Juízes 1.1-2.5

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O autor apresenta a razão para os insucessos do povo de Deus em sua campanha de conquista da terra prometida, em razão da desobediência do povo em afastar-se das tentações pagãs e idolatras que os levaram a flertar com a cultura ateia circundante, que por fim, lega opressão e sofrimento.

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Transcript

Juízes 1.1-2.5: A incursão do povo de Deus no mundo e sua resistência ao flerte pagão.

Nos dias em que julgavam os juízes…não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Rt 1.1; Jz 21.25b).
Pr. Paulo U. Rodrigues
1. Contextualização
Recém entrada na terra de Canaã (cf. 1.1 “Depois da morte de Josué”).
Preparação para a apropriação da herança/promessa do SENHOR: Posse da terra (cf. 1.1b “Quem dentre nós, primeiro, subirá aos cananeus para pelejar contra eles?”.
- Incursão militar em Canaã: Execução da ordem divina de julgamento contra os povos habitantes na terra (cf. Gn 15.12-16; Dt 7.1-11, 9.4-5, 18.9-12).
Estrutura do livro:
I. Prólogo (1.1-3.6): Justificativa histórico-teológica.
II. Tensão e crescendo (3.7-16.31): Espiral decadente - A reincidente pecaminosidade do povo e a necessidade de um “juíz perfeito” que proporcione a mudança de seu coração.
III. Ápice trágico (17.1-21.25): Divisão e pecado - A preparação para a unidade sob a monarquia.
2. Elucidação
Estrutura narrativa:
1. (1.1-20): A liderança de Judá e seu exemplo de obediência ao mandado divino de conquista da terra.
2. (vv.21-36): O contraste de Benjamim e demais tribos: quebra da aliança e respectivos insucessos.
3. (2.1-5): A reprovação e julgamento divino pela quebra da aliança por parte do povo.
1. (1.1-20): A liderança de Judá e seu exemplo de obediência ao mandado divino e conquista da terra.
- “Quem dentre nós, primeiro, subirá aos cananeus para pelejar contra eles?”. Inicialmente, a intenção do povo de apropriar-se da terra prometida é referida pelo autor. Embora tenham já entrado na terra, sob a liderança de Josué, os filhos de Israel precisariam agora pelejar contra os povos nativos, expropriando-os, segundo o mandado do SENHOR. Tal expropriação fundamentava-se no julgamento divino pronunciado contra os povos que, em seus pecados, haviam despertado o furor do Altíssimo. A idolatria, imoralidade e devassidão dessas nações, os tornaram condenáveis diante de Deus, que enviara seu povo como instrumento de sua ira contra os pecados deles (cf. Dt 9.4-5).
- “Respondeu o SENHOR: Judá subirá; eis que nas suas mãos entreguei a terra.” Judá é pronunciado como líder da primeira campanha militar contra os cananeus. A liderança de Judá pode ter sido usada pelo autor como referendo da coroa davídica; o autor do livro demonstra como desde cedo, a tribo de Judá detinha proeminência na liderança do povo de Deus, em contraste com Benjamim, donde vinha Saul.
O balanço entre as duas tribos e suas respectivas posturas diante do SENHOR, ficará evidente adiante (cf. v.21) e também ao final do livro, quando, no clímax do fluxo trágico de Israel, Benjamim protagonizará imoralidade e presteza em afastar-se da conduta esperada do povo de Deus (cf. 19.14).
1.1 (vv.3-19) O exemplo de Judá: Obediência e conquistas. - Vitória sobre Adoni-Bezeque (vv.3-7): Reconhecimento da retribuição divina (cf. v.7 “… assim como eu fiz, assim Deus me pagou”. - Vitória contra Jerusalém (vv.8), contra os cananeus nas montanhas (vv. 9) e contra os habitantes de Hebrom (v.10). - Vitória de Otniel e apropriação da terra (vv.11-15). - Auxílio a Simeão (cf. v.3 aliança entre as tribos) e demais vitórias (vv.16-18). - Incompletude nas vitórias: recurso narrativo preparatório - Introdução à quebra no fluxo narrativo positivo (v. 19 “Esteve o SENHOR com Judá, e este despovoou as montanhas; porém não expulsou os moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro”).
2. (vv.21-36): O contraste de Benjamim e demais tribos: quebra da aliança e respectivos insucessos.
- “Porém, os filhos de Benjamim não expulsaram os jebuseus que habitavam em Jerusalém; antes, os jebuseus habitam com os filhos de Benjamim em Jerusalém. Fundamentando sua iniciativa partidária em relação a Judá, como reforço da propriedade de Davi como legitimo rei de Israel, o autor põe ambas as tribos em oposição a partir da conduta de ambas em relação ao mandado divino, como referido: ao passo que Judá toma a iniciativa de expulsar tantos povos quanto pôde, cumprindo a ordem divina, Benjamim não o faz.
Outro ponto que destaca o contraste de ambos e suas respectivas projeções relacionadas ao trono israelita, é o fato de ambas as tribos encabeçarem relatos de sucesso e insucesso quanto às incursões militares de conquista da terra. Judá lidera Simeão em obediência a Deus e logra êxito em suas batalhas. Benjamim abre a seção da inglórias do povo de Deus, a medida que rejeitam expulsar ou destruir totalmente os povos cananeus.
- “Subiu também a casa de José contra Betel, e o SENHOR era com eles… Vendo os espias um homem que saía da cidade, lhe disseram: Mostra-nos a entrada da cidade, e usaremos de misericórdia para contigo”. O texto refere positivamente os esforços da casa de José — embora a narrativa a divida, referindo-se especificamente a Manassés no versículo 27 e Efraim no versículo 29 —, como também disposta a pelejar contra a cidade de Betel. Todavia, o episódio finda-se com a concessão de misericórdia a um morador que, ao final, edifica uma outra cidade. A oferta de misericórdia da casa de José é questionável se comparada a ordem divina de que todos os moradores dessas nações deveriam ser destruídos (cf. refs. supra). A controvérsia introduz e expõe a inclinação do povo de Israel em não cumprir as determinações da aliança (como será demonstrado adiante).
- “Manassés não expulsou… Efraim não expulsou… Zebulom não expulsou… Aser não expulsou… Naftali não expulsou…”. Após o relato de Benjamim, que introduz a postura oposta a de Judá de obedecer a Deus na expulsão dos cananitas, e de alguns da casa de José (um grupo distinto de Manassés e Efraim?), o autor, sucintamente (para provocar a percepção negativa no leitor) narra os insucessos de cada uma das tribos em não empreenderem os devidos esforços na total expulsão e expropriação dos cananitas; pelo contrário, à uma “permissividade” da parte das demais tribos em conviver com aqueles povos.
Com isso em mente, em comparação com Judá, o logro da possessão da terra estaria diretamente ligado à postura do povo em obedecer o comando divino, o que por sua vez sugere que houve, da parte de muitas tribos, a tentação de negociar ou conviver com aqueles povos, caindo na armadilha de compartilhar de sua cultura, algo que é confirmado por Deus na sequência como parte do juízo que ele mesmo traria sobre os filhos de Israel (cf. 2.3).
3. (2.1-5): A reprovação e julgamento divino pela quebra da aliança por parte do povo.
- “Subiu o Anjo do SENHOR de Gilgal a Boquim…”. O aparecimento da figura do ‘Anjo do SENHOR’ remete a um ponto importante que o autor usa para introduzir a reprovação divina (recurso já utilizado no texto). Quando de sua fala tanto de promulgação quanto de renovação da aliança, o SENHOR enfatizou aos filhos de Israel de que seu Anjo iria adiante deles à terra de Canaã para garantir que, pelo terror provocado nos povos, os inimigos seriam destruídos e desapossados (cf. Êx 23.20-33; 33.1-3; 34.10-17).
O fato de os israelitas não terem possuído a terra, não pode ser atribuído a alguma dúvida quanto a se SENHOR estaria com eles para lhes possibilitar tal feito pois, como ele estava com a casa de Judá e de José em seus empreendimentos (embora Judá tenha se deparado com uma limitação que aprouve a Deus não fazê-los transpor, e José tenha cometido o erro de permitir que um cananeu fosse preservado (o que acarretou no erigir de outra cidade cananeia)) e ter submetido uma outra cidade à trabalhos forçados, o que Deus não lhes direcionou que fizessem), assim estaria com eles, caso tivessem obedecido ao édito divino.
A presença do Anjo do SENHOR relembra aos filhos de Israel a condição de benção e proteção que tinham à disposição, segundo as palavras da Aliança que, inclusive, são agora rememoradas.
- “Do Egito vos fiz subir e vos trouxe à terra que, sob juramento, havia prometido a vossos pais…”. Antes de confrontar o povo anunciando seu juízo, o SENHOR lembra os filhos de Israel que a entrada na terra de Canaã era uma demonstração da fidelidade divina à aliança que estabelecera com Abraão, Isaque e Jacó, e com os próprios filhos de Israel quando de sua peregrinação pelo deserto, mais especificamente, em frente ao monte Sinai, quando cortou aliança com aqueles que tirara da terra da servidão. O SENHOR jamais deixara de cumprir com suas palavras, e diante disso, havia ordenado que o povo não fizesse aliança com os povos que estaria sendo julgados por ele, mediante a expropriação que realizaria através dos filhos de Israel.
- “… não obedecestes à minha vos. Que é isso que fizeste?”. Não tendo expulsado totalmente os moradores daquela terra, e permitindo que vivessem em seu meio, Israel estava quebrando a aliança, como é dito pelo próprio Deus. Não deveria haver mistura entre o povo santo do SENHOR e aqueles que, por seu procedimento rebelde e ímpio, estavam sendo destinados à expulsão da terra. Ao fazerem isso, puseram-se em rebelião contra o SENHOR, e o que pretenderam fazer em oposição ao édito divino, se tornariam o mal quer experimentariam como fruto do juízo divino.
- “Pelo que também eu disse: não os expulsarei de diante de vós; antes, vos serão por adversários, e os seus deuses vos serão laços”. O livro de Juízes narra a espiral decadente vivida pelo povo de Israel; pecado-opressão-clamor-libertação-paz seria o ciclo que eles experimentariam por terem cedido à tentação de corromperem-se com outros povos, adotando seus costumes pagãos e desviando-se de seu serviço a Deus como povo de sua propriedade santa dentre todas as nações da terra.
O juízo registrado no versículo 3 é usado pelo autor como adiantamento de toda a sequência narrativa por vir: a idolatria dos povos, que pareceu tão atrativa, seria, na verdade uma armadilha; por meio disso, as outras nações não veriam Israel como um “povo irmão”, mas como um povo a quem deveriam escravizar e oprimir, transformando-se em seus adversários.
- “levantou o povo a sua voz e chorou;… e sacrificaram ali ao SENHOR”. A narrativa termina com o lamento do povo diante da denúncia divina de seus pecados.
3. Síntese principiológica
Como será visto ainda sob os auspícios do prólogo que vai até o capítulo 3.6, o Livro de Juízes narra o caminho preparatório para a monarquia de Israel; momento em que o SENHOR haverá de prover ao povo o rei que os encaminhará à estabilidade — ainda que de modo referencial, pois nem mesmo a monarquia davídica consegue evitar a influência da natureza pecaminosa sobre o povo e até sobre o próprio rei, isso, somente o Rei-Messias proverá —.
Entretanto, esse percurso não será ascendente, mas decadente, como já dito. O povo flertará com a cultura e a cosmovisão pagã dos cananitas, o que lhes será não de proveito ou benefício, mas maldição e ruína, ainda que não de modo a serem completamente extintos pela mão dos adversários, mantendo o SENHOR acessa a chama de sua promessa, mediante a intervenção de juízes imperfeitos, que fariam o povo experimentar a libertação e a paz, mas sem deixarem de sentir o gosto amargo da incompletude, pois os juízes são apenas uma etapa do plano divino de conduzir seu povo à perfeição sob os auspícios da Coroa.
Por não terem obedecido a voz de Deus, sendo fiéis à aliança, os filhos de Israel não lograram êxito em expulsar os povos cananitas; pelo contrário, corromperam-se com seus deuses, tornando-se réus do juízo do SENHOR.
O texto de Juízes 1.1-2.5, sintetiza tal observação, direcionando as seguintes verdades a serem apreendidas pela igreja hoje:
4. Aplicações
Embora o contexto retratado pelo autor bíblico vivido por Israel no passado e o do leitor contemporâneo sejam distintos, pela ótica canônica é possível contemplarmos a similaridade principiológica que o torna relevante hoje. A igreja está em “terra estranha”, e sobre nós pesa a responsabilidade de vivermos como povo santo e separado ao nosso Deus, distanciando-nos do paganismo que é incentivado em nosso tempo por aqueles que não servem ao SENHOR, mas que preenchem a cultura com propagandas anti-cristãs, mediante toda forma de imoralidade, idolatria etc.
Essas mesmas formas de paganismo são, por causa da natureza pecaminosa ainda existente em nós, atrativas. O modo de viver/pensar e agir do mundanos, por vezes, atraem a atenção dos filhos de Deus. Como constituir e administrar família (família?); como cuidar dos filhos; como gerir finanças e obter uma carreira profissional de sucesso; relacionamentos; sexo, etc. Assim como os deuses cananitas foram laços para os filhos de Israel, assim também os ídolos atuais são laços para nós.
Se dermos ouvidos aos ídolos de nosso tempo, e não expulsarmos totalmente de nosso coração “os ímpulsos cananitas”, o que experimentaremos será o cativeiro de opressão que o pecado provoca. Juízes 1.1-2.5 é um quadro perspectivo que justifica todos os altos e baixos pelos quais Israel passou em sua experiência na terra de Canaã, vivendo sob a opressão dos moabitas, filisteus, jebuzes e etc, assim como, se dermos ouvidos às formas de paganismos de nosso tempo, não encontraremos paz, ou um modo de vida mais esperto, mais fácil, e sobretudo, mais feliz; o pecado é um senhor cruel, e tudo que fará com aqueles que estiverem sob seu senhorio, é afligir com vergonha e todas as mais terríveis formas de sofrimento, até que por fim, encontre o devido juízo da parte de Deus.
Não estamos hoje numa campanha militar contra o mundo, de modo a expulsarmos os descrentes do planeta, mas recebemos do SENHOR a mesma ordem de fazer prevalecer sobre nossa vida a bandeira do Reino dos céus. Enquanto nos mantivermos nesse propósito, o SENHOR será conosco, e obteremos sucesso em nosso serviço diante de Deus. É nosso dever derribar os altares dos ídolos que seduzem nossas famílias, mulheres, maridos, filhos e igrejas. Mas, se permitimos que Canaã viva entre nós, despertaremos o furor do Altíssimo, que haverá de nos conduzir, ao fim, ao nosso lugar como seu povo, mas não sem antes constatarmos quão amargo é quando um israelita vive como se fosse um cananita.
Ainda que de modo limitado, sob a liderança de Judá foi que os filhos de Israel começaram a obter sucesso no cumprimento da ordem divina de tomarem posse da terra. De Judá vem o direcionamento para que o povo de Deus se aproprie da bênção prometida pelo SENHOR. Porém, Judá esbarrou em limitações que não pôde superar (cf. v.19). Nada obstante, Cristo, o Filho de Davi, o Leão de Judá, é o líder que nos encaminha a obtenção da terra prometida. Ele tem o coração que nós não temos: um coração inteiramente confiante e presto em fazer a vontade divina; ele enfrentou os terríveis inimigos, armados com mais do que carros de ferro, e sob sua bandeira, estamos entrando na terra que possuiremos quando de seu retorno, momento em que reinará publicamente para sempre.
5. Conclusão
Juízes 1.1-2.5 traça o quadro perspectivo controverso da caminhada do povo de Deus por um mundo pagão, ímpio e rebelde, mas que será convertido na Terra Prometida tão aguardada e esperada por Abraão, Isaque e Jacó. Em meio aos laços atrativos que se dispõem na trilha da igreja, o exemplo negativo israelita deve encorajar o povo de Deus a valentemente resistir o mundanismo e seus ídolos, sob a promessa de que o SENHOR está com sua igreja, garantindo o sucesso de sua marcha.
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