Quem Governa o que você deseja?
Notes
Transcript
Texto base:
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Eles tinham razão
Eles tinham razão
Se existe uma coisa neste mundo que eu acredito que é poderosa demais, hoje, na vida de uma pessoa, é o conselho de um pai ou de uma mãe. Eu acredito que todo mundo aqui já viveu algo parecido. O pai ou a mãe dizem alguma coisa, dão um conselho, fazem um alerta. Só que, por dentro, a gente pensa: “Eles não entendem nada. Eu sei o que estou fazendo”.
Quando a gente é mais novo, acredita que conhece tudo. A gente prefere seguir o próprio caminho, até que, depois de um tempo, a gente percebe: “não é que eles tinham razão?”
Olhando para trás e lembrando de muita coisa, a gente chega à conclusão de que o problema nunca foi a informação. Nunca foi o conselho. Sempre foi a nossa resistência.
É curioso perceber como, na vida, só depois da gente se render, só depois da gente se submeter, é que a nossa forma de enxergar o mundo muda. E quando a nossa forma de enxergar o mundo muda, os nossos desejos também mudam.
Talvez aquilo que um dia você achou careta, ultrapassado ou exagerado, porque vinha do seu pai ou da sua mãe, hoje seja exatamente aquilo que faz sentido para você e que você passa a desejar. E é exatamente sobre isso que Jesus trata aqui nesse ponto das bem-aventuranças.
Um passo para trás
Um passo para trás
No domingo passado, nós finalmente iniciamos o capítulo 5 do Evangelho de Mateus, onde encontramos o sermão mais famoso de Jesus, o Sermão da Monte. E é logo aqui, no início desse sermão, que Jesus nos apresenta aquilo que chamamos de bem-aventuranças.
Ao começar o seu ensino, Jesus não apresenta regras ou uma lista de exigências para entrar no seu Reino. Ele descreve as características daqueles que fazem parte do seu Reino, daqueles que vivem debaixo do seu governo.
Essas características não são isoladas, como se cada pessoa pudesse escolher uma para si. Não é como se um dissesse: “—eu sou mais pobre em espírito!”, enquanto outro dissesse: “—eu sou mais manso!”. Jesus não está falando de tipos diferentes de cristãos, mas da completude do cidadão do Reino.É por isso que as bem-aventuranças estão conectadas umas às outras.Existe uma progressão clara naquilo que Jesus está ensinando. Por exemplo, no v.03, Jesus diz:
“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
Logo no início, Jesus aponta para a necessidade que nós temos de enxergar e reconhecer a nossa falência espiritual. Em outras palavras, a porta de entrada para o Reino é admitir que nada temos, que nada podemos oferecer e que dependemos totalmente e exclusivamente da ajuda e da ação de Deus. Logo em seguida, no v.04, Jesus diz:
Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
Assim como o “pobre em espírito” não fala de qualquer tipo de pobreza, no v.4Jesus não fala de qualquer tipo de choro. Essa não é uma tristeza pelas dores da vida, mas um tipo de choro que nasce da pobreza espiritual. Em primeiro lugar, nós reconhecemos quem somos diante de Deus. Depois, essa verdade nos afeta e nos causa o que Paulo chama de “tristeza segundo Deus” (2Co 07.10). O fato de enxergarmos a nossa condição pecaminosa nos leva ao quebrantamento, às lágrimas e a um tipo sensibilidade diante do pecado.
Felizes são os mansos
Felizes são os mansos
É então que chegamos no v.05, em mais uma característica do cidadão desse Reino:
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
O que ficará cada vez mais claro para todos nós, no decorrer do ensino de Jesus, é que a lógica do seu reino é completamente diferente da lógica do mundo.Jesus não fala sobre qualquer tipo de pobreza, nem sobre qualquer tipo de choro. Assim também, no v.05, Ele não está falando de qualquer tipo de mansidão.
Ser manso, nesse texto, não está relacionado à fraqueza, à passividade ou a alguém sem personalidade. Mansidão, na Bíblia, nunca é tratada como ausência de força. Pelo contrário, é uma força que existe, mas que foi colocada debaixo de um governo. Em outras palavras, mansidão não é falta de poder, é poder que se submete.
Seguindo a lógica do reino, primeiramente eu reconheço quem sou diante de Deus. Depois disso, essa verdade me quebra por dentro e, agora, como consequência, algo muda na minha postura. Eu paro de lutar, eu paro de tentar controlar tudo. Eu paro de achar que eu sei mais do que Deus.
Existe um filme que eu sempre gostei muito e assistia quando eu era mais novo, que se chama Spirit: o Corcel Indomável. É uma animação sobre um cavalo forte, líder e selvagem, que, em um determinado momento do filme, é capturado e levado para um forte militar, onde tentam domá-lo a qualquer custo.
Nesse forte militar, ele conhece um índio chamado Rio Pequeno, que também havia sido afastado da sua tribo e levado para lá a fim de que se transformasse em um escravo.
Em um dos momentos críticos do filme, Spirit, o cavalo, é colocado em um cerco e diversos domadores tentam dominá-lo. Porém, um a um, são lançados no chão. Apenas quando o comandante do exército, que é o grande vilão da história, após deixar o cavalo por três dias debaixo do sol, sem comida e sem bebida, é que aparentemente ele consegue dominar aquela força selvagem.
No entanto, quando ele menos imagina, o cavalo o derruba e o humilha diante de todo o batalhão. Nesse momento, acontece uma grande revolta. O índio que havia sido preso consegue salvar o cavalo de ser morto e, em um dos momentos mais importantes da história, quando o cavalo e o indígena fogem para salvar as suas vidas, Spirit, o cavalo, faz um sinal com a cabeça, demonstrando que o índio podia subir nos seus lombos e cavalgar.
Naquele momento, o corcel indomável se deixa ser domado por quem ele julga ser digno. Spirit, o cavalo, se submete a quem um dia salvou a sua vida. E é exatamente isso que Jesus está nos ensinando. Ser manso não é perder a voz, não é deixar de pensar, nem se tornar alguém apático. É abrir mão de si mesmo, é confiar que Deus governa todas as coisas — inclusive as nossas vidas — melhor do que nós governamos.
Ser manso é descansar no fato de que eu não preciso vencer todas as discussões, nem provar que estou certo o tempo todo. É abrir mão dos próprios direitos conscientemente. E, como já vimos, após cada bem-aventuranças, encontramos uma recompensa. Nesse caso, a recompensa dos mansos é que eles herdarão a terra.
Contrariando a lógica do mundo, Jesus não afirma que conquistaremos, ou que demonstraremos as nossas forças e os nossos inimigos se ajoelharão diante de nós por conta do nosso poder. Enquanto “conquistar” traz a ideia de esforço, de disputa ou de imposição, herdar nos fala sobre identidade, traz a ideia de pertencimento.
Quem herda não toma pela força. Quem herda recebe porque faz parte da família, porque tem um nome, porque está incluído. A recompensa de quem é manso segundo Jesus, é receber aquilo que muitos buscam alcançar com a sua própria força e o seu poder, mas nunca conseguirão obter: “pois eles receberão a terra por herança.”
Seria um looping infinito?
Seria um looping infinito?
Até aqui, Jesus já nos ensinou algumas coisas importantes sobre o caráter daqueles que fazem parte do seu reino. Ele nos mostrou que essa pessoa é alguém que tem consciência da sua miséria espiritual. Depois, Ele nos mostrou que essa consciência não pode ser apenas intelectual, mas precisa produzir quebrantamento e arrependimento. E, em seguida, Jesus nos ensinou que esse coração quebrantado passa por uma mudança de postura. Ele se rende, se submete e passa a confiar no governo de Deus.
Porém viver no Reino de Cristo, é viver sabendo que desfrutamos em parte das maravilhas desse Reino agora, mas ainda assim, estamos nesse mundo mal. A realidade é que nós continuamos vivendo em um mundo quebrado, em um mundo onde o pecado nos ronda, onde as tentações continuam a existir.
A pergunta que pode surgir nesse momento é: será que a vida no reino é apenas um ciclo sem fim de errar, chorar, pedir perdão e me arrepender de novo? Será que o cidadão do reino de Jesus está fadado a viver apenas reagindo ao pecado?
A continuação das bem-aventuranças é uma resposta de Jesus dizendo que não, porque o reino de Deus não trabalha apenas na nossa consciência e na maneira como nos sentimos, mas também trabalha no nosso desejo.
Felizes os famintos e sedentos
Felizes os famintos e sedentos
É por isso que Jesus continua:
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Fome e sede. Jesus usa essas duas palavras porque a sua intenção não é falar de um desejo casual, nem de uma vontade passageira. Fome e sede são necessidades vitais de todo ser humano, são urgências do corpo. Quando alguém está com fome, não consegue pensar em outra coisa. Quando alguém está com sede de verdade, tudo acaba perdendo a importância diante de uma necessidade tão básica como essa.
Jesus está falando de algo essencial e não de algo opcional. O cidadão do reino não tem apenas interesse pela justiça, ele tem fome, ele tem sede. É um desejo intenso, é algo profundo, algo inegociável.
Porém, como já percebemos, essa não pode ser qualquer tipo de justiça. Precisamos lembrar que, aqui, estamos tratando da lógica do reino. E, por isso, Jesus não está falando das justiças dos tribunais ou das injustiças sociais — embora isso também seja importante. A justiça da qual Jesus fala é a nossa retidão diante de Deus. Essa justiça é sobre viver de acordo com o caráter de Deus e com aquilo que O agrada. É sobre viver uma vida justa e ser encontrado como justo diante do Senhor.
Em outras palavras, eu não só sei quem eu sou diante de Deus, não apenas sinto por isso e digo estar rendido diante do Senhor. Eu também passo a desejar aquilo que Deus deseja.
Ser um cidadão do reino de Deus é desejar intensamente a justiça que recebemos por conta do sacrifício de Jesus, que se fez pecado no nosso lugar, mas também é desejar viver agora de uma maneira que agrade a Deus. É um desejo por aquilo que é o certo.
No entanto, nenhuma dessas características que vimos até agora são coisas naturais do ser humano. Desejar a justiça de Deus não é algo que nasce em nós por acaso.A verdade é que nada no Sermão do Monte é natural ao nosso coração. O nosso coração procura resistir a Deus. O nosso coração deseja autonomia. Queremos fazer as coisas do nosso jeito, queremos continuar no controle.
É por isso que o agente que nos recompensa em cada bem-aventurança é o próprio Deus. É Ele quem concede o reino aos pobres em espírito, é Ele quem consola os que choram, é Ele quem nos faz herdar a terra, e é Ele quem pode saciar a nossa fome e sede pela justiça. As bem-aventuranças são fruto da ação de Deus do começo ao fim. É Ele quem gera em nós essas marcas do seu reino, e é Ele mesmo quem, ao final, nos encontra com a recompensa.
Jesus deixa claro que a vida no Reino não é sustentada pela nossa força, mas pela ação de Deus em nós. É Ele quem desperta a fome. É Ele quem gera a sede. E é Ele quem promete nos saciar.
O Reino não é apenas reconhecer, chorar e se render. Ele é aprender a desejar o que Deus deseja. E quando esse desejo nasce, é o próprio Jesus quem garante: ninguém que tem fome e sede da Sua justiça ficará sem resposta.
Onde está a nossa fome e sede?
Onde está a nossa fome e sede?
Eu já falei algumas vezes aqui nesse altar que uma das coisas que nos diferenciam daqueles que estão no mundo, ou seja, uma das coisas que torna o cristão diferente de quem está perdido no mundo, é que nós não apenas sabemos o que é errado, mas nós também passamos a lutar contra isso.
O cristão não é alguém que nunca erra, mas é alguém que não sente prazer em permanecer no erro. Sabe, permanecer no reino de Deus é algo que nos leva a viver uma vida sempre com um conflito interno. Não é possível dizer que Jesus governa as nossas vidas enquanto o pecado governa os nossos desejos.
Como nós vimos na semana passada, o problema não é a existência de uma luta interna; o problema é quando não existe mais esse incômodo que nos leva a lutar. O problema é quando a gente começa a conviver bem demais com aquilo que nós sabemos que entristece a Deus.
Com o tempo, a gente desenvolve uma habilidade perigosa, que é a capacidade de administrar os pecados. A gente aprende a justificar, a gente aprende a dar nomes mais leves para coisas que continuam sendo pecado. Não é que o cristão nega aquilo que é errado, é que ele não luta mais contra isso.
O Sermão do Monte não trata apenas do que nós fazemos quando erramos, do fato de reconhecermos o nosso estado pecaminoso, chorarmos por isso e até baixarmos as nossas defesas. O Sermão do Monte também trata daquilo que nós desejamos enquanto vivemos.
O que nos falta hoje não é mais informação sobre aquilo que é errado ou não. O que nos falta é o desejo por aquilo que Deus diz que é certo.Ser manso e ter fome e sede de justiça é um estado de rendição, onde o nosso coração passa a desejar o que agrada a Deus. Não porque existe uma troca que eu quero fazer, mas porque eu O amo.
Algumas vezes, depois de buscar as crianças na escola e chegar em casa depois de um dia cansativo de trabalho, uma das coisas que eu mais desejo é poder tomar café com as crianças, depois tomar um bom banho e, enfim, me lançar na cama e me desligar do mundo.
E, em muitas dessas vezes, enquanto eu estou ali apenas existindo, eu acabo ouvindo as crianças me convidando para brincar. Nessa hora, eu sei que ser um pai presente, que brinca, é maravilhoso para as crianças. No entanto, o cansaço e a vontade de ficar ali falam mais alto.
É então que eu penso em alguma desculpa, e eles tentam negociar, inventando as mais diversas brincadeiras. E, quando eu insisto nas minhas desculpas, eles acabam entregando os pontos e decidem entre si: “—Vamos brincar de fazer massagem no papai!”.
E eu sei que apertar as costas de alguém não é uma boa brincadeira. Mas, lá no fundo, eles fazem isso não apenas porque é algo que eles sabem que eu gosto — e que eu preciso —, mas porque, para eles, aquele tempo que eles passam comigo (independente de como passam esse tempo), de alguma maneira, é importante e precioso.
Sejamos sinceros: tem nos faltado fome e sede. Talvez estejamos famintos por muitas coisas nesse mundo, mas nos tem faltado fome e sede por Deus e pela sua justiça. Se aquilo que mais desejamos nessa vida não é agradar a Deus, então precisamos ser honestos sobre quem realmente o governo nosso coração.
Hoje, Jesus nos chama para esse lugar onde a fome e a sede não apenas são restauradas, mas também são saciadas. O Reino de Deus não se estabelece onde apenas evitamos o pecado, mas onde Deus passa a governar aquilo que desejamos. Volte a ter fome, volte a ter sede. Esse é o apelo dessa noite.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém.
Sermão exposto no dia: 08 de fevereiro de 2026
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
