Fome e sede de justiça (tratar)
Sermão do Monte • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 173 viewsNotes
Transcript
Ambientes de Sede e Fome: A Busca pela Justiça
Ambientes de Sede e Fome: A Busca pela Justiça
Mateus 5:6
Mateus 5:6
A bem-aventurança expressa em Mateus 5:6 enfatiza a importância de ter uma profunda sede e fome por justiça, prometendo que aqueles que buscam por ela serão plenamente saciados.
Esta passagem nos chama a refletir sobre nossas próprias vidas e paixões. Em um mundo repleto de injustiças, somos desafiados a buscar a justiça de Deus em nossas comunidades e em nossas relações, conectando-nos mais profundamente com a vontade d'Ele e promovendo a equidade.
O sermão pode ensinar sobre a natureza da justiça segundo os princípios de Deus e nosso chamado como cristãos para defender o que é certo, lutar contra a opressão e trabalhar para o bem-estar dos outros.
A justiça, frequentemente personificada em Cristo, é o cumprimento da revelação de Deus ao mundo. Jesus não só exemplificou essa busca pela justiça em sua vida, mas também nos convidou a seguir seu exemplo, apontando para o Reino de Deus, onde a justiça prevalece.
A busca sincera pela justiça é uma marca distintiva do cristão, que nos leva a um relacionamento mais profundo com Deus e à transformação do mundo ao nosso redor.
Ao preparar este sermão, considere explorar as dificuldades exegéticas associadas ao termo 'justiça' no contexto da cultura judaica do primeiro século, bem como o uso que Mateus faz na sua apresentação da mensagem de Jesus. Utilize Logos para examinar comparações com outras partes das Escrituras que tratam da justiça e como isso se aplica ao nosso contexto atual.
1. Desejo de Justiça: Fome Espiritual
1. Desejo de Justiça: Fome Espiritual
Mateus 5:6a
Você poderia considerar como a 'fome e sede de justiça' são um chamado para os cristãos se dedicarem de coração ao desejo de ver a justiça divina, exemplificada por Cristo, prevalecer em um mundo injusto. Refletir sobre a paixão pessoal pela justiça pode transformar sua vida e comunidade, alinhando-se com a promessa de saciedade espiritual feita por Jesus.
2. Dedicação à Justiça: Satisfação Prometida
2. Dedicação à Justiça: Satisfação Prometida
Mateus 5:6b
Talvez este ponto o inspire a contemplar o poder transformador da justiça divina em sua vida. Consideremos como buscar a justiça nos aproxima da vontade de Deus, lembrando que Cristo é o nosso exemplo máximo. Avaliar como você pode promover equidade e justiça nas suas relações pessoais resulta em um testemunho vigoroso do Reino de Deus.
3. Desempenho de Justiça: Transformação Mundial
3. Desempenho de Justiça: Transformação Mundial
Mateus 5:6
Você poderia discutir como esta bem-aventurança aponta para o papel ativo do cristão na sociedade, promovendo a justiça como Jesus fez. Reconhecer que a busca pela justiça é central ao caráter cristão pode incitar você a se envolver em ações que refletem a presença de Cristo no mundo, enquanto espera pela plena realização no Reino de Deus.
Sede e Fome: O Anseio por Justiça em Nossas Vidas
Sede e Fome: O Anseio por Justiça em Nossas Vidas
Mateus 5:6
Mateus 5:6
A passagem de Mateus 5:6 declara uma bênção clara para aqueles que se sentem insatisfeitos com a injustiça e que anseiam por um mundo onde a equidade e a verdade prevaleçam. Essa ânsia não é uma mera esperança, mas um desejo profundo que deve nos mover a agir em favor dos marginalizados e oprimidos.
Podemos aplicar esta bem-aventurança em nossas vidas diárias, desafiando-nos a nos envolver em causas justas, a lutar contra injustiças e a ser vozes para os sem voz. Isso pode significar participar de ministérios comunitários ou defender políticas mais justas em nossas localidades.
O ensino central deste sermão deve destacar que o desejo por justiça deve ser ativo e não passivo, levando a ações que resultem na transformação das realidades sociais, pessoais e espirituais.
Cristo é a pessoa que exemplifica a justiça perfeita. Ele veio ao mundo não apenas para ensinar sobre a justiça, mas para ser a própria justiça encarnada, mostrando que a busca pela justiça deve ser enraizada em sua missão redentora e em seu amor por todos.
Os cristãos são chamados a ser agentes de mudança, que não apenas anseiam pela justiça divina, mas que também trabalham ativamente para a sua manifestação aqui e agora, manifestando assim o Reino de Deus na terra.
Ao estudar Mateus 5:6, é valioso explorar os termos originais em grego para 'justiça' e como eles se relacionam com o conceito de justiça social na profecia hebraica. Considere também como Jesus redefine a justiça em contraste com a religiosidade da época, utilizando Logos para acessar comentários e estudos que iluminarão a diferença entre a justiça de Deus e as noções comuns de justiça humana.
1. Sede de Justiça: Viva em Ação!
1. Sede de Justiça: Viva em Ação!
Mateus 5:6
Talvez você possa encorajar sua congregação a reconhecer a profunda insatisfação que surge ao testemunhar injustiças no mundo. Esta fome e esta sede não são meramente emocionais; são um chamado divino para agir. Incentive-os a ver esta bem-aventurança como um convite para serem proativos na busca pela justiça, lembrando que essa virtude é mostrada plenamente em Cristo. Participar em ações de justiça com humildade e amor se torna uma forma de manifestar o Reino de Deus. Seja através do serviço comunitário ou da advocacy pelas causas certas, cada pessoa pode fazer diferença.
A Justiça que Satisfaz: Entendendo a Ternura de Deus
A Justiça que Satisfaz: Entendendo a Ternura de Deus
Mateus 5:6
Mateus 5:6
Em Mateus 5:6, Jesus promete um bem-aventurado estado de satisfação para aqueles que têm uma fome e sede de justiça. Essa busca é mais do que um desejo humano, é uma resposta ao caráter de Deus, que é justo e ama a justiça. A palavra justiça aqui não se limita ao que é legal, mas abrange o que é moral e ético no coração de Deus.
A aplicação desta passagem nos convida a avaliar o que verdadeiramente desejamos em nossas vidas. Temos a coragem de buscar a justiça de Deus em nossas próprias ações e interações? Devemos questionar como podemos ser instrumentos de justiça em nosso mundo, especialmente em tempos de iniquidade e opressão.
O sermão enfatiza que a verdadeira justiça é enraizada na relação com Deus, e não apenas em regras ou tradições. Ao vivermos em busca da justiça divina, descobrimos um sentido mais profundo de saciedade e plenitude que só Ele pode proporcionar.
Cristo não apenas exemplifica justiça em sua vida, mas também transforma o entendimento humano dela. Em sua morte e ressurreição, Ele traz uma nova compreensão da justiça que se baseia no amor, graça e misericórdia, cumprindo as profecias e abrindo caminho para a verdadeira redenção.
A verdadeira satisfação vem dos justos anseios por um mundo que reflete o coração de Deus, nos chamando para agir e viver de maneira que promova essa justiça entre os que nos cercam.
Ao se aprofundar em Mateus 5:6, considere o conceito de justiça nas culturas do Antigo Testamento e como isso influencia a compreensão de Jesus. O Logos pode fornecer recursos que relacionam as práticas de justiça em Israel com as expectativas messiânicas, ajudando você a traçar um paralelo entre a justiça de Deus e a resposta da comunidade contemporânea.
1. Sede e Fome por Justiça
1. Sede e Fome por Justiça
Mateus 5:6
Talvez reflita sobre o que significa ter fome e sede de justiça além de regras, buscando entender como viver segundo o coração de Deus. Dedique-se a desvendar como esse desejo de justiça se alinha com o caráter divino e considere como essa busca pode transformar sua vida, levando-o a experimentar uma satisfação genuína em Deus. Aplique essa justiça em suas relações e ações cotidianas, promovendo um mundo mais imbuído dos valores divinos. Avalie sua vida à luz da justiça de Cristo e busque ser um agente ativo de transformação no mundo.
CHEIO DE JUSTIÇA E MISERICÓRDIA
MATEUS 5.6–7
Nós temos duas necessidades espirituais básicas. A primeira é conhecer a nós mesmos, descobrir quem realmente somos na presença de Deus. E a Palavra revela isto:
“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.12–13)
Quando a Palavra de Deus é exposta no poder do Espírito, somos forçados, sob influência desta, a nos enxergarmos em toda a nossa pecaminosidade. Assim, descobrindo a nós mesmos, tornamo-nos pobres de espírito, pranteamos por nossos pecados e nos tornamos humildes perante Deus. Até aqui foi isso que Jesus já nos ensinou no tocante às Bem-Aventuranças.
Temos, no entanto, outra necessidade espiritual ainda maior. Já absortos em nós mesmos, agora precisamos ser desarraigados de nós mesmos. Martinho Lutero disse que o problema básico do homem é que ele é “incurvatus in se” — voltado a si mesmo, egocêntrico. O operar de Deus em dar-nos o verdadeiro conhecimento de nós mesmos não tem por objetivo aumentar nosso egocentrismo, mas, ao contrário, é o caminho para enfraquecê-lo. Uma vez descoberta a inexistência de outros meios com que possamos salvar a nós mesmos, aprendemos a buscá-los em outro lugar — em Cristo —, a fim de satisfazermos nossas necessidades e, também, satisfazermos as necessidades do mundo em que vivemos.
A quarta e a quinta bem-aventuranças nos dizem que aqueles que têm fome e sede de justiça serão fartos, e aqueles que são misericordiosos alcançarão misericórdia. Essas duas bem-aventuranças têm um significado crucial na gama de graças descritas por Jesus. Ambas ressaltam que, embora devamos descobrir quão profunda é a nossa necessidade, Deus não deseja que nossa vida fique paralisada por nosso senso de sermos seres necessitados. Em vez disso, Ele quer que nos esqueçamos de nós mesmos e nos voltemos à Sua justiça e retidão; e havendo encontrado Sua justiça e retidão, que nos voltemos àqueles que ainda carecem de misericórdia.
Essa transformação de um coração dominado por si e absorto no próprio ego para um coração que se volta e olha para Deus e para os outros indica o momento de transição da imaturidade para a maturidade na experiência espiritual. Na vida terrena, a diferença entre a infância e a maioridade se dá quando paramos de ser guias de nós mesmos e aprendemos que possuímos um lugar, uma posição neste mundo. De forma análoga na vida espiritual, o cristão maduro é alguém cuja vida é centrada em Deus e em Sua vontade, e que busca servir ao próximo pela graça de Deus.
FOME E SEDE
Fome e sede são necessidades físicas básicas. E esta era uma realidade ainda mais intensa na Palestina à época de Jesus, onde a água era escassa e a comida, às vezes, insuficiente. Por esta razão, Ele usa justamente estes termos para descrever com que intensidade o cristão anseia pela justiça de Deus.
A ideia de justiça ocorre com certa regularidade neste sermão. É um dos temas principais: os cristãos, de tempos em tempos, podem ser perseguidos por causa da justiça (5.10); eles devem ter uma justiça que exceda a justiça dos escribas e fariseus (5.20); eles fazem atos de justiça (6.1); e, acima de tudo, os cristãos devem buscar o reino de Deus e a sua justiça, na certeza de que tudo que lhes é necessário será acrescentado (6.33). Mas o que é a justiça de Deus?
O conceito por trás da palavra bíblica justiça é bem provavelmente “conformidade a uma norma”. Dada a norma, justiça é a condição em que as coisas são o que devem ser. No Antigo Testamento, a justiça é associada ao pacto de Deus. Ele é fiel ao Seu pacto. Referente ao que Ele promete, Deus sempre faz o que Ele tem de fazer, a saber, Ele sempre cumpre o que prometeu. Por isso, Sua justiça pode ser expressa em julgamento ou em salvação.
Nós costumamos associar a justiça de Deus unicamente à condenação, mas a Escritura não limita a justiça desta forma, declarando que “o efeito da justiça será paz” (Is 32.17), e explicando em Isaías 45.21 o que isso significa, que Deus é um “Deus justo e Salvador” (e não “mas também um Salvador”).
Ter fome e sede de justiça é, portanto, algo multifacetado. Significa, em primeiro lugar, ansiar por ter um relacionamento com Deus correto e, consequentemente, por ser justo diante dele. E ainda mais, também significa ter o desejo de viver de forma justa perante Ele nesse mundo, desejando ver relacionamentos corretos e restaurados na vida dos demais. Em um mundo caído, ter fome e sede será algo contínuo na vida cristã.
A justiça [retidão] por que buscamos (nosso relacionamento com Deus ser o que e como deve ser) encontra três dimensões. Primeiro, ela nos é concedida pelo próprio Jesus. Nós pecamos, mas Deus fez Cristo pecado por nós, a fim de que nele (por meio da fé) recebessemos justiça (2Co 5.21). Este é o cerne do Evangelho. Falta-nos justiça e retidão, mas Deus no-las concede.
Esta foi a descoberta que mudou a vida de Martinho Lutero. Estudando Romanos, ele empenhou-se e lutou contra a declaração de Paulo, a qual diz que a justiça de Deus é revelada no Evangelho. Para Lutero, isso sugeria que Cristo estava diante dele no papel de juiz hostil. Aliás, na versão latina da Bíblia de Lutero, a palavra justiça foi traduzida por “justitia” (justiça). O simples pensar em Cristo o aterrorizava.
No entanto, passado certo tempo, Lutero começou a descobrir o que Paulo realmente queria dizer. Ele compreendeu que Paulo não estava retratando Cristo no papel de juiz, mas de Salvador. O relacionamento correto com Deus, sobre o qual Paulo escreveu, foi oferecido por Cristo como um presente, um dom. A partir daquele momento, Lutero chamou as palavras de Paulo de “os portões de entrada para o próprio Paraíso!”. Agora ele, sem dúvida, passou a ter fome e sede de justiça, e Deus o satisfez!
Mas essa é somente uma dimensão da justiça e retidão de Deus pelas quais devemos ansiar. Há um segundo aspecto. Não podemos receber a Cristo como nosso Salvador (tal qual Lutero), se não estivermos dispostos a que Ele de fato seja precisamente o que Ele é — Salvador. Como tal, Ele nos salva do poder do pecado e de sua influência. Ele não traz unicamente remissão dos nossos pecados, mas também opera em nós para vivificar-nos em nosso relacionamento correto com Deus. Assim, em Romanos 5.21, Paulo declara que a graça de Deus reina em nossas vidas pela justiça. A graça não é um presente somente! Ela é o rei soberano que reina sobre nós em Jesus Cristo. Ela reina, e reina mediante a justiça e retidão, nunca à parte.
Uma vida reta é do que temos fome e sede, bem como do perdão. Se assim não for, então nosso suposto anseio por um relacionamento correto com Deus é contraditório. Não podemos receber o presente de Deus (perdão) enquanto negligenciamos Suas exigências (uma vida reta). Uma das grandes tragédias encontradas dentro da igreja nos dias de hoje é o fato de que passamos a crer no que Dietrich Bonhoeffer chamou de “graça barata” — um Salvador que nos deixa da mesma forma que já éramos, mas não nos salva verdadeiramente do pecado.
Por vezes a distinção entre cristãos “carnais” e cristãos “espirituais” têm encontrado justificativas por Paulo aparentemente afirmá-la em 1Coríntios 3.1–4. Mas, ao contrário do que se possa pensar, o objetivo de Paulo é declarar que pessoas cuja vida não manifesta justiça e retidão na prática não estão simplesmente agindo como cristãos “inferiores”; eles estão se comportando feito pessoas que nem sequer são cristãs. Elas contradizem a justiça salvífica de Deus.
O terceiro aspecto da perfeita justiça de Deus, pelo qual também ansiamos, envolve nossa busca por vê-la estabelecida em todos os lugares. Devemos desfrutar de um relacionamento correto com Deus. Devemos ser moralmente íntegros com nossa vida. Devemos desenvolver relacionamentos corretos com as demais pessoas, tratando-as de tal modo. Devemos encorajar integridade moral e relacionamentos corretos no mundo em que vivemos, por meio do trabalho de evangelismo e em tudo o que fazemos, objetivando reformar a sociedade e conformá-la aos ensinamentos de Cristo. O evangelismo, o fazer missões e o servir à reforma social não devem ser considerados alternativas para o cristão, são trabalhos que caminham juntos. Cada qual é uma aplicação do desejo de vermos a justiça de Deus prevalecer no mundo. Isso é o que queremos dizer quando oramos “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10)!
Mais do que qualquer outra coisa, a perfeita justiça implica relacionamentos corretos — seja o nosso relacionamento com Deus, seja com as demais pessoas, seja com o mundo de modo geral. Eis a razão por que a busca pela justiça [de Deus] jamais deve tornar-se uma caça implacável: o senso de necessidade nasce na pessoa, então ela passa a pedir por justiça e retidão, pedido este que se estende ao compreendermos o quanto o mundo é necessitado. O anseio por justiça e retidão procede de um coração quebrantado. Por esta razão, ter fome e sede de justiça liga-se a outra bem-aventurança, a qual, por sua vez, nos leva à mais doce característica do verdadeiro cristão.
4
A QUARTA BEM-AVENTURANÇA
… bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…
(Mateus 5:6)
O bservei anteriormente que cada uma das sete Bem-aventuranças se eleva quanto àquela que a precede e se eleva a partir dela. É mais elevado ter fome e sede de justiça do que ser manso ou chorar, ou ser pobre de espírito. Contudo, nenhum homem se torna faminto e sedento pela justiça, a menos que tenha primeiramente passado pelos estágios preliminares: tenha se convencido da pobreza de sua alma, chorado pelo pecado e se rendido humildemente diante de Deus. Já mostrei que o manso é aquele que está satisfeito com o que Deus lhe deu neste mundo, cuja ambição está em extinção e cujas aspirações não são pelas coisas debaixo do Sol. Muito bem, depois de cessar sua fome e sede por este mundo, ele é o homem que anseia por algo melhor! Depois de despedir-se dessas coisas rudimentares e perecíveis, ele é o homem que lança toda a intensidade de sua natureza na busca por aquilo que é celestial e eterno — que aqui é descrito como “justiça”. O homem precisa primeiramente ser curado de seu anseio pelas coisas terrenas antes que possa sentir fervor pelas celestiais. “Ninguém pode servir a dois senhores”. Até que o antigo princípio egoísta tenha sido extirpado e esse homem se torne humilde e manso, ele não começará a ter fome e sede de justiça.
1. Procedendo de uma vez para considerar nosso texto, percebemos aqui, primeiramente, o OBJETIVO DESEJADO PELO BEM-AVENTURADO. Ele tem fome e sede de justiça.
Assim que o Espírito de Deus o desperta e o torna um abençoado, ele começa a almejar a justiça diante de Deus. Ele sabe que é pecador e que como tal é injusto, portanto, é condenado no tribunal do Altíssimo. Porém ele deseja ser justo. Deseja ter sua iniquidade removida e a degradação do passado eliminada. Como isso pode acontecer? A pergunta que faz continuamente é: “Como posso ser transformado em justo à vista de Deus?”. E nunca se satisfaz até que lhe digam que Jesus Cristo “o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”. Então vê que Cristo morreu no lugar do pecador e entende como os pecados são apagados. E quando compreende que Cristo efetuou a perfeita justiça, não para si mesmo, mas para o injusto, ele entende como, pela imputação, foi feito justiça à vista de Deus pela justiça de Jesus Cristo! No entanto, até que o saiba disso, ele tem fome e sede de justiça e é bem-aventurado em assim se sentir.
Depois que descobre que Cristo deve ser sua justiça, no que tange à justificação, esse homem então começa a desejar ter uma natureza justa. “Ora”, diz ele, “não me basta saber que meu pecado é perdoado. Tenho uma fonte de pecado dentro, em meu coração, e águas amargas vertem continuamente dele. Ó, que minha natureza possa ser transformada para que eu, o amante do pecado, possa tornar-me um amante daquilo que é bom! Para que eu, agora cheio de maldades, possa me tornar pleno de santidade!”. Ele começa a clamar por isso e é bem-aventurado nesse clamor — porém, nunca descansa até que o Espírito de Deus o faça uma nova criatura em Cristo Jesus. É renovado no espírito de sua mente, e Deus lhe dá, pelo menos em certa medida, aquilo pelo que teve fome e sede, a saber, a justiça de natureza. Passou da morte para a vida, das trevas para a luz! As coisas que anteriormente amava agora abomina e aquilo que detestava agora ama!
Após ser regenerado e justificado, ainda almeja por justiça em outro sentido — quer ser santificado. O novo nascimento é o início da santificação e esta é a continuação da obra começada na regeneração, assim o bem-aventurado clama: “Senhor, ajuda-me a ser justo em meu caráter. Tu desejas a verdade no íntimo, mantém toda minha natureza pura. Não permita que as tentações me dominem. Subjuga meu orgulho, corrige meu julgamento, mantém minha vontade sob controle. Faz-me um santo no mais íntimo templo de meu ser e que minha conduta com meus companheiros seja, em todos os aspectos, tudo o que deveria ser. Que eu fale de tal modo que possam sempre acreditar em minha palavra. Permita-me agir de maneira que ninguém possa me acusar de injustiça. Que minha vida seja transparente. Que ela seja, tanto quanto possível, a vida de Cristo escrita novamente”. Assim, vejam, o verdadeiro bem-aventurado tem fome e sede de justificação, regeneração e santificação!
Quando alcança tudo isso, ele deseja a perseverança na graça. Tem sede de ser preservado santo. Se supera um mau hábito, anela destruir todos os demais. Quando adquire uma virtude, aspira obter ainda outras. Se Deus lhe concede muita graça, ele tem sede por mais. Se, em alguns aspectos, ele se assemelha a seu Mestre, percebe seus defeitos e lamenta por estes — e prossegue em ter sede de ser mais semelhante a Jesus. Está sempre faminto e sedento por ser corrigido e preservado na correção. Assim ora pela perseverança final e por perfeição. Sente ter tal fome e sede por justiça que nunca se satisfará até que desperte à imagem de seu Senhor, de modo que nunca se satisfará até que seu último pecado interior seja subjugado e ele não mais tenha propensão ao mal, ao contrário, deseja ficar fora da linha de tiro da tentação!
E tal homem, amados, deseja honestamente ver a justiça promovida entre seus semelhantes. Deseja que todos os homens pratiquem o que é correto e tenta, por seu próprio exemplo, ensinar-lhes a fazê-lo. Almeja que não haja fraudes, falsos testemunhos, perjúrio, roubo, lascívia. Anela que a santidade domine todo o mundo. Consideraria um dia feliz se cada pessoa pudesse ser bem-aventurada e se não houvesse punição para ofensas porque estas teriam cessado. Anseia ouvir que a opressão foi exterminada. Quer ver o justo governo em cada nação. Aspira a que cessem as guerras e que as regras e princípios dos justos, e não a força e o afiado gume da espada, possam governar toda a humanidade. Sua prece diária é: “Senhor, venha o Teu reino, pois Teu reino é justiça e paz”. Quando vê algum mal sendo feito, pranteia sobre ele. Se não puder desfazê-lo, lamenta ainda mais! E esforça-se para, tanto quanto depender dele, erguer um protesto contra todo tipo de injustiça. Ele tem fome e sede de justiça. Não está ansioso para que seu partido político possa chegar ao poder, mas tem fome e sede de que a justiça seja feita em seu país. Não anela para que suas opiniões se destaquem e que sua seita ou denominação possa crescer em número e influência, mas deseja realmente que a justiça seja evidente. Não anseia poder fazer seus semelhantes oscilarem de acordo com seus próprios desejos, mas, sim, que possa influenciá-los para o que é bom e verdadeiro, pois sua alma arde com este desejo único — a justiça —, justiça para si, justiça diante de Deus, justiça entre os homens! É isso que deseja ver e por isso tem fome e sede — e, por isso, Jesus diz que ele é bem-aventurado.
2. Agora PERCEBA O DESEJO EM SI.
Diz-se que ele tem fome e sede de justiça — uma descrição dupla de seu desejo ardente. Certamente, teria sido suficiente que o homem tivesse fome por justiça, mas ele tem sede também. Todos os apetites, desejos e anseios de sua natureza espiritual dirigem-se ao que ele anela acima de tudo o mais, isto é, a justiça. Ele sente que não a atingiu ainda, por isso está faminto e sedento por ela. Também lamenta que outros não a tenham atingido e, portanto, tem fome e sede por eles — para que também possam adquiri-la.
Primeiramente podemos dizer que essa paixão é verdadeira. Ter fome e sede são fatos, não fantasia. Suponha que você encontre um homem que lhe diz que está quase morrendo de tanta fome e você lhe diga: “Tolice, meu caro amigo, esqueça isso! É só um capricho seu, pois pode muito bem viver sem comida se quiser”. Ora, ele sabe que você zomba dele! E se você pudesse surpreender algum pobre desgraçado que vagueia em um barco à deriva no mar e, por dias, não tivesse hidratado sua boca a não ser com a água salgada, o que só fez aumentar sua sede, e você lhe dissesse: “Com sede? É um devaneio seu, está nervoso, só isso, e não precisa de bebida”, o homem logo lhe diria que ele tem certeza de que, se não tomar água, morrerá. Não há qualquer coisa neste mundo que seja mais real do que a fome e a sede — e o verdadeiramente bem-aventurado tem tal paixão, desejo e anelo pela justiça que só poderia ser comparado a estar faminto e sedento. Ele precisa que seus pecados sejam perdoados, precisa ser revestido da justiça de Cristo e precisa ser santificado! E sente que partirá seu coração se não puder livrar-se do pecado. Ele se consome, anseia e ora para ser feito santo! Não consegue se satisfazer sem essa justiça, e sua fome e sede por ela é extremamente verdadeira.
E não é apenas verdadeira, é também muito natural. É natural aos homens, que precisam de pão, sentir fome. Você não precisa lhes dizer quando ter fome ou sede. Se não tiverem pão ou água, naturalmente terão fome e sede. Então, quando o Espírito de Deus transforma nossa natureza, esta ficará faminta e sedenta pela justiça. A velha natureza jamais ficou assim, não poderia e nem ficaria — ela anseia pelas alfarrobas que os porcos comem —, mas a nova natureza tem fome e sede de justiça. E tem de ser assim; ela não consegue evitá-lo. Não é necessário dizer ao avivado: “Deseje santidade!”. Ele abriria mão de seus olhos para possuí-la! Não precisa falar para um homem que esteja sob convicção de pecados: “Deseje a justiça de Cristo”. Ele cederia sua vida, se pudesse, para obtê-la! Ele tem fome e sede de justiça que aflora de todas as necessidades de sua natureza.
E esse desejo é descrito com termos que nos fazem perceber que ele é intenso. O que é mais intenso do que a fome? Quando alguém não consegue achar nutrição, sua fome parece devorá-lo — seu anseio por pão é terrível. Ouvi dizer que, nos tumultos em busca de pão, os clamores dos homens e mulheres por comida é algo mais terrível de se ouvir do que o grito de “Fogo!” quando há uma grande cidade em chamas. “Pão! Pão!” Aquele que não o possui sente que deve tê-lo. No entanto, o anseio provocado pela sede é ainda mais intenso. Diz-se que você pode atenuar o sofrimento pela fome, mas que a sede torna a vida em si um fardo — o homem precisa beber água ou morrerá. Bem, assim é o intenso anelo pela justiça do homem que Deus tem abençoado! Ele a deseja tão urgentemente que diz, na angústia de seu coração, que não pode viver sem ela. O salmista afirma: “A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper da manhã; sim, mais do que aqueles que esperam pela manhã”.
Não há outro desejo que se assemelhe ao de um homem avivado pela justiça e, portanto, esse desejo normalmente se torna doloroso. A fome e a sede duram até certo ponto, envolvem dores mais agudas, e o homem que busca a justiça de Cristo está cheio de dores indescritíveis até que a encontre. O cristão que guerreia contra suas corrupções é levado a bradar: “Miserável homem que sou!” até que entenda que Cristo conquistou a vitória para ele. E o servo de Cristo que deseja reivindicar as nações e trazer seus semelhantes para seguir o que é certo e bom fica, muitas vezes, sujeito a sofrimentos indizíveis. Ele suporta o fardo do Senhor e vai para seu trabalho como quem tem um fardo muito pesado para carregar! É sofrido, de fato, para a alma ser levada a ter fome e sede de justiça.
A expressão em nosso texto também indica que é um desejo muito vigoroso. O que um homem faminto não será levado a fazer? Há um antigo provérbio que diz que o faminto quebra muralhas de pedra, e certamente, um homem com fome e sede de justiça quebrará tudo para consegui-la! Não ouvimos falar de penitentes sinceros viajando muitos quilômetros para chegar onde possam ouvir o evangelho? Não perdem seu descanso noturno e chegam às portas da morte, de tanta determinação de clamar pelo perdão de Deus? E quanto ao salvo que deseja que outros sejam salvos, com que frequência, em seu desejo de os conduzir pelo caminho certo, ele não abrirá mão do conforto de seu lar para ir a um país distante? Quantas vezes ele traz sobre si o escárnio e a hostilidade dos pagãos porque o zelo pela justiça age grandiosamente em seu espírito? Eu gostaria de ver muitos desses famintos e sedentos como membros de nossas igrejas, pregando em nossos púlpitos, trabalhando com afinco em nossas Escolas Dominicais e missões — homens e mulheres que sentem que devem ver o reino de Cristo vir ou dificilmente sobreviverão! Esse anseio santo pela justiça que o Espírito Santo implanta na alma do cristão, torna-se dominante — não é apenas vigoroso, mas domina todo seu ser! Ele coloca todos os outros anseios e desejos de lado. Ele pode ser um perdedor, mas precisa ser justo! Pode ser ridicularizado, mas deve apegar-se à integridade! Pode suportar o escárnio, mas precisa declarar a verdade de Deus! Ele deve ter justiça! Seu espírito o exige por meio de um apetite que domina sobre todas as demais paixões ou propensões! Verdadeiramente bem-aventurado é o homem que é assim.
Pois, anotem, sentir fome de justiça é sinal de vida espiritual. Ninguém que esteja morto espiritualmente jamais sentiu essa fome. Em todas as catacumbas jamais se encontrou um morto faminto ou sedento — e nunca se encontrará. Se você sentir fome ou sede de justiça, estará espiritualmente vivo! Também é prova de saúde espiritual. Os médicos lhe dirão que consideram o bom apetite como sendo um dos sinais de que o corpo está em condições saudáveis — acontece o mesmo com a alma.
Ó, ter tal apetite voraz por Cristo! Ó, ter avidez pelas coisas excelentes! Ó, almejar a santidade — de fato, sentir fome e sede de tudo o que é justo, bom, puro, amável e de boa fama. Que o Senhor nos envie mais dessas intensas fome e sede! Essa é a condição oposta àquela de autossuficiência e de virtude própria. Os fariseus jamais sentem fome e sede de justiça. Eles têm toda a justiça que precisam e até acham que possuem alguma de reserva para aquele pobre publicano logo ali que clama: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”. Se um homem pensa ser perfeito, o que ele pode entender sobre ter fome e sede? Já está pleno com tudo o que precisa e pensa que pode conceder de suas riquezas redundantes a esse pobre irmão que suspira sobre suas imperfeições! De minha parte, estou satisfeito em ainda ter a bem-aventurança de ter fome e sede, pois essa bênção emparelha com outra experiência, a saber, de ser farto, e quando alguém está farto, em um sentido, ainda assim, em outro, tem fome por mais. Isso forma a bem-aventurança completa: “… bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…”.
3. Depois de descrever o objetivo e o desejo do homem verdadeiramente bem-aventurado, devo prosseguir, em terceiro lugar, em falar da BEM-AVENTURANÇA EM SI, a bênção que Cristo pronuncia sobre aqueles que têm fome e sede de justiça: “… eles serão fartos”.
Essa é uma bênção singular. Ninguém mais é “farto”. Um homem deseja carne, ele a come e fica farto por um tempo, mas pouco depois tem fome novamente. Outro deseja beber. Ele o faz e logo tem sede de novo. Mas aquele que tem fome e sede de justiça será tão “farto” que jamais ficará sedento como antes! Muitos têm fome e sede de dinheiro, mas ninguém jamais preencheu sua alma com ouro — isso não pode ser feito. O homem mais rico que já viveu nunca foi tão rico quanto ele gostaria de ser. Os homens já tentaram preencher sua alma com posses terrenas. Acrescentam campo sobre campo, fazendas sobre fazendas, ruas sobre ruas e cidades sobre cidades até parecer que poderiam estar sozinhos na terra, mas ninguém jamais satisfez sua alma com propriedades, por maior que estas sejam! Poucos acres a mais seriam necessários para cercar aquele canto ou unir aquela fazenda ao montante principal de seu território — ou se pudesse ter um pouco mais daquele elevado, talvez ficasse satisfeito, mas ele não o adquiriu e assim permaneceu descontente. Alexandre [o Grande] conquistou o mundo, mas não conseguiu fartar sua alma. Ele queria conquistar mais mundos! E se você e eu pudéssemos possuir uma dúzia de mundos, se possuíssemos todas as estrelas e se pudéssemos chamar todo o espaço de nosso, não encontraríamos o suficiente para satisfazer nosso espírito imortal. Seríamos magnificamente pobres, uma companhia de indigentes! Deus criou o coração humano de tal maneira que nada jamais pode preenchê-lo, exceto o próprio Deus. Há tal fome e sede colocadas no homem avivado que ele discerne sua necessidade e sabe que apenas Cristo pode supri-la. Quando o indivíduo é salvo, ele obtém tudo que precisa. Quando consegue Cristo, fica satisfeito. Lembro-me de uma senhora tola me pedindo, anos atrás, que eu a deixasse ler minha sorte. Eu lhe disse: “Eu posso lhe dizer a sua, mas não quero saber da minha, que está completa porque tenho tudo o que preciso”. “Mas”, disse ela, “não há algo que eu lhe possa prometer para os anos vindouros?”. “Não!”, respondi. “Não preciso de nada. Tenho tudo o que preciso e estou perfeitamente satisfeito e contente.” E posso dizer o mesmo nesta noite! Não sei de nada que alguém poderia me oferecer que aumentaria minha satisfação. Se Deus apenas abençoar a alma dos homens e os salvar, tendo a glória para Si mesmo, estarei pleno de contentamento — não preciso de qualquer outra coisa. Não creio que alguém possa dizer isso honestamente, a menos que tenha encontrado Cristo. Se ele, pela fé, tiver se apegado ao Salvador, então terá agarrado aquilo que sempre traz bênção consigo. “… eles serão fartos” é uma bênção incomparável!
E a bênção é muito adequada, tanto quanto singular. Um homem tem fome e sede. Como tirar-lhe a fome sem enchê-lo de comida? E como pode saciar sua sede sem dar-lhe água, pelo menos quantidade suficiente para o satisfazer? Assim a promessa de Cristo concernente ao homem que está faminto e sedento por justiça é: “… eles serão fartos”. Ele deseja justiça, e a terá! Ele quer Deus, e o terá! Anela por um novo coração, e assim será. Quer ser livre do pecado, e isso acontecerá. Quer ser tornado perfeito, será tornado perfeito. Deseja viver onde não haja pecado, será levado a habitar onde eternamente não haverá pecadores!
Além de ser singular e adequada, essa bênção é muito ampla e abundante. Cristo disse: “… bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles” — terão um jantar no caminho? Ó, não! “Porque eles” — terão confortos aqui e ali? Ó, não! “Porque eles serão fartos”. Fartos! E a palavra grega poderia ser melhor traduzida como “eles serão saciados”. Terão tudo o que precisarem, o suficiente e para compartilhar! Aqueles que sentem fome e sede de justiça serão fartos, fartos até a borda. Como isso é verdadeiro! Aqui está um homem que diz: “Estou condenado à vista de Deus. Sinto e sei que nenhuma ação minha poderá jamais me tornar justo diante dele. Desisti de toda a esperança de autojustificação”. Ouça, homem, você crerá em Jesus Cristo, o Filho de Deus, e o receberá para comparecer diante de Deus como seu substituto e representante? “Crerei!”, diz ele. “Confio nele e somente nele.” Bem, então saiba que recebeu de Cristo a justiça que certamente o satisfará! Tudo o que Deus poderia lhe pedir, por direito, é a perfeição de homem, pois, sendo você um homem, essa é toda justiça que se pode esperar que você apresente diante de Deus. Mas, na justiça de Cristo, você tem a perfeita justiça de um homem e, mais que isso, também tem a justiça de Deus! Pense nisso! O pai Adão, em sua perfeição, vestia-se da justiça do homem e era agradável observá-la enquanto esta durou. Mas, se você confiar em Jesus, estará se revestindo da justiça de Deus, pois Cristo era Deus, bem como homem. Agora, quando um homem chega a essa experiência e sabe que, tendo crido em Jesus, Deus o vê como se a justiça de Jesus fosse a justiça deste homem — e de fato imputa a ele a justiça divina que é de Cristo —, esse homem é farto! Sim, ele é mais que farto, é saciado! Tudo que sua alma poderia possivelmente desejar, ele já possui em Cristo Jesus!
Eu lhes disse que o homem também queria uma nova natureza. Ele disse: “Ó, Deus, anseio por livrar-me dessas más propensões. Preciso que este meu corpo impuro seja feito templo do encontro para ti. Quero ser feito como meu Senhor e Salvador, para que possa andar com Ele no Céu eternamente”. Ouça, ó homem! Se você crê em Jesus Cristo, isso é o que foi feito em você! Recebeu em sua natureza, pela Palavra de Deus, uma semente incorruptível “viva e que permanece para sempre”. Ela já está em você se crê em Jesus e, assim como o próprio Deus não pode morrer, ela também não morrerá porque é de natureza divina. “Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a palavra do Senhor” — esta palavra que você recebeu se creu em Jesus — “permanece para sempre”. A água que Cristo lhe deu será em você uma fonte de água que jorra para a vida eterna! No momento em que somos regenerados, uma nova natureza nos é transmitida, sobre a qual o apóstolo Pedro diz: “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar”. E o mesmo apóstolo diz que os crentes são “participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo”. Não é esse um abençoado começo para aqueles que têm fome e sede de justiça?
Mas ouçam ainda mais. Deus, o Espírito Santo, a terceira pessoa da bendita Trindade, condescende em vir e habitar em todos os fiéis! Paulo escreve à Igreja do Senhor em Corinto: “não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo?”. Deus habita em você, meu irmão ou irmã em Cristo! Essa verdade não o surpreende? O pecado habita em você, mas o Espírito Santo também veio habitar em você e para expelir o pecado de sua vida. O diabo o assalta e tenta capturar seu espírito e fazê-lo como aqueles que estão em sua cova infernal, mas o Eterno veio e Ele mesmo se abrigou em seu interior! O Espírito Santo habita em seu coração se você é um crente em Jesus! O próprio Cristo é em você “a esperança da glória”. Se você realmente deseja a justiça, querida alma, você certamente a tem aqui — na natureza transformada e feita em semelhança à natureza de Deus. O princípio governante foi alterado, o pecado destronado, e o Pai, o Filho e o Espírito Santo habitam em seu interior como seu Senhor e Mestre! Ora, penso que, por mais que você possa sentir fome e sede de justiça, deve se considerar bem farto, já que tem essas imensuráveis bênçãos!
E ouça novamente, meu irmão ou irmã em Cristo. Você será mantido e preservado até o fim! Aquele que começou a purificação em você jamais abandonará o trabalho até que o deixe sem manchas, rugas ou coisa semelhante. Ele nunca começa uma obra que não possa ou não vá completar! Ele jamais falhou em qualquer coisa que tenha assumido e jamais falhará! O comando de suas corrupções já está vencido e, embora seus pecados ainda se rebelem, é apenas um arquejar pela vida. As armas da graça vitoriosa os abaterão e finalizarão a contenda para sempre. Os pecados que o importunam hoje serão como aqueles egípcios que perseguiram os filhos de Israel até o mar Vermelho — você nunca mais os verá. “O Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés.” E, tão certo quanto você creu em Cristo, um imperfeito verme de pó como é, você andará com Ele em vestes brancas nas ruas de ouro dentro de cujos portões jamais entrará qualquer coisa corrupta, “mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro”. Sim, cristão, você estará perto e será à semelhança de seu Deus! Você ouviu isso? Você faminto e sedento por justiça, você a terá sem economia, pois será um dos “idôneos para participar da herança dos santos na luz”. Poderá contemplar Deus em Sua inefável glória e habitar com o fogo devorador e com a eterna combustão de Sua imaculada pureza! Poderá ver Deus que é fogo consumidor e não ter medo, pois não haverá qualquer coisa em você para ser consumida! Você será imaculado, perfeito, puro e imortal como seu Deus — isso não o satisfará?
“Ah”, você diz, “isso me satisfaz por mim mesmo, mas eu gostaria de ver meus filhos justos também”. Então, entregue-os ao Deus que ama o pai e a mãe deles e peça-lhe que abençoe seus filhos assim como abençoou Isaque por amor a Abraão e abençoou Jacó por amor a Isaque. Você diz: “Ó, mas também quero ver meus vizinhos salvos”. Então tenha fome pela alma deles! Tenha sede por suas almas do mesmo modo que sentiu fome e sede por si próprio! E Deus o ensinará como falar-lhes e provavelmente, como você tem fome e sede por suas almas, Ele fará de você o meio para a conversão deles!
Também há esta verdade para consolá-lo: um dia, haverá justiça sobre todo este mundo. Milhões ainda rejeitam a Cristo, mas Ele tem um povo que não o rejeitará. No presente, a massa da humanidade corre para longe dele, mas “o Senhor conhece os que são seus”. Todos quantos o Pai entregou a Cristo certamente virão a Ele; Cristo não ficará decepcionado, Sua cruz não terá se erguido em vão. “… verá a sua posteridade, prolongará os dias, e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito”. Você pode até lamentar pelos ídolos que não caem, as opressões que não terminam, o pranto das viúvas, o choro dos órfãos e os suspiros dos que se assentam nas trevas e não veem a luz. Porém, tudo isso terá um final. Dias mais brilhantes do que estes estão vindo — o evangelho cobrirá a Terra ou, do contrário, Cristo virá pessoalmente. Não cabe a nós decidir qual dessas opções ocorrerá, mas, de um jeito ou de outro, virá o dia em que Deus reinará sem rivais sobre o mundo. Tenham certeza disso! Chegará o momento em que a grande multidão, como a voz de muitas águas, como a voz do poderoso trovão, declarará: “Aleluia! O Senhor onipotente reina!”.
Se temos fome e sede de justiça, estamos do lado vencedor! A batalha pode estar contra nós agora. O sacerdócio pode estar nos forçando dolorosamente e os males que nossos antepassados atacaram podem voltar com força e astúcia superiores e, por um tempo, a coragem dos santos pode ficar enfraquecida e seus exércitos vacilarem, mas o Senhor ainda vive, e como Ele vive, somente a justiça triunfará, e toda iniquidade e todo caminho errado serão pisoteados! Continue lutando, pois no final será vitorioso. Não pode ser derrotado a menos que o próprio Eterno pudesse ser vencido — o que jamais acontecerá. Bem-aventurado é o homem que sabe que a causa que esposou é a correta, pois saberá que, no capítulo final da história mundial, seu triunfo será registrado! Ele pode não estar mais vivo. Pode somente lançar a semente, mas seus filhos segarão a colheita, e os homens falarão dele com solene respeito como um homem que viveu antes de seu tempo e que merece a honra daqueles que vieram depois dele! Erga-se em favor do que é justo! Apegue-se a seus princípios, meus irmãos e irmãs em Cristo! Sigam a santidade e a justiça em todas as suas formas. Que ninguém os suborne ou os afaste desse abençoado Livro e de seus dogmas imortais! Sigam o que é verdadeiro, não o que é padronizado pelos grandes. O que é justo, não o que se abanca no assento da autoridade humana. E siga-o com fome e sede que são insaciáveis e você será “farto”.
Você gostaria de estar lá no dia em que o Príncipe da verdade e santidade passar em revista os Seus exércitos? Gostaria de estar lá quando o brado jubiloso rasgar os Céus: “O Rei dos reis e Senhor dos senhores conquistou todos os Seus inimigos, e o diabo e todas as suas hostes foram colocados para correr!”? Deseja estar lá, digo, quando todos os Seus troféus de vitória estiverem expostos, e o Cordeiro que foi morto será o monarca reinante sobre todas as nações, reunindo molhos de cetros debaixo de Seus braços e pisando sobre as desgastadas e inúteis coroas dos príncipes? Você gostaria de estar lá naquele dia? Então esteja aqui agora — aqui onde a luta se intensifica! Aqui onde o estandarte do Rei é desfraldado, e diga a seu Deus: “Ó Senhor, como encontrei a justiça em Cristo, e sou salvo, comprometo-me a levantar-me pelo que é justo e verdadeiro enquanto eu viver! Então, mantenha-me fiel até à morte”.
Agora que encerro meu discurso, pronuncio sobre todos vocês que estão confiando em Jesus a quarta bênção pronunciada por Cristo no monte das Bem-aventuranças: “… bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos…”. Amém!
Capítulo VII
JUSTIÇA E BEM-AVENTURANÇA
Aobrigação do crente consiste em encarar a vida neste mundo à luz do Evangelho: e, conforme este Evangelho, a grande dificuldade da humanidade não é alguma manifestação particular do pecado, e, sim, é o pecado propriamente dito. Se você sente-se aflito e ansioso a respeito do estado do mundo e da ameaça de possíveis guerras, então eu lhe asseguro que a maneira mais certa de evitarmos tais calamidades consiste em darmos atenção a palavras tais como aquelas que passamos a considerar neste capítulo: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6). Se cada homem e mulher neste mundo soubesse o que significa “ter fome e sede de justiça”, então não haveria perigo de explodirem conflitos armados. Esse é o único caminho para a verdadeira paz. Todas as demais considerações eventualmente não exploram a fundo o problema e todas as denúncias que estão sendo feitas constantemente contra diversos países, povos e indivíduos não exercerão o mais leve efeito sobre a situação internacional. Destarte, com frequência desperdiçamos o nosso tempo, bem como o tempo de Deus, exprimindo nossos pensamentos e sentimentos humanos, ao invés de tomarmos a sério a Palavra do Senhor. Mas, se cada ser humano soubesse o que quer dizer “ter fome e sede de justiça”, então esse problema seria prontamente solucionado. A maior necessidade do mundo atual é um maior número de crentes, de crentes individuais. Se todas as nações fossem formadas por crentes individuais, então ninguém precisaria temer o uso do poder atômico, e nem qualquer outro tipo de armamento. Dessa maneira, o Evangelho, que parece ser tão remoto e indireto em sua abordagem, na realidade é a medida mais direta de se resolver esse problema. Uma das maiores tragédias na vida da Igreja moderna é a forma como tantos sentem-se contentes diante daquelas declarações vagas, gerais e inúteis que se fazem sobre a guerra e a paz, ao invés de ser pregado o Evangelho em toda a sua simplicidade e pureza. O que efetivamente exalta uma nação é a retidão, e a coisa mais importante que nos compete fazer é descobrir o significado do termo “justiça”, utilizado nesta bem-aventurança.
Nesta declaração particular do Sermão do Monte, deparamo-nos com uma outra das características do crente, com uma nova descrição do indivíduo que segue ao Senhor. Ora, conforme já pudemos notar, é importantíssimo que aceitemos essa declaração em sua devida posição lógica, dentro da série de declarações que foram feitas por nosso Senhor. Essa bem-aventurança, uma vez mais, segue-se logicamente às afirmações anteriores; ela é uma declaração na direção da qual conduzem todas as declarações anteriores. É uma conclusão lógica a que elas chegam, e pela qual deveríamos sentir-nos profundamente agradecidos e penhorados a Deus. Desconheço teste melhor do que um versículo como este, que uma pessoa possa aplicar a si mesma e aos seus semelhantes, quanto à questão inteira da profissão cristã. Se, para você, este versículo encerra uma das mais benditas afirmativas de toda a Bíblia, então pode ter a certeza de que é, realmente, um crente; em caso contrário, então seria aconselhável que você examinasse novamente no que está alicerçado.
Encontramos aqui uma ótima resposta para aqueles problemas que temos considerado. Já fomos ensinados que devemos ser “humildes de espírito”, que precisamos “chorar”, e também que devemos ser “mansos”. Nesta passagem bíblica, encontramos a resposta para tudo isso. Embora essa bem-aventurança pertença logicamente a todas aquelas que a precederam, não é menos verdade que ela introduz uma pequena modificação em toda a abordagem da questão. Essa bem-aventurança é um tanto menos negativa em seu sentido, e um tanto mais positiva. Há nela um certo fator negativo, conforme verificaremos, mas o elemento positivo é nela mais pronunciado. As anteriores asseverações, por assim dizer, vinham impelindo-nos a olhar para nós mesmos, a examinarmos a nós mesmos; neste versículo, entretanto, começamos a procurar alguma solução, e por isso sucede uma leve alteração na ênfase. Tínhamos estado a considerar nosso total desamparo e impotência, nossa completa penúria de espírito, nossa bancarrota quanto a todas as questões espirituais. Ora, tendo perscrutado a nós mesmos, vimos o pecado em nosso interior, o qual macula a perfeita criação do homem efetuada por Deus. Em seguida, vimos o delineamento da mansidão e de tudo quanto por ela é representado. O tempo todo estivemos preocupados com aquele terrível problema do ego – aquele interesse próprio; aquela autodependência que produz todas as nossas misérias, e que é a causa última das guerras, quer entre indivíduos quer entre nações; aquele egoísmo e egocentrismo que giram em tomo do próprio “eu” e que o divinizam, aquele defeito horrendo que é a causa final de toda a infelicidade. E também pudemos aprender que o crente é o indivíduo que lamenta e lamuria, odiando a sua condição natural. Neste ponto, por conseguinte, voltamos a atenção para a busca pela solução desses problemas, a fim de sermos libertados do “eu”, o que é um de nossos anelos.
Neste versículo encontramos uma das mais extraordinárias declarações do Evangelho cristão e de tudo quanto o mesmo pode proporcionar-nos. Poderíamos descrever essa declaração como a magna carta de toda a alma anelante, aquela notável afirmação do Evangelho cristão a todos quantos se sentem infelizes no tocante a si mesmos e no tocante ao seu estado espiritual, os quais também anseiam por uma nova ordem e por uma nova qualidade de vida de que até agora não puderam usufruir. Também poderíamos descrever essa declaração como uma das mais típicas afirmações do Evangelho. Ela é eminentemente doutrinária; frisa uma das mais fundamentais doutrinas do Evangelho, a saber, que a nossa salvação nos é propiciada inteiramente de graça, ou através da graça divina, por ser um dom inteiramente gratuito da parte de Deus. Essa é a grande ênfase desta declaração.
Talvez a maneira mais simples de abordarmos este texto seja mediante a consideração dos seus vocábulos. Trata-se de um daqueles textos que se divide mui naturalmente diante de nós, e tudo quanto temos a fazer é examinar o sentido dos vários termos que foram utilizados. É óbvio, por conseguinte, que devemos começar pelo vocábulo “justiça”. “Bem-aventurados – ou felizes – os que têm fome e sede de justiça.” Essas são as únicas pessoas verdadeiramente felizes. Ora, o mundo inteiro anda à procura da felicidade, não há que duvidar. Todos querem ser felizes. Esse é o motivo maior por detrás de cada ação e ambição, por detrás de todo trabalho, esforço e empreendimento. Tudo quanto os homens fazem tem por alvo a felicidade. Entretanto, a grande tragédia do mundo é que, embora a humanidade se concentre tanto na busca pela felicidade, ao que parece jamais consegue encontrá-la. A atual condição deste mundo faz-nos lembrar vigorosamente esse fato. O que está sucedendo no mundo? Penso que a resposta é que jamais compreendemos esse texto conforme deveríamos tê-lo compreendido. “Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de justiça.” Mas, o que significam essas palavras? Seja-me permitido expressá-lo negativamente, em primeiro lugar. Não convém que tenhamos fome e sede de alguma bênção; e nem nos compete ter fome e sede de felicidade. Ora, o que todo o mundo anda fazendo é precisamente isso. Destacamos a felicidade e a bênção como as principais coisas que almejamos, e, por esse motivo, sempre acabamos por perdê-las; elas sempre escapam de nós. De conformidade com as Escrituras, a felicidade nunca é algo que deveríamos buscar diretamente; antes, sempre é algo que resulta da busca de algum outro alvo.
Ora, isso acontece a muitos que estão fora da igreja, e também a muitos que fazem parte da igreja. Essa é obviamente a tragédia que se evidencia na vida daqueles que não fazem parte da igreja. O mundo anda à cata da felicidade. Essa é a explicação para a sua mania em busca do prazer, esse é o sentido de tudo quanto fazem homens e mulheres, não somente no seu trabalho diário, mas sobretudo em seu afã atrás de diversões. Todos estão procurando achar a felicidade, porquanto esse é o seu alvo primordial, o seu objetivo fixo. No entanto, não encontram a felicidade, pois sempre que alguém põe a felicidade acima da justiça, quanto à ordem de prioridade, tal esforço está condenado ao fracasso mais miserável. Essa é a grande mensagem da Bíblia, da primeira à última página. Só são felizes as pessoas que buscam primariamente a justiça. Ponha-se a felicidade no lugar que pertence à justiça, e a felicidade nunca será obtida.
Este mundo, é claro, caiu nesse erro primário e fundamental, erro esse que poderia ser ilustrado de muitas maneiras diferentes. Ponderemos acerca do indivíduo que esteja sofrendo em face de alguma enfermidade dolorosa. De modo geral, o grande desejo de tal paciente é ver-se livre de seu sofrimento, o que é um desejo que facilmente pode ser compreendido. Ninguém gosta de sofrer alguma dor. A ideia fixa desse paciente, por conseguinte, é fazer qualquer coisa que o livre dos seus sofrimentos. Sim; mas se o médico que estiver tratando o doente estiver interessado somente em aliviar-lhe as dores, é um péssimo médico. O dever primário do médico é descobrir a causa da dor e tratar dessa causa. A dor é um admirável sintoma que a natureza nos proveu a fim de advertir-nos a respeito de alguma enfermidade, e a cura radical da dor consiste precisamente no tratamento daquela enfermidade, e não no alívio da dor propriamente dita. Isso posto, se um médico qualquer puser-se a tratar somente da dor, sem descobrir-lhe a causa, não somente estará agindo de uma maneira contrária à natureza, mas também estará fazendo algo que é extremamente perigoso para a vida do paciente. O enfermo, mediante tratamento assim, talvez fique livre de suas dores e pareça estar bem de saúde; mas a causa de sua dificuldade continuará presente. Ora, essa é a insensatez da qual o mundo se tem tornado culpado. Dizem os homens: “Quero ficar livre da minha dor, e por isso apelarei para o cinema, para o álcool ou para qualquer outra coisa que me faça esquecer da minha dor”. Todavia, a indagação que se faz mister é a seguinte: Qual é a causa da dor, da infelicidade e do senso de miséria dos homens? Aqueles que andam à procura somente da felicidade e da bênção nem por isso se sentem felizes. Não, mas “bem- aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”.
Entretanto, esse fracasso também se dá no caso de muitas pessoas que são membros da igreja. Há um grande número de pessoas, na igreja de Cristo, que parece passar a totalidade de suas vidas procurando por algo indefinível, que jamais podem encontrar ao buscarem alguma espécie de felicidade e bênção. Essas pessoas vão de reunião em reunião, de convenção em convenção, na perene esperança de que obterão aquela coisa maravilhosa que procuram, aquela experiência que haverá de invadi-las de júbilo, que haverá de arrebatá-las de êxtase. Essas pessoas sabem que outros já receberam essas realidades espirituais, mas elas mesmas parecem incapazes de obtê-las. E assim cobiçam e procuram, sempre com fome e com sede, mas sem jamais acharem aquilo que tanto buscam.
Ora, isso não é para surpreender. Não nos compete ter fome e sede de experiências; e nem se espera de nós que tenhamos fome e sede de bênçãos. Se quisermos ser verdadeiramente felizes e abençoados, então precisamos ter fome e sede de justiça. Não convém que ponhamos a felicidade e a bênção acima da justiça, quanto à ordem de prioridade. Não, pois a felicidade e a bênção são coisas que Deus acrescenta àqueles que buscam a Sua justiça. Oh, a tragédia representada pelo fato que não seguimos o ensino e a instrução simples da Palavra de Deus, mas antes, vivemos cobiçando e buscando essas experiências as quais esperamos poder receber algum dia. As experiências abençoadas são dádivas de Deus; aquilo que eu e você devemos procurar e cobiçar, com fome e com sede, é a justiça. Muito bem, esse é um aspecto negativo importantíssimo. Porém, existem ainda outros pontos negativos.
O que está envolvido nessa justiça? Naturalmente, não se deve pensar aqui naquilo de que tanto se fala em nossos dias, isto é, uma espécie de retidão geral ou de moralidade entre as nações. Muito se debate atualmente sobre o caráter sagrado dos acordos internacionais, sobre a fidelidade aos contratos, sobre a necessidade de se manter a palavra, sobre negócios realizados de maneira equitativa, sobre a lealdade nos tratos e sobre tudo o mais que pertence a essa categoria de coisas. Até onde vão, elas estão certas; esse é o tipo de moralidade ensinada pelos antigos filósofos gregos do paganismo, e até certo ponto é boa. Entretanto, o Evangelho cristão não para nesse ponto; a justiça cristã não consiste somente nisso, sob hipótese alguma. Há pessoas que falam com eloquência a respeito dessa forma de justiça, mas que, em minha opinião, pouquíssimo conhecem o que seja justiça pessoal. Os homens podem mostrar-se eloquentes acerca de como certas nações ameaçam a paz mundial, violando os seus acordos, embora eles mesmos mostrem-se desleais para com suas esposas, mostrem-se desleais para com os seus próprios votos matrimoniais e outros votos solenes que porventura tenham feito. O Evangelho cristão, porém, não se interessa nem um pouco por esse tipo de debate; seu conceito de retidão é muito mais profundo do que isso. Por igual modo, a justiça evangélica não aponta meramente para a respeitabilidade geral ou para a moralidade geral. Não posso elaborar nesses diversos particulares; meramente mencionei-os de passagem.
Muito mais importante e muito mais grave, de um ponto de vista autenticamente evangélico, conforme penso, é o fato que não é correto definir a justiça nessa conexão, como sinônimo de justificação. Há pessoas que se põem a examinar a sua concordância, a fim de entenderem o sentido da palavra “justiça” (e, naturalmente, ela pode ser encontrada em muitos trechos da Bíblia), e então dizem que ela significa a mesma coisa que “justificação”. O apóstolo Paulo realmente empregou o vocábulo nesse sentido, na sua epístola aos Romanos, onde escreveu a respeito de a “… justiça de Deus mediante a fé…” (Romanos 3:22). Ora, ali Paulo estava falando sobre a justificação, e, nesses casos, o contexto geralmente esclarece perfeitamente a questão para nós. Com frequência, esse vocábulo significa mesmo justificação; no caso presente, entretanto, sugiro que significa muito mais do que isso. O próprio contexto onde o encontramos (especialmente em relação às três bem-aventuranças prévias) insiste, ao que me parece, que neste particular a justiça inclui não somente a ideia de justificação, mas também o conceito de santificação. Em outras palavras, o anelo pela justiça, a atitude de quem tem fome e sede de justiça, em última análise aponta para o desejo de receber libertação do pecado, em todas as suas formas e em sua própria manifestação.
Seja-me permitido analisar a questão por partes. Ter fome e sede de justiça significa anelar por ser livre do pecado, porque o pecado nos separa de Deus. Por conseguinte, de certo ângulo positivo, está em pauta o desejo de se estar bem com Deus; e isso, afinal de contas, é a questão fundamental. Todas as dificuldades que assediam o mundo atual devem-se ao fato que o homem não está bem com Deus, pois é em face do ser humano não estar bem com Deus que ele tem errado em tudo o mais. Esse é o ensinamento da Bíblia em todas as suas páginas. Assim sendo, o desejo de obter a justiça é o desejo de se estar bem com Deus, é o desejo de se desvencilhar do pecado, pois o pecado é justamente aquilo que se interpõe entre nós e o nosso Deus, turvando o nosso conhecimento de Deus e impedindo tudo quanto nos é possível, no que diz respeito aos benefícios que Deus nos quer dar. Portanto, é necessário que eu confira primazia a esse anelo. O indivíduo que tem fome e sede de justiça vê que o pecado e a rebelião o separaram da face de Deus, e ele anseia por retornar àquele antigo relacionamento, àquele relacionamento original de justiça, na presença de Deus. Nossos primeiros pais foram criados justos aos olhos do Senhor. Eles viviam e andavam em companhia dEle. Esse é o tipo de relacionamento com Deus que o homem justo tanto almeja.
Entretanto, esse desejo também envolve, necessariamente, o anseio de se estar livre do domínio do pecado. Tendo tomado consciência do que quer dizer ser humilde de espírito e de lamentar-se devido à presença do pecado no íntimo, mui naturalmente chegamos àquele estágio em que anelamos por estar libertos do poder do pecado. O homem pelo qual temos estado a rebuscar, nos termos das bem-aventuranças, é o homem que já viu que o mundo no qual vive é controlado pelo pecado e por Satanás; esse homem já percebeu que estava vivendo debaixo do controle de uma influência maligna, que até então o dominava, já que ele vivia “… segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência…” (Efésios 2:2). Esse homem já notou que “o deus deste mundo” o havia cegado no que concerne a diversas realidades, e agora anela por libertar-se dessas algemas. Deseja ver-se livre desse poder que o puxa para baixo a despeito de si mesmo, aquela “lei” que opera nos seus membros, e da qual Paulo fala em Romanos 7. Tal homem aspira ser libertado do poder, da tirania e da servidão ao pecado. Observe, por conseguinte, quão mais profunda e vasta é essa ideia do que aquela opinião, bastante comum entre os homens, que só define o relacionamento entre os povos, e coisas nesse sentido.
Porém, o conceito em foco ainda é mais amplo do que isso que dissemos acima. Esse conceito indica o anelo do homem por ver-se livre do próprio desejo de pecar, porquanto tal homem, já o vimos, ao examinar-se realisticamente à luz das Escrituras, não somente tomou consciência que está vendido ao pecado, mas, pior ainda, continua afeiçoado ao pecado, continua desejando pecar. Mesmo depois de ver que está errado, ainda o quer. Por outra parte, o homem que tem fome e sede de justiça é o homem que deseja ver-se redimido de todo o desejo de pecar, não apenas em atos externos, mas também desde seu próprio íntimo. Em outras palavras, tal indivíduo anela por aquela libertação do que poderíamos chamar de polução do pecado. O pecado é algo que polui a própria essência de nosso ser e de nossa natureza. Crente é aquele que deseja ver-se liberto de todas essas coisas.
Talvez pudéssemos apresentar um sumário da questão. Ter fome e sede de justiça é desejar ver-se livre do próprio “eu”, em todas as suas horrendas manifestações, em todas as suas facetas. Ao considerarmos o homem manso, vimos que tudo quanto essa qualidade da mansidão envolvia é que ele era isento de egoísmo, em todas as suas formas e variedades – o autointeresse, o orgulho, a jactância, a autoproteção, a sensibilidade exagerada, a ideia de que todas as outras pessoas são contrárias a ele, e o desejo de proteger e glorificar ao próprio “eu”. Essa é a atitude que provoca conflitos entre as pessoas, e também os conflitos entre as nações: a imposição do próprio “eu” aos nossos semelhantes. Ora, o homem que tem fome e sede de justiça é o homem que anela por estar isento de tudo isso; ele quer ser emancipado do autointeresse em todas as suas variações e formas.
Até agora tenho falado sobre o problema de uma perspectiva um tanto negativa; porém, permita-me colocar o ponto em um sentido positivo, conforme passo a dizer. Ter fome e sede de justiça não é outra coisa senão o desejo do homem de ser positivamente santo. Não posso imaginar melhor maneira de definir a questão. O homem que tem fome e sede de justiça é o homem que deseja ser um exemplo das bem-aventuranças em seu viver diário. É o homem que quer exibir o fruto do Espírito em cada uma de suas ações, bem como na totalidade de sua vida e de suas atividades. Ter fome e sede de justiça é anelar ser como o homem descrito no Novo Testamento, o novo homem em Cristo Jesus. É isso que é aqui frisado, isto é, que todo o meu ser e que toda a minha vida adquiram essa natureza. E posso ainda ir um pouco mais adiante. Significa que o supremo desejo, na vida de uma pessoa, é conhecer a Deus e desfrutar de companheirismo com Ele, andando com Deus Pai, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo, em plena luz. Esclareceu João: “Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (I João 1:3). E disse igualmente aquele apóstolo: “…Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (I João 1:5). Estar em comunhão com Deus significa andar na luz, em companhia de Deus Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo, em bendita pureza e santidade. Sim, o indivíduo que tem fome e sede de justiça é o indivíduo que anela por essa comunhão acima de qualquer outra coisa. E, depois de pesadas todas as coisas, isso nada é senão o desejo de parecer-se com o próprio Senhor Jesus Cristo. Olhemos para Ele; consideremos o Seu retrato falado nos quatro Evangelhos; olhemos para Ele, enquanto esteve neste mundo, sob forma humana; olhemos para Ele em Sua obediência positiva à santa lei de Deus; olhemos para Ele em Suas reações diante dos outros homens, em Sua gentileza, em Sua compaixão, em Sua natureza sensível; olhemos para Ele em Suas reações para com os Seus adversários e para com tudo quanto Lhe fizeram. Esse é o retrato de Cristo, e você e eu, de acordo com a doutrina neotestamentária, temos nascido de novo e fomos amoldados de novo segundo aquele padrão, aquela imagem. Por conseguinte, o homem que tem fome e sede de justiça é o homem que quer ser parecido com esse retrato. O seu supremo desejo é assemelhar-se a Cristo.
Pois bem, se a justiça consiste nisso, consideremos agora aqueles outros vocábulos: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. Ora, esses vocábulos são importantíssimos porque nos levam até ao aspecto prático da questão. Que significa ter “fome e sede”? Como é óbvio, isso não significa que sentimos que podemos atingir a justiça em virtude de nossos próprios esforços. O ponto de vista profano encara a justiça sob esse prisma, concentrando toda a atenção no próprio homem; mas isso somente produz o orgulho pessoal do fariseu, ou a empáfia de alguma nação contra as outras nações, como se ela fosse melhor e superior às demais. Tudo isso conduz àquelas coisas que o apóstolo Paulo alistou em Filipenses 3, mas que ele ali desconsidera, taxando-as de “refugo”, tais como a autoconfiança e a crença nas próprias possibilidades. Ora, “ter fome e sede de justiça”, é evidente, não pode apontar para o esforço próprio, porquanto logo na primeira bem-aventurança somos informados que devemos ser “humildes de espírito”, a própria negação de toda espécie de autodependência.
Pois bem, o que significa ter fome e sede de justiça, afinal? É lógico que estão em pauta coisas simples como aquelas que passamos a enumerar. Significa que temos consciência das nossas próprias necessidades, de nossa mais profunda necessidade. Vou ainda adiante e afirmo que significa a tomada de consciência de nossa desesperadora necessidade; fica destacada uma profunda consciência de nossa tão tremenda necessidade, ao ponto de nos causar dor. Ressalta uma necessidade que tem prosseguimento enquanto não for inteiramente satisfeita. Não devemos pensar apenas em algum sentimento passageiro, algum desejo efêmero. Você deve estar lembrado de como Oséias declarou que a nação de Israel, por assim dizer, vivia sempre buscando o arrependimento, somente para cair novamente em pecado. Isso posto, a justiça de Israel, asseverou o profeta, é como “a nuvem da manhã” – aparece por um instante, somente para desaparecer dentro de pouco tempo. O reto caminho, conforme ele indicou, é descrito pelas suas palavras: “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor…” (Oséias 6:3). “Fome” e “sede” não são sensações passageiras. A fome é profunda e forte, que continua enquanto não for satisfeita. A fome fere e é dolorosa. Essa fome espiritual assemelha-se à fome e à sede reais. É algo que continua se intensificando e que deixa o indivíduo simplesmente desesperado. É algo que provoca sofrimento e agonia.
Sugiro uma outra comparação. Ter fome e sede de justiça assemelha-se ao indivíduo que almeja atingir certa posição. Tal homem não descansa, nem pode ficar quieto, mas está sempre trabalhando e labutando. Ele pensa a respeito de seu alvo e sonha com o mesmo. A sua ambição é a paixão controladora de sua vida. Ora, “ter fome e sede”, neste texto, assemelha-se a isso – assemelha-se ao indivíduo que tem “fome e sede” da posição vantajosa que almeja. Também poderíamos comparar esse anelar às saudades que alguém sente por outrem. No amor sempre há grande fome e sede. O desejo mais forte daquele que ama é estar na companhia do ser amado. Se houver separação entre os dois, aquele que ama não terá descanso enquanto não se verificar novamente a união. “Ter fome e sede.” Nem preciso lançar mão dessas ilustrações. O salmista sintetizou perfeitamente tudo isso em uma sentença que se tornou clássica: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo…” (Salmos 42:1–2). A pessoa tem fome e sede de Deus – esse é o ponto. Quero citar algumas palavras do notável John N. Darby, as quais, conforme penso, expressam admiravelmente bem a questão. Declarou ele: “Ter fome não é o bastante; é mister que eu esteja, realmente, morrendo de inanição, para que possa saber o que está no coração de Deus a meu respeito”. E em seguida vem a declaração que exprime de forma perfeita a questão inteira. Disse ele: “Quando o filho pródigo teve fome, queria alimentar-se com as bolotas jogadas aos porcos; mas, quando estava morrendo de inanição, voltou para seu pai”. Sim, essa é a questão inteira. Ter fome e sede, na verdade, significa estar desesperado, estar morrendo de inanição, sentir que a vida se esvai; significa perceber minha urgente necessidade de ajuda. “Ter fome e sede de justiça” – “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma – pelo Deus vivo”.
Em último lugar, consideremos de passagem o que foi prometido às pessoas dotadas dessa virtude. Vemos aí uma das declarações mais gloriosas, graciosas e profundas que se podem achar na Bíblia inteira. “Felizes, felizes, bem-aventurados, dignos de encômios são aqueles que assim têm fome e sede de justiça.” Mas, por quê? Bem, é que eles “serão fartos”, eles receberão aquilo que tanto desejam. O Evangelho todo está encenado nessa ideia. Até esse ponto chega o Evangelho da graça divina. Tudo é uma dádiva da parte de Deus. Ninguém jamais ficará farto da justiça, ninguém sentir-se-á jamais abençoado, à parte de Deus. Para que essa bênção seja obtida, “toda a preparação que Ele requer é que você perceba o quanto necessita dEle”, e nada mais. Quando você e eu reconhecermos a nossa mais profunda necessidade, essa fome e esse padecer inanição, essa morte que nos ameaça por dentro, então Deus haverá de satisfazê-la. Deus haverá de conceder-nos essa dádiva bendita. “O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6:37). Ora, essa é uma promessa absoluta; e assim, se você realmente tem fome e sede de justiça, então será satisfeito. Não há o que duvidar no tocante a isso. Certifique-se de que não está tendo apenas fome e sede de alguma bênção. Antes, tenha fome e sede da própria justiça, anele por ser semelhante a Cristo, e então você receberá isso, e igualmente a bênção.
Como é que tudo isso acontece? Acontece – e essa é exatamente a glória do Evangelho – acontece imediatamente, graças a Deus, “… serão fartos”, sem tardança. Tudo ocorre desse modo: assim que verdadeiramente desejamos a justiça, somos justificados em Cristo, devido à Sua retidão; e é removida a barreira do pecado e da culpa que se erguia entre nós e Deus. Confio que nenhum dos meus leitores se sinta incerto ou infeliz a esse respeito. Se você realmente confia no Senhor Jesus, se você crê que Ele morreu naquela cruz por sua causa e em resgate por seus pecados, então você foi perdoado; você não tem mais necessidade de pedir-Lhe o perdão, pois já foi perdoado. Cumpre-lhe agora agradecer a Deus por isso, por haver sido plenamente satisfeito com a Sua justiça, com a justiça de Cristo, que lhe foi imputada. Doravante Deus está olhando para você através da retidão de Cristo, e não mais enxerga o seu pecado. Deus o está contemplando como um pecador a quem Ele já perdoou. Você não está mais sujeito à lei, mas está debaixo da graça. Você está pleno da justiça de Deus, em toda essa questão de sua situação diante de Deus, em toda essa questão da sua justificação – uma gloriosa e admirabilíssima verdade. O crente, portanto, sempre é o homem que sabe que os seus pecados lhe foram perdoados. Não pode ser alguém que ainda busca o perdão, porquanto reconheceu que já foi perdoado, que já foi gratuitamente justificado em Cristo, devido à graça de Deus. Agora ele é considerado justo, neste preciso momento, na presença de Deus Pai. Destarte, pode dizer, juntamente com Augustus Toplady:
Do meu Deus e da lei está visto,
seu terror não me pode arguir,
pois o sangue e obediência de Cristo.
Meus delitos fizeram sumir.
Graças a Deus, tudo acontece prontamente!
Todavia, também devemos pensar que se trata de um processo contínuo. Com isso quero dizer que, conforme já ficou demonstrado, o Espírito Santo começa a livrar-nos do poder e da polução do pecado, operando desde o nosso homem interior. Precisamos ter fome e sede dessa libertação, a fim de sermos soltos desse poder e livres dessa polução. Ora, se você tiver fome e sede desse livramento, sem dúvida haverá de obtê-lo. Virá o Espírito Santo e operará em você “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Cristo virá a você, passando a viver a Sua vida em você; e, na medida em que Ele estiver vivendo em você, você será crescentemente libertado do poder do pecado e de sua polução. Você será capacitado a tornar-se mais que vencedor, sobre tudo quanto porventura vier a assaltá-lo, e isso de maneira tal que você não somente obterá essa resposta e essa bênção de forma imediata, mas também essa operação prosseguirá sem cessar, enquanto você estiver andando com Deus Pai e com Cristo, contando com a vida do Espírito Santo no seu íntimo. Você receberá forças para resistir a Satanás, e ele fugirá de você. Você será capaz de oferecer resistência ao diabo, podendo defender-se de todos os dardos inflamados do adversário, e, durante todo o tempo, terá prosseguimento a obra divina, operante em seu interior, livrando-o da polução.
Mas, como é lógico, finalmente essa promessa terá um cumprimento cabal e absoluto, na eternidade. Aproxima-se o dia em que todos quantos estão em Cristo e a Ele pertencem postar-se-ão na presença de Deus como indivíduos sem culpa, sem defeito, sem mancha e sem ruga. Todas as falhas terão desaparecido. Ficará um homem novo e perfeito, dotado de um corpo perfeito. Até mesmo este meu corpo de humilhação será transformado, glorificado, a fim de tornar-se semelhante ao corpo glorificado de Jesus Cristo. Haveremos de estar de pé na presença de Deus, absolutamente perfeitos de corpo, alma e espírito, o homem inteiro revestido de uma justiça perfeita, completa e plena, a qual haveremos de receber da parte do Senhor Jesus Cristo. Em outras palavras, topamos neste ponto, uma vez mais, com um paradoxo. Você já observou a aparente contradição que há em Filipenses 3? Paulo afirma: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição…” (Filipenses 3:12). E então, poucos versículos adiante, afirma ele: “Todos, pois, que somos perfeitos…” (Filipenses 3:15). Haveria nisso alguma contradição com o que ele acabara de dizer? De maneira nenhuma; pois, segundo a Bíblia nos ensina, o crente é um ser perfeito, e, no entanto, continua sendo cada vez mais aperfeiçoado. Diz Paulo aos crentes de Corinto: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (I Coríntios 1:30). Neste exato momento já me encontro perfeito em Jesus Cristo; não obstante, continuo sendo aperfeiçoado. “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.” Sim, Paulo dirigia-se àqueles que são crentes, àqueles que já são perfeitos quanto a essa questão da compreensão sobre o caminho da retidão e da justificação. Não obstante, para nós, que somos crentes, essa exortação deve ser entendida, em determinado sentido, como se estivesse escrito: “Portanto, prossigamos para a perfeição”.
Não sei como é que você se sente diante de tais verdades; mas, para mim elas são fascinantes. Percebe-se nelas que o crente é alguém que, ao mesmo tempo em que tem fome e sede, também está sendo satisfeito. Entretanto, quanto mais se satisfaz tanto mais tem fome e sede. Essa é a bem-aventurança da vida cristã. Ela continua. Chegamos a um determinado estágio da santificação, mas não descansamos nesse ponto pelo resto de nossos dias. Antes, vamos sendo transformados de glória em glória “até assumirmos nosso lugar no céu”. “… todos nós temos recebido de sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). Sim, temos recebido graça acrescentada à graça. Essa bênção tem prosseguimento; perfeitos, mas ainda não completamente perfeitos; tendo fome e sede, e, no entanto, recebendo satisfação. No entanto, sempre anelando por algo mais, nunca tendo o bastante, porquanto tudo é tão glorioso e admirável; plenamente satisfeitos em Cristo, mas, sem embargo, impelidos pelo supremo desejo de “… o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Filipenses 3:10–11).
Você já se sente satisfeito? Você está sendo abençoado nesse sentido? Você sente fome e sede? Essas são as perguntas que realmente importam. E esta é a promessa graciosa e gloriosa para todos os tais: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”.
