Apocalipse 12.1-16

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O autor apresenta o desenvolvimento do enredo cósmico, focando na batalha espiritual da qual a igreja faz parte, alertando-a quanto a identidade e origem da oposição que sofre no mundo.

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Apocalipse 12.1-6: O confronto cósmico (cena 1) - Da queda à encarnação: A oposição de Satanás quanto à vinda do Regente, o Filho da mulher, e a proteção divina em favor dele e dos santos.

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer…” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura textual anterior:
- Continuação do conteúdo judicial das trombetas (cf. v. 15b, 19).
- Centro da seção: Cânticos (vv. 15b-18). a. Cântico I - O hino dos mártires (v.15b). b. Cântico II - O hino do julgamento (vv.17-18).
Objetivo: Transmitir à igreja a inexorabilidade do plano redentor, e portanto, convocá-la ao louvor e resistência confiante no SENHOR e na iminente vitória que lhe aguarda.
Elucidação
Estrutura textual:
O texto de Apocalipse 12, retrata duas cenas que figuram o conflito cósmico do qual o mundo é palco:
Cena 1 (vv. 1-6): Da queda à encarnação: A oposição de Satanás quanto à vinda do Regente, o Filho da mulher, e a proteção divina em favor dele e dos santos. Cena 2 (vv.7-17): Da crucificação à fim das eras: A vitória do Regente, a proclamação do Reino dos céus e a perseguição demoníaca do santos.
Cena 1 (vv. 1-6): Da queda à encarnação: A oposição de Satanás quanto à vinda do Regente, o Filho da mulher, e a proteção divina em favor dele e dos santos.
- “Viu-se grande sinal no céu…” (v.1). Uma nova seção é iniciada no capitulo 12. Segundo Beale, o capítulo (e seções subsequentes) desenvolvem o tema do “conflito espiritual entre a igreja e o mundo” (BEALE, 2017, p.227). O que antes fora retratado a partir de prismas e perspectivas mais introdutórias, agora passa a se matéria de uma análise mais aprofundada, quando, por exemplo, a identidade das oposições sofridas pela igreja será revelada em detalhes, demonstrando que a resistência sofrida pelo povo de Deus no que tange ao avanço do evangelho e sua subsistência no mundo, tem origem na fúria do Diabo (no texto retratado como o grande dragão vermelho (cf. v.3, 9)), e a manipulação deste sobre os reinos do mundo.
- “Uma mulher vestida de sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que, achando-se grávida, grita com as dores de parte, sofrendo tormentos para dar à luz” (v.2). O drama do conflito começa a ser retratado de modo representativo e figurativo, sobretudo, através dos personagens que compõem a cena:
A mulher vestida de sol, tendo a lua sob os pés, e corada com doze estrelas, representa a comunidade dos santos, tanto no Antigo quando no Novo Testamento; isso é confirmado pelas referências veterotestamentárias que aludem ao patriarcado de Jacó, sua esposa e filhos, mencionados em Gênesis 37.9-11, quanto no próprio texto no versículo 17.
O Filho da mulher, retratado sob os auspícios de profecias régias, é uma citação indireta do Salmo 2.7-9 que aponta para Cristo e seu reinado.
O grande dragão vermelho é identificado explicitamente no texto (possivelmente por ser o foco da narrativa tratar da natureza das perturbações enfrentadas pela igreja) como “… a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo”.
A descendência da mulher (cf. v.17), ecoa e alude ao texto de Gênesis 3.15, que também promete a vinda de um varão, deixando implícita o desenvolvimento de linhagens que correm paralelas ao longo da história, mas se opõem, isto é, a linhagem da serpente e a linhagem da mulher, como é chamada a comunidade dos que “guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”, a partir da ressurreição ascensão de Cristo.
É a interação entre esses personagens que performa toda a narrativa e o conflito do capítulo 12.
- “… achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz” (v.2b). Os sofrimentos da mulher, retratados duas vezes no versículo 2, podem ser interpretados da seguinte maneira (embora a distinção não precise ser absoluta):
grita com dores de parto: As dores da mulher representam a expectativa da comunidade crente veterotestamentária em relação a vinda do Messias; o anseio sentido pelo povo de Deus no AT de que as promessas redentoras fossem cumpridas com a efetivação da salvação na pessoa do Varão profetizado.
sofrendo tormentos para dar à luz”: Por outro lado, a soma da expressão de tormentos e sofrimentos experimentados pela mulher durante o trabalho de parto, refere-se à perseguição vivida também pela comunidade veterotestamentária enquanto a promessa do Ente Regente não é cumprida em sua plenitude. A começar de Abel, a comunidade da aliança sempre viveu sob o ataque da semente da serpente.
A comunidade da aliança no AT, é retratada como que ansiando pelo momento da vinda do Messias, enquanto sofre terrivelmente com os ataques dos inimigos do Reino de Deus, orquestrados pelo inimigo e principal opositor, que adentra a cena na sequência:
- “Viu-se, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas”. O personagem é apresentado na narrativa. À luz do versículo 9, sua identidade fica clara: o dragão representa o diabo, agora, porém, nos versículos iniciais, o que se destaca é sua sanha e vontade de perseguir e destruir o Filho da mulher.
A postergação da revelação da identidade mais específica do dragão, condiz com o desenvolvimento da história do povo de Deus e a expectativa pela vinda do Messias, período em que a própria ação satânica estava mais obscurecida, sendo menos referido no próprio AT.
Após a apresentação dos personagens, a trama é então desenvolvida.
- “A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas… o dragão se deteve em frente da mulher… a fim de devorar-lhe o filho… Nasceu-lhe, pois um Filho varão, que há de reger todas as nações”. Levando em consideração a condensação da narrativa da visão, a intenção autoral de João é que o leitor perceba os desdobramentos da visão como uma síntese da história redentiva: A prontidão do dragão em devorar o Filho Regente da Mulher, ecoa os principais momentos em que a comunidade da aliança no AT sofreu ataques e perseguições, incluindo os momentos durante os quais o próprio Messias já havia encarnado, como por exemplo a perseguição de Herodes aos meninos nascidos até 3 anos (cf. Mt 2.13-18).
Embora tendo envidado esforços, o menino nasceu, e seu nascimento é descrito como inaugurando o período régio profetizado no Sl 2.7-9, o que também ratifica a identidade do menino como sendo Cristo Jesus. Nesse ponto, novamente a visão é sintetizada, e do nascimento, João contempla a ressurreição e ascensão de Cristo (cf. v.5b “E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono”. A compreensão da síntese narrativa enfatiza a frustração dos planos antagônicos de impedir a publicação do Reino dos céus mediante a vinda de Cristo.
- “A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado lugar”. Frente a tal frustração, a visão volta-se para a demonstração do provimento divino de proteção e sustento para a mulher. O deserto, segundo o cânon bíblico, pode ser considerado um lugar tanto de punição quanto de provisão. Como elucida Beale:
“Em 12.6, a comunidade messiânica é retratada como começando a vivenciar a proteção escatológica de Deus no deserto, depois da ascensão do Messias. Apesar de os membros da comunidade passarem por tribulação em relação ao mundo, ao mesmo tempo o relacionamento de aliança deles com Deus é espiritualmente protegido e alimentado…” (BEALE, 2017, p.234).
Síntese principiológica
Apocalipse 12 abre o desenvolvimento explicativo do drama histórico no qual a igreja está inserida. Quando houve a queda, o SENHOR, por sua promessa (cf. Gn 3.15), estabeleceu o enredo que daria fluxo ao curso do mundo: a luta do usurpador contra o povo de Deus, discorreria ao longo das eras, ao passo que a comunidade da aliança desenvolveria grande expectativa de que o Ente Libertador adentrasse o cenário e executasse a salvação.
Cristo, em sua encarnação, vida, morte e ressurreição, reclamou para si aquilo que Ap 11.15 adiantou como consumado e publicado quando também de seu retorno: o reino do mundo tornou-se do SENHOR e dele. Isto feito, a segunda era do mundo é marcada pela sanha maquiavélica do Diabo em perseguir a semente da mulher (como é retratado na segunda cena). Porém, o povo de Deus é lembrado de sua condição como provido e protegido por Deus durante todo o tempo que culmina com o retorno do Filho do Altíssimo, para destruição final dos rebeldes usurpadores (Satanás, seus anjos e seus aliados) e publicação de seu Reino Eterno.
O presente texto destina-se, nesse sentido, a moldar a ótica cristã quanto a movimentação do cenário histórico; não apenas em relação ao governo soberano do SENHOR e do seu Cristo (algo já enfatizado na primeira parte do Livro de Apocalipse caps. 1-11), mas quanto a determinação da origem, e portanto, a identidade da perseguição que sofre no mundo, tendo a igreja o coração tranquilizado quanto ao fato de que, embora Satanás lute e peleje contra os santos, não logrará êxito, pois o SENHOR tem protegido seu povo.
Sob essa perspectiva, o texto de Apocalipse 12.1-6, ressalta as seguintes considerações para a igreja hoje:
Aplicações
A igreja precisa estar apercebida quanto a identidade de seus opositores, o que a capacitará a ler e entender todo o cenário histórico atual. Satanás é o grande arquiteto e orquestrador de todo o levante mundano contra o Reino de Deus. Como será desenvolvido nos capítulos posteriores, as articulações do Diabo abrangem a cultura, as falsas religiões, a política, e toda expressão humana possível que possa utilizar para contender contra o povo de Deus causando-lhe todo mal possível. Entender essa realidade é de crucial importância, pois
Efésios 6.12 ARA
porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
1.1 Nossa batalha espiritual não deve seguir os moldes infantis do que tem sido proposto por teologias superficiais, que vêem influência satânica em tudo ao redor, a partir de uma dicotomia pífia entre “sacro” e “profano”. Não obstante, é preciso que encaremos a realidade de que uma parte considerável das dificuldades que enfrentamos por vivermos nesse mundo, advém da tentativa de Satanás de criar um ambiente cada vez mais hostil a nós, povo de Deus… semente da mulher.
Apesar da fúria intensa do Diabo, Apocalipse 12, relembra-nos (como será reforçado na análise da segunda cena) de que a glorificação de Cristo Jesus proporciona a proteção divina necessária a fim de que continuemos nossa missão enquanto testemunhas do Senhor e do Reino dos céus (como enfatizado em 11.1-14). O SENHOR nos tem preparado lugar, isto é, tem estendido sobre nós suas asas, e em Cristo, estamos seguros contra as investidas do maligno. Que resistamos o Oportunista, confiando na graciosa proteção divina.
Conclusão
O enredo cósmico descortina diante de nós a complexidade da realidade que a igreja vive. Não vivemos num mundo neutro! Não vivemos num mundo indiferente à realidade espiritual; vivemos num campo de batalha, e a guerra da qual participamos dura séculos. Seu desfecho já está determinado; a vitória é certa, mas isso não diminui nossa responsabilidade enquanto soldados do SENHOR, soldados encarregados de de anunciar a apoteótica e inexorável vitória de Cristo, que reclamou para Deus o reino do mundo, fazendo com que Satanás lamba o pó da derrota.
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