O PROBLEMA DA IGREJA DE CORINTO

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INTRODUÇÃO

Exortação à unidade
¹⁰ Irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, peço-lhes que todos estejam de acordo naquilo que falam e que não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito.
¹¹ Pois, meus irmãos, fui informado a respeito de vocês por alguns membros da casa de Cloe de que há brigas entre vocês.
¹² Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: "Eu sou de Paulo", "Eu sou de Apolo", "Eu sou de Cefas", "Eu sou de Cristo".
¹³ Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?
¹⁴ Dou graças a Deus por não ter batizado nenhum de vocês, exceto Crispo e Gaio,
¹⁵ para que ninguém diga que vocês foram batizados em meu nome.
¹⁶ Batizei também a casa de Estéfanas. Além destes, não me lembro se batizei algum outro.
¹⁷ Afinal, Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo.
1 Coríntios 1:10-17

INÍCIO DO SERMÃO

As divisões as quais um crente em Jesus participa são sinônimo de que, em seu coração, o ódio [ou pior, a indiferença ao outro] se aqueceu e o amor se esfriou. Gente amada, pense comigo: e se todos nós decidíssemos não mais nos amar e buscarmos aqui um ambiente de guerra? Pode ser também em sua casa. Imagina a sua casa toda dividida em grupos rivais: o pai está contra o filho, a mãe contra a filha, a irmã contra o irmão, o irmão contra a irmã. O pai se alia com a filha para ficarem contra o seu próprio filho, o próprio irmão dela. A mãe se alia com o filho para ficar contra a sua própria filha, a própria irmã dele. Imagina só no trabalho você ter um aliado e dois inimigos, ocupando o mesmo espaço no escritório ou setor de trabalho? Imagina você competindo, brigando, se estressando e se enchendo de ódio na empresa, no trânsito, nas redes sociais, em casa, na vizinhança e, de uma maneira mais especial, na igreja. Não importa aonde, o que importa é que o outro virou um inimigo a ser derrotado. Imagina passar a vida pensando e falando coisas do tipo: “Viu o culto de domingo passado como foi? Que que foi aquilo? E aquela irmã? Muito sem noção. Olha o horário do culto começar! Olha o horário do culto acabar! Acabou a reverência! Mas pra quê esse zelo excessivo pela reverência no culto? Assim daqui a pouco só teremos idosos na igreja! E esses jovens? Quando vão ter compromisso com Deus? O mundo está entrando na igreja através desses jovens que não querem nada com nada. E esses idosos? Quando vão deixar de serem carrancudos e extremamente críticos? Reclamam de tudo e só querem a igreja do jeito deles!”
Guardadas as proporções, assim era a igreja de Corinto. O apóstolo perguntou a eles: Será que Cristo está dividido? Hoje vamos falar sobre o grande problema da igreja de Corinto.
Vamos direto ao texto bíblico para ouvirmos o que o Senhor tem a nos dizer por Sua Palavra nesta noite.

EXPOSIÇÃO DO VERSÍCULOS

1.10 (¹⁰ Irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, peço-lhes que todos estejam de acordo naquilo que falam e que não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito.)

A questão principal aqui não é que a igreja tem facções. A questão maior aqui é a visão que a igreja tem do Evangelho. É o Evangelho que inclui os inimigos de Deus na família de Deus. É o Evangelho que faz de pessoas de diversas famílias biológicas e consanguíneas diferentes viverem num ambiente onde todos se tratam com os pronomes “irmão” e “irmã”. E isso não é uma mera formalidade religiosa. Não se trata simplesmente de um pronome de tratamento. Em Cristo Jesus e pela sua cruz e posterior ressurreição, eu consigo olhar para o lado e ver o diferente como parte de quem sou. Paulo não se dirige a estranhos, nem a inimigos, mas a IRMÃOS.
Nós veremos ao longo das exposições de 1Coríntios que um dos maiores problemas da igreja de Corinto era com a autoridade do apóstolo que plantou essa igreja, mas aqui a gente percebe que Paulo não olha para seus liderados de cima para baixo, mas com toda humildade e ele faz uma “súplica”. No original do grego, a ideia aqui é de um pedido insistente, praticamente um “ eu imploro”. E não, Paulo não está inseguro de sua posição no Reino de Deus. Ele apenas está buscando demonstrar que sua autoridade precisa criar vida nas ovelhas de Cristo e não gerar um peso moral sobre as pessoas. Ele não é o maior. Eles não são os maiores. Cristo é o maior!
O pedido fervoroso de Paulo não era sobre algo para o seu benefício, mas, sim, para o benefício da causa do Evangelho e da saúde espiritual do povo de Deus. Paulo não está pensando em si. Está pensando na glória de Cristo e na edificação do seu corpo, que é a Igreja. O que está em jogo aqui não é apenas o pecado dos coríntios (as brigas, guerras e divisões), mas o pecado que tira a legitimidade da pregação do Evangelho e enfraquece o cumprimento da missão da Igreja. O que está em jogo é o pecado que silencia a voz do Evangelho. Cristo morreu por nós, mas quando abrimos mão do amor fraternal e desejamos nos colocar contra o nosso irmão, é como se Cristo tivesse morrido em vão.
Gordon Fee vai dizer que Paulo os exorta como “irmãos e irmãs” a conformarem seu comportamento ao evangelho, não como lei, mas como reação à graça que está em Cristo.

1.11 (¹¹ Pois, meus irmãos, fui informado a respeito de vocês por alguns membros da casa de Cloe de que há brigas entre vocês.)

A igreja enviou uma carta ao apóstolo através de Estéfanas, Fortunato e Acaico (16.15-17) e Paulo recebeu a visita de “alguns membros da casa de Cloé” que levaram informações que o apóstolo buscou responder e tratar em carta dos capítulos 1 a 6 — já o restante dos capítulos são respostas paulinas a questões e problemas relatados na carta que os coríntios enviaram. Não podemos achar que a questão da divisão é a coisa mais grave que a igreja estava enfrentando, nem que tudo na carta gira em torno deste problema que é relatado nesses versículos que lemos, mas devemos perceber que Paulo, mesmo sofrendo com uma certa oposição direta por parte de alguns da igreja, ele vai tratar dos problemas e ele recebe informações de pessoas DE FORA da igreja local, o que aumenta a credibilidade porque foram pessoas que certamente viram pessoalmente a coisa dando problema e não são pessoas que participavam dessas separações por preferência em torno dos líderes da igreja.
Fee vai dizer que o mais provável é que Cloé fosse uma asiática rica — se era cristã ou não, é algo impossível de saber — cujos interesses comerciais faziam seus representantes viajar entre Éfeso e Corinto. Alguns deles haviam se tornado crentes e eram membros da igreja em Éfeso. Tendo estado em Corinto a negócios, visitaram a comunidade cristã ali e, ao voltarem a Éfeso, passaram para Paulo muitas informações sobre a situação real.
Há uma possibilidade de que as três pessoas que levaram a carta para Paulo em Éfeso tenham também confirmado as informações, mas isso é apenas uma suposição. Certamente, essas três pessoas eram respeitadas pela igreja e tinham uma posição de liderança. Com isso, quando Paulo (mesmo sendo o principal alvo da oposição por parte de alguns da igreja) trata da divisão que estava começando a crescer no seio da igreja de Corinto, ele não usa de fofoca ou informação de alguém envolvido no problema, mas de gente que não tinha nenhuma relação com o que estava acontecendo ali. Isso é importante porque, quando ouvimos sobre um problema que envolve duas partes, ou o líder ou membro ouve as duas partes ou se busca testemunhas, para que não corra o risco de se fazer um juízo parcial, levando em conta apenas um dos lados envolvidos (ou seja, tomar partido de um contra o outro). O certo é ouvir e levar em consideração o que pessoas de fora da situação tem a dizer, para que o juízo da causa seja feito no princípio da impessoalidade e imparcialidade. E Paulo então foi muito sábio ao relatar o que ouviu, mas principalmente DE QUEM OUVIU.
Só que ele precisava deixar as coisas mais claras. “Há brigas entre nós? Como assim, apóstolo?”, poderiam dizer os coríntios.

1.12 (¹² Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: "Eu sou de Paulo", "Eu sou de Apolo", "Eu sou de Cefas", "Eu sou de Cristo".)

Olhando o contexto da carta, e vendo o que ele vai dizer no capítulo 3.22-23 e no início do capítulo 4, vemos que o problema dos coríntios era dar a homens uma honra que deveria ser dada apenas ao Senhor Jesus Cristo. Paulo vai afirmar em 3.23 que todos os coríntios são de Cristo, e Cristo é de Deus. Vai dizer ainda que tudo pertence a eles, seja Paulo, Apolo ou Cefas no cap. 3.22, e isso nos mostra que o problema era a divisão da igreja em torno das preferências por líderes específicos. Paulo fundou a igreja (podemos ver este relato em Atos 18.1-11), sendo ele o primeiro a pregar o evangelho aos coríntios, de modo que ele mesmo vai se considerar o pai espiritual deles no cap. 4.15. Apolo vinha da renomada cidade de Alexandria — um centro acadêmico onde fez seus estudos. Possuía um brilhante conhecimento das Escrituras e, ainda que ensinasse sobre Jesus, precisou aprender com mais exatidão, de Priscila e Áquila em Éfeso, o caminho da salvação (Atos 18.24-26). Se tornou sucessor de Paulo em Corinto e era um orador eloquente (Atos 18.24-28). Algumas pessoas da igreja de corinto ficaram impressionadas com esse orador, especialmente porque consideravam Paulo uma pessoa fraca, onde sua apresentação oral não primava pela eloquência.
1 Corinthians 2:1 ARA
Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria.
Do ponto de vista humano, Kistemaker vai dizer que Paulo estava diante de um rival que o havia superado no púlpito em Corinto. Mas tanto Paulo como Apolo se recusavam a se verem como rivais. Eram cooperadores na proclamação do evangelho de Cristo.
E sobre Cefas (Simão Pedro), não temos como comprovar que ele tivesse visitado Corinto na ausência de Paulo. É provável que tenha estado ali. Supomos que os coríntios conheciam a Pedro pessoalmente, pois Paulo menciona que Pedro era acompanhado por sua esposa nas viagens missionárias (9.5). Pedro, conhecido como cabeça da igreja e porta-voz dos apóstolos, era altamente respeitado. Paulo se refere a Pedro como Cefas e, ao que parece, preferia usar o nome aramaico dele em vez da versão grega, Petros. Em suas epístolas, se refere duas vezes a Pedro (Gl 2.7,8) contra oito vezes a Cefas (no grego — 1.12; 3.22; 9.5; 15.5; Gl 1.18; 2.9, 11, 14; ver Jo 1.42 para a mesma construção). Pedro e Paulo se respeitavam mutuamente, de modo que podemos ter certeza de que também Pedro abominaria ter seu nome associado a uma facção em Corinto.
Cristo aparece por último, e podemos perceber que Paulo fez isso intencionalmente para se colocar como o menor dentre esses líderes. Ele considerou Apolo superior a ele e Cefas como um apóstolo maior e mais relevante, tendo assim Cristo como o supremo Mestre. Calvino vai dizer:
“Portanto, eis aqui a fonte de todos os males, eis aqui a mais danosa de todas as enfermidades, eis aqui a peçonha mais letal em todas as igrejas: quando os ministros se devotam mais a seus próprios interesses do que aos interesses de Cristo. Em suma, a unidade da Igreja consiste primordialmente nesta única coisa: que todos nós dependemos unicamente de Cristo, e que, portanto, os homens sejam tidos e permaneçam em posição inferior, para que nada venha a prejudicar Cristo, um mínimo sequer, em sua posição de preeminência.”
Não acredito que havia um partidarismo real e consolidado na igreja de Corinto naquele tempo. O que podemos perceber no estilo literário do texto e considerando o contexto de toda a carta, é que estava ali começando a surgir um movimento de partidarismo, onde a igreja estava se dividindo por conta de preferências pessoais em relação aos líderes que eles conheciam e que lhes ensinavam a Palavra de Deus. Mas podemos ver também que a raiz da divisão é que o Tiago vai denunciar profeticamente em sua carta.
James 4:1–3 ARA
De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.
Veja bem aqui. As guerras, segundo Tiago, surgem não de fora, mas de dentro. Dos “prazeres” (em outras versões, “cobiças” ou “desejos” ou “paixões”) que habitam no coração do sujeito. Marcos 7.21–23 vai nos dizer: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.” A igreja perde a unidade quando o pecado dentro do coração é posto para fora em forma de maus desígnios, avareza, malícias, inveja, soberba e loucura. Ou seja, o grande problema da igreja de Corinto é que eles perderam a consciência da natureza do Evangelho.
Cristo morreu para nos libertar de uma vida escravizada a paixões ímpias e que promovem inimizades, contendas e ódio. O desejo de vencer o debate, de fazer a própria opinião prevalecer, o pensamento de que só eu tenho a razão sobre as coisas e coisas semelhantes são próprias daqueles que ainda não amadureceram o bastante para praticar o fruto do Espírito Santo que é 1) amor, 2) alegria, 3) paz, 4) paciência, 5) amabilidade, 6) bondade, 7) fidelidade ou fé, 8) mansidão e 9) domínio próprio. E como uma igreja cheia pode ser cheia de dons e vazia do fruto do Espírito? 1Coríntios nos mostra que isso é plenamente possível.
Gordon Fee vai contribuir para esta reflexão em seu comentário exegético: “Como Munck observou com perspicácia: “No fundo é apenas contra a palavra “eu”, nas frases ‘eu pertenço a Paulo’ etc., que ele argumenta”. Conforme Munck ainda sugere, a igreja toda caiu vítima de uma paixão pelo debate, em que os vários membros se exaltam (“vangloriam-se”) supondo que sua sabedoria veio de um de seus renomados líderes, de alguém próximo ou bem conhecido deles, ou em alguns casos até mesmo do próprio Cristo.”
Sabine Baring-Gould escreveu o lindo hino “Avante, Soldados Cristãos” e, comparando a Igreja com um exército poderoso, disse:
Irmãos, estamos marchando
Onde os santos marcharam;
Nós não estamos divididos,
Somos todos um só corpo,
Um, na esperança e na doutrina,
Um, na caridade.
Mas as incontáveis divisões na igreja fazem com que o cristão se lamente. Além dos conflitos geográficos, linguísticos, culturais e até geracionais, disputas dentro da igreja tem sido a causa de muitos cismas. Segundo João Calvino:
“Onde divisões religiosas são abundantes, não tarda a acontecer que o que está na mente das pessoas logo estoure em conflito real. Pois, enquanto nada é mais efetivo para nos congregar e nenhuma outra coisa ajuda mais a unir nossas mentes e mantê-las em paz do que a harmonia religiosa, se surge discordância de alguma forma com respeito à religião, a consequência inevitável é que os homens rapidamente se disponham a fazer guerra, não havendo outra área de disputas mais acirradas”.
Vamos ao versículo 13 para compreendermos como Paulo trata deste problema.

1.13 (¹³ Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?)

“Cristo está dividido?”
Paulo chamou a atenção de seus leitores para Cristo com a pergunta quanto a Cristo estar dividido. Paulo respondeu não a essa pergunta, mas os coríntios aparentemente disseram sim. Essas pessoas pensaram que poderiam dividir o Cristo. Foi Cristo dividido no sentido de que foi cortado em pedaços? G. G. Findlay, em seu comentário sobre esse texto, não pensa assim. Para ele, “dividir” aqui, “indica distribuição, não desmembramento”. Mas é impossível distribuir Cristo, pois ele é o Cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo. E o corpo deve honra sua cabeça. de sua cabeça os membros recebem sustento e direção. Com a pergunta “Cristo está dividido?”, Paulo fez a atenção recair sobre a cabeça do corpo, honrou a Cristo e promoveu a unidade da Igreja.
Eu preciso citar a vocês também o comentário de João Calvino sobre este versículo: “Gloriarmo-nos em seu nome em meio a desavenças e partidos é rasgá-lo em pedaços. Na verdade, tal coisa não pode ser feita, pois ele jamais perderá a unidade e a harmonia, porque “ele não pode negar a si mesmo” (2Tm 2.13). Paulo, pois, colocando esta situação absurda diante dos coríntios, se propõe a levá-los a entender que estavam alienados de Cristo em razão de suas divisões. Pois Cristo só reina em nosso meio quando ele constitui os elos que nos ligam a ele numa unidade sacra e inviolável.”
“Será que Paulo foi crucificado por vocês?”
Por que iríamos nos dividir por conta de pessoas que não morreram para nos salvar dos nossos pecados e nos tornar um povo uno (único), santo, universal e apostólico? Quem derrubou a barreira da inimizade entre homem e mulher, rico e pobre, esquerda e direita, pais e filhos, patrão e empregados, judeus e não judeus (gentios)? Foi algum servo de Cristo ou o próprio Cristo Jesus, o filho de Deus? Por que odiar alguém por quem Cristo derramou sangue na cruz do Calvário? Essas perguntas retóricas de Paulo, onde a resposta natural e lógica é um sonoro NÃO, servem como espelho para a nossa alma em relação aos nossos relacionamentos, seja na igreja local ou em qualquer outra esfera da sociedade.
Quem foi salvo por Jesus não tem o direito de odiar ninguém. Não estamos neste mundo para dividir o mundo entre bons e maus. Em Cristo, não cabe espaço para ideologias políticas, disputas teológicas, tensões em torno de opiniões divergentes. Em Cristo, a gente aprende a lembrar sempre que o nosso amor nele importa mais do que as fraquezas dos nossos irmãos — e assim o evangelho nos chamar a pacientemente lidar com aqueles que pensam e são diferentes de nós.
“Será que vocês foram batizados em nome de Paulo?”
Gordon Fee explica que as perguntas de Paulo têm o objetivo de mostrar o absurdo dos slogans usados pelos coríntios, que estavam dividindo a igreja ao usar o nome de simples homens. Quando alguém diz “eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo” ou “eu sou de Pedro”, acaba colocando Cristo no mesmo nível desses líderes humanos. Paulo, então, usa perguntas fortes para expor esse erro: por acaso Paulo foi crucificado por vocês? Ou vocês foram batizados para dentro do nome de Paulo? A resposta óbvia é não, e justamente aí está a força do argumento.
O ponto central está no significado do batismo. Os primeiros cristãos não entendiam o batismo apenas como algo feito “em nome de Jesus”, como se o nome fosse apenas um rótulo colocado sobre a pessoa. O batismo significava entrar numa relação profunda e permanente com aquele para dentro de cujo nome a pessoa foi batizada. Por isso, só Cristo poderia ter sido crucificado em favor deles e somente em Cristo eles foram batizados. Ao usar o próprio nome, Paulo faz um argumento claro e intencional para derrubar as divisões da igreja, mostrando que o mesmo vale para qualquer líder humano. Ao final, ao mencionar o batismo, Paulo também prepara o caminho para reafirmar o evangelho e o seu papel não como centro da fé, mas como instrumento na proclamação de Cristo.

1.14-16 (“¹⁴ Dou graças a Deus por não ter batizado nenhum de vocês, exceto Crispo e Gaio, ¹⁵ para que ninguém diga que vocês foram batizados em meu nome.¹⁶ Batizei também a casa de Estéfanas. Além destes, não me lembro se batizei algum outro.”)

Nesses versículos, Paulo não está diminuindo a importância do batismo nem tentando ensinar uma teologia completa sobre esse tema. O que ele faz é reagir ao absurdo que acabou de denunciar: a ideia de alguém ser batizado “para dentro do” nome de um homem. Por isso, ele diz que é grato a Deus por ter batizado poucas pessoas em Corinto. Esse fato, embora não tenha sido planejado, acaba jogando a favor dele, pois impede que alguém diga que foi batizado nele e, assim, forme um grupo ou uma espécie de seita em torno do seu nome. Talvez Paulo já desconfiasse da capacidade dos coríntios de distorcer até coisas boas, mas também é possível que ele estivesse aproveitando o momento para colocar o batismo no seu devido lugar, especialmente em relação à prioridade da proclamação do evangelho.
As exceções que Paulo menciona têm explicação histórica. Crispo, provavelmente o chefe da sinagoga citado em Atos 18, se converteu logo no início da obra em Corinto. Gaio, ao que tudo indica, é o mesmo mencionado em Romanos como hospedeiro de Paulo e da igreja, o que sugere que era um homem de posses e não fazia parte da maioria simples da comunidade. Depois, Paulo se lembra de que também batizou a casa de Estéfanas, uma lembrança quase espontânea que mostra como a carta nasce de situações concretas. Estéfanas e sua família foram os primeiros convertidos da região e parecem ter exercido liderança na igreja, liderança essa que Paulo ainda aprova. Ao dizer que não se lembra de ter batizado mais ninguém, Paulo deixa claro que esse detalhe nunca foi central para ele, ainda que para os coríntios isso tivesse se tornado motivo de disputa.
A mera disputa em torno dos feitos dos homens reflete uma visão equivocada do evangelho; logo, uma visão equivocada de si mesmo. Quem enxerga o seu próprio valor através de padrões humanos (quem eu sigo? quem me batizou? com quem eu aprendo? quem me influencia?) e não por meio da obra consumada por Cristo na cruz, está demonstrando que não entendeu de fato o que é o evangelho. Segundo Mark Dever, o evangelho ou as boas novas são “a verdade o Deus único e verdadeiro, que é santo, nos criou à sua imagem para que o conheçamos. Mas pecamos e nos separamos dele. Em seu grande amor, Deus se tornou homem em Jesus, viveu uma vida perfeita e morreu na cruz, cumprindo em si mesmo a lei e tomando sobre si mesmo a punição pelos pecados de todos os que se converteriam de seus pecados e creriam nele. Ele carregou todos esses pecados como um sacrifício. Ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu e apresentou sua obra completa a seu Pai celestial, que aceitou o sacrifício de Cristo, declarando, assim, esgotada a sua ira contra todo o seu próprio povo. Agora, Deus envia o seu Espírito para nos chamar, por meio desta mensagem de arrependimento e fé, a crer somente em Cristo para o nosso perdão. Se nos arrependemos de nossos pecados e cremos somente em Cristo, somos nascidos de novo para uma nova vida, uma vida eterna com Deus. Esse é o evangelho.” Essas são as boas novas. Quem entendeu essa mensagem, que a mensagem central de toda a Bíblia, não consegue olhar para o outro e manifestar sobre ele outra coisa que não seja misericórdia, graça e amor.

1.17 (“¹⁷ Afinal, Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo.” )

Quando Paulo diz que Cristo não o enviou para batizar, ele não está diminuindo o valor do batismo. Em outras cartas, como em Romanos 6, ele deixa claro o quanto o batismo é importante. O que Paulo está fazendo aqui é responder ao problema das divisões na igreja. Como poucos haviam sido batizados por ele, ninguém poderia dizer que pertencia a Paulo por causa do batismo. Essa discussão sobre “quem batizou quem” era secundária e não resolvia o verdadeiro problema da igreja. A questão central era o próprio evangelho. Para Paulo, o batismo não salva por si só; quem salva é a mensagem da cruz, acompanhada da ação do Espírito Santo. Ainda assim, o batismo não é algo sem importância, pois ele vem depois de ouvir o evangelho como a forma que Deus estabeleceu para a pessoa responder em fé.
Paulo afirma que sua missão principal é pregar o evangelho, e faz isso deixando claro que não o faz com “sabedoria de palavras”, para que a cruz de Cristo não seja esvaziada. Essa expressão reflete os valores da cultura de Corinto, que valorizava muito a eloquência, a retórica e a filosofia humana. Paulo, então, coloca seu ministério em contraste com essa mentalidade: o conteúdo da sua mensagem não é a sabedoria humana, mas a sabedoria de Deus revelada na cruz. Ao mesmo tempo, isso também afeta a forma da pregação, pois Paulo não queria que técnicas humanas ou discursos sofisticados tirassem o foco de Cristo crucificado. Tudo isso prepara o caminho para a explicação mais profunda que ele desenvolve sobre a cruz nos capítulos seguintes.
Esta é a primeira vez que Paulo usa a palavra sabedoria (sophia) na carta, e o próprio desenvolvimento do texto mostra que esse é o verdadeiro problema em Corinto. A “sabedoria” que os coríntios valorizavam não era algo espiritual ou superior, mas refletia o ambiente filosófico e cultural da época, marcado pela valorização do raciocínio humano e da boa retórica. Era a partir desses critérios que eles estavam avaliando Paulo e seu ministério. Por isso, quando Paulo fala que não pregou com “sabedoria de palavras”, ele não está apenas tratando do estilo da pregação, mas principalmente do conteúdo. Ele deixa claro que existe outro tipo de “palavra”: a palavra da cruz, que parece loucura para quem confia na sabedoria humana, mas que é o centro do evangelho. Se Paulo tivesse adotado a sabedoria humana como base, teria esvaziado completamente a mensagem da cruz.
Esse ensino tem enorme importância para a igreja de hoje, que continua marcada por divisões, disputas e fragmentações. Igrejas, denominações, movimentos e até líderes muitas vezes se separam, cada um defendendo sua própria visão como se fosse a única legítima. Isso não é motivo de orgulho, mas de vergonha e arrependimento. O caminho para a unidade não está apenas em novas estruturas ou acordos, mas em recuperar aquilo que Paulo coloca no centro: a pregação da cruz de Cristo. A cruz confronta nossas maneiras humanas de pensar, agir e se promover, e nos chama de volta à humildade, à dependência de Deus e à verdadeira comunhão em Cristo.
Todos nós fomos enviados por Cristo para “pregar o evangelho”, que é a palavra da cruz. O que salva um pecador não é a persuasão humana ou o poder de convencimento do pregador, mas a ação soberana do Espírito Santo por meio do ensino e da pregação fiel da palavra de Cristo. Paulo deixou isso claro aos coríntios e hoje ele também deixa claro para a igreja contemporânea: não podemos negligenciar no cumprimento da Grande Comissão! Mais importante do que ter razão em debates nas redes sociais, ou mesmo alcançar nossa felicidade pessoal e conforto sem a centralidade de Deus no coração, o evangelho nos chama hoje para um engajamento maior e mais profundo com a obra missionária.

CONCLUSÃO

Precisamos lembrar que o evangelho não é sobre performance humana, mas sobre um Deus crucificado em favor de pecadores indignos. A mensagem da cruz precisa estar no centro de nossas vidas, nos conduzindo a uma vida crucificada e buscando a mediação de Cristo em todas as nossas relações. Porque Cristo morreu por nós, precisamos morrer para nós mesmos ao crucificar o “eu” (o ego) e buscar, em vez de brigas e contendas, a unidade do corpo de Cristo. Precisamos pregar o evangelho da paz e buscar sermos pacificadores, como filhos de Deus que somos. Simon Kistemaker escreveu em seu comentário: “Conforme colocou Rupert Meldenius, um escritor do século 17:
Nas coisas necessárias — unidade;
Em coisas não essenciais — tolerância mútua;
E, em todas as coisas, amor.
E hoje você que nos visita também pode se tornar filho de Deus através do arrependimento dos pecados e da fé em Jesus Cristo. Você não precisa viver debaixo da escravidão do ódio, da inveja, das brigas e contendas, nem mesmo da indiferença às pessoas. Cristo te chama pela palavra de cruz para nascer de novo e ver o Reino de Deus. Se hoje mesmo você crer que Jesus é o teu Salvador e o teu Senhor, que ele carregou na cruz do Calvário os seus pecados que faziam separação entre você e Deus, o seu Criador, e decidir abandonar os pecados e buscar iniciar uma jornada espiritual com Jesus, eu afirmo a você que há lugar para você nessa igreja imperfeita que é conduzida e liderada por um Deus perfeito. Que você possa fazer isso, em nome de Jesus. Vamos orar.
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