Entre a presença de Deus e a ansiedade da vida
Espiritualidade Prática: a vida cristã em um mundo caótico • Sermon • Submitted • Presented
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· 3 views o coração antes do ativismo • serviço que nasce da escuta ativa • espiritualidade como postura e permanência
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TEXTO Lc 10.38-42
TEXTO Lc 10.38-42
38 Quando eles seguiam viagem, Jesus entrou numa aldeia. E certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa.
39 Marta tinha uma irmã, chamada Maria, que, assentada aos pés do Senhor, ouvia o seu ensino.
40 Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então se aproximou de Jesus e disse: O Senhor não se importa com o fato de minha irmã ter deixado que eu fique sozinha para servir? Diga-lhe que venha me ajudar.
41 Mas o Senhor respondeu: — Marta! Marta! Você anda inquieta e se preocupa com muitas coisas,
42 mas apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Vivemos em um tempo marcado pelo excesso de informação de demandas, de urgências.
Nunca fomos tão produtivos… e nunca estivemos tão cansados.
Nunca estivemos tão conectados… e nunca tão ausentes de nós mesmos.
A ansiedade deixou de ser apenas um problema emocional isolado mas se revelou como um estado existencial.
A ansiedade deixou de ser apenas um problema emocional isolado mas se revelou como um estado existencial.
As pessoas não estão apenas sobrecarregadas apenas pelo trabalho ou estudos, estão ocupadas por dentro com os anseios da vida.
A mente não silencia.
O coração não repousa.
O corpo até para, mas a alma continua agitada.
E é nesse cenário que o Evangelho nos convida a entrar numa casa comum, em uma cena cotidiana.
Este texto não é uma competição entre Marta e Maria.
Não é sobre demonizar o trabalho nem exaltar a contemplação.
É sobre prioridades do coração, sobre onde colocamos o centro da vida em um mundo agitado que nos pressiona por todos os lados.
Enquanto o amor do mundo se sustenta no estímulo dos olhos, na sedução do coração e na ostentação da vida, o amor de Deus se revela na Presença daquele que vem ao nosso encontro exatamente quando nos tornamos ausentes na relação.
1. O CONTEXTO DO TEXTO E O NOSSO CONTEXTO DE ANSIEDADE
1. O CONTEXTO DO TEXTO E O NOSSO CONTEXTO DE ANSIEDADE
Jesus está em caminho para Jerusalém, não é uma viagem comum, é o caminho da cruz.
É importante lembrar que Lucas não escreve seu evangelho de forma meramente sequencial, mas o organiza em blocos temáticos, com profunda intencionalidade pastoral.
Nesse bloco, o evangelista ajusta o foco para um realinhamento necessário.
Primeiro, apresenta a missão: o envio dos setenta discípulos, uma missão local com alcance global.
Em seguida, destaca o amor ao próximo expresso em cuidado, na parábola do bom samaritano.
Logo depois, Jesus ensina os discípulos a orar, ressaltando a dependência, a intimidade e a rendição.
Ao posicionar Marta e Maria nesse ponto de interconexão, Lucas nos ensina algo essencial:
o serviço só se torna verdadeira adoração quando nasce da comunhão relacional com Cristo.
Marta recebe Jesus em sua casa: Isso é nobre, é bíblico, pois a hospitalidade é virtude do Reino.
Maria, sua irmã, se assenta aos pés do Senhor para ouvi-lo: essa postura não é casual, é postura de discípula.
Jesus legitima Maria como aprendiz, rompendo expectativas culturais e religiosas.
Mas Marta, ocupada com muitos serviços, se distrai. O texto diz que ela estava preocupada e agitada.
Não é o serviço que domina Marta — é a ansiedade.
A expressão agitada remete ao sentido dela entrar em um estado de estresse mental por estar superocupada ou bastante atarefada.
Marta se aproxima de Jesus e, no fundo, diz: “Jesus, valida a minha pauta. Corrige minha irmã.”
Então Jesus responde.
“Marta, Marta… você anda ansiosa e agitada com muitas coisas; entretanto, uma só coisa é necessária.”
Essa palavra atravessa os séculos e chega até nós, pois as pessoas na sociedade atual também vivem assim:
agitadas, ansiosas, fragmentadas,
ocupadas com muitas coisas
mas carentes da única coisa necessária.
2. A ANSIEDADE COMO O “MAL DO SÉCULO”
2. A ANSIEDADE COMO O “MAL DO SÉCULO”
Hoje, a ansiedade não é apenas uma condição clínica. Ela se tornou um modo de existir.
Com razão, é chamada de o mal do século, porque atravessa gerações, culturas, classes sociais — e também a igreja.
De forma simples, ansiedade é isso: viver antecipadamente o futuro com medo, perder o senso de presença no agora e tentar controlar o que não está nas nossas mãos.
É quando o corpo está em um lugar, mas a mente está em outro.
Fisicamente presentes, mas interiormente ausentes.
A pessoa conversa, mas não escuta.
Trabalha, mas não descansa.
Ora, mas não silencia.
A psicologia nos ajuda a entender que a ansiedade pode aparecer em níveis.
Ansiedade adaptativa: natural e que nos mantém em alerta, uma resposta normal a demandas reais, é funcional, proporcional e passageira.
Ansiedade desadaptativa, que nos mantém em constante inquietação, envolve preocupação excessiva, dificuldade de descanso, nos mantém em ativação emocional constante, porém é ainda situacional e contextual .
Ansiedade Patológica (Transtornos de Ansiedade): promove prejuízo funcional significativo e sintomas físicos e cognitivos recorrentes que exigem cuidado clínico e acompanhamento adequado, pois é persistente ao longo do tempo, desproporcional,
Por isso é importante dizer com responsabilidade pastoral: nem toda ansiedade é pecado, nem toda ansiedade é falta de fé.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza espiritual, mas de sabedoria.
Marta não vive uma ansiedade patológica, mas uma ansiedade desadaptativa e situacional: fruto de uma interioridade desorganizada, não de uma condição clínica.
Ela está na casa;
Ela está servindo;
Ela está com Jesus fisicamente presente;
Mas sua mente está distante;
Seu coração está fragmentado;
Sua alma está agitada;
Ela está presente no espaço, mas ausente na experiência relacional.
Ela está presente no espaço, mas ausente na experiência relacional.
Maria, por outro lado, está inteira: presente, atenta, receptiva.
Por isso Jesus não condena o trabalho de Marta. Ele diagnostica sua condição interior:
“Você está ansiosa e agitada.”
O problema não é a atividade. É a desordem interior.
3. QUANDO O TRABALHO OCUPA O LUGAR DA PRESENÇA
3. QUANDO O TRABALHO OCUPA O LUGAR DA PRESENÇA
Marta não é preguiçosa, não é carnal e ama Jesus.
E esse é o ponto mais sensível do texto. O problema não é servir a Cristo. O problema é quando servir a Cristo substitui a intimidade com Cristo.
Antes da queda, o trabalho era expressão da comunhão com Deus.
Depois da queda, o trabalho continua sendo vocação, mas passa a ser vivido sob tensão, esforço e desordem interior. Em vez de extensão da comunhão, pode se tornar um espaço onde tentamos compensar nossa própria ausência relacional diante de Deus.
Não é Deus que se ausenta. Somos nós que nos ausentamos.
Marta trabalha, mas está inquieta.
Serve, mas está irritada.
Faz, mas não desfruta.
Maria escolhe aquilo que Jesus chama de a boa parte.
Ela se deleita mais em Jesus do que no serviço a Ele.
Aqui está uma chave do texto:
O que fazemos em Cristo é mais importante do que aquilo que fazemos para Cristo.
Isso não elimina o trabalho.
Isso reposiciona o coração.
Grande parte da ansiedade moderna nasce quando
a identidade é ancorada no desempenho,
quando passamos a acreditar que nosso valor está no quanto produzimos
quando até a espiritualidade se transforma em métrica de produtividade.
Jesus está dizendo: “Marta, você está fazendo muitas coisas boas… mas perdeu o essencial.”
4. A VIDA DA IGREJA: O SERVIÇO COMO FRUTO DA PRESENÇA
4. A VIDA DA IGREJA: O SERVIÇO COMO FRUTO DA PRESENÇA
Esse texto também é um espelho para a vida da igreja.
Existe um ativismo que parece espiritual, organizado e até virtuoso, mas que nasce não da comunhão, e sim da inquietação interior.
Existe um ativismo que parece espiritual, organizado e até virtuoso, mas que nasce não da comunhão, e sim da inquietação interior.
É um ativismo que mede espiritualidade por agenda, maturidade por ocupação, e fidelidade por desempenho.
Jesus não despreza o serviço, pelo contrário. O problema não está no servir, mas em servir desconectado da presença.
Quando o serviço deixa de fluir da comunhão, ele deixa de ser adoração e passa a ser compensação.
Quando o serviço deixa de fluir da comunhão, ele deixa de ser adoração e passa a ser compensação.
O ativismo na igreja contemporânea muitas vezes se apresenta como virtude espiritual, mas acaba se tornando uma tentativa de compensar a ausência relacional diante de Deus.
O ativismo na igreja contemporânea muitas vezes se apresenta como virtude espiritual, mas acaba se tornando uma tentativa de compensar a ausência relacional diante de Deus.
É nesse ponto que o texto de Marta e Maria nos confronta profundamente.
Marta quer que Jesus valide sua pauta, que Ele confirme seu modo de servir e corrija quem escolheu parar para ouvir.
Mas Jesus não ajusta Maria à agenda de Marta.
Ele ajusta Marta à centralidade da presença.
E quando olhamos com honestidade para a igreja contemporânea, precisamos reconhecer que esse risco não ficou em Betânia.
Há ministros que estudam a Palavra apenas para falar, e não para conhecer o Deus da Palavra.
Há ministros de música que cantam verdades, mas já não contemplam a face de Deus com rostos desvendados.
Há pessoas servindo no culto com excelência, mas sem admiração pela beleza da presença.
Assim nasce uma igreja cheia de agenda — organizada, ativa, funcional — e vazia da presença.
Isso não é uma acusação. É um chamado ao discernimento.
Porque é possível manter a estrutura e perder o centro.
É possível preservar a liturgia e abandonar o lugar secreto.
É possível continuar servindo e já não permanecer.
Por isso, o Evangelho não nos chama a fazer menos, mas a voltar ao centro.
Não a abandonar o serviço, mas a permitir que ele volte a ser fruto da presença.
A igreja saudável não escolhe entre Marta e Maria. Ela aprende a integrar Marta e Maria.
A presença gera discernimento. O discernimento purifica o serviço.
E o serviço, então, volta a ser expressão de amor, não de um coração ansioso.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
Marta nos ensina um risco santo: o serviço pode se tornar distração.
Maria nos ensina um caminho eterno: a boa parte é Cristo em primeiro lugar.
Porque quando a presença vira prioridade,
o serviço vira fruto,
a ansiedade perde o trono,
e a vida volta ao centro.
Que o Espírito Santo nos ensine novamente a sentar aos pés de Jesus, para que tudo o que fizermos nasça da comunhão e não da inquietação.
Que o Espírito Santo nos ensine novamente a sentar aos pés de Jesus, para que tudo o que fizermos nasça da comunhão e não da inquietação.
