As expectativas para um novo ciclo
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Transcript
Introdução
Introdução
O final de um ano e a celebração do início de um novo ciclo é um momento de gratidão; de lembranças, boas e ruins, do ano que se encerrou; de construção de expectativas e sonhos para o período que irá se iniciar em breve. Com certeza, você já deve ter entrado em 2026 com, pelo menos, um objetivo, um propósito que deseja alcançar no decorrer deste ano. Isso é bastante comum, todo início de ciclo é uma oportunidade de olhar para a vida, e repensar decisões, atitudes, projetos, e muitas outras questões individuais. Não somos obrigados a fazer isso apenas na virada de ano, mas, simbolicamente, essa data acaba sendo marcante por conta disso. E é sobre essas expectativas de um novo ciclo que gostaria de meditar com vocês nesse início de 2026.
Texto
Texto
Salomão aliou-se com Faraó, rei do Egito, pois tomou por mulher a filha de Faraó. Ele a trouxe à Cidade de Davi, até que acabasse a construção do seu palácio, da Casa do Senhor e da muralha em volta de Jerusalém. Entretanto, o povo oferecia sacrifícios nos lugares altos, porque até aqueles dias ainda não se tinha edificado templo ao nome do Senhor.
Salomão amava o Senhor, andando nos preceitos de Davi, seu pai; porém oferecia sacrifícios e queimava incenso nos lugares altos.
O rei foi a Gibeão para lá oferecer sacrifícios, porque era o lugar alto mais importante. Naquele altar, Salomão ofereceu mil holocaustos. Em Gibeão, o Senhor apareceu a Salomão de noite, em sonhos. E Deus lhe disse:
— Peça o que você quer que eu lhe dê.
Salomão respondeu:
— Foste muito bondoso com o teu servo Davi, meu pai, porque ele andou contigo em fidelidade, em justiça e em retidão de coração, diante da tua face. Mantiveste para com ele esta grande bondade e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como hoje se vê. E agora, ó Senhor, meu Deus, tu fizeste reinar teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de uma criança, não sei como devo agir. Teu servo está no meio do teu povo que escolheste, povo grande, tão numeroso que não se pode contar. Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para governar o teu povo, para que, com prudência, saiba discernir entre o bem e o mal. Pois quem seria capaz de governar este teu grande povo?
Estas palavras agradaram ao Senhor, por haver Salomão pedido tal coisa. E Deus lhe disse:
— Já que você pediu isso e não me pediu longevidade, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos, mas pediu entendimento, para discernir o que é justo, eis que farei como você pediu. Eu lhe dou um coração sábio e inteligente, de maneira que antes de você nunca houve ninguém igual a você, nem haverá depois de você. Também lhe dou o que você não me pediu, tanto riquezas como glória, de modo que, entre os reis, não haverá ninguém semelhante a você durante os dias da sua vida. Se você andar nos meus caminhos e guardar os meus estatutos e os meus mandamentos, como fez Davi, seu pai, eu prolongarei os seus dias.
Salomão acordou, e eis que era um sonho. Voltou para Jerusalém, pôs-se diante da arca da aliança do Senhor, ofereceu holocaustos, apresentou ofertas pacíficas e deu um banquete a todos os seus oficiais.
Desenvolvimento
Desenvolvimento
Essa é uma passagem muito conhecida a respeito do mais sábio rei de Israel: Salomão, filho de Davi. Ele herdou o trono do seu pai, e essa não foi uma herança ruim. Davi, terceiro rei da nação unida de Israel, conseguira realizar o que nem Saul e muito menos Isbosete haviam conseguido anteriormente: derrotou as nações estrangeiras que cercavam Israel, e os inseriu como povos subordinados ao povo de Deus; ele expandiu as fronteiras de Israel, levando a uma proporção muito maior do que a limitada terra que havia sido conquistada no tempo da tomada de Canaã com Josué e os juízes; entregou um governo estável em questões políticas e econômicas: havia recursos em caixa, pessoas de confiança para governar a nação junto de Salomão, bastando apenas ao sucessor de Davi dar sequência ao que seu pai já havia começado. Davi ficara conhecido como o “homem segundo o coração de Deus”, e era tido como um herói para o povo de Israel. Não é a toa que seu nome é tão famoso no texto sagrado.
Apesar disso, a transição para o novo governo não foi simples. Salomão não era o herdeiro imediato ao trono, cabendo essa função, hierarquicamente, a Adonias, meio-irmão mais velho de Salomão. Houve conspirações e conflitos entre os dois irmãos, que resultaram na permanência de Salomão como rei de Israel. Davi, já muito velho e doente, dá suas últimas instruções ao novo monarca: Estou para seguir o caminho de toda a terra. Por isso, seja forte, seja homem. Obedeça ao que o SENHOR, o seu Deus, exige; anda nos seus caminhos e obedeça aos seus decretos, aos seus mandamentos, às suas ordenanças e aos seus testemunhos, conforme se acham escritos na Lei de Moisés; assim você prosperará em tudo o que fizer e por onde quer que for, e o SENHOR, manterá a promessa que me fez “Se os seus descendentes cuidarem de sua conduta, e se me seguirem fielmente de todo o coração e de toda a alma, você jamais ficará sem descendente no trono de Israel”. (1Rs 2.2-4).
Diante de tudo isso, imagine a tensão que pairava sobre Salomão a respeito de seu reinado. Nós estamos falando do herdeiro daquele que era considerado o maior rei de Israel, o homem que era considerado “segundo o coração de Deus”, um homem que derrubou exércitos que ninguém imaginou que seriam derrubados em algum momento. Salomão está recebendo instruções desse homem, seu pai, o qual ainda lhe despeja mais pressão, dizendo a ele para ser forte, para ser homem, para obedecer ao SENHOR, seguir seus mandamentos, a fim de que a bênção de Deus o acompanhasse, da mesma forma que antes havia ocorrido com Davi. Era um desafio intenso, e ouso dizer que se Salomão vivesse nos tempos atuais, diante de tanta pressão recebida antes ainda de assumir o reinado, estaria sofrendo com muitos transtornos de ansiedade. E isso é normal, pois um novo ciclo de vida estava sendo iniciado para Salomão, um novo momento em que ele deixaria de ser apenas mais um dos filhos do rei e deveria assumir a responsabilidade de governante da nação.
Mudanças de ciclo produzem expectativas, despertam temores, mas ao mesmo tempo uma grande ansiedade diante de um novo momento. Creio que há uma reação semelhante para nós em relação a 2022. Como está seu coração para esse novo momento anual?
Diante de todo esse contexto, Salomão recebe uma visita de Deus em sonhos. Ele está em Gibeom, prestando sacrifícios de adoração ao SENHOR, e Deus lhe apareceu em sonho com uma proposta muito interessante: Peça-me o que quiser, e eu lhe darei. Não, você não leu errado. O Deus todo-poderoso, criador do céu e da terra, Senhor e soberano de tudo o que existe, solicita a Salomão que lhe peça qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, que Ele lhe daria. E aqui há um primeiro destaque que eu gostaria de dar ao texto: Deus sabe das nossas necessidades e limitações, e toma iniciativa de nos auxiliar nas dificuldades que temos no cumprimento das expectativas para um novo ciclo. Não servimos a um Deus distante e indiferente, mas a alguém que está próximo de cada um de nós, e se preocupa com cada uma das nossas aflições. O SENHOR está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade (Sl 145.18). Salomão fora para Gibeom com um coração humilde, para prestar sua adoração ao Rei e Senhor de toda a terra. Seu culto era oferecido a Ele não como uma moeda de troca a respeito do que Deus poderia lhe proporcionar, mas sim como um reconhecimento da grandeza do Criador. Deus se achega para esse jovem rei, em sonho, Ele toma essa iniciativa, Ele estabelece esse diálogo com Salomão, pois vê quebrantamento nesse jovem rapaz. Se tem algo que podemos ter certeza, quando iniciamos um novo ciclo, é que se tivermos um coração humilhado e quebrantado, poderemos perceber a orientação de Deus para as nossas vidas. Ele não se agrada dos soberbos e arrogantes, daqueles que já estão com todos os projetos planejados e organizados. A proposta de Deus é audaciosa: não havia limites para o pedido de Salomão. Literalmente, Deus estava oferecendo ao jovem rei a oportunidade de escolher qualquer coisa, e Ele lhe concederia tal petição. Tais histórias, onde um ser poderoso se coloca numa aparente posição de submissão à vontade de um indivíduo são muito interessantes e reflexivas. Há os famosos gênios da lâmpada, como retratados no desenho Aladin, onde uma entidade poderosa fornece ao protagonista três desejos. O convite é tentador, mas veja só, Deus concedeu um único desejo a Salomão. Se três, para muitos, já pode ser considerado tão pouco, imagine apenas um único pedido. O que um jovem, inexperiente e governante de uma poderosa nação poderia pedir ao Criador do Universo para o início do seu novo ciclo de vida? Será que uma vida longa, a fim de desfrutar de seu status de monarca por mais tempo? Ou então muitas riquezas, para conseguir adquirir qualquer bem que desejasse sem se preocupar com as finanças? Ou então a derrota de todos os seus adversários, afinal de contas, sem inimigos estrangeiros, a estabilidade conquistada por seu pai poderia durar mais tempo. Interessante perceber que Deus está disposto a dar qualquer coisa que Salomão pedir, mas a decisão, a escolha, a análise e o discernimento para saber o que deve ser pedido, isso só dependia de Salomão. Para receber seu maior desejo, aquele jovem rei precisava analisar cenários, analisar propostas, e definir o que para ele seria o mais importante. E é interessante observarmos a forma como esse menino define o critério fundamental para a sua tomada de decisão: ele entende o desafio que lhe foi dado por Deus, entende que foi chamado para ser um governante do povo eleito, tem convicção que essa é a sua tarefa, sua missão, sua vocação. Seu papel é conduzir Israel para que, cada vez mais, esteja alinhado com os projetos do Senhor. Diante disso, ele pede algo inusitado: coração cheio de discernimento (em algumas versões, deve estar “sabedoria”). E aqui nós percebemos o segundo destaque desta história: a prioridade de Salomão para seu novo ciclo era cumprir com excelência a missão que Deus lhe havia dado. Não eram suas vontades particulares; não eram seus relacionamentos amorosos e familiares; não era sua busca desenfreada por conhecimento. Sua prioridade era cumprir com excelência o propósito que Deus havia inserido em seu coração. No original, literalmente, está escrito, numa transcrição rápida, seria um “interior que ouve e obedece”. Para a missão que Deus lhe havia dado, Salomão precisa ouvir, mas não bastava apenas a passividade dessa ação. Após ouvir, era necessário obedecer. O jovem rei tinha um imenso desafio em suas mãos. No estado em que estava, ele não tinha condições de realizar sozinho algo em favor de seu povo. Ele precisava aprender a ouvir a voz do Espírito de Deus, e ousadia e humildade para obedecer essa voz.
Deus se alegrou com o pedido do filho de Davi, e lhe concedeu mais do que o seu pedido, dando-lhe riqueza e fama. Alguns, a partir de um olhar materialista, olham para essa passagem, e afirmam que sempre que pedirmos o certo para Deus, seremos abençoados da mesma forma, com fama e riqueza. Mas não é isso que essa passagem ensina. Na verdade, sendo um homem capaz de discernir, Salomão não apenas saberia agir diante da sua missão como governante, mas também conseguiria tomar decisões corretas em sua própria vida. Ser sábio é saber viver bem, e inevitavelmente, riqueza e fama acabariam acompanhando a vida do jovem rei. Tomar as decisões certas, que priorizam o cumprimento da missão de Deus, evidentemente trará benefícios não apenas para o Reino de Deus, mas também para a nossa própria vida pessoal. Quando priorizamos a missão de Deus, entendemos que não somos nós que nos abençoamos a nós mesmos, mas sim que há um Deus que está cuidando de nós, e que vai além do que pedimos ou esperamos.
Salomão foi abençoado com a sabedoria, e se tornou um grande rei. A sequência dessa passagem demonstra a forma justa com que esse homem agia. Com seu discernimento, ele expandiu os territórios de Israel além do que Davi havia feito, e ergueu o templo de adoração ao Senhor. Infelizmente, ele se perdeu no final de sua vida, e os livros históricos demonstram que em sua velhice, ele parece ter abandonado a sabedoria, e se apegado à idolatria e à poligamia. Mas isso é história para um outro sermão.
Quais suas expectativas para 2022? Como está seu coração? O que esperar desse ano? Talvez você tenha inúmeros pedidos: conseguir um trabalho (ou uma promoção/aumento salarial no seu trabalho atual), ingressar num curso técnico ou numa faculdade, começar um namoro, casar-se ou restaurar seu casamento, aprimorar-se em alguma atividade particular, como música, leitura, exercícios físicos, iniciar um novo projeto, e muitos outros. Apesar disso, gostaria que você parasse com tudo isso, deixe de lado, um pouquinho, todos esses sonhos, e faça como Salomão: peça um interior capaz de ouvir e obedecer. Nenhuma empreitada será bem sucedida se não formos capazes de ouvir e obedecer a voz de Deus. Não temos aptidão de completarmos nossos projetos e executarmos nossos sonhos sem compreender a vontade de Deus para nós. Acima de qualquer coisa, ore para que em 2022 Deus te dê sabedoria, discernimento, para ouvir sua voz, e obedecer conforme aquilo que Ele tem te orientado.
