Chamados para Viver Como Um

Cristianismo do dia-a-dia  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 11 views

Em Efésios 4:1-6, o apóstolo Paulo nos convoca a viver de maneira digna da nossa vocação, preservando a unidade que o Espírito Santo já criou. A vida cristã no dia a dia exige humildade, mansidão e paciência para suportarmos uns aos outros em amor. Fundamentados na realidade de que servimos a um só Senhor, uma só fé e um só Deus, somos chamados a ser um povo unido, protegendo a comunhão com responsabilidade e fidelidade bíblica.

Notes
Transcript
Ephesians 4:1–6 NAA
Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros em amor, fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Introdução

Continuamos com nossa série de pregações “Cristianismo do Dia a Dia”, e hoje quero começar com uma pergunta provocativa: se existe um só Deus, por que existem tantas igrejas diferentes que se intitulam cristãs? Não faço essa pergunta para atacar ou julgar denominações. Mas é fato que, desde a antiguidade, diferenças entre os crentes têm gerado divisões — e quase sempre cada grupo acredita ter razões justas para isso.
Então precisamos perguntar: o que realmente nos une? O que sustenta a nossa comunhão? Qual é o fundamento mais profundo da nossa unidade?
Antes de Paulo nos dizer como viver, ele passou três capítulos nos mostrando o que Deus já fez. Deus não criou indivíduos isolados: Ele criou um povo. Não formou famílias espirituais concorrentes: Ele formou uma nova humanidade reconciliada em Cristo.
A unidade da Igreja não nasce do esforço humano — nasce da obra de Deus. É a partir dessa realidade que Paulo nos ensina, em Efésios 4:1-6, como viver em comunhão. Veremos que Deus nos fez um só povo em Cristo; por isso devemos preservar essa comunhão com humildade aqui dentro e com fidelidade à verdade no relacionamento com outras igrejas.
Vamos ao nosso texto.

Exposição

v.1 - Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados,

[Desenho: Um boneco de palito caminhando sobre uma linha reta (o caminho) em direção a uma pequena cruz. Uma coroa simples (de príncipe) flutua sobre o boneco e uma cora melhor (de rei) flutua sobre a cruz]
Paulo estava preso por causa do Evangelho, uma situação que muitos irmãos nossos ao redor do mundo também vivem. Mas, para ele, a prisão não era uma vergonha, e sim uma prova de seu apostolado (2Co 6.4-5). Ele vivia o Evangelho de tal maneira que estava disposto a sofrer afrontas e lutas, desde que isso trouxesse glória a Deus e avanço para a Igreja.
Dessa forma, o que Paulo dirá em seguida não era um peso que ele jogava sobre os outros; pelo contrário, era algo com que ele mesmo se comprometeu: viver de maneira digna da salvação que recebeu.
Se nos três primeiros capítulos o apóstolo fala da obra de salvação que Deus fez por nós sem que tivéssemos feito nada antes (a “vocação”, o “chamado”), agora Paulo diz que “aquele que foi salvo deve responder com vida santa”. Mas ele apela a um tipo especial de santidade, que vai além de se preocupar apenas consigo mesmo.

v.2 - com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros em amor, v.3 - fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.

[Desenho: dois bonecos de palito estão empurrando com força duas metades de um círculo (representando a unidade) para mantê-las juntas. Seus corpos estão inclinados, fazendo força, e podemos adicionar gotinhas de suor simples para enfatizar o trabalho duro.]
rata-se do esforço para manter a união com os irmãos — a Igreja. A Igreja, com “i” maiúsculo, não é uma criação nossa, mas de Deus. Ela é o “corpo místico de Cristo” e vai muito além das nossas denominações, sendo expressa justamente por cada igreja local. Somos unidos e nos vemos como uma só família, tanto aqui como entre irmãos de outros locais, por causa do Espírito de Deus.
Apesar de a igreja ser criação divina, Ele requer que nos esforcemos (σπουδάζω, no presente) dia após dia para que essa união permaneça. Percebe? a união da igreja não flui naturalmente sem nossa participação; é preciso que cada um de nós lute conscientemente por ela.
Mas como? Paulo diz que é necessário “suportar uns aos outros”.
Lembro-me de, certa vez, ouvir um líder explicando que “suportar” não é “aguentar”, mas “dar suporte”, “ajudar”, ou seja, que para a igreja ficar unida, precisamos ter uma disposição de ajudar os outros em suas limitações e necessidades. É verdade que devemos socorrer aos outros, mas esse texto aqui não está falando de ajudar, mas de “aguentar” pessoas difíceis mesmo.
O verbo traduzido como “suportar” (ἀνέχομαι, no presente) aparece 15 vezes no NT, todas elas com o sentido de sofrer, aguentar algo ruim ou ter paciência com algo difícil. E, nessa passagem, faz muito mais sentido esse significado, vez que, sem suportar uns aos outros, Paulo diz que poderemos perder a paz comunitária.
A Igreja é feita de pecadores, pecadores pecam uns contra os outros — a fórmula perfeita para a desunião. Mesmo no Éden, o primeiro pecado fez Adão culpar Eva, abalando a união perfeita do casal (Gn 3.12).
Então, o que fazer para “aguentar uns aos outros”? Três virtudes são necessárias:
humildade (ταπεινοφροσύνη), que é o oposto de soberba (1Pe 5.5). É a disposição de considerar o outro superior a si (Fp 2.3-4);
mansidão (πραΰτης), é aquele domínio sobre a ira, ou seja, a decisão de falar ou agir com gentileza, mesmo que se tenha a força e a vontade de falar agir com dureza (Tg 1.19-20), em outras palavras, o domínio próprio; e
paciência (μακροθυμία), que é a aceitação e a confiança de que as mudanças ocorrem no tempo e no jeito de Deus (Tg 5.10).
O teólogo João Calvino explica:
De onde vêm a grosseria, o orgulho e a linguagem desdenhosa para com os irmãos? De onde vêm as brigas, os insultos e as censuras? Não vêm disso, que cada um leva o seu amor-próprio e a sua consideração pelos seus próprios interesses ao excesso? Deixando de lado a altivez e o desejo de nos agradarmos a nós mesmos, tornar-nos-emos mansos e gentis, e adquiriremos aquela moderação de temperamento que ignorará e perdoará muitas coisas na conduta dos nossos irmãos. Observemos cuidadosamente a ordem e o arranjo destas exortações. Será inútil inculcar a paciência até que a ferocidade natural tenha sido subjugada e a mansidão adquirida; e será igualmente vão discorrer sobre a mansidão, até que tenhamos começado com a humildade.[1]
A boa notícia é que o verdadeiro crente já possui essas virtudes pelo Fruto do Espírito (Gl 5.22-23). Por isso que Paulo está convidando não a buscar essas virtudes, mas “fazer tudo” para cultivá-las e usá-las (v.3).
Mas, por qual motivo alguém se esforçaria tanto na unidade da igreja? E se eu não gosto do jeito dos irmãos? E se alguém me magoou? E se eu discordo dessa igreja em alguma doutrina não essencial? É mesmo tão importante lutar pela igreja? Não era mais fácil ir cada um pro seu canto? Paulo responde dizendo que a comunhão que vivemos localmente é parte de algo maior…

v.4 - Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. v.5 - Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, v.6 - um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

[Desenho: Um grande e destacado número "1". Na base desse número, três bonecos de palito de mãos dadas.]
A resposta do apóstolo não está em nossas qualidades, nem nas qualidades da igreja, mas na obra de Deus. Ele organiza três motivos para nossos esforços de união:
Primeiro motivo, a obra do Espírito Santo, que nos une em um só corpo, a Igreja. Paulo usa em outras ocasiões a metáfora do corpo para mostrar que, mesmo sendo diferentes, cada crente faz parte da igreja de Deus como um membro. Todos os crentes são unidos pelo Espírito nesse corpo e d’Ele recebem a certeza de que estaremos, unidos, com o Senhor Jesus quando Ele retornar (Ef 1.13-14; Rm 8.16). Se quem nos uniu foi Ele, que razão teríamos para nos dividir?
Segundo motivo, a obra de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos os crentes, a Igreja (Ef 1.22-23), é o autor e consumador da fé de todos os crentes (Hb 12.2) e é aquele em quem todos os crentes foram batizados (Rm 6.3-4). A Igreja existe para manifestar a grandeza de Jesus ao mundo, e a união dos crentes é uma das principais formas de fazê-lo (Jo 17.21-23). Se unidos o glorificamos mais, por que nos dividir?
Terceiro motivo, a obra de Deus Pai, que tornou cada crente um filho seu (Gl 4.6-7) e que faz cada crente uma peça importante de seus bondosos planos (Fp 2.13). Se cada crente é filho de Deus, por que deixar uma “briga de irmãos” nos dividir?
Nas entrelinhas, o motivo real para nossa unidade é que a igreja unida manifesta a unidade da própria Trindade Divina. Se todos os crentes recebem as mesmas bênçãos, devemos agir como um único grupo de irmãos, mesmo com nossas diferenças e preferências.
Diante disso, algumas aplicações:

Aplicações

Construam agora a cultura que protegerá vocês depois.
Resolvam conflitos rapidamente conforme Mateus 18, recusem alimentar conversas paralelas e escolham falar diretamente com quem precisa ouvir. Busquem reconciliação antes de tomar decisões importantes e não transformem preferências pessoais em doutrina. Lembrem-se sempre que a saúde futura da igreja depende das atitudes invisíveis de hoje.
A verdadeira prova de maturidade não é nunca ter conflitos, mas saber como reagir quando eles vierem.
Maturidade é optar por conversas francas em vez de silêncio ressentido, praticar o perdão rápido em vez de guardar mágoas, e recusar transformar simples discordâncias em suspeitas sobre o caráter ou a espiritualidade dos irmãos.
Diversidade denominacional com discernimento
Precisamos reconhecer que nem toda diferença é motivo de separação e nem toda separação é pecado, mas toda divisão exige responsabilidade diante de Deus.
Há verdades essenciais do evangelho que são inegociáveis. Unir-se a quem ataca a salvação somente pela fé, a Triunidade de Deus ou doutrinas centrais não é unidade, mas prostituição espiritual e infidelidade ao Senhor.
Há também doutrinas secundárias importantes que podem gerar denominações. Por exemplo, nós não batizamos bebês, enquanto irmãos presbiterianos o fazem; nós entendemos que a igreja local está sujeita à autoridade de um Concílio, enquanto irmãos batistas defendem a autonomia plena da igreja local. Embora relevantes, essas doutrinas não pertencem ao núcleo essencial da fé.
Além disso, existem preferências e costumes que jamais deveriam provocar rupturas. Igrejas já se dividiram por questões triviais como estilo musical ou regras sobre como se vestir.
No essencial, unidade. No periférico, diversidade.
A Bíblia não exige que concordemos em absolutamente tudo. Devemos respeitar as diferenças tanto aqui, na igreja local, quanto em outras denominações; não somos melhores que ninguém, mas não precisamos diluir nossas convicções para parecer amorosos.
Ore por unidade.
Orem para que cada um lute por preservá-la, para que Deus fortaleça outras igrejas fiéis desta cidade e nos livre de divisões pecaminosas que desonram o nome de Cristo.

Conclusão

Somos uma igreja nova. Hoje desfrutamos paz, e isso é graça. Mas a paz que vivemos hoje precisa ser guardada. Não significa que nunca enfrentaremos conflitos; quando surgirem diferenças — e elas surgirão — lembrem-se: somos um só corpo.
Cristo já nos uniu. Que nunca destruamos com nosso orgulho o que Ele construiu com Seu sangue. Ao mesmo tempo, não somos a única igreja do Senhor. Há muitos irmãos que confessam o mesmo Senhor, a mesma fé e o mesmo evangelho. Com eles, caminhamos como parte da grande família de Deus.
Mas guardem isto: unidade sem verdade é traição e verdade sem amor é negação do evangelho. Que nunca troquemos a verdade por aplauso.
Que Deus nos faça uma igreja humilde por dentro, fiel na doutrina, e amorosa no trato.
Porque há um só Deus, um só Senhor, um só Espírito,
e, portanto, um só povo.
[1] (CALVIN, J.; PRINGLE, W. Commentaries on the Epistles of Paul to the Galatians and Ephesians. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010. p. 267)
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.