OS PACIFICADORES
O SERMÃO DO MONTE • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 22 viewsNotes
Transcript
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Os cidadãos e embaixadores do reino de Deus são, acima de tudo, pessoas que nasceram de novo. E, ao nascer de novo, já não estamos limitados a lidar com a nossa natureza terrena (que ainda possuímos), mas, agora, participamos da natureza espiritual, que é divina. Estamos em Cristo. Imergimos na experiência e na vida do Espírito Santo. Logo, o nosso caráter é moldado pelo caráter divino. Já falamos em outras oportunidades que o ser humano sem o Espírito Santo — sem o novo nascimento — não pode obedecer a nenhum ensino deste Sermão do Monte. Isso é assunto para quem é nova criatura.
Os cristãos, portanto, são pessoas regeneradas pelo Espírito Santo que procuram expressar e zelam pela glória de Deus, em tudo e em todas as coisas. Queremos ver o nome de Deus ser glorificado em tudo que temos, somos e em todas as esferas da vida e da sociedade.
Como também ensinamos recentemente, as bem-aventuranças estão interconectadas. Os misericordiosos precisam ser antes humildes de espírito; os limpos de coração precisam antes de quebrantamento de coração (choro espiritual) e os pacificadores precisam antes ser mansos. Assim vive um cidadão/embaixador do reino dos céus. Busca e encontra a aprovação de Deus (sua bênção que produz a verdadeira felicidade) ao praticar cada uma dessas oito beatitudes.
Nas palavras de Martin Lloyd Jones:
“Os pacificadores, como é evidente, tornaram-se pessoas diferentes daquilo que haviam sido; há, novamente, verdades teológicas essenciais. A explicação para todas as nossas dificuldades é concupiscência, a cobiça, o egoísmo e o egocentrismo dos homens; essa é a verdadeira causa de todas as dificuldades e discórdias, sem importar se isso envolve indivíduos, grupos dentro de uma nação ou nações entre si. Por conseguinte, ninguém pode começar a entender o problema do mundo moderno a menos que aceita a doutrina neotestamentária do homem e do pecado, a qual nos é sugerida no enunciado desta bem-aventurança.”
Por que tantas guerras e conflitos? Por que tantas discussões acaloradas, debates sem o respeito pela opinião do outro? Por que tantas pessoas se odiando, se afastando emocionalmente, por conta de opiniões ou de visões de mundo? Qual a causa para tanta divisão, confusão e inimizade? Grande parte das pessoas deste mundo não possuem um coração novo que possui uma bússola que aponta para o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Para pessoas que não possuem vida no Espírito, o conflito, a guerra, as brigas, discussões e ofensas são a única alternativa para que elas continuem preservando a autoimagem e satisfação o próprio ego que é sedento por se colocar acima e sobre os outros.
PACIFICADORES, NÃO OMISSOS: O PECADO DE NÃO FAZER O BEM
PACIFICADORES, NÃO OMISSOS: O PECADO DE NÃO FAZER O BEM
Começamos sempre pelo que não é. Ser pacificador não é ser uma pessoa complacente (passador de pano para o erro) nem desligada da realidade, nem é aquela pessoa que busca a paz a todo custo. Pacificador não é aquela pessoa que diz “dou qualquer coisa para evitar conflitos”. Se as bem-aventuranças não são disposições naturais, de pessoas que não precisam da presença do Espírito Santo em suas vidas para praticar, temos de observar que pessoas que passam pano para o erro ou totalmente omissas estão desprovidas de senso de justiça e retidão; elas não tomam posição quanto àquilo que deveriam defender; antes, são insensíveis, indiferentes, preguiçosas para praticar a justiça; em outras palavras, são indolentes.
Parecem “gente boa”, mas se o mundo tivesse de viver de acordo com tais princípios e de acordo com tais pessoas, o mundo estaria muito pior. Logo, eu quero deixar claro que um pacificador não é um mero “apaziguador”, como tantos costumam dizer. Uma guerra pode ser adiada por meio do apaziguamento, mas geralmente isso envolve a necessidade de se fazer algo que é injusto e errado somente para evitar o conflito.
Muitas vezes, para que uma família fiquem em paz, o homem da casa terá de cumprir a função que o Estado não cumpre sempre que é proteger sua mulher e seus filhos de um ataque de um criminoso e a própria lei brasileira diz que o uso da força em legítima defesa própria ou de terceiros não se configura num crime. A ética cristã conjuga naturalmente a justiça e o amor, de modo que eu posso amar a todos, mas me defender ou defender outros de violências e injustiças quando eu possuo as condições para isso. Se você sabe que alguém está sendo atacado dentro de casa e essa pessoa corre risco de vida, você não vai ao menos acionar a Polícia porque você é uma pessoa apaziguadora que não entra em nenhum conflito?
E quando a verdade do Evangelho (ou seja, os valores bíblicos, como o conceito de família conforme descrita em Gênesis 2 e Mateus 19) é atacada publicamente e de maneira malignamente planejada, calculada e com a participação do Estado? Em nome da “pacificação” o caminho para você tem de ser o silêncio? Uma sociedade se seculariza muitas vezes porque a igreja não ensina, não prega, não defende e o pior, não vive de acordo com os princípios e valores do Evangelho.
O provérbio transmite uma advertência muito séria contra o pecado da negligência. Não o pecado de ação, mas o pecado de omissão. Esse pecado particular mostra seu semblante horrível quando o ser humano ignora Deus, faz planos, alcança o sucesso e gloria-se de suas realizações (Tg 4.13–16).
Simon J. Kistemaker
Abra sua Bíblia no livro de Tiago 4:13-17
¹³ Escutem, agora, vocês que dizem: "Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e faremos negócios, e teremos lucros."
¹⁴ Vocês não sabem o que acontecerá amanhã. O que é a vida de vocês? Vocês não passam de neblina que aparece por um instante e logo se dissipa.
¹⁵ Em vez disso, deveriam dizer: "Se Deus quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo."
¹⁶ Agora, entretanto, vocês se orgulham das suas arrogantes pretensões. Todo orgulho semelhante a esse é mau.
¹⁷ Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando.
Assim é o negligente, que é a pessoa que comete um dos múltiplos pecados derivados de grande pecado que é o orgulho. O negligente e omisso pensa em si mesmo, na própria reputação, na aprovação/aceitação dos outros, no próprio conforto pessoal — o que o faz evitar todos os embates e conflitos e a busca por justiça e pelo estabelecimento da verdade. “Aquele que sabe que deve fazer o bem E NÃO O FAZ, NISSO ESTÁ PECADO” — o pecado se encontra em não fazer o bem que sabe que se deve fazer.
Quero citar algumas frases de expoentes históricos para contribuir para essa reflexão:
Edmund Burke
“A única coisa necessária para o triunfo do mal é que homens bons não façam nada.”
Dietrich Bonhoeffer
“O silêncio diante do mal é em si mesmo mal.”
Martin Luther King Jr.
“No fim, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.”
Dante Alighieri
“Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que, em tempos de crise moral, mantêm sua neutralidade.”
Elie Wiesel
“O oposto do amor não é o ódio — é a indiferença.”
John Stuart Mill
“Pessoas más não precisam de nada mais para alcançar seus fins do que que pessoas boas olhem e não façam nada.”
O jovem de 16 anos foi morto por aquele assassino ex-piloto de 19 anos e muito maior e mais forte porque não havia um homem bom para defendê-lo. Muitas mulheres são silenciadas em suas casas com socos e pontapés porque não encontram nem na família, nem na igreja ou na sociedade homens que possam protegê-la do maldito agressor. Crianças foram violentadas por aquele monstro piloto de avião em troca de pizza e de umas centenas de reais porque não haviam homens (e no caso também mulheres) com a dignidade de proteger a infância e adolescência. O Brasil tem uma igreja evangélica numerosa, mas pouco presente na cultura porque estamos muitas vezes apenas nos comunicando para dentro dos nossos arraiais e não temos o espírito público necessário para fazer valer não uma ideologia conservadora ou progressista, mas os valores eternos e santos da Palavra de Deus.
O QUE É SER UMA PESSOA PACIFICADORA?
O QUE É SER UMA PESSOA PACIFICADORA?
Entretanto, meus amados, a pessoa pacificadora não tem um salvo conduto para entrar em qualquer conflito ou ser defensora de pautas diversas ligadas à política ou qualquer opiniões que dizem respeito apenas ao seu ego. O pacificador é aquele que, porque foi pacificado no ser por meio da obra da cruz de Cristo, está agora movido pelo Espírito de Jesus (que é manso e humilde) para tratar a todos com respeito e misericórdia. As bem-aventuranças definitivamente se conectam umas as outras, de modo que uma coisa leva a outra. O misericordioso e limpo de coração pode ser um pacificador, e não o contrário. O pacificador não provoca os outros nem mesmo cria os conflitos, mas busca todos os meios de estabelecer a paz.
Veja o que a Escritura vai nos dizer sobre a busca da paz por parte de um cristão:
¹⁴ Procurem viver em paz com todos e busquem a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.
Hebreus 12:14
Aqui vemos de maneira muito ilustrada a conexão entre as duas bem-aventuranças, numa sequência invertida: paz com todos (pacificadores) e a santificação (limpos de coração) e ainda temos o complemento do Sermão do Monte em Mateus 5.8 onde a promessa aos limpos de coração é “ver o Senhor”. Temos de buscar tanto a pureza de coração quanto o estabelecimento da paz em todas as relações.
¹⁸ Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas.
Romanos 12:18
Aqui vemos que a busca pela paz é responsabilidade dos cristãos, mas o estabelecimento da paz nem sempre depende dos cristãos. Às vezes, até no meio da igreja local há quem não queira estabelecer a paz por conta de sua imaturidade espiritual e pouco conhecimento e pouca vida no evangelho. Contudo, a orientação bíblica é que a gente procure todas as possibilidades que estiverem ao nosso alcance de viver em paz com todas as pessoas — o que nem sempre é possível porque não depende unicamente da gente. E eu amo esse realismo da Escritura, pois é a mais pura verdade.
²⁰ e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.
Colossenses 1:20
Esse texto nos mostra que só podemos promover a paz por causa da obra consumada por Jesus Cristo na cruz do Calvário. Porque ele morreu pelos nossos pecados, nós agora estamos em paz com Deus e aptos para buscarmos a reconciliação com todas as pessoas. Jesus mesmo reconciliou com Deus todas as coisas por meio do seu sacrifício expiatório, e agora, vemos céus e terra conectados (igreja e criação) com o Criador dos céus e da terra. Em Jesus, os cristãos estão reconciliados com Deus Pai e são capacitados pelo Espírito Santo para buscar e muitas vezes estabelecer a paz com outras pessoas.
¹⁸ Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.
Tiago 3:18
A Escritura nos mostra neste texto que a justiça e a paz caminham lado a lado. E buscamos fazer não só a coisa certa, mas com a motivação certa. Semeamos o bom fruto da justiça “em paz” para os que promovem a paz. E para que possamos entender melhor este texto, faz-se muito necessário lermos o contexto que é Tiago 3.13-17:
¹³ Quem entre vocês é sábio e inteligente? Mostre as suas obras em mansidão de sabedoria, mediante a sua boa conduta.
¹⁴ Se, pelo contrário, vocês têm em seu coração inveja amargurada e sentimento de rivalidade, não se gloriem disso, nem mintam contra a verdade.
¹⁵ Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; pelo contrário, é terrena, animal e demoníaca.
¹⁶ Pois, onde há inveja e rivalidade, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins.
¹⁷ Mas a sabedoria lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, gentil, amigável, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento.
A sabedoria celestial é pura (os que choram, que são quebrantados de coração), pacífica (pacificadores), gentil (mansos), amigável (humildes de espírito), cheia de misericórdia (misericordiosos), e de bons frutos (fome e sede de justiça), imparcial (perseguidos por causa justiça), sem fingimento (limpos de coração).
Que o Senhor da paz, ele mesmo, dê a vocês a paz, sempre e de todas as maneiras. O Senhor esteja com todos vocês.
2 Tessalonicenses 3:16
Nossa única esperança de sermos pacificadores é que “O Senhor da paz, ele mesmo, no dá a paz, sempre e de todas as maneiras”. Sabemos que podemos promover a paz porque “o Senhor está conosco”. É para a glória dele que buscamos a santidade, a justiça e a paz. Perdoamos ofensas para a glória do Senhor da paz. Amamos quem nos odeia para exaltar o nome do Deus Filho que é o “Príncipe da paz” (Isaías 9.6). Evitamos muitos conflitos desnecessários porque estamos fascinados com a beleza gloriosa e santa do Deus da paz. O evangelho que pregamos anuncia a paz com Deus e a paz entre as pessoas e é, da armadura de Deus que usamos na vida, a sandália que calçamos (Efésios 6.15). O convertido que anuncia o evangelho aos incrédulos está anunciando, como diz D.A. Carson, “a maior mensagem de paz (…)” e este “que dá testemunho e fala de sua fé é, basicamente, um arauto da paz, um pacificador”. Não é estranho o apóstolo Paulo usar a linguagem figurada de Isaías, que retrata mensageiros correndo pelas trilhas da região montanhosa da Judeia: “Como são belos ou formosos sobre os montes os pés dos que anunciam boas-novas, que proclamam a paz, que anunciam coisas boas, que proclamam a salvação, que dizem a Sião: O seu Deus reina!” (Is 52.7; Rm 10.15).
Existem diversos outros versículos, mas o tempo que temos não nos permite caminhar mais neste ponto.
A CONDIÇÃO PARA SER UM PACIFICADOR
A CONDIÇÃO PARA SER UM PACIFICADOR
Para você viver esta bem-aventurança, será necessário (obviamente consciente de que só é possível praticar pelo Espírito Santo) ser inteiramente liberto do próprio “eu”, dos interesses próprios, e da preocupação consigo mesmo, como vai nos dizer Lloyd Jones no seu livro “Estudos do Sermão do Monte”, porque uma pessoa que pensa somente em si, em atitude defensiva, não poderá agir como alguém que promove a paz com outras pessoas. Se as “guerras” que você entra são para defender o seu ego, sua opinião ou visão de mundo, ou pessoas/coisas que você julga lhe pertencer ou serem de sua responsabilidade, você está na rota contrária da beatitude da pacificação. As discórdias e divisões possuem explicação por este fato de que as pessoas estão olhando para a questão do ponto de vista egocêntrico. Toda briga que não é pela verdade graciosa do evangelho é briga influenciada por Satanás e totalmente focada no orgulho que faz o meu “eu” prevalecer contra o “eu do outro. É apenas autoafirmação idolátrica de si mesmo. Pecado.
Jones vai nos ensinar dizendo que, para sermos pacificadores, precisamos ter uma visão inteiramente nova de nós mesmos, um novo ponto de vista que o nosso “eu”, tão desprezível e apartado da graça de Deus, nem merece atenção. Esse “eu” é tão desgraçado (sem a graça divina), não tem direitos e nem privilégios, e nada merece. Quem se vê como humilde de espírito (totalmente carente da graça de Deus), quem já se lamentou chorando diante das trevas do próprio coração, quem já se viu como realmente é e sentiu fome e sede de justiça, então essa pessoa não continuará exigindo que os seus direitos e privilégios sejam atendidos; e nem ficará perguntando: “qual é a minha parte nisto ou naquilo?” Antes, essa pessoa vai ter se esquecido totalmente de si mesma.
A grande questão de se tornar um pacificador se encontra em responder esta pergunta: “como eu lido com o meu ego ou eu natural?”. Se eu busco agradar a mim mesmo acima de Deus e dos outros, eu estou “achando a minha vida” e não perdendo essa “própria vida”, como Jesus vai ensinar em Mateus 10.39. O Senhor neste texto está falando do ser humano que ama a si mesmo, ama o homem natural, à sua vida terrena e carnal. Definitivamente esse é um dos grandes testes para se saber se alguém de fato é cristão, ou não. Você já chegou a odiar este ser que você é que não procura imitar a Deus? Você alguma vez já reproduziu as palavras do apóstolo Paulo: “Desventurado homem que sou”? Caso não tenha feito isso ainda, se não consegue emitir essa opinião sobre si mesmo, então você também não pode ser um pacificador.
OS PASSOS DE UM PACIFICADOR
OS PASSOS DE UM PACIFICADOR
O primeiro passo para alguém ser uma pessoa pacificadora é considerar que o cidadão e embaixador do reino dos céus é uma pessoa em quem vivem nela duas pessoas — o velho homem e o novo homem. O cristão, discípulo que aprende e buscar praticar os ensinamentos do Sermão do Monte, é aquele que abomina o seu velho homem, e diz a ele: “Cale a sua boca! Me deixe em paz! Eu não tenho mais nada a ver contigo!”. O cristão tem uma nova vida; e, como é evidente, isso significa que ele também tem uma nova visão de seus semelhantes. Eles se preocupa com os outros, e procura olhar para eles com os olhos dos ensinamentos bíblicos.
Citando Martin Lloyd Jones:
“Um pacificador é um homem que não fala mal a respeito de outras pessoas quando elas se mostram ofensivas e de trato problemático. Não comenta: “Por que elas agem dessa maneira?” Pelo contrário, pensa: “Essas pessoas são assim porque continuam sob o domínio do deus deste mundo, aquele espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Essas pobres criaturas são vítimas do seu próprio “eu” e de Satanás, e estão a caminho do inferno. Me compete ter piedade e misericórdia delas”. No momento mesmo em que o crente começa a ver as pessoas por esse prisma, está em posição de ajudá-las, e o mais provável é que estabeleça a paz com elas.”
O segundo passo para alguém ser uma pessoa pecadora é ter como único grande objetivo a glória de Deus entre os homens. Jesus Cristo, o nosso modelo de ser humano, tinha essa única preocupação. Ele nem pensava em si mesmo, mas na glória do Pai. E o pacificador é a pessoa cuja preocupação central é a glória de Deus, de modo que ele gasta toda a sua vida procurando colaborar para essa glória. Ele sabe que Deus criou o ser humano como um ser perfeito, e que este mundo foi criado para ser o Paraíso; e assim, quando vê disputas e brigas individuais ou até no âmbito entre as nações, nisso o cristão percebe algo que esvazia o valor da glória divina. É isso que o preocupa, e nada mais.
Assim, podemos compreender que o pacificador é o homem que se dispõe a se deixar humilhar, e que está pronto para fazer tudo e qualquer coisa a fim de que a glória de Deus seja promovida. Ele deseja isso com tal intensidade que se dispõe a sofrer, se isso puder ajudar a cumprir o seu objetivo. Está até mesmo disposto a sofrer ofensas e injustiças, a fim de que a paz seja estabelecida entre os homens e a glória de Deus seja exaltada. O cristão chegou ao fim da linha do próprio egocentrismo, de seu interesse pessoal e da necessidade de controlar pessoas e fazer prevalecer as suas ideias em detrimento do que os outros pensam. Diz ele: “o que realmente importa é a glória de Deus e a manifestação dessa glória entre os homens”. Sendo assim, se o cristão estiver atravessando algum processo de angústia e sofrimento que possam contribuir para esse resultado, ele se coloca à disposição para suportar tudo. A glória de Deus e de seu evangelho estão acima de suas conquistas e de qualquer necessidade carnal e vaidosa de exibir as próprias virtudes.
COMO SER PACIFICADOR NA PRÁTICA?
COMO SER PACIFICADOR NA PRÁTICA?
Seremos objetivos neste último ponto.
Aprenda a não falar o que não deve. Muita discórdia seria evitada no mundo se pudéssemos controlar mais e melhor a nossa língua. Tiago 1.19 “Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Aprenda o momento de falar e o momento de calar. Não é fácil e precisamos da sabedoria do alto e da sabedoria humana disponível em nós e em nossos irmãos para que possamos sempre agir de maneira autocrítica, buscando sempre o máximo de excelência no discurso e nas ações.
Deixe o comodismo e procure meios e métodos para o estabelecimento da paz. Paulo vai nos dizer em Romanos 12.20 “Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça.” Se ele tiver precisando de ajuda em algo essencial/vital, ajude! Lembre-se de maneira misericordiosa que muitas vezes o seu inimigo age sob influência de Satanás e que o evangelho te chama a ter compaixão e pedir a libertação dele e que o Espírito Santo o mostre que ele é apenas um fantoche nas mãos do inimigo. Às vezes, em nome da busca por viver essa beatitude de ser pacificador, vamos precisar tomar a iniciativa e agir de forma amigável e gentil, buscando todo o possível para se estabelecer a paz.
Coloque a glória de Deus acima da sua dignidade ao lutar pela paz. Encare o desafio de lidar com a pessoa que você sabe que não te admira, não tem simpatia por você e não se alegra com a sua felicidade nem suas conquistas e avanços. O falso evangelho da teologia do coaching diz: “seja seletivo e não lide com pessoas que te fazem mal”. O evangelho bíblico vai dizer: “assuma o risco de lidar com pessoas que te fazem mal com o objetivo único de promover a glória de Deus no estabelecimento da paz”. Não estamos falando de nutrir amizade com pessoas que não gostam da gente, mas trabalhar firmemente na busca pela quebra de celeumas, inimizades e conflitos. Isso é impossível para quem não é nascido de novo. Impossível para quem não é cidadão/embaixador do reino dos céus. Mas eu oro para que seja plenamente possível para cada um de nós, porque temos o Espírito Santo, o Espírito de Cristo; logo, tudo podemos naquele que nos fortalece (Fp 4.13).
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
A promessa ou a bênção prometida aos pacificadores é um pouco diferente, pois não tem a ver com alguma conquista espiritual como no caso das bem-aventuranças anteriores, mas se trata de um reconhecimento divino de uma identidade espiritual: os pacificadores serão chamados filhos de Deus. Essa filiação não é a como uma filiação terrena e humana, onde o filho tem a herança das posses do pai, ou carrega seus traços físicos ou recebe geneticamente influência nos temperamentos. Essa filiação tem a ver com a ideia de “pertencimento”, onde somos identificados com o Deus de Hebreus 13.20 “Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança,”.
Qual foi o significado da primeira vinda de Jesus? Por que o Filho de Deus veio a este mundo? Porque Deus, embora santo, justo e reto, da forma mais completa, como também acontece com todos os seus atributos, ainda assim é o Deus da paz. Aí está a razão pela qual Ele enviou seu Filho.
De onde procedem as guerras, discórdias e facções? Do ser humano, do pecado e de Satanás. Porém, o Deus da paz veio realizar em nós a sua grande obra de pacificação do nosso ser. O Filho de Deus, Jesus Cristo, se humilhou, a fim de estabelecer a paz. Agora entendemos por que os pacificadores são chamados “filhos de Deus”. O que eles fazem é reproduzir em suas vidas o que Deus já fez por eles em Cristo. Se Deus nos tratasse segundo a dignidade e os direitos dele, todos estaríamos mortos e condenados eternamente no inferno. Mas Deus foi misericordioso, gentil, amável e buscou estabelecer a paz conosco através do sangue da cruz de Seu Filho Jesus Cristo. Jesus é o Príncipe da paz.
Essa paz com Deus é o chão por onde andamos no caminho da pacificação com os outros. Vejamos o que a Escritura nos diz em Efésios 2.14-15:
¹⁴ Porque ele é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade.
¹⁵ Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz.
Ser pacificador é ser semelhante a esse modelo escriturístico, acima do que podemos deixar de lembrar. Jesus humilhou-se a si mesmo (Fp 2.8). Buscou o bem dos outros (Fp 2.3-4). Lutou e sangrou até morrer pelo estabelecimento da paz com Deus (Cl 1.20). Ele se esvaziou de si mesmo (Fp 2.7). Ele sofreu injustamente e não buscou revidar, nem fazer ameaças mas se entregou àquele que julga retamente (1Pe 2.22-23). Só nos resta nos arrepender de fazermos o exato caminho contrário ao do nosso Senhor e crermos que Ele nos deu o seu Espírito para que pudéssemos efetivamente renunciar a nós mesmos, tomar a nossa cruz, e segui-lo (Mc 8.34).
Que possamos ser reflexos ou reproduções do Príncipe da Paz e, em consequência, sermos legítimos filhos do “Deus da paz”.
