Ali mesmo se dirá a eles

Assim diz o Senhor  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Propósito: Destacar que Deus transforma nossa infidelidade em redenção.
Passagem principal: Oseias 1:11
Introdução
               Pedidos esquisitos e inesperados têm o poder de nos expor por dentro. Não apenas revelam se confiamos em quem pede, mas também até onde estamos dispostos a ir quando não entendemos o porquê. Em geral, quando algo foge do comum, nossa primeira reação não é obediência, mas questionamento: “Faz sentido?”, “Vale a pena?”, “E se eu estiver perdendo o controle da minha própria vida?”. Um dos pedidos que exemplifica isso aconteceu em 1944, onde um soldado japonês, Hiroo Onoda, recebeu de seu comandante a ordem de permanecer em seu posto em uma ilha nas Filipinas e não se render em hipótese alguma. Mesmo após o fim da guerra, ele continuou escondido na selva por cerca de 29 anos, não questionando se a ordem era válida ou pensando que a guerra muito provavelmente tinha acabado, pelo contrário, continuou convicto de que ainda precisava cumprir a missão recebida, saindo apenas quando o próprio comandante foi até ele para liberá-lo.
               O pedido, aparentemente estranho, nos também faz uma pergunta. E se fosse o próprio Deus pedindo algo que parecesse incoerente? Que saísse do nosso conceito de normal? O que será que faríamos? Se existe um livro que tem essa exata temática como eixo, é o livro de Oseias, mais exatamente, o capítulo 1, versículo 1 ao 11. O que considero um dos chamados mais sem explicação, a primeira vista, na Bíblia. Inclusive, os convido para abrir e acompanhar a leitura.
I) “O Desconfortável de Deus”
A) Palavras do Senhor – 1:1
Somos apresentados ao profeta Oseias, e como em qualquer outra leitura, nós chegamos cheios de expectativas. Esperamos ver, mais uma vez, alguém exortando um reino falido de Israel, sem dinheiro, ameaçado por outas nações, a pé do cativeiro. Como é comum no livro dos outros profetas menores. Porém, quando percebemos os reis citados no versículo 1, “Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel.”, vemos um governante, principalmente quando se fala de Israel, marcado por grande prosperidade financeira, Jeroboão II, contemporâneo do profeta, foi referência em expansão política, referência de governante, seu nome era sinônimo de paz. E então, por que Deus levanta um profeta para esse tempo? Para exortar um reino que ia bem? Um chamado, aparentemente, estranho. Porém, quando olhamos a luz das Escrituras, Jeroboão se apresenta como o inverso da sua força geopolítica, sendo um idólatra, que fez aliança com reinos como o Egito e a Assíria, deturpando a única coisa que não deveria ser deturpada: A Palavra de Deus. E aí que Deus levanta sua voz em meio ao povo, no clímax do sucesso.
Isso já nos entrega duas lições. A primeira é que Deus nos levará ao desconfortável. Não era fácil, em meio à prosperidade, Oseias se levantar para pregar juízo, e não será fácil para nós pregarmos o evangelho, não será fácil dizer à sua família que tudo o que eles vivem e tudo o que eles acreditam vai contra a vontade de Deus. Não será fácil pregar juízo aos seus amigos. Não será fácil confrontar, com a Palavra, quem acha que já basta sua própria vontade. Quando o povo se acomoda no pecado, Deus levanta vozes que incomodam, e o chamado do texto é que sejamos essas vozes, que entremos, ousadamente, no desconfortável de Deus. A segunda lição é que sucesso humano não é sucesso divino. O mundo pode aplaudir, as estatísticas podem crescer, a política pode prosperar, a economia pode florescer, e ainda assim Deus pode estar dizendo, “Vocês se afastaram de mim.”. Prosperidade nunca é prova de santidade, Jeroboão II reinava como vencedor, mas vivia como perdido, o povo festejava como abençoado, mas estava quebrado. E é por isso que esse chamado, aparentemente, esquisito, surge. Ele serve para lembrar que Deus não olha para a frieza dos números, mas olha para o coração. Deus não enxerga como nós enxergamos. E quando Deus vê o seu povo se afastando, Ele o chama. Porque, para Ele, não existe momento errado para trazer alguém de volta.
B) Vá e case com uma prostituta – 1:2
Se o chamado, apenas pelo contexto, já parecia difícil de lidar até aqui, agora somos levados pela narrativa para a primeira vez que Deus falou diretamente com Oseias. Dando a ordem que guiará o tema central do livro, “Vá e case com uma prostituta” (Os 1:2). Sejamos sinceros, se essa ordem chegasse até você, o que você pensaria? Confiaria e faria? Questionaria ao Senhor? Se perguntando qual era o propósito de uma mulher, símbolo de pecaminosidade, se envolver com um profeta? Assim, a narrativa enfatiza mais uma vez, que Deus nos chamará ao desconfortável. Nunca foi nos prometido facilidade em estar ao lado do Senhor, porém, se ele nos convida, estará conosco, é Ele quem arca com o futuro dos seus próprios propósitos. Como servos, devemos apenas obedecer, até o mais inacreditável dos chamados, o mais escandalizador.
 Inclusive, chego a conjecturar que muitas dúvidas foram plantadas na cabeça de Oseias no processo do casamento, “O que vão pensar?”, “O que vão dizer?”. Diante isso, a nossa resposta para o que o mundo diz deve ser, “O que importa é o que Ele pensa e diz”. Irmãos, se Cristo nos chamou para pregarmos, preguemos, se pediu para guardarmos a lei, guardemos, se pediu para amarmos, que nós amemos. Façamos o que ele pediu, sem pestanejar, firmes que é Ele quem vai lidar com as consequências, ao nosso lado, da sua própria Palavra. Por fim, somos introduzidos ao que significava esse pedido divino, dizendo que “a terra se prostituiu, desviando-se do Senhor” (v. 2), “terra”, é um termo intrinsicamente ligado ao povo de Deus no AT, já que o reino terrestre de Israel sofre as consequências conjuntas do sistema de bençãos e maldições, sendo um sinônimo para dizer que o povo do Senhor apostatou, adorou outros deuses, traiu seu marido, prostituindo com os que lhe dessem o valor pedido. Uma mensagem dura, que se intensificará durante a narrativa de Oseias.
II) “Nem serei mais o seu Deus”
A) Jezreel – 1:3-4
A prostituta escolhida é Gômer, filha de Diblaim. Seu nome, sem um significado explícito para o tema central do livro, reforça a leitura literal do relato, Oseias realmente se casa com uma prostituta para encarnar, em sua própria vida, a mensagem que Deus queria transmitir a Israel. Dessa união nascem três filhos literais, mas com nomes simbólicos. Esse contraste é importante, porque o simples fato de Oseias ter filhos não carregaria, por si só, um peso teológico relevante. Era necessário que cada nascimento se tornasse uma metáfora, que anteciparia a mensagem que o livro desenvolverá.
E então nasce o primeiro filho, Jezreel. Este não é apenas um nome, é uma acusação. O nome remete ao vale onde Jeú, um antigo rei de Israel, derramou sangue em excesso, ultrapassando aquilo que Deus havia ordenado. Jezreel se torna um lembrete de que Deus não esquece o zelo distorcido nem a violência disfarçada de justiça. Quando Oseias segura seu primeiro filho e o chama de Jezreel, é como se Deus dissesse a Israel que Ele está trazendo à memória aquilo que o povo fingiu que já tinha passado. Jezreel denuncia o passado mal resolvido, o pecado que foi empurrado para debaixo do tapete. Irmãos, isso deve nos fazer refletir sobre hoje, onde por muitas vezes, escondemos nosso pecado, mascaramos ele e acreditamos que sem pedir perdão e remissão no nome de Cristo, podemos por justiça própria, nos salvar. Porém, o primeiro filho nos revela que até podemos enganar os homens, fazer com que esqueçam de nosso passado escondido momentaneamente, porém, nós nunca enganaremos ao Eterno. Assim, o primeiro filho nos ensina que o juízo começará justamente no lugar que Israel, que seu povo, recusava encarar. Pois enquanto eles celebravam sua prosperidade, Deus ainda via o sangue derramado em Jezreel.
Além disso, o nome Jezreel também significa “Deus semeia”, e essa é exatamente a imagem que o Senhor usa para anunciar o que aconteceria com Israel. Assim como sementes são lançadas longe umas das outras, espalhadas pelo campo, também Israel seria disperso entre as nações. O nome do menino se torna, então, uma profecia viva, Deus semeará o Seu povo fora da terra prometida, permitindo que a Assíria os arranque do solo da aliança e os espalhe como quem dispersa grãos ao vento. Jezreel passa a representar a colheita amarga da infidelidade, a verdade de que quem se afasta do Senhor perde o privilégio da terra e experimenta a dor de ser espalhado. Vemos Israel, aos poucos, perder aquilo que a qualificava como povo de Deus, como se a narrativa começasse a nos dar sinais de onde queria chegar. É então, o exato processo de desconversão, de abandonar o primeiro amor, de abrir brechas ao pecado e vermos nossa vida, aos poucos, perder as qualidades que provinham de Cristo, como se estivéssemos perdendo aquilo que nos qualificava como filhos.
B) Lo-Ruamá e Lo-Ami – 1:4-9
Agora, se Jezreel anuncia a dispersão, Lo-Ruama, a segunda filha que acaba de nascer, anuncia rejeição. pois significa, literalmente, “não-compadecida”, “não-amada”. Era como se o povo, a cada vez que ouvia esse nome ecoando pela casa de Oseias, ouvisse o Deus de Israel falando que, por decisão própria, haviam saído do infinito amor de Deus. É como seu próprio pai dizendo que por sua culpa, você não seria mais amada. Lo-Ruama é o retrato do momento em que Deus permite que o ser humano experimente o peso real de suas escolhas. E aqui a reflexão chega até nós, quantas vezes vivemos como se a graça fosse automática, como se Deus estivesse obrigado a ter paciência mesmo quando recusamos sistematicamente obedecê-lo? Lo-Ruama nos lembra que a paciência é um presente, não um direito, ou seja, ela pode ser simplesmente pega de volta caso a rejeitemos. Portanto, irmãos, precisamos entender que existem momentos em que Deus, para nos despertar, retira a sensação da Sua presença, não porque deixou de amar, mas porque deixou de encobrir aquilo que precisa ser tratado, para mostrar que seu amor não acaba, mas a paciência sim.
E então vem Lo-Ami, o terceiro filho, e que acompanha a declaração de Deus que Israel seria chamado de “não-meu-povo”, o golpe mais profundo, referenciando a fala típica da aliança, iniciada em Êxodo 6:7, e agora revertida com uma expulsão da família de Deus, mostrando que nossos pecados têm consequências reais, e isso não se trata do Senhor rejeitar quem o busca, mas de Deus dizer, “vocês já vivem como se não fossem meus”. Lo-Ami é a constatação de que a identidade se perdeu antes mesmo da disciplina chegar. É o estágio em que o relacionamento foi tão ignorado que o nome já não combina mais com a vida. E essa palavra fala alto para nós hoje.
Vivemos em um tempo em que muitos carregam o nome de cristãos, se vestem como, dizem ser, mas não carregam o caráter de Cristo, proclamam a fé com os lábios, e em casa se transformam, no íntimo decidem se querem adulterar o relacionamento com Deus por meio da mentira ou da fornicação, da pornografia ou do egocentrismo. Muitos de nós, queridos, dizemos ser Israel, mas se hoje, Deus o julgasse no momento final da humanidade, ouviria deste, “Você não é do meu povo”. Lo-Ami nos confronta com a verdade de que não basta dizer, é preciso viver como quem pertence a Ele. Quando o coração se afasta, a identidade se esvazia. E o texto nos alerta para o perigo de continuar praticando devoção externa e idolatria interna, achando que consequência nenhuma chegará até nós. Diante disso, se o capítulo terminasse aqui, teríamos diante de nós um dos juízos mais severos da história bíblica, mostrando como Israel, e nós também, somos capazes de aceitar, quase sem perceber, o processo de deixar de ser povo de Deus. Mas os versículos finais mudam a cena. Oseias concentra sua voz para anunciar que, mesmo depois de tudo, ainda há graça.
III) Filhos do Deus Vivo
A) Vós sois meu povo– 1:10
Agora, a lógica da narrativa seria que Deus agisse, e purificasse de uma vez por todas seu Povo, ou ao menos, falasse ainda mais sobre os pecados deles e como decidiram sair de sua proteção, no entanto, o que se segue não é uma conjunção de continuidade, não é continuação da declaração que Israel não é mais povo, mas sim, uma conjunção adversativa, “Todavia”, palavra que nos alerta e nos diz que há esperança. Depois de nomes carregados de juízo, depois de Jezreel anunciando dispersão, Lo-Ruama anunciando falta de misericórdia e Lo-Ami declarando ruptura de identidade, Oseias escreve: “Ali mesmo se dirá a eles: vós sois filhos do Deus vivo.” (vs. 1:10). Ali mesmo. No mesmo cenário de julgamento, no mesmo chão onde o povo havia se perdido, no mesmo contexto em que os nomes eram lembrança de afastamento, Deus promete que o lugar do juízo se tornará o lugar da redenção. É como se o texto gritasse que o juízo de Deus é sobre amor. Ele reconstrói exatamente sobre onde havia se perdido.. A expressão “ali mesmo” é decisiva, não indica apenas localização, mas intenção divina. Onde Jezreel significou dispersão, Deus fará brotar multiplicação. Onde Lo-Ruama gritou ausência de misericórdia, Deus derramará compaixão. Onde Lo-Ami afirmou “não sois meu povo”, o Senhor dirá, “Vocês são meus filhos.”. Os nomes que antes julgavam, agora indicam redenção.
E aqui irmãos, entramos no ponto central. Se achávamos o chamado de Oseias louco, se achávamos absurdo Deus mandar um profeta se casar com uma prostituta, é porque ainda não tínhamos entendido que isso era apenas uma sombra da loucura maior que é a cruz. O chamado de Oseias é chocante, mas o ato de Deus em Cristo é infinitamente mais grandioso. Oseias se casa com uma adúltera para representar o amor traído de Deus, Cristo morre na cruz por adúlteros espirituais para restaurar o amor que nós destruímos. Oseias assume a vergonha de Gômer, Cristo assume a nossa. Oseias paga o preço da infidelidade dela, Cristo paga o preço da nossa. Se achamos loucura o que Deus nos pede, é porque não entendemos a loucura que Ele fez para nos chamar de “filhos” outra vez.
O texto, então, se torna um espelho e uma promessa. Somos Jezreel quando lembramos que nossos pecados nos espalharam da presença de Deus, mas somos também Jezreel restaurada quando Ele nos ajunta de novo. Somos Lo-Ruama quando percebemos que não merecemos misericórdia, mas somos a nova Ruama quando Ele nos cobre com compaixão renovada. Somos Lo-Ami quando nossas escolhas contradizem nossa identidade, mas somos novamente povo quando Ele nos chama de filhos. Oseias quer que entendamos que a graça não entra na lógica humana, mas pela porta da redenção divina. Irmãos, ao aceitarmos a loucura da cruz, também aceitamos, que ali mesmo, através de onde caímos, Cristo nos curará e salvará, nos amando
B) Uma só cabeça – 1:11
Por fim, a promessa nos conduz à mensagem de que o povo de Deus não permanecerá disperso. Aquele que espalhou é o mesmo que reúne, e a imagem que se forma é a de um único povo sendo chamado de volta. Essa visão ultrapassa, para nós, o momento histórico de Oseias e alcança a esperança maior, quando o próprio Cristo ajuntará Seus filhos, se tornando “uma só cabeça” (vs. 11). Agora Jezreel reflete que se o pecado espalhou o povo de Deus, o próprio Senhor o regará, e fará reinvindicar a sua identidade, ao lado do Senhor que o escolheu amar, abrigar e o chamar de “meu povo” e “meu filho”.
Conclusão
               Hoje entendemos que Oseias é mais do que o livro do profeta que casa com uma prostituta. Na verdade, ele é sobre como nós fugimos do amor de Deus, e quando tudo parecia definido, O Senhor diz, “todavia.” (vs. 10). E, com essa palavra, Ele rasga a sentença declarando que, “Ali mesmo se dirá: vós sois filhos do Deus vivo.” (vs, 10). Ali mesmo, onde corremos do amor de Deus. Ele correrá até nós, nos salvando, E, meus irmãos, se achamos o chamado de Oseias estranho, é porque ainda não olhamos com a mesma seriedade para o que Deus fez por nós na cruz. Oseias recebe uma adúltera. Cristo nos recebe. Aceitando o pedido mais ousado da história que é, “Jesus, Deus Forte, Princípe da Paz, morra por pecadores”. Nada poderia ser maior que isso.
Apelo
               Quando olho para a história de Oseias, lembro automaticamente de mim. Quase como ontem, me vejo como Gômer, um menino que ouvia sobre o amor de Deus, que até os 15 anos cresceu e viveu como adventistas, mas que na realidade, não conhecia esse amor. E tanto o rejeitou que trocou esse amor por qualquer migalha de atenção do mundo. Porém, foi quando eu estava sozinho, com minha mãe na UTI, sem as amizades que o mundo me havia entregue, sem os prazeres que o mundo me deu, que senti, mais uma vez, Deus dizendo, “Você é filho do Deus Vivo”, me ensinando, novamente, a se ajoelhar, orar, e ver o milagre da minha mãe vir da morte para vida. E mais do que isso, me assegurando que a morte, se um dia chegasse, seria passageira, pois seriamos reunidos, constituídos sobre uma só cabeça.
               Se Ele me encontrou na solidão do meu quarto, Ele também pode te encontrar onde você está. Se Ele me chamou de volta quando eu havia desistido de mim mesmo, Ele também te chama, mesmo que você esteja distante, se sentindo imundo, se sentindo como uma prostituta espiritual. A promessa de Oseias é para quem já se perdeu, pois é ali mesmo, no lugar da queda, que Deus nos dirá, “Vocês são filhos do Deus Vivo.”. Se hoje, é esse seu desejo, venha até aqui na frente, eu quero orar por você e pela sua decisão.
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