Romanos 8:1-11
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1 Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. 2 Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. 3 Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, 4 a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. 5 Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. 6 Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. 7 Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. 8 Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. 9 Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. 10 Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça. 11 Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita.
Romanos 8:1
Romanos 8:1
1 Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
A combinação “agora, portanto” é enfática, marcando o que vem a seguir como uma conclusão significativa. Como vimos, esses versículos retomam vários temas de Romanos 6 e Romanos 7 para reafirmar a mensagem certificadora de Romanos 5:12-21, de que Cristo obteve vida eterna para todos os que pertencem a ele. O “agora” alude à nova era de salvação inaugurada pela morte e ressurreição de Cristo (veja também Romanos 3:21; Romanos 5:9; Romanos 6:19, 22; Romanos 7:6). “Para aqueles que estão em Cristo Jesus”: esta era é marcada pelo anúncio extraordinário de que “não há condenação”.
Muitos intérpretes, observando que Paulo, nesse contexto, foca na nova vida em Cristo (Romanos 8:5-13). É obviamente importante não separar a destruição do poder do pecado da remoção de sua pena, mas o sentido jurídico da palavra “condenação” sugere que Paulo está pensando somente na libertação do crente da pena que o pecado traz.
Assim como “morte”, um termo paralelo (veja Romanos 5:16-17; Romanos 5:18, 21; e Romanos 8:1, 6), condenação designa o estado de perdição e de alienação de Deus que, sem Cristo, toda pessoa experimentará eternamente. Aqueles que estão “em Cristo Jesus” foram retirados desse estado — e retirados para sempre, como o “não” enfático comprova.
Nenhuma condenação de qualquer tipo será uma ameaça (veja também Romanos 8:34). Por que isso pode acontecer para aqueles “em Cristo”? A razão é que os que estão em Cristo experimentam os benefícios da morte de Cristo “por nós” (“em favor de nós”): “Ele estava por nós/em favor de nós no lugar da condenação; estamos nele, em quem toda a condenação despendeu sua força” (veja 2Coríntios 5:21).
21 Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.
O emprego que Paulo faz da expressão “por nós” no sentido jurídico e o uso da mesma expressão no sentido de participação combinam-se em perfeita harmonia.
Romanos 8:2
Romanos 8:2
2 Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.
O “porque” (grego gar) indica que esse versículo é o fundamento da declaração “não há condenação em Cristo”, anunciada em Romanos 8:1. Uma libertação ocorreu por meio do Espírito Santo, e essa libertação é a base na qual a pessoa em Cristo está para sempre salva da condenação. Ao descrevê-la, Paulo usa a palavra nomos para caracterizar ambos os lados da situação: “o nomos do Espírito da vida, por meio de Cristo Jesus, libertou você do nomos do pecado e da morte”. Por que ele faz isso?
Em ambas as partes do versículo, o significado de nomos poderia ser figurado, contrastando o “princípio”, a “autoridade” ou o “poder” do pecado e da morte com o “princípio”, a “autoridade” ou o “poder” do Espírito. Como vimos (veja a nota sobre Romanos 3:27), nomos pode significar “autoridade normativa” ou “poder”, de modo que essa tradução é lexicalmente aceitável. E essa interpretação é claramente preferível à primeira. A primeira ocorrência de nomos, ao menos, não pode se referir à Lei Mosaica. O contexto imediato destaca a incapacidade da lei de fazer o que o Romanos 8:2 descreve. Foi Deus, agindo por meio de seu Filho, quem cumpriu “o que a Lei não podia fazer” (Romanos 8:3). Considerar a Lei Mosaica o agente libertador mencionado no versículo faria o Romanos 8:2 contradizer o Romanos 8:3.
Certamente Paulo afirma que a Lei é a lei de Deus e que ela foi dada com um propósito positivo dentro do plano geral de salvação (Romanos 7:7-13; veja Gálatas 3:19—4:5). Entretanto, esse propósito não é a libertação do crente do entendimento ou uso errôneo da Lei, ou do poder do pecado e da morte. O padrão paulino, enunciado em Romanos 8:3, é claro: a impotência da Lei não foi suprida por uma nova capacitação dela, mas pela atividade graciosa de Deus em Jesus Cristo.
O ator na situação é, então, o próprio Espírito. É o Espírito de Deus, vindo ao crente com poder e autoridade, que proporciona a libertação dos poderes da antiga era e da condenação, que é a sina de todos os que são prisioneiros desses poderes. Mais difícil é decidir se o segundo nomos do versículo designa a Lei Mosaica ou se também significa “autoridade compulsória” ou “poder”. A favor da primeira opção está o fato de que nomos em Romanos 8:3a se refere à Lei Mosaica; e certamente a análise de Paulo em Romanos 7:7-25 justificaria descrever a Lei Mosaica, em certo sentido, como uma “lei do pecado e da morte” (veja também 1Coríntios 15:56). Embora tenha sido dada por Deus, a Lei de Moisés vai para pessoas pecadoras e, portanto, para as quais essa lei torna-se um instrumento do pecado e da morte.
“Não há condenação” é a bandeira estendida triunfantemente sobre todos aqueles que estão “em Cristo” (v. 1) somente porque “em Cristo” fomos libertos pelo Espírito do domínio, governado pelo pecado, no qual a condenação (que é igual à morte) é o destino inevitável da pessoa.
Romanos 8:3
Romanos 8:3
3 Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado,
No entanto, como a expressão “em Cristo Jesus” em Romanos 8:2 — e em Romanos 8:1 — indicou, a obra libertadora do Espírito ocorre somente na situação criada por Cristo. O Romanos 8:3 explicita isso, mostrando que o Espírito pode libertar o pecador do pecado e da morte somente porque, em Cristo e sua cruz, Deus já condenou o pecado.
Nomos é agora claramente a Lei Mosaica, e a frase afirma sucintamente a observação mais importante de Paulo sobre ela na epístola — que ela demonstrou ser incapaz de resgatar as pessoas do domínio do pecado e da morte (Romanos 3:19; Romanos 3:28; Romanos 4:12-15; Romanos 7:7-25). Entretanto, a Lei não deve ser criticada por isso, pois, em uma expressão que ecoa Romanos 7:14b (“sou limitado pela carne”), ele nos lembra que a Lei falhou somente porque “estava enfraquecida por causa da carne”.
14 Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado.
“Na carne” naturalmente implica a humanidade de Cristo, mas também alude àquela esfera de fraqueza humana na qual Cristo entrou para realizar sua obra. A carne que tornou a Lei ineficaz em lidar com o pecado foi derrotada a partir de dentro. Mas o que Paulo quer dizer quando ele afirma que Deus “condenou o pecado na carne”?
Associando o significado natural do termo com o contexto, podemos concluir que Paulo quer dizer que uma ação judicial foi realizada por meio do sacrifício de Cristo na cruz, cujo objetivo era que “a justa exigência da Lei fosse cumprida” nos cristãos (Romanos 8:4).
A interpretação que corresponde melhor aos critérios acima considera que a condenação do pecado consiste em Deus executar seu julgamento do pecado na carne expiatória de seu Filho. Como nosso substituto, Cristo “foi feito pecado por nós” (2Coríntios 5:21) e sofreu a ira de Deus, o juízo de Deus sobre esse pecado. Quando isso ocorreu, é claro, podemos dizer que o poder do pecado foi destruído, no sentido de que ele não mais domina as pessoas e lhes traz condenação. Ao executar a sentença plena da condenação contra o pecado, Deus removeu de modo eficaz a capacidade do pecado de ditar as condições àqueles que estão “em Cristo” (v. 2). A condenação que merecemos pelo nosso pecado foi derramada sobre Cristo, aquele que carrega nossos pecados. É por isso que “agora não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
Romanos 8:4
Romanos 8:4
4 a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.
O Romanos 8:4 afirma o propósito (“a fim de que” grego hina) de Deus ao condenar o pecado na carne: “que a justa exigência da Lei pudesse ser cumprida em nós”.
Certamente Paulo está refletindo a promessa do Antigo Testamento de que Deus substituiria os corações duros de seu povo por novos corações motivados pelo Espírito de Deus e, assim, seu povo faria a vontade dele (veja especialmente Ezequiel 36:26-27).
26 Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. 27 Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.
Porque Deus destrói o poder do pecado (v. 3), a “justa exigência” da Lei é cumprida por aqueles que “andam de acordo com o Espírito”.
Jesus Como nosso substituto, satisfez as exigências justas da Lei vivendo uma vida de submissão perfeita a Deus. Ao impor sobre ele a condenação que todos nós merecemos (v. 3b; veja v. 1), Deus tornou possível também que a obediência justa obtida por Cristo fosse transferida a nós. Os versículos 3 e 4, então, correspondem a um padrão na apresentação paulina da obra de Cristo que foi chamado de “permuta” ou “troca” — Cristo se torna o que somos para que possamos nos tornar o que Cristo é.
Ele cumpriu a Lei e, nele, os crentes também a cumprem — perfeitamente —, a fim de que possam ser declarados “justos”, livres de “condenação” (v. 1). É desse modo que a ênfase de Paulo na fé “confirma a Lei” (Romanos 3:31), pois, ao se agarrarem a Cristo pela fé, as pessoas são consideradas como se realmente tivessem “cumprido a Lei”. De fato, como Paulo deixa claro nessa carta, é somente por meio da fé em Cristo que a Lei realmente pode ser cumprida.
31 Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.
Se essa interpretação da primeira parte do versículo 4 estiver correta, então a oração participial que modifica “nós” não é instrumental — “o justo decreto é cumprido em nós por meio de andarmos não de acordo com a carne, mas de acordo com o Espírito”, mas descritiva, caracterizando aqueles em quem o justo decreto da Lei é cumprido como “aqueles que andam não de acordo com a carne, mas de acordo com o Espírito”. A referência à conduta cristã nessa expressão mostra que Paulo não separa o cumprimento da Lei do modo de vida dos cristãos. Entretanto, isso não significa que a conduta cristã seja o modo no qual a Lei é cumprida. Antes, a conduta cristã é a marca necessária daqueles em quem esse cumprimento ocorre, por meio de Jesus.
Deus não somente fornece em Cristo o cumprimento pleno das exigências da Lei para o crente, mas também envia o Espírito ao coração deles para capacitá-los para uma nova obediência às suas exigências. Os cristãos agora são dirigidos pelo Espírito, não pela carne.
5 Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte.
“Andar de acordo com a carne”, então, é a própria vida ser determinada e dirigida pelos valores deste mundo, do mundo em rebeldia contra Deus. É um modo de vida cuja orientação é puramente humana. “Andar de acordo com o Espírito”, por sua vez, é viver debaixo do controle e conforme os valores da nova era, criada e dominada pelo Espírito de Deus como a dádiva escatológica dele.
Romanos 8:5
Romanos 8:5
5 Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito.
Em Romanos 8:5-13, Paulo continua a usar a oposição entre carne e Espírito para aprofundar seu comentário sobre a vida que é dada aos crentes no Espírito de Deus e por meio dele.
Ele começa reafirmando a conexão indissolúvel entre Espírito e vida, por um lado, e carne e morte, por outro (Romanos 8:5-8). Paulo, então, em Romanos 8:9-11, passa a abordar um aspecto mais positivo, expressando sua confiança de que os próprios romanos estão firmemente do lado do Espírito nessa oposição (Romanos 8:3b, 4). Nos últimos versículos dessa seção (Romanos 8:12, 13), no entanto, Paulo lembra aos leitores de que o poder doador de vida do Espírito de Deus, no fim, é eficaz somente naqueles que continuam deixando o Espírito transformar sua vida.
Começando pelo fim da sequência: o que Paulo afirma em Romanos 8:8-9 deixa claro que a oposição entre “estar na carne” e “estar no Espírito” é um contraste entre o não cristão e o cristão.
Assim como em Romanos 7:5, ele emprega “em” para indicar a ideia de “domínio”, com “carne” e “Espírito” remetendo àqueles poderes que governam os dois domínios da história da salvação. Tornar-se cristão significa ser transferido do domínio da carne para o domínio do Espírito. Assim, a “mente” da carne/do Espírito (Romanos 8:6) representa a mentalidade ou a atitude que caracteriza os que pertencem, respectivamente, a esses dois domínios; e “pensar” [“fixar a mente”] nas coisas da carne/do Espírito (Romanos 8:5b) é um equivalente retórico.
Aparentemente o interesse de Paulo aqui é descrever, não exortar. De certa forma, então, é justo dizer que Paulo está comparando dois grupos de pessoas: os convertidos e os não convertidos.
Mas o propósito principal dele é destacar as diferenças radicais entre a carne e o Espírito como um modo de mostrar por que somente aqueles que “andam/pensam/são” segundo o Espírito podem ter vida eterna.
Esta é a conexão entre Romanos 8:1-4 e Romanos 8:5-8: vida — vida eterna de redenção — é conferida somente àqueles que “andam de acordo com o Espírito” (Romanos 8:4b), “pois” (gr. gar) aqueles que são “de acordo com a carne” jamais podem escapar da morte (Romanos 8:6); a carne impede que as pessoas obedeçam à lei de Deus (Romanos 8:7) ou lhe agradem (Romanos 8:8).
Em Romanos 8:5;6, Paulo usa uma progressão lógica para contrastar os fins para os quais a carne e o Espírito conduzem. Nessa progressão, ele usa a linguagem ligada a “pendor/fixar a mente”/“pensar/mentalidade” como um meio-termo para conectar a existência determinada pela carne ou a determinada pelo Espírito (“aqueles que são de acordo com a carne/o Espírito”) com os destinos opostos delas: de morte, por um lado, e de vida e paz, por outro.
Ambas as expressões, “ter a mente fixada/cogitam”, em Romanos 8:5, e “mente/pendor”, em Romanos 8:6, vêm da mesma raiz grega, que aponta não para um processo puramente cognitivo, mas, mais amplamente, para a direção geral da vontade, que inclui “todas as faculdades da alma — razão, entendimento e afeições”.
Romanos 8:6
Romanos 8:6
6 Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz.
O “porque” (gr. gar) não é causal nem explicativo, mas continuativo.
A “mente” da carne/do Espírito — a atitude caracterizada e determinada pela carne/pelo Espírito — é simplesmente o equivalente substancial a pensar nas “coisas da carne/do Espírito” (Romanos 8:5b). A ênfase está no que resulta dessas mentalidades contrastantes. Aqueles cuja mentalidade é a da carne — que, poderíamos dizer, têm uma atitude estritamente voltada para este mundo — experimentam a morte.
Assim como ao longo de Romanos 5—8, “morte” é empregada em seu aspecto mais amplo, certamente incluindo a condenação (veja Romanos 8:1-4), mas não limitada a ela. A morte reina nesta vida sobre todos aqueles que não estão em Cristo (veja Romanos 5:12, 15, 21).
Do mesmo modo, “vida” e “paz” denotam o estado de liberdade “da lei do pecado e da morte” que começa para o crente nesta vida, ainda que não em sua forma final e definitiva. As palavras não significam um estado mental subjetivo (p. ex., “paz de espírito e no coração”), mas a realidade objetiva da salvação, na qual o crente, que tem “a mente do Espírito”, entrou. A “paz” aqui é a “paz com Deus” dada por meio da justificação (veja Romanos 5:1; veja também Romanos 14:17), estado oposto ao da “inimizade com Deus” do não cristão (veja Romanos 8:7).
Romanos 8:7-8
Romanos 8:7-8
7 Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. 8 Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus.
Em Romanos 8:7-8, explica-se por que a mentalidade da carne deve levar à morte. Como se concentrassem o princípio e o poder do mundo sem Deus, a “carne” e sua mentalidade característica são necessariamente hostis a Deus e a todos os propósitos dele. A neutralidade é impossível: sem a mentalidade do Espírito, encontrada somente por meio da união com Cristo (veja Romanos 8:9, 10), as pessoas só podem organizar sua vida de um modo que é hostil a Deus e que incorrerá em sua ira.
A segunda parte de Romanos 8:7-8 explicam (observe o gr. gar) essa hostilidade. A “mentalidade produzida pela carne” não se submete, e não pode se submeter, à lei de Deus. Quem está “na carne” — a pessoa “natural” sem Cristo — não pode agradar a Deus. No entanto, ao qualificar a lei como a “lei de Deus”, Paulo talvez esteja mostrando sua intenção de focar na exigência de Deus expressa na lei, não na própria Lei Mosaica.
A linguagem de Paulo deixa isso claro: todos os não cristãos têm uma “mentalidade”, uma direção total de vida, que é inatamente hostil a Deus (Romanos 8:7). Todas as pessoas, por natureza derivadas de Adão, estão incorrigivelmente voltadas para o próprio bem, não para o bem dos outros ou de Deus.
Os vários pecados para os quais somos atraídos — desejo de riquezas, posição na vida, poder ou prazer sexual — são simplesmente sintomas diferentes dessa doença subjacente, dessa idolatria inclinada à autossatisfação.
Mais uma vez, devemos nos lembrar de que Paulo não está aqui empregando a palavra “carne” como a usamos muitas vezes, para denotar pecado sexual especificamente. Estar “na carne” ou ser “carnal” ou “limitado pela carne”, no sentido em que Paulo está usando “carne” aqui, abrange todos os pecados.
A pessoa que está preocupada com o próprio sucesso nos negócios, à custa de outros e de Deus, está tão dominada pela carne quanto a pessoa que comete adultério. Ambas estão manifestando, de modos diferentes, a rebeldia destrutiva e autocentrada contra Deus e sua lei, que pode ser derrotada somente pelo poder do Espírito de Deus em Cristo. O versículo 8, por sua vez, mostra claramente que as pessoas não podem resgatar a si mesmas dessa condição. Enquanto estiverem “na carne” — e somente o Espírito pode resgatá-las desse estar envolto na carne —, elas serão totalmente incapazes de agradar a Deus.
Romanos 8:9
Romanos 8:9
9 Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.
Paulo indica uma mudança de direção com o “porém” (de) adversativo. Ele volta a atenção para os cristãos romanos, a quem agora começa a se dirigir pessoalmente: “os que estão ‘na carne’ não podem agradar a Deus; vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito”.
Como observamos antes, o contraste entre estar “na carne” e estar “no Espírito” é a oposição entre pertencer à antiga era do pecado e da morte e pertencer à nova era da justiça e da vida. Carne e Espírito são tão inerentes, respectivamente, a essas “eras” ou “domínios” que se pode dizer que a pessoa que pertence a uma ou a outra está “nelas”. Nesse sentido, então, nenhum cristão pode estar “na carne”, e todos os cristãos estão, por definição, “no Espírito”.
(1) ser cristão é ser habitado pelo Espírito de Deus;
(2) ser habitado pelo Espírito de Deus significa estar “no Espírito”, não “na carne”.
A linguagem de Paulo é posicional: está descrevendo a condição do crente em Cristo assegurada para ele em sua conversão. É claro que ele vê o cristão influenciado, em algum sentido, por ambos os domínios da história da salvação.
Mesmo como crentes, permanecemos sujeitos à decadência física e à morte, inclinados a pecar, tentados a deixar a carne tomar o controle de nós novamente — mas também fomos libertos “da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2; veja Romanos 5:12-21), estamos “mortos para o [poder do] pecado” (Romanos 6:1-23) e não estamos mais “na carne”.
No entanto, Paulo estabelece uma condição para o estar “no Espírito”: o Espírito de Deus deve habitar na pessoa. Mas, como 1Coríntios 3:16 mostra — texto dirigido aos cristãos coríntios “carnais” (1Coríntios 3:1-3)
16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
1 Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. 2 Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais. 3 Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?
Ele pensa que todo cristão é habitado pelo Espírito de Deus. De fato, é exatamente isso o que afirma na última parte do versículo, em que nega absolutamente que a pessoa sem o “Espírito de Deus” possa afirmar ser cristã. Em outras palavras, para Paulo, ter o Espírito é inseparável de ser cristão. Por mais que precisemos crescer no nosso relacionamento com o Espírito, por mais que venhamos a graciosamente receber experiências novas e revigorantes do Espírito de Deus do momento da conversão em diante, o Espírito Santo é um habitante fixo dentro de nós.
O fato de que Paulo, no mesmo versículo, possa dizer que o crente está “no Espírito” e que o Espírito está “no” crente revela a natureza metafórica da linguagem. Em um sentido, o Espírito é retratado entrando na vida da pessoa e tomando o controle dela; no outro, o crente é retratado vivendo no domínio em que o Espírito governa, guia e determina o destino de alguém.
Romanos 8:10
Romanos 8:10
10 Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça.
Paulo faz um contraste com a situação que acabou de descrever em Romanos 8:9b, ao mesmo tempo que retoma o foco principal de seu ensino a partir de 8:9a. É significativo que agora ele fale sobre “Cristo” estar nos cristãos romanos, enquanto em Romanos 8:9 disse que era “o Espírito de Deus” que habitava nos crentes.
Repetindo: é claro que o crente que, pela fé, foi unido a Cristo (veja Romanos 6:1-11) não tem somente Cristo, mas também o Espírito habitando nele. O Espírito que habita no crente e o Cristo que habita nele são distinguíveis, mas inseparáveis. Além disso, o modo rápido e natural com que Paulo passa de “Espírito de Deus” (Romanos 8:9a) a “Espírito de Cristo” (Romanos 8:9b), a “Cristo” (Romanos 8:10a) e a “Espírito” (Romanos 8:10b, 11) revela o “trinitarismo prático” que já caracteriza o NT.
Romanos 8:11
Romanos 8:11
11 Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita.
Em uma quarta frase condicional, Paulo conclui seu relato da vida dada no Espírito e por meio dele com uma afirmação de que o Espírito é o instrumento que garante a transformação física. De modo apropriado a esse momento, o Espírito é agora designado como “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos”. A referência, obviamente, é a Deus Pai (veja Colossenses 2:12; Romanos 6:4), mas o foco está no Espírito.
Uma vez que a referência à ressurreição é tão clara na primeira parte da frase, “vivificará” também deve se referir à futura transformação física$^{978}$ — por meio da ressurreição de crentes que morreram — e não, por exemplo, à vivificação espiritual na justificação ou à “mortificação” do pecado na vida cristã.
Paulo certamente enfatiza a certeza e a indestrutibilidade da vida, tema que é proeminente no restante do capítulo,$^{981}$ mas o futuro é genuinamente temporal. A relação de causa e efeito entre a ressurreição de Cristo e a do crente, tornada extremamente clara em Romanos 6:5 (veja 8:17), está por trás da afirmação dele de que Deus dará vida a “nosso corpo mortal”, assim como ressuscitou Cristo dos mortos. E, em consonância com o foco de Paulo ao longo dessa parte de Romanos 8, é o Espírito o instrumento pelo qual Deus ressuscita o corpo do cristão.
Como em Romanos 8:9, a habitação do Espírito sugere que o Espírito fixou residência no crente e, uma vez que o Espírito é “vida” (Romanos 8:10b; veja Romanos 8:2: “o Espírito da vida”), sua presença somente pode resultar em vida para o corpo em que ele habita. O poder doador de vida do Espírito não é limitado pela mortalidade do corpo, mas a supera e a transforma na imortalidade da vida eterna em um corpo ressurreto.
