OS LIMPOS DE CORAÇÃO
O SERMÃO DO MONTE • Sermon • Submitted • Presented
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INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
A pureza espiritual não tem a ver com a performance espiritual, menos ainda com o comportamentalismo. As ações externas podem impressionar homens, mas Deus continua sendo aquele que conhece os corações, o que realmente se manifesta no interior do ser humano. Os fariseus tinha aparência religiosa e fama de pessoas piedosas, mas Jesus os chamou de sepulcro caiado.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!
Me parece que Mateus capta a intencionalidade de Jesus ao ensinar sobre as bem-aventuranças. E Mateus organiza de maneira que elas possam se conectar de uma maneira muito interessante. Lucas cita quatro bem-aventuranças (pobres, os que tem fome, os que choram e os que são perseguidos por causa do Filho do Homem) e todas aparentemente estão muito conectadas a um aspecto social, mas na verdade representa a espiritualidade cristã que não é essencialmente apegada às riquezas mundanas nem ao conforto pessoal e material e não se resume a uma conquista e prosperidade no sentido terreno, tanto que no contexto Jesus vai condenar os que o trocam pelo sucesso no sentido carnal e mundano em Lucas 6.24-26.
Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.
Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar.
Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas.
Podemos ver que o Senhor Jesus aqui em Mateus está falando de oito bem-aventuranças (pobreza de espírito, choro espiritual, mansidão, fome e sede de justiça ou santidade, misericórdia, limpos de coração, pacificação e perseguição por causa da justiça ou santidade) e me parece mesmo que quarta e a oitava bem-aventurança se interconectam, assim como a primeira com a quinta, a segunda e a sexta e por aí vai. Somente os pobres de espírito podem ser misericordiosos; os de coração quebrantado podem ser limpos de coração, os mansos podem ser pacificadores e os que tem fome e sede de justiça/santidade são perseguidos por causa da justiça/santidade.
É como subir a um monte, chegar ao pico e depois descer o monte do outro lado. Tudo é uma coisa só e você caminha nos dois lados do mesmo lugar. O pico do monte das bem-aventuranças é Mateus 5.6 “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”. O início da subida é Mateus 5.3 “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” e o fim da descida, onde podemos completar a carreira cristã é Mateus 5.10 “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.”.
Precisamos agora compreender algumas palavras importantes nesta bem-aventurança, e a primeira delas é a mais fundamental: a palavra “coração”
“CORAÇÃO”
“CORAÇÃO”
O cristianismo possui doutrina? Sim! Dogmas? Também. Temos conhecimento, sabedoria e até um conteúdo mais filosófico, psicológico e político. Podemos ver na Bíblia uma série de estruturas do saber cristão, mas a fé cristã compreende algo maior que seja “transformação de vida”. Nosso Cristo não veio apenas para que tivéssemos uma vida material ou emocional melhor; ele veio para nos fazer novas criaturas, pessoas renovadas pelo Espírito Santo para crescer em um novo caráter, que é o do próprio Senhor Jesus.
O coração é no Antigo Testamento o nosso entendimento. Provérbios 4.20-27
Filho meu, atenta para as minhas palavras;
aos meus ensinamentos inclina os ouvidos.
Não os deixes apartar-se dos teus olhos;
guarda-os no mais íntimo do teu coração.
Porque são vida para quem os acha
e saúde, para o seu corpo.
Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração,
porque dele procedem as fontes da vida.
Desvia de ti a falsidade da boca
e afasta de ti a perversidade dos lábios.
Os teus olhos olhem direito,
e as tuas pálpebras, diretamente diante de ti.
Pondera a vereda de teus pés,
e todos os teus caminhos sejam retos.
Não declines nem para a direita nem para a esquerda;
retira o teu pé do mal.
No Novo Testamento, o coração também é o entendimento (lembre-se que a mentalidade de Jesus e dos apóstolos é judaica), mas a visão se amplia para a santificação dos desejos, das intenções e motivações — o que acaba resultando em mudança de prática. Não é apenas a aparência de santidade, mas a santidade no íntimo do interior do discípulo — esta á a obra do Espírito Santo através do Evangelho. Somos recebidos do jeito que somos no reino de Deus, mas as nossas vestes são transformadas e agora, revestidos de Cristo — o novo homem — devemos crescer na semelhança com o nosso Salvador e crescer em boas obras, em virtudes morais e nos dons espirituais e na prática da santidade que é o manifestar o fruto do Espírito de Gálatas 5.22-25
Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.
Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.
O Senhor está nos ensinando a buscar a aprovação de Deus através de uma fé que olha para o caráter santo e puro de Cristo e busca imitá-lo. E tudo começa quando unimos a segunda bem-aventurança que é ser quebrantado de coração (Mateus 5.4 “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”). Os que choram porque olham para si mesmos e percebem a profundidade de própria pecaminosidade e a insistência do próprio coração em continuar alimentando maus desejos são aqueles que podem de fato buscar a limpeza do próprio coração por meio da ação do Espírito Santo que utiliza as Escrituras para moldar quem somos e nos tornar quem fomos regenerados em Jesus Cristo para ser. Deixamos a posição de escravos do pecado e assumimos o lugar de filhos de Deus porque 1) Cristo morreu por nós e ressuscitou para nos justificar diante de Deus Pai e 2) o Espírito Santo nos foi entregue como selo para a redenção plena futura e é Deus em nós para nos tornar cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus.
“LIMPOS”
“LIMPOS”
Quero citar o pastor Martin Lloyd Jones:
Quiçá possamos expressar mais perfeitamente o ponto afirmando que ser limpo de coração significa ser semelhante ao próprio Senhor Jesus Cristo. Ele “... não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca” (I Pedro 2:22) – perfeito, sem mácula, puro e íntegro. Analisando um pouco mais a questão, podemos dizer que ser limpo de coração aponta para o fato que somos donos de um amor não dividido, considerando Deus o nosso maior bem, um amor que só se preocupa em valorizar ao Senhor. Em outras palavras, ter um “coração limpo” significa que observamos o primeiro e maior dos mandamentos: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Deuteronômio 6:5). Reduzindo a questão a termos ainda mais simples, ter o coração limpo quer dizer que vivemos para a glória de Deus em todos os aspectos da vida, e que esse deve ser o supremo alvo de nossa existência. Significa que desejamos Deus, que desejamos conhecê-Lo, que desejamos amá-Lo e servi-Lo. E nosso Senhor assevera aqui que somente aqueles que têm essa característica verão a Deus. Essa é a razão pela qual eu já havia dito que encontramos aqui uma das mais solenizadoras declarações das Santas Escrituras. Há um certo paralelo dessa ideia na epístola aos Hebreus, onde se lê acerca da “... santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12:14). Não posso entender as pessoas que fazem objeção à pregação da santidade (não me refiro, contudo, às teorias a respeito da santidade; mas aludo à pregação da própria santificação, no sentido neotestamentário), porquanto encontramos essa clara e insofismável declaração na Bíblia: sem a santificação, “ninguém verá o Senhor”. Ora, temos estado a estudar o que essa santificação realmente significa. Pergunto uma vez mais, por conseguinte, se existe pior insensatez do que imaginar que alguém possa fazer de si mesmo um crente. O objetivo inteiro do cristianismo é proporcionar-nos a visão de Deus, é levar-nos a ver Deus.
Tudo quanto você e eu podemos fazer é tomar consciência da negridão de nossos próprios corações, conforme eles são por natureza; ao assim fazermos, outrossim, que nos unamos a Davi, em sua oração: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável” (Salmos 51:10). E também nos aliaremos a Joseph Hart em seu poema:
Dás à alma e ao coração
Vida nova e integridade.
Vem de Ti a recriação,
Em limpeza e santidade.
Você pode começar a tentar purificar o seu coração desde este momento, mas no fim de seus dias o seu coração continuará tão negro quanto é agora, e talvez mais negro ainda. Não! Somente Deus pode fazer essa limpeza no homem interior; mas, graças Lhe sejam dadas, Ele prometeu que o faria! A única maneira de termos um coração limpo é que o Espírito Santo venha residir em nós, a fim de purificar-nos. Somente a Sua presença e a Sua operação no íntimo podem limpar-nos o coração. Ele faz isso operando em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). A confiança de Paulo era que “... aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Essa é, por semelhante modo, a minha única esperança. Estou nas mãos do Senhor, e o processo de meu aperfeiçoamento está em andamento. Deus está tratando comigo, e meu coração está sendo purificado. Deus resolveu realizar esse feito, e por isso mesmo tenho a certeza de que chegará o dia em que serei uma pessoa sem falha nenhuma, inculpável, sem mancha e sem ruga, sem qualquer tipo de contaminação. Terei permissão de entrar na Cidade Santa pelas suas portas, ao passo que tudo quanto é imundo ficará do lado de fora, e isso exclusivamente pelo fato que Deus é quem está realizando tal coisa.
Claro que não estamos passivos no processo de santificação. Temos responsabilidades de buscar a Deus, e o Espírito Santo já nos habita para nos auxiliar neste árduo trabalho.
Tudo quanto tenho procurado transmitir neste sermão pode ser sumariado como segue. Você haverá de ver a Deus! Você não concorda que essa é a coisa mais fenomenal, mais momentosa e mais tremenda que jamais lhe poderia ser dita? O seu supremo objetivo, o seu desejo e a sua grande ambição é ver a Deus? Se assim lhe acontece, e se você crê no Evangelho, então você também deve concordar com João, o qual disse: “E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (I João 3:3). O tempo urge; você e eu não dispomos de muito tempo para nos prepararmos devidamente. Já se aproxima a data da Grande Recepção; em certo sentido, o cerimonial já foi todo detalhado; você e eu estamos tão somente esperando pela audiência com o Grande Rei. Você está na expectação dessas maravilhas? Está se preparando para elas? Você não se sente acanhado, neste momento, pelo fato que tem desperdiçado tanto do seu tempo em coisas que não somente de nada lhe servirão naquela gloriosa ocasião, mas acerca das quais você se sentirá profundamente envergonhado? Você e eu, criaturas sujeitas ao desgaste do tempo, haveremos de ver Deus, e então nos aqueceremos sob o pálio de Sua eterna glória, para todo o sempre. A nossa única e grande confiança é que Ele está operando em nós, é que Ele nos está preparando para todas essas maravilhas. Contudo, compete-nos trabalhar e purificar-nos, “assim como ele é puro”.
