio desse cenário, ele faz uma virada que é muito mais profunda do que a virada do calendário. Ele não diz, tudo vai melhorar. Ele diz, eu vou escolher onde a minha mente vai repousar.
No versículo 21 ele afirma: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” Repare, ele não diz, a esperança veio até mim. Ele diz, eu vou trazer à memória. Há uma decisão, há um movimento do coração, há uma disciplina espiritual. E a partir daí ele declara: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos… renovam-se cada manhã… grande é a tua fidelidade… O Senhor é a minha porção.”
Então, nesta noite, antes de falar de metas, antes de falar de planos, antes de falar de resoluções, Deus nos convida a algo mais fundamental. Ele nos convida a lembrar do que é verdadeiro. Porque a pergunta decisiva para o novo ano não é apenas, o que vai acontecer comigo. A pergunta decisiva é, em que, ou em quem, eu vou colocar a minha esperança.

Esperança começa quando escolhemos o que trazer à memória

Lamentações 3.21
O texto começa com uma frase simples, mas profundamente honesta: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.” Jeremias não está negando a realidade que o cerca. Se você ler os versos anteriores, ele descreve dor, amargura, aflição, disciplina, sensação de abandono. Ele não está anestesiado. Ele não está fingindo que está tudo bem. Ele não espiritualiza o sofrimento dizendo que é só ter fé. Ele reconhece a dor, mas se recusa a deixar que a dor seja a última palavra.
Isso é importante, porque muitas pessoas acham que esperança cristã é esquecer o que aconteceu. Não é. Esperança cristã não é amnésia espiritual. Jeremias não apaga o passado. Ele decide onde sua mente vai repousar. Ele escolhe o que vai ocupar o centro da sua memória.
Perceba que o texto não diz: “Veio à minha memória algo que me deu esperança.” Ele diz: “Quero trazer à memória.” Há intencionalidade. Há disciplina. Há uma escolha consciente. Esperança, na Bíblia, não é algo que simplesmente acontece com você. É algo que você cultiva quando decide lembrar do que é verdadeiro sobre Deus, mesmo quando tudo ao redor grita o contrário.
E aqui existe uma aplicação muito direta para nós nessa noite. Todos nós trazemos algo na memória ao entrar no novo ano. Alguns trazem erros que não conseguiram consertar. Outros trazem palavras que nunca deveriam ter sido ditas. Outros trazem culpas que carregam sozinhos. Alguns trazem vitórias que viraram orgulho. Outros trazem perdas que ainda doem. A pergunta não é se você vai lembrar de algo. A pergunta é o que vai governar sua memória.
O coração humano tem uma tendência perigosa. Ele costuma ruminar aquilo que alimenta o medo, a culpa ou o orgulho. A memória pode se tornar um tribunal onde você é constantemente acusado. Ou pode se tornar um palco onde você revive conquistas para sustentar sua autossuficiência. Em ambos os casos, Deus sai do centro. Jeremias nos ensina que esperança começa quando interrompemos esse fluxo automático da mente e dizemos: eu não vou permitir que minhas lembranças ditem minha esperança.
Trazer algo à memória não é negar o que aconteceu. É lembrar quem Deus é no meio do que aconteceu. É dizer, isso foi real, isso doeu, isso marcou, mas isso não define quem Deus é, nem quem eu sou diante dele. Essa é uma disciplina espiritual profundamente necessária numa noite como essa. Porque o ano muda, mas as lembranças insistem em nos acompanhar.
Talvez você esteja entrando no novo ano com a sensação de que falhou. Jeremias nos lembra que a esperança não começa quando você se sente forte, começa quando você decide lembrar da fidelidade de Deus. Talvez você esteja entrando no novo ano confiante demais em si mesmo. Jeremias nos lembra que a esperança não está na sua performance, mas no caráter do Senhor.
Trazer à memória é um ato de fé. É dizer ao coração, você não vai mandar hoje. Hoje eu vou lembrar do que me pode dar esperança. E isso prepara o terreno para tudo o que vem depois no texto.

A misericórdia do Senhor nos sustenta quando tudo parece ruir

Lamentações 3.22
Depois de afirmar que escolheu trazer algo específico à memória, Jeremias agora nos mostra o conteúdo dessa lembrança. Ele diz: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim.” Essa frase não nasce em um cenário confortável. Ela nasce no meio da ruína. Jerusalém foi destruída. O povo foi disciplinado. As consequências do pecado são reais. E ainda assim, Jeremias afirma algo impressionante. Nós não fomos consumidos.
Isso é importante, porque muitas vezes avaliamos a fidelidade de Deus apenas pela ausência de dor. Se algo difícil aconteceu, concluímos que Deus falhou. Se o ano foi pesado, pensamos que Deus nos abandonou. Jeremias nos corrige. Ele não diz que o sofrimento acabou. Ele diz que, apesar do sofrimento, o povo não foi destruído. A misericórdia de Deus não é a ausência de aflição, é a presença sustentadora de Deus no meio dela.
Quando Jeremias fala de misericórdia, ele está falando de algo que não merecemos. Misericórdia é Deus não nos tratar conforme os nossos pecados. Misericórdia é Deus conter o juízo que seria justo. Misericórdia é Deus permanecer fiel quando nós somos instáveis. E ele diz, é por causa disso que não fomos consumidos. Não foi nossa força. Não foi nossa capacidade de resistir. Não foi nossa espiritualidade. Foi a compaixão do Senhor.
Isso confronta profundamente a forma como costumamos interpretar o ano que passou. Alguns entram no novo ano se sentindo fracassados porque enfrentaram dores que não esperavam. Outros entram se sentindo vitoriosos porque não enfrentaram grandes perdas. Jeremias desmonta os dois critérios. O critério não é o quanto você sofreu ou o quanto você prosperou. O critério é que você está aqui porque Deus foi misericordioso.
Talvez o ano tenha revelado pecados que você preferia não enxergar. Talvez tenha exposto limites emocionais, espirituais ou familiares. Talvez tenha trazido consequências de escolhas erradas. Jeremias não nega isso. Ele escreve um livro inteiro lamentando. Mas ele também afirma, mesmo assim, Deus não nos consumiu. Isso muda completamente o tom da nossa leitura da própria história.
Essa verdade também nos protege de outro erro comum. O erro de achar que sobrevivemos porque fomos fortes. Não. Sobrevivemos porque fomos sustentados. A misericórdia de Deus é o chão invisível que nos impediu de cair de vez. É a mão que segurou quando nós nem percebemos. É a paciência divina que suportou nossa lentidão em aprender, nossa resistência em obedecer, nossa facilidade em esquecer.
E aqui o texto nos conduz naturalmente ao evangelho. Em Cristo, a misericórdia de Deus não é apenas declarada, ela é encarnada. Jesus assume sobre si o juízo que nos consumiria. Ele entra na ruína para que nós não sejamos destruídos. Se estamos de pé hoje, não é porque merecemos um novo ano. É porque Cristo foi fiel onde nós falhamos.
Entrar no novo ano lembrando da misericórdia do Senhor muda completamente nossa postura. Não entramos exigindo. Entramos agradecidos. Não entramos nos apoiando em promessas que faremos. Entramos nos apoiando na compaixão que não se esgota.

A graça de Deus nos encontra no ritmo de um dia de cada vez

Lamentações 3.23
Depois de afirmar que a misericórdia do Senhor não se esgotou, Jeremias avança um passo e diz: “Renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” Essa frase é uma das mais conhecidas do livro, mas muitas vezes a repetimos sem perceber o quanto ela confronta nossa ansiedade e nossa maneira de lidar com o tempo.
Repare que o texto não diz que as misericórdias se renovam a cada ano. Não diz que se renovam a cada fase da vida. Não diz que Deus entrega um pacote de graça suficiente para resolver todos os nossos medos futuros. Ele diz, renovam-se cada manhã. Ou seja, Deus escolhe lidar conosco no ritmo de um dia de cada vez.
Isso é profundamente pastoral, porque o nosso problema raramente é hoje. O nosso problema costuma ser amanhã. A gente sofre hoje por coisas que ainda não aconteceram. A gente se angustia tentando prever cenários. A gente tenta controlar resultados. E quando não consegue, entra em desespero. Jeremias nos lembra que Deus nunca prometeu graça acumulada. Ele prometeu graça diária.
Essa lógica aparece em toda a Escritura. No deserto, o maná caía todos os dias. Quem tentava guardar para amanhã via o alimento estragar. Deus estava ensinando o povo a depender diariamente. Não era crueldade, era graça. Deus estava formando um povo que aprenderia a viver pela confiança, não pelo controle.
No Ano Novo, isso é especialmente importante. Porque somos tentados a olhar para o próximo ano como um bloco inteiro que precisa ser dominado. Queremos saber se vai dar certo. Queremos garantias. Queremos segurança emocional, financeira, familiar. E Deus, em sua fidelidade, nos oferece algo diferente. Ele nos oferece a presença dele amanhã de manhã. E depois, de novo, no dia seguinte.
Grande é a tua fidelidade, diz Jeremias. Não porque tudo vai dar certo. Mas porque Deus não falha em sustentar o seu povo dia após dia. Fidelidade aqui não significa previsibilidade de circunstâncias. Significa constância de caráter. Deus não acorda diferente amanhã. Ele não se cansa de nós. Ele não muda de humor. Ele não se arrepende de sustentar aqueles que são seus.
Isso confronta diretamente nossa ansiedade espiritual. Muitos entram no novo ano já exaustos, porque estão tentando carregar o peso de doze meses de uma vez. Jeremias nos convida a algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. Confie hoje. Durma hoje. Ore hoje. Obedeça hoje. Amanhã, Deus será fiel de novo.
E aqui, mais uma vez, o evangelho aparece com clareza. Jesus nos ensinou a orar pedindo o pão de cada dia. Não o pão do ano inteiro. Em Cristo, aprendemos que a vida cristã não é uma corrida de previsões, mas uma caminhada diária de dependência. Ele prometeu estar conosco todos os dias, não apenas nos grandes marcos do calendário.
Entrar no novo ano com essa perspectiva muda tudo. Em vez de ansiedade acumulada, aprendemos a descansar na fidelidade renovada. Em vez de tentar controlar o futuro, aprendemos a receber a graça que nos encontra a cada manhã.

A esperança se firma quando o Senhor se torna a nossa porção

Lamentações 3.24–25
Depois de falar da memória, da misericórdia e da fidelidade diária de Deus, Jeremias chega ao coração da esperança bíblica. Ele diz: “O Senhor é a minha porção, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca.”
Aqui Jeremias usa uma linguagem muito forte e muito relacional. Quando ele diz que o Senhor é a sua porção, ele está dizendo que Deus é sua herança, sua segurança, sua fonte de satisfação. Em outras palavras, não é apenas algo que Deus faz por ele, é quem Deus é para ele. A esperança deixa de estar nas circunstâncias e passa a estar no próprio Deus.
Isso é fundamental para a noite de Ano Novo. Porque essa noite expõe nossos falsos lugares de esperança. Muitos entram no novo ano esperando que as circunstâncias mudem. Outros esperam que as pessoas mudem. Outros esperam mudar a si mesmos. Jeremias nos ensina algo mais profundo. A esperança cristã começa quando Deus deixa de ser um meio para alcançar outras coisas e passa a ser o próprio fim.
Quando o Senhor é a nossa porção, nós conseguimos atravessar o novo ano sem sermos escravos do medo ou da euforia. Se o ano trouxer alegria, nós agradecemos, mas não somos definidos por ela. Se o ano trouxer dor, nós lamentamos, mas não somos destruídos por ela. Porque nossa porção não é o que acontece conosco, mas é o Senhor que caminha conosco.
Jeremias também diz que o Senhor é bom para os que esperam por ele. Esperar aqui não é passividade. É confiança perseverante. É continuar buscando a Deus mesmo quando as respostas não vêm no ritmo que gostaríamos. É uma esperança ativa, que ora, que confia, que permanece.
Em Cristo, essa verdade se aprofunda ainda mais. Jesus é a prova definitiva de que Deus se tornou a nossa porção. Ele não nos deu apenas promessas. Ele se deu a nós. Ele entrou na nossa história, assumiu nossa dor, carregou nosso pecado e garantiu algo maior do que um ano melhor. Garantiu uma esperança que não pode ser tirada.
Entrar no novo ano com o Senhor como porção é entrar com o coração ancorado. Não é ausência de perguntas. É presença de confiança.

Conclusão

Nesta noite, Deus não nos convida a fazer promessas grandiosas, mas a colocar a esperança no lugar certo. O novo ano não é uma página em branco, é um caminho que será trilhado com o Senhor fiel. Nós não entramos confiados em nós mesmos, entramos sustentados pela misericórdia que não se esgota, pela graça que se renova a cada manhã e por um Deus que se entrega como nossa porção. Ao cruzar essa fronteira do tempo, não carregue o peso do controle. Leve consigo a confiança. O calendário muda. O Senhor permanece.
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