O Evangelho para os Opostos

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução: A Expectativa vs. A Realidade
No domingo passado, vimos o apóstolo Paulo em uma situação intrigante. Ele tentou entrar na Ásia — o centro cultural e econômico da época — e Deus disse "não". Ele tentou a Bitínia, e o Espírito disse "não". Finalmente, ele teve a visão do homem da Macedônia pedindo ajuda.
Paulo obedece. Ele atravessa o Mar Egeu, uma viagem de dois dias. Ele está indo para a Europa pela primeira vez. Ele deve estar imaginando: "Se Deus fechou todas aquelas portas para me trazer aqui, algo grandioso vai acontecer. Uma multidão deve estar me esperando. O 'Homem da Macedônia' deve ser um líder influente pronto para ouvir". Então vamos ver o que aconteceu…
Atos dos Apóstolos 16.11–24 NAA
11 Tendo, pois, navegado de Trôade, fomos diretamente para Samotrácia e, no dia seguinte, a Neápolis. 12 Dali fomos a Filipos, cidade da Macedônia, primeira do distrito e colônia romana. Nesta cidade, permanecemos alguns dias. 13 No sábado, saímos da cidade para a beira do rio, onde nos pareceu haver um lugar de oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que haviam se reunido ali. 14 Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia. 15 Depois de ser batizada, ela e toda a sua casa, nos fez este pedido: — Se julgam que eu sou fiel ao Senhor, venham ficar na minha casa. E nos constrangeu a isso. 16 Aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem possuída de espírito adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus donos. 17 Seguindo a Paulo e a nós, gritava, dizendo: — Estes homens são servos do Deus Altíssimo e anunciam a vocês o caminho da salvação. 18 Isto se repetiu por muitos dias. Então Paulo, já indignado, voltando-se, disse ao espírito: — Em nome de Jesus Cristo, eu ordeno que você saia dela. E ele, na mesma hora, o espírito saiu. 19 Quando os donos da jovem viram que se havia desfeito a esperança do lucro, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram para a praça, à presença das autoridades. 20 E, levando-os aos magistrados, disseram: — Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, 21 propagando costumes que não podemos aceitar, nem praticar, porque somos romanos. 22 Então a multidão se levantou unida contra eles, e os magistrados, rasgando-lhes as roupas, mandaram açoitá-los com varas. 23 E, depois de lhes darem muitos açoites, os lançaram na prisão, ordenando ao carcereiro que os guardasse com toda a segurança. 24 Este, recebendo tal ordem, levou-os para o cárcere interior e prendeu os pés deles no tronco.
E então, o texto diz que eles chegam a Filipos, a principal cidade da região. E o que acontece? Nada. O versículo 12 diz secamente: "ficamos nesta cidade alguns dias". O silêncio é constrangedor. Nenhum comitê de boas-vindas. Nenhuma sinagoga cheia. Apenas uma cidade romana, orgulhosa, militarizada e indiferente.
Imagine a frustração. Você largou seus planos, cruzou o mar, confiou na direção divina e, ao chegar, encontra o vazio.
Mas então chega o sábado. Paulo vai para a beira do rio, fora da cidade. E lá ele não encontra o "homem" da Macedônia que viu na visão. Ele encontra um grupo de mulheres orando. E depois, caminhando pelas ruas, ele encontra uma escrava endemoninhada gritando atrás dele.
Este é o cenário de Atos 16. Deus fecha a porta da Ásia para abrir o coração de duas mulheres completamente opostas. De um lado, Lídia: uma empresária, próspera, moralmente correta, religiosa, a elite. Do outro, a Escrava: uma menina sem nome, explorada, espiritualmente oprimida, a margem.
Lucas coloca essas duas histórias lado a lado de propósito. Ele quer nos mostrar que o Evangelho não é apenas para um "tipo" de pessoa. A cidade de Filipos — assim como o Rio de Janeiro — está cheia de Lídias e cheia de escravas. E a pergunta que o texto joga no nosso colo hoje é: como o Evangelho alcança extremos tão distantes?

1. A Trama Acaba (O Que Devo Fazer?)

O Imperativo de Cruzar Barreiras

Qual é o dever moral e espiritual que este texto impõe sobre a igreja e sobre nós?
Observe a ação de Paulo. Ele vai até a beira do rio, onde as mulheres se reuniam (v. 13). Naquela cultura, um rabino judeu não ensinaria teologia a mulheres em público. Mas Paulo senta e fala. Ele cruza a barreira de gênero e a barreira cultural. Depois, observe a interação com a escrava (v. 18). Ela é irritante, ela é perturbada, ela é socialmente invisível, mas Paulo se volta e a liberta em nome de Jesus. Ele cruza a barreira espiritual e de classe.
O imperativo aqui é claro: O Evangelho exige que cruzemos as barreiras de conforto para alcançar tanto os "respeitáveis" quanto os "quebrados".
Nós temos uma tendência natural de segmentar nossos relacionamentos (algorítimo). Alguns de nós são ótimos com as "Lídias". Gostamos de gente intelectual, bem-sucedida, que já tem uma base moral. É limpo. É seguro. É "o nosso tipo". Outros preferem os marginalizados, a causa social, os quebrados, e olham com desdém para a elite, achando que eles não precisam de graça, apenas de crítica.
Mas o padrão de Deus em Atos 16 destrói essa preferência. Deus quer a vendedora de púrpura e a menina adivinha.
A Bíblia exige que você olhe para a pessoa mais "certinha" e moral do seu escritório — aquela que parece não precisar de nada — e perceba que, sem Cristo, ela está espiritualmente morta. O texto diz que Lídia "temente a Deus", mas o Senhor precisou "abrir-lhe o coração" (v. 14). Religiosidade não é vida. Ao mesmo tempo, a Bíblia exige que você olhe para a pessoa mais confusa, aquela que incomoda, que grita, que tem uma bagagem espiritual pesada — como a escrava — e veja nela alguém que pode ser transformada instantaneamente pelo Nome de Jesus.
A ordem de Deus é: saia da sua zona de segurança. Vá ao rio. Vá à rua. Não julgue quem é "convertível" e quem não é. O Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do CEO ao dependente químico.
Você está disposto a falar com ambos? Ou você selecionou um público que se parece com você? O padrão de Deus é uma igreja onde Lídia e a ex-escrava sentam na mesma mesa de comunhão. Se a nossa vida não reflete essa mistura, não estamos vivendo Atos 16.

2. A Trama se Complica (Por Que Não Posso Fazer Isso?)

O Ídolo do Conforto e o Custo das Pessoas

Se o imperativo é "cruzar barreiras para amar a todos", por que falhamos tanto nisso? Por que nossas igrejas tendem a ser bolhas sociológicas, cheias de pessoas que pensam, vestem e votam igual a nós?
A resposta em Atos 16 é radicalmente honesta. O texto nos mostra o que acontece quando o Evangelho realmente alcança alguém "difícil".
Pense na escrava. O versículo 17 diz que ela seguia Paulo gritando por "muitos dias". Ela era inconveniente. Ela era barulhenta. Ela era socialmente constrangedora. E quando Paulo finalmente a liberta do espírito maligno, qual é a reação da cidade? Aplausos? Alegria pela restauração de uma dignidade humana?
Não. O versículo 19 diz: "Quando os donos da jovem viram que se havia desfeito a esperança do lucro, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram para a praça, à presença das autoridades”.
Aqui está a razão pela qual não conseguimos obedecer a Deus. O problema não é falta de estratégia missionária. O problema é a idolatria do conforto e do “lucro.
Nós amamos a ideia de "salvar pessoas", desde que essas pessoas não nos custem nada. Nós gostamos de Lídias. Lídia é "baixa manutenção". Ela tem casa própria, ela oferece hospitalidade, ela provavelmente dá o dízimo no primeiro dia. Lídia é um "ativo" para a igreja. É fácil amar quem traz recursos para a mesa.
Mas a escrava? Ela é "alta manutenção". Ela não tem dinheiro. Ela tem traumas. Ela grita. Ela bagunça a liturgia. E, pior, libertá-la custa caro. Para os donos, a libertação dela significou prejuízo econômico imediato. Para nós, amar pessoas quebradas significa prejuízo de tempo, de energia emocional e de conforto.
A trama se complica porque o nosso coração opera com uma lógica de mercado, e não com a lógica do Reino. Nós olhamos para as pessoas e, inconscientemente, perguntamos: "Quanto essa pessoa vai me custar? E o que ela pode me dar em troca?".
Se a pessoa agrega ao meu status, eu a acolho. Se a pessoa drena minha paciência ou ameaça meu conforto, eu a mantenho à distância. Somos espiritualmente utilitaristas.
Veja a ironia trágica dos donos da escrava. Eles preferiam uma menina endemoninhada que dava lucro a uma menina liberta que dava prejuízo. E antes de julgá-los, olhemos para o espelho. Quantas vezes evitamos nos envolver com alguém em crise porque "vai dar muito trabalho"? Quantas vezes ignoramos o pobre, o viciado ou o socialmente estranho porque eles não "combinam" com a estética da nossa comunidade?
Nós não conseguimos cruzar barreiras porque, no fundo, nosso deus é o nosso bem-estar. Nós queremos um cristianismo que nos dê "a paz de Lídia" sem "o tumulto da escrava". Mas esse cristianismo não existe.
A realidade do nosso pecado é que, se a salvação de alguém ameaça a nossa conta bancária ou a nossa tranquilidade de sábado à tarde, nós escolhemos o dinheiro e a tranquilidade. Nós somos como os senhores de Filipos: valorizamos mais o nosso lucro do que a liberdade do próximo. E enquanto esse ídolo governar o nosso coração, jamais seremos uma igreja que alcança a cidade.
Estamos presos na nossa própria indiferença egoísta. Quem poderá nos libertar desse amor excessivo pelo conforto?

3. A Trama é Solucionada (Como Ele Fez Isso?)

O Senhor que Aceitou o Prejuízo

Como podemos ser curados dessa "lógica de mercado" que nos faz selecionar pessoas? Como deixamos de ver o próximo como um lucro ou um prejuízo, e passamos a vê-lo como uma alma?
A resposta não está em tentar ser mais altruísta. A resposta está em olhar para o Senhor Jesus Cristo.
Há um contraste fascinante neste texto. Os donos da escrava ficaram furiosos porque perderam dinheiro. Para eles, aquela menina era um meio para um fim. Eles a exploravam para garantir o seu próprio conforto. Mas olhe para Jesus. A Bíblia nos diz que Ele, sendo rico, se fez pobre por amor a nós (2 Coríntios 8.9).
Os senhores da escrava disseram: "Nós vamos usar a vida dela para enriquecer a nossa". Jesus disse: "Eu vou dar a minha vida para enriquecer a dela".
Jesus é o oposto absoluto dos senhores de Filipos. Ele não olhou para nós — pessoas espiritualmente endemoninhadas, escravas do pecado, moralmente sujas — e calculou o nosso "custo-benefício". Se Ele tivesse feito isso, Ele teria nos descartado, porque nós somos "alta manutenção". Nós somos o prejuízo de Deus. Nossos pecados custaram a glória dEle.
Mas o que Ele fez? Ele cruzou a maior barreira de todas. Ele não apenas cruzou o Mar Egeu; Ele cruzou o abismo entre a divindade e a humanidade. E Ele não veio para lucrar às nossas custas, mas para ser "gasto" em nosso favor.
Na cruz, Jesus experimentou a verdadeira perda. Ele perdeu a comunhão com o Pai. Ele perdeu a dignidade. Ele perdeu a vida. Ele pagou o preço final. Por que Ele fez isso? Para libertar escravos. Para libertar você e eu da tirania do diabo e da tirania do nosso próprio ego.
Você percebe a beleza disso? Paulo libertou a escrava, e isso custou a ele sua liberdade física (ele foi preso logo em seguida). Jesus libertou a nós, e isso custou a Ele a Sua vida.
Somente quando você vê o quanto Jesus estava disposto a "perder" para ganhar você, o seu coração é derretido. O ídolo do conforto cai do trono. Você percebe: "Se o Rei do Universo aceitou o prejuízo da cruz para me salvar, quem sou eu para negar meu tempo ou meu conforto para amar alguém difícil?".
O Evangelho é a notícia de que fomos amados com um amor custoso. E esse amor é a única força no universo capaz de transformar egoístas em servos.

4. A Trama Começa (Como, Por Meio dEle, Posso Fazer Isso?)

Uma Nova Comunidade, Uma Nova Hospitalidade

Então, como vivemos isso na prática? O que acontece quando o Evangelho de fato entra em Filipos (e na nossa cidade)?
Acontece a formação de uma comunidade impossível.
Volte os olhos para o final da história de Lídia. No versículo 15, depois de batizada, ela diz: "Se julgam que sou fiel ao Senhor, entrem na minha casa e fiquem ali". E Lucas acrescenta: "E nos constrangeu a isso".
Aqui vemos o nascimento da Igreja em Filipos. Pense em quem vai estar nessa igreja nas próximas semanas. Lídia: a empresária rica e sofisticada. A ex-escrava: a menina pobre, provavelmente traumatizada e agora sem emprego. E, no próximo domingo veremos, o carcereiro rústico e sua família.
Sob a lógica humana, essas pessoas jamais se misturariam. Elas frequentam lugares diferentes, comem comidas diferentes e as vezes votam de formas diferentes. Mas o Evangelho cria uma nova humanidade.
A aplicação para nós é dupla:
1. Para as "Lídias" (Os que têm recursos): A graça transforma sua casa em um hospital. Lídia não usou sua casa apenas para seu conforto privado; ela a abriu para a missão. Se você tem recursos, intelecto ou estabilidade, o Evangelho diz: "Isso não é para você se isolar dos problemas da cidade; é para você servir a cidade". A verdadeira conversão sempre leva à hospitalidade radical. O seu "lucro" agora serve ao Reino.
2. Para todos nós (O fim da seleção de pessoas): Nós deixamos de olhar para as pessoas perguntando "o que ela pode me dar?" e passamos a perguntar "como posso servi-la ?". Isso significa que teremos paciência com os "gritadores" e os difíceis. Isso significa que não nos impressionaremos demais com os ricos e poderosos. Nós nos tornamos uma igreja onde o CEO e o estagiário, o doutor e o ex-viciado, encontram a mesma dignidade aos pés da Cruz.
A igreja de Filipos começou pequena, estranha e diversificada. E é exatamente assim que Deus gosta. Talvez você esteja procurando a igreja perfeita, cheia de pessoas iguais a você. Deus te chama para uma igreja real, cheia de pessoas que foram compradas pelo sangue de Cristo e que estão aprendendo a amar quem é diferente.
Na semana que vem, veremos que o custo de amar a escrava levou Paulo para a prisão mais escura de Filipos. Mas veremos também que, para um cristão, até a prisão pode virar um púlpito. Mas por hoje, a pergunta é: Seu coração está aberto como o de Lídia? Você está disposto a deixar Deus quebrar seu ídolo de conforto para alcançar alguém que precisa desesperadamente de liberdade?

Conclusão: A Avareza Emocional vs. O Deus que se Esvaziou

Portanto, ao sairmos daqui hoje, precisamos encarar a verdade sobre nós mesmos. É muito fácil ler este texto e nos imaginarmos como Paulo, o herói libertador. Mas se formos honestos, muitas vezes somos muito mais parecidos com os mercadores de Filipos. Nós amamos o nosso conforto mais do que amamos as pessoas. Nós calculamos quem "merece" nossa atenção baseados no lucro emocional ou no prazer que eles nos dão.
Como mudamos isso? A mudança não vem da culpa, mas da contemplação. Anos depois desses eventos, Paulo escreveria uma carta para essa mesma igreja em Filipos. E nela, ele descreveria Jesus não como alguém que calculou lucros, mas como alguém que "não considerou o ser igual a Deus algo a que se apegar, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo" (Fp 2.6-7).
Jesus é o Deus que aceitou o prejuízo total para que nós tivéssemos o ganho eterno.
Somente quando a visão desse amor sacrificial capturar a sua imaginação é que a sua "avareza emocional" será quebrada. Quando você vê o quanto custou para Ele te amar, você para de cobrar taxas para amar os outros. Você ganha a hospitalidade de Lídia e a coragem de Paulo.
Então, não procure uma igreja onde todos sejam iguais a você. Isso é um clube, não o corpo de Cristo. Procure ser parte de uma igreja onde as barreiras caem, onde o rico e o pobre, o doutor e o oprimido, sentam-se à mesma mesa, não porque têm os mesmos gostos, mas porque foram salvos pelo mesmo Senhor. Vamos ser essa igreja para a nossa cidade.
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