O Rei e a Última Ceia (Mc 14.12-26)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 4 views
Notes
Transcript

O Rei e a Última Ceia (Mc 14.12-26)

Introdução

A narrativa da Última Ceia em Marcos nos traz um essencial quadro teológico do Evangelho. Como observa Robert Stein, Marcos estrutura este relato para mostrar que a morte de Jesus não é um erro trágico, mas um evento divinamente orquestrado. D. A. Carson destaca que a coincidência com a Páscoa judaica não é meramente cronológica, mas tipológica: Jesus está substituindo a antiga comemoração da libertação nacional por uma nova libertação espiritual. Para James Edwards, o detalhismo de Marcos serve para enfatizar a autoridade de Jesus; Ele não é uma vítima passiva, mas o anfitrião soberano que caminha deliberadamente para o sacrifício.

Versículos 12 a 16: O cenário e a ocasião

“No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento” — o cenário agora é o do início das celebrações. “Quando se fazia o sacrifício do cordeiro pascal [...] preparativos para comeres a Páscoa” — tudo indica ser realmente a noite em que se comia a Páscoa judaica. É nesta noite que se desenrola todo o drama que envolve a Última Ceia, o Getsêmani, a traição cometida por Judas, o julgamento perante o Sinédrio e a negação dos discípulos, especialmente a de Pedro.
Esse marco temporal nos lembra que o período da Páscoa não remete somente a uma mentalidade civil de expectativa messiânica de libertação política. A celebração da libertação do povo se dera mediante a morte de um cordeiro que os livrou do anjo da morte (Destruidor) que visitou os egípcios. Para a igreja primitiva, o texto reforçava como a Páscoa havia desenvolvido novos contornos na Igreja, vinculando o descanso dos cristãos à obra redentora de Cristo Jesus. O povo, que teve sua liberdade marcada pelo sinal do sangue do cordeiro após 400 anos de cativeiro, agora contemplaria Deus trazendo liberdade ao Seu povo pelo sangue do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Seria também um sinal isso ocorrer após 400 anos de silêncio profético? O cordeiro sem defeito exigido na Páscoa, avaliado diante dos sacerdotes, é revelado no Cristo que não é constrangido no Templo diante das autoridades, que não tem pecado real diante de seus juízes, que é tido como inocente diante de Pôncio Pilatos, e é sacrificado como a nossa Páscoa.
O texto dos versos 13 a 16 possui uma semelhança notável com a entrada de Jesus em Jerusalém, inclusive no arranjo das palavras. O propósito de Marcos é demonstrar que tudo o que ocorria estava no controle de Jesus. É um destaque marcano realmente notável: Jesus sabia que tudo o que se desenrolava era parte de um projeto. Não à toa, todos os elementos do trecho apontam para a centralidade de Jesus.
É curioso o nível de detalhe: um homem trará o cântaro de água (provavelmente ele era o único, naquela cultura onde essa era uma tarefa comumente feminina). Não é improvável que Jesus tivesse amigos em Jerusalém e acertara o local previamente. A figura do cenáculo será repetida algumas vezes no Evangelho e em Atos — com um cenáculo comum, de propriedade de Maria, mãe de João Marcos, servindo de palco para as reuniões dos discípulos. Alguns conjecturam que aqui se trata da residência do autor do Evangelho, que sutilmente inclui esse local no registro e, posteriormente, fará uma referência constrangedora a si mesmo.

Versículos 17 a 21: A indicação do traidor

A Páscoa era celebrada no dia 15 de Nisã, a partir do cair da tarde. Era uma refeição familiar, inicialmente nas residências dos judeus e, posteriormente, centralizada em Jerusalém (Dt 16.2), como nesta ocasião. Aparentemente, Jesus tem diante de si os doze apóstolos e outros discípulos, talvez seus familiares (não faria sentido ele dizer que o traidor é "um dos doze" se somente os doze estivessem presentes).
A ênfase de Marcos é demonstrar que o traidor era alguém do círculo íntimo de Jesus — “que come comigo”; “que mete comigo a mão no prato”, como está escrito no Salmo 41.9. Jesus não é tomado de surpresa pela trama de Judas descrita nos versos 10 e 11. Tudo isto fora designado por Deus na eternidade. Isso não significa que Judas não teve escolha, pois “ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido”. Assim como na libertação dos israelitas do Egito em vista do endurecido Faraó, o Filho do Homem será traído pelo endurecido Judas. Esta indicação da traição forma um "sanduíche marcano" com a negação dos discípulos (Mc 14.26-31), enfatizando a entrega sem reservas de Cristo em contraste com a infidelidade dos seus amigos mais íntimos.

Versículos 22 a 26: A Ceia do Senhor

A celebração da Páscoa se desenvolve com os elementos habituais: ervas amargas, água salgada, molho de frutas, pães sem fermento, vinho, cordeiro, ação de graças e hinos. O ponto central é que Jesus traz algo que torna aquela refeição ainda mais particular: Ele toma o pão e o vinho como símbolos de uma Nova Aliança.
Acerca do pão, Jesus o parte e ordena aos seus discípulos que comam. Cada um devia comer do pão, que era o Seu corpo. Algumas interpretações acerca do significado de “isto é o meu corpo” acabam perdendo o sentido natural da expressão, que indica claramente que o pão simbolizava o corpo de Jesus (da mesma forma que Jesus dizer “Eu sou a porta” não significa que Ele seja um objeto de madeira). O ato correspondia a um tipo de pertencimento a Jesus, sendo abençoador a quem comia, mas sem uma transformação física do elemento acima do significado teológico.
Sobre o cálice de vinho, da mesma forma, todos beberam dele. Todos os discípulos têm parte igual com Jesus. Diferentemente do pão, há uma palavra interpretativa acerca do cálice: ele firma uma nova aliança. Assim como em Êxodo 24.6-8, o sangue da aspersão que seria derramado no madeiro é aquele entregue em favor de seus discípulos. O sangue, símbolo da vida (Lv 17.14), é o sinal da aliança em Êxodo e, aqui, de uma nova aliança, onde o próprio Filho de Deus entrega Sua vida para o perdão de nossos pecados. O termo “derramado” ($ἐκχυννόμενον$, ekchynnomenon) remete diretamente aos sacrifícios veterotestamentários (Levítico 4.7, 18, 25, 30, 34).
A entrega é de sobremodo constrangedora para nós diante do amor de aliança demonstrado por Cristo. Na mesma noite em que Ele aponta o traidor e em que seria traído, Ele mesmo se apresenta como Aquele que serve a Si mesmo para os Seus amigos. É um amor não de correspondência, mas de aliança, em que primeiro Ele nos ama para que possamos amá-Lo!
Por fim, Marcos relaciona o aspecto de memória contínua da Última Ceia a um aspecto escatológico. Essa memória seria cultivada continuamente, pois Cristo um dia voltaria a beber do fruto da videira novo, no Reino de Deus, no banquete do Cordeiro (Is 25.6-9; Ap 19.9). Embora tenha um teor extremamente dramático, essa é uma declaração positiva sobre o futuro: o sacrifício de Cristo é o estabelecimento de uma esperança viva e alegre para aqueles que aguardam aquele encontro. Como de costume, a Páscoa foi finalizada com o canto dos salmos de Hallel (Sl 114-118).

Aplicações Práticas

Calibrando o Olhar: A Paixão como Projeto, não Acidente: Nosso olhar sobre a Paixão deve ser calibrado pelo Evangelho para evitar dois erros: o de querer "invadir a cena" para resolver o sofrimento de Jesus ou o de ver Cristo apenas como um refém das circunstâncias. O detalhismo de Marcos prova que a cruz não é um desastre, mas um projeto. Jesus não é uma vítima; Ele é o arquiteto da redenção. Conforme João 10:18, Ele dá a Sua vida voluntariamente. Olhar para a cruz é contemplar a soberania de um Rei que caminha deliberadamente para o sacrifício.
Soberania e Responsabilidade: Uma Tensão Humana: A narrativa revela que a Soberania de Deus e a Responsabilidade Humana são tensões nossas, não das Escrituras. O fato de a traição estar "designada" não anula a culpa moral de Judas. Deus orquestra a história sem violar a agência humana, e o homem escolhe sem surpreender a Deus. Como em Atos 2:23, Jesus foi entregue pelo plano de Deus, mas crucificado por mãos ímpias. Devemos descansar na soberania divina sem negligenciar a seriedade de nossas escolhas.
A Redenção como Demonstração do Radical Amor de Cristo: A obra de Cristo é um amor de aliança que se manifesta no momento de maior infidelidade humana. No dia da traição, no dia da negação, na agonia do Getsêmani e na véspera de julgamentos injustos, espancamentos e vergonha, Jesus serve a Si mesmo aos Seus amigos. Como diz Romanos 5:8, Ele prova Seu amor morrendo por nós sendo nós ainda pecadores. É um amor que não espera correspondência para se entregar.
Viver na Tensão da Esperança Escatológica: A Ceia calibra nossa memória e nossa expectativa. Ao comermos, olhamos para trás, para o sangue derramado, mas também para frente, para a promessa do banquete no Reino de Deus. Segundo 1 Coríntios 11:26, anunciamos Sua morte "até que Ele venha". Isso transforma nossa dor presente em uma esperança viva e alegre por aquele encontro final.
O Cordeiro que Silencia o Medo: A substituição do cordeiro pascal por Cristo revela que o descanso do cristão não vem de vitórias políticas, mas do sangue que afasta o "Destruidor". Se o Cordeiro sem defeito foi revelado após 400 anos de silêncio, não há silêncio de Deus hoje que anule Sua provisão. Se nosso coração olhar para o lado e pensar “Deus, onde estás?”, o sacrifício de Cristo é a resposta definitiva de Deus a todos os nossos cativeiros (1Pedro 1:18-19).
SDG
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.