6. Odio, quando a ira se torna pecado - Tg 1. 19-21
Entre Lágrimas e promessas: A voz de Cristo no Silencio • Sermon • Submitted • Presented
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· 25 viewsA ira em si não é pecado, ela é um sentimento movido pela contrariedade.
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ODIO, QUANDO A IRA VIRA PECADO.
Tg 1. 19-21
Você já sentiu vontade de ferir alguém, ou de destruir alguma coisa por completo?
Se não, talvez já tenha ficado tão tomado pela raiva que fez o que não devia… ou desejou o mal a alguém.
Talvez não tenha sido com as mãos. Talvez tenha sido só na mente. Talvez nada tenha quebrado por fora — mas por dentro, algo se partiu.
Existe um filme chamado Um Dia de Fúria, com Michael Douglas, que começa desse jeito — não com um criminoso declarado, mas com um homem comum preso no trânsito, num dia sufocante. O calor aperta. O barulho incomoda. A pressão não se vê, mas pesa. E então algo dentro dele diz: “Chega.”
Ele sai do carro e começa a caminhar pela cidade.
O que parecia apenas cansaço acumulado vira uma sequência de explosões. Pequenas frustrações se tornam confrontos. Um preço alto vira ameaça. Uma palavra atravessada vira agressão. Ele acredita que está apenas reagindo às injustiças do mundo. Acha que está dizendo o que muitos gostariam de dizer.
O fato é que pessoas comuns, como William Foster, personagem vivido por Michael Douglas em Um Dia de Fúria, podem se encher de ira, de fúria, de ódio, em um dia qualquer — assim como eu e você.
E é por isso que o texto que lemos nos alerta a não deixar a ira nos dominar, porque ela não produz a justiça de Deus.
A ira em si não é pecado, ela é um sentimento movido pela contrariedade. Vemos Deus irado muitas vezes diante da desobediência do seu povo, vemos Jesus irado ao ver o templo sendo profanado. A ira de Deus não é descontrole; ela é expressão da sua santidade e da sua justiça. Ela está ligada ao juízo moral e pode ser conduzida pela mansidão. A ira deve servir ao propósito maior da glória de Deus.
Mas, quando essa indignação perde o sentido, foge do controle, nasce das nossas frustrações e expectativas, movida muito mais pelas emoções, ela se torna pecaminosa — e até muda de nome, podendo ser chamada de raiva, ou até mesmo ódio.
A Bíblia, muitas vezes, assim como neste texto, nos chama a ter cuidado e domínio sobre a nossa ira. Ela é como um pitbull feroz na coleira, pronto para atacar quando for solto. O texto diz que nossa ira deve ser tardia, ou seja, o último recurso. Da mesma forma, as Escrituras nos orientam a não prolongar sentimentos de ira. É o que diz Efésios 4.26: “Fiquem irados e não pequem. Não deixem que o sol se ponha sobre a ira de vocês, nem deem lugar ao diabo.”, ou seja ela deve ser a ultima a chegar e a primeira a sair.
Quando não dominamos a ira, pecamos — não apenas quando ela se transforma em raiva, mas também nos ressentimentos que surgem, nas atitudes que tomamos e nos pensamentos que alimentamos. O próprio Jesus nos alerta: “todo aquele que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem insultar o seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem o chamar de tolo estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). Isso acontece porque a ira se tornou raiva, e a raiva dá lugar ao ódio, algo mais profundo e intenso.
Da mesma forma que a ira não é pecado em si, o ódio também não é, pois ambos dependem de para onde estão sendo direcionados. Irar-se contra o pecado, odiar o mal, não é pecado; na verdade, são atitudes santas. O Salmo 97.10 diz claramente: “Vocês que amam o Senhor, odeiem o mal.”
Mas, quando esses sentimentos se voltam contra pessoas, tornam-se pecado, como afirma 1João 3.15: “Todo aquele que odeia a seu irmão é homicida”.
A Bíblia nos mostra exemplos de pessoas que não dominaram a sua ira e acabaram pecando gravemente. O primeiro é Caim. A Escritura diz: “Irou-se, pois, sobremaneira Caim, e descaiu-lhe o semblante.” (Gn 4.5-8). Movido pelo ciúme, ele não controlou sua ira e assassinou o próprio irmão.
Outro exemplo é o do rei Saul. Samuel relata que “Saul se indignou muito…” (1Sm 18.8-11), e, dando lugar à raiva por causa da inveja, tentou matar Davi.
Mas não precisamos ir muito longe. Basta olharmos para nós mesmos. Quantas vezes não dominamos a nossa ira? Fechamos a cara, jogamos no chão um objeto que não quer funcionar, destratamos alguém, xingamos, ameaçamos quem nos ofendeu, ou até mesmo, em algum momento, chegamos a agredir alguém, ou até mesmo um animal, movidos pela nossa raiva ou ódio.
A ira precisa ser dominada para que não pequemos. E a única forma de ela não se transformar em raiva ou ódio pecaminoso é por meio do Espírito Santo.
O texto que lemos diz: “acolham com mansidão a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.” A mansidão, que caminha junto com o domínio próprio, é fruto do Espírito (Gl 5.23).
A mansidão é muitas vezes mal compreendida. Muitos a confundem com fraqueza, lentidão ou falta de firmeza. Mas a Bíblia mostra algo bem diferente. Mansidão não é ausência de força; é força sob controle. É poder disciplinado. É ter poder para responder, mas escolher fazê-lo com controle e sabedoria, não com explosividade.
Um exemplo claro disso está em Mateus 21.12–13, quando Jesus purifica o templo. Ele tinha autoridade e poder para agir com severidade total. Poderia ter feito muito mais do que fez. No entanto, sua ação foi precisa, intencional e controlada. Isso é mansidão: não é falta de força, mas domínio da força. Os mansos sabem que sua verdadeira força vem de Deus, e por isso não precisam provar nada a ninguém. Eles esperam no Senhor.
Mansidão também é conter-se, é dominar-se. Vivemos em uma cultura que valoriza a defesa dos próprios direitos, a justiça própria, a resposta imediata, o revide, a vingança proporcional. Mas a mansidão nos chama a abrir mão dos “nossos direitos”. Jesus ensina em Lucas 6.29 que, se alguém nos ferir, não devemos responder na mesma medida. O manso não vive para reivindicar cada ofensa; ele sabe ceder. Mansidão é abrir mão da necessidade de sempre vencer a discussão, a mansidão entende que muitas vezes é melhor ser gentil do que ter razão. É ceder ao outro o que poderia ser seu. É a humildade tornada visível nas atitudes.
Além disso, a mansidão conquista o outro. Muitas vezes falamos a verdade, mas de forma dura e desmedida. A verdade dita sem mansidão pode ferir sem necessidade. A mansidão não compromete a verdade, mas a envolve em amor, suavidade e gentileza. Há diferença entre dizer “Você não sabe fazer isso” e dizer “Posso te ajudar a melhorar nessa parte”. O conteúdo pode até tocar na mesma realidade, mas a forma muda tudo. O manso busca equilíbrio. Se recebe uma palavra rude, responde com brandura; se enfrenta aspereza, age com suavidade. Ele não aumenta o conflito — ele o diminui.
O manso também sabe conviver. Ele se ajusta, se socializa, cabe em qualquer lugar. Não porque perdeu sua identidade, mas porque não precisa impor sua presença. Sua segurança não está no reconhecimento humano, mas na aprovação de Deus.
Entretanto, mansidão não significa falta de firmeza. Em 1 Coríntios 4.21, o apóstolo Paulo mostra que a mansidão vem antes da severidade. Primeiro vem o espírito brando; a correção firme é o último recurso, não o primeiro. A mansidão governa até mesmo a disciplina.
Por fim, mansidão é parecer-se com Cristo. Em Mateus 11.29, Jesus diz: “Eu sou manso e humilde de coração.” A mansidão é uma marca do caráter do próprio Senhor. Ela não nasce naturalmente do coração humano; é fruto da ação do Espírito Santo, é Deus agindo em nós.
Há algum tempo aprendi a importância de orar pedindo que o fruto do Espírito amadureça em minha vida. E confesso: já faz um tempo que deixei de orar assim. Talvez seja exatamente isso que precisamos — pedir que o fruto amadureça em nós.
Por isso, vigie o seu coração.
Não permita que a ira cresça e se transforme em raiva e, depois, em ódio — isso é pecado e destrói você por dentro. Ire-se contra o mal, não contra pessoas que, assim como você, também são pecadoras.
Não lute com suas próprias forças. Entregue suas causas ao Senhor e deixe que Ele seja o justo juiz.
Peça a Deus mansidão. Peça domínio próprio para reagir com equilíbrio nas situações difíceis da vida.
Porque a verdadeira força não está em explodir — está em permanecer sob o controle do Espírito Santo.
