Coragem na Cidade

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Atos dos Apóstolos 18.5–11 NAA
5 Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que Jesus é o Cristo. 6 Como eles se opuseram e blasfemaram, Paulo sacudiu as roupas e disse-lhes: — Que o sangue de vocês caia sobre a cabeça de vocês! Eu estou limpo dele e, a partir de agora, vou para os gentios. 7 Saindo dali, entrou na casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus; a casa dele ficava ao lado da sinagoga. 8 Crispo, o chefe da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, creram e foram batizados. 9 Certa noite Paulo teve uma visão em que o Senhor lhe disse: — Não tenha medo! Pelo contrário, fale e não fique calado, 10 porque eu estou com você, e ninguém ousará lhe fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade. 11 Assim, Paulo permaneceu em Corinto um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.
No texto que acabamos de ler vemos, Paulo fazendo a transição de um ministério bivocacionado para um ministério em tempo integral quando seus companheiros, Silas e Timóteo, chegam a Corinto. No versículo 5 vemos que Paulo estava “dedicado” à Palavra de Deus. Antes disso, o apóstolo teve que fabricar tendas até o recurso chegar, até que pudesse se dedicar totalmente ao ministério à Palavra. Lucas se refere aqui às generosas ofertas das igrejas da Macedônia, como a igreja de Filipos, que apoiaram financeiramente Paulo para que ele pudesse dedicar todo o seu tempo a tornar Jesus conhecido. Neste trecho vemos alguns princípios: Ministério em tempo integral e a generosidade e cooperação da igreja de Cristo no sustento dos seus ministros locais e também com aqueles que estão em outras localidades. Em outros textos Paulo aprofunda mais essa questão, sobre a responsabilidade da igreja nesta área. Por isso, não quero focar nisso aqui, até porque essa jornada não foi fácil. Paulo recebeu apoio, mas também colheu muita oposição antes dos frutos, e esse texto nos deixa diante de uma pergunta:

O que te sustenta quando a fidelidade começa a custar caro?

1. (O Que Devo Fazer?)- O Padrão da Fidelidade: O Chamado para Não se Calar.

Há um momento na vida de todo cristão, e talvez você esteja vivendo isso agora, em que a pressão do mundo ao redor parece sussurrar que o evangelho é irrelevante, ou pior, ofensivo. Em Atos 18, encontramos Paulo em Corinto, uma cidade que era o epicentro da sofisticação cultural, do pluralismo religioso e da libertinagem. Se havia um lugar onde o cristianismo parecia destinado ao fracasso, era Corinto. No entanto, o texto nos diz que, quando seus companheiros chegam, Paulo se entrega totalmente à tarefa. O padrão de Deus que surge para nós aqui é claro, Deus exige de nós uma fidelidade inabalável e uma proclamação persistente, independentemente da recepção do público.
O que a Escritura exige que você faça? Ela exige que você "se dedique inteiramente à palavra", como Paulo fez no versículo 5. Isso não significa que todos devem ser pregadores de tempo integral, mas que todos devem ter a Palavra como a bússola absoluta e o conteúdo principal de suas vidas. Deus estabelece um padrão onde não há espaço para um cristianismo de "meio período" ou uma fé que se esconde quando a oposição aparece. O imperativo ético aqui é a coragem. É o chamado para não se calar. A chegada de Silas e Timóteo trouxe não apenas encorajamento, mas também recursos que permitiram a Paulo focar apenas na pregação.
Isso nos leva a perguntar, como você tem lidado com o seu chamado de ser uma testemunha no seu ambiente de trabalho ou na sua faculdade? O padrão de Deus não é que sejamos apenas "pessoas legais" que nunca mencionam o nome de Jesus para não criar desconforto. O padrão é a clareza. Paulo "testificava aos judeus que Jesus era o Cristo". Há uma objetividade no evangelho que exige uma postura. Deus exige que você seja uma voz de esperança em uma cultura de desespero, uma voz de verdade em uma cultura de relativismo.
Você já sentiu que a sua fé é algo que você precisa "gerenciar" para não causar problemas? ASe você está tentando seguir a Jesus sem nunca enfrentar oposição ou sem nunca ter que explicar por que vive de forma diferente, talvez você não esteja seguindo o Jesus da Bíblia, mas uma versão domesticada dele. O texto nos confronta com a necessidade de persistir mesmo quando as pessoas "se opõem e blasfemam", como vemos no versículo 6. O padrão de Deus é que a sua fidelidade não seja ditada pelos resultados visíveis, mas pela obediência ao comando de Cristo.
O chamado de Atos 18 é para que você dependa tanto da Palavra que ela se torne a sua fonte de onde você tira coragem para continuar falando quando todos ao seu redor pedem que você se cale.

2. (Por Que Não Posso Fazer Isso?) - A Paralisia do Medo: Por que Fugimos da Missão?

Imagine que você foi convidado para um jantar de gala com pessoas muito cultas. Você está usando suas melhores roupas, sentado à mesa com pessoas influentes, tentando se comportar com a maior elegância possível. Cada palavra é cuidadosamente escolhida. Cada gesto é controlado. Você quer ser visto como alguém inteligente, sofisticado e digno daquele ambiente.
Agora imagine que, no meio da conversa, o seu melhor amigo começa a falar sobre um assunto que naquele ambiente é considerado totalmente inapropriado, algo que pode constranger todos à mesa e colocar a reputação de vocês dois em risco. O que você faria?
A maioria de nós tentaria resolver a situação discretamente. Talvez um chute por baixo da mesa, ou uma mudança rápida de assunto. Talvez até um sorriso constrangido acompanhado de um comentário que tente minimizar o que foi dito. Em outras palavras, tentaríamos nos distanciar do amigo inconveniente.
Nós tratamos Jesus como esse "amigo inconveniente" no jantar com aquele executivo importante. Queremos os benefícios da amizade dele em particular, mas temos pavor de que ele "estrague" nossa reputação em público. O problema de Paulo em Corinto não era apenas o risco físico,era o peso de ser considerado um "tolo" por uma cidade que idolatrava a sabedoria. Nós nos calamos não porque o evangelho seja fraco, mas porque nossa necessidade de sermos vistos como "inteligentes e aceitáveis" é mais forte do que nossa lealdade ao Rei.
Se o padrão de Deus é essa fidelidade inabalável que vimos em Paulo, por que é tão difícil praticá-la na terça-feira de manhã no escritório? Por que, diante de uma crítica ou de um olhar de desdém, nós recuamos? O texto de Atos 18 nos mostra um Paulo que, apesar de ser um apóstolo, não era um super-herói de estoicismo. Honestamente, nós temos medo. E o medo é o grande paralisador da missão.
Note o que acontece no versículo 6: quando os judeus se opuseram e blasfemaram, Paulo sacudiu as vestes. Há uma tensão aqui, Paulo estava experimentando uma rejeição severa. E o que o Senhor diz a ele numa visão no versículo 9? "Não temas". Ora, se Deus precisa dizer "não temas", é porque Paulo estava com medo. Se Deus diz "não te cales", é porque Paulo estava tentado a silenciar. Veja a ironia: o maior missionário da história, o homem que escreveu grande parte do Novo Testamento, estava tremendo em Corinto.
O que nos impede de obedecer ao padrão de fidelidade? É o ídolo da aprovação humana. Nós não somos apenas preguiçosos; nós somos cativos do que os outros pensam de nós. Queremos ser vistos como pessoas inteligentes, sofisticadas e tolerantes. O evangelho, porém, é inerentemente "ofensivo" para o ego humano, pois diz que não podemos salvar a nós mesmos. Quando percebemos que proclamar a Cristo pode nos custar o status social, a promoção no emprego ou a aceitação no círculo de amigos, o nosso coração "encolhe".
Nós tentamos compensar essa fraqueza com o moralismo. Dizemos a nós mesmos: "Vou me esforçar mais, serei mais corajoso na próxima vez". Mas a coragem baseada na força de vontade é como uma bateria que descarrega rápido sob o frio da oposição. Você não consegue cumprir o padrão de Deus porque o seu "eu" ainda é o centro da sua segurança. Se a sua identidade está baseada no seu sucesso ou na sua reputação, qualquer ameaça a esses ídolos fará com que você se cale.
A nossa incapacidade de testemunhar revela que, no fundo, amamos mais o nosso conforto do que a glória de Deus ou a alma do nosso próximo. É a ironia da religiosidade externa: podemos conhecer toda a teologia, mas se o nosso coração ainda busca validação no mundo, seremos como Paulo se sentia em Corinto antes da visão: acuados, exaustos e prontos para desistir. Você já sentiu esse cansaço? Aquela sensação de que é "você contra o mundo"? Essa exaustão é o sinal de que você está tentando fazer a obra de Deus com a energia da sua própria ansiedade. O diagnóstico bíblico é que somos espiritualmente impotentes para manter a fidelidade que Deus exige sem uma intervenção externa.

3. (Como Ele Fez Isso?) - A Presença que Liberta: Onde Encontramos Coragem Verdadeira.

Como Deus resolve o impasse de um mensageiro amedrontado em uma cidade hostil? Ele não dá a Paulo um manual de autoajuda ou uma técnica de oratória mais refinada. Ele dá a Paulo a Sua presença e a Sua soberania. No versículo 9, o Senhor diz: "Não temas... porque eu sou contigo". Esta é a solução definitiva. Mas para entendermos o peso dessa promessa em Corinto, precisamos olhar para além de Corinto, para o que aconteceu anos antes em uma colina chamada Calvário.
A ironia gloriosa do Evangelho é que, para que possamos ter a segurança de que Deus está "conosco", Jesus teve que experimentar o horror de Deus estar "contra" Ele. No Getsêmani, Jesus sentiu um medo que Paulo jamais experimentaria. Enquanto Paulo ouviu "Não temas", Jesus sentiu o pavor da separação do Pai. Enquanto Paulo ouviu "Ninguém te tocará para te fazer mal", Jesus foi tocado, açoitado, cuspido e pregado. Jesus é o verdadeiro Mensageiro que não se calou, mesmo quando o silêncio Lhe custou a vida. Ele enfrentou a oposição absoluta para que nós pudéssemos ter a aceitação absoluta.
A promessa de Deus a Paulo ( "Tenho muito povo nesta cidade" (v. 10) ) revela a eleição soberana de Deus. Antes mesmo de Paulo pregar, Deus já havia "pleiteado” aquelas pessoas. Como Ele fez isso? Através do sangue de Cristo. Jesus não veio para nos dar um exemplo de como ser corajosos, Ele veio para ser a nossa coragem. Ele obedeceu perfeitamente ao padrão de fidelidade que nós quebramos todos os dias. Ele foi a Testemunha Fiel que enfrentou o "Corinto" deste mundo e venceu.
A sua aceitação diante de Deus não depende de quão bem você "testifica que Jesus é o Cristo", mas de quão perfeitamente Jesus testificou sobre Si mesmo e sobre o Pai. Se você basear a sua segurança na sua performance como cristão, você sempre terá medo de falhar. Mas se você basear a sua segurança na performance de Cristo por você, o medo perde o poder.
Jesus foi o "Paulo" perfeito. Ele entrou na "cidade" da humanidade, foi rejeitado pelos Seus, mas não sacudiu apenas as vestes; Ele entregou o Seu próprio corpo. Ele foi "excluído" para que você fosse "incluído". Agora, quando Deus diz "Eu sou contigo", Ele não está apenas fazendo um desejo piedoso. Ele está declarando um fato jurídico e espiritual comprado pelo sangue de Jesus. A solução para o seu medo não é um esforço maior, é uma visão maior de quem Jesus é e do que Ele já conquistou. Como Tim Keller costumava dizer, o Evangelho é a boa notícia de que somos muito mais pecadores do que ousamos acreditar, mas somos muito mais amados e aceitos em Jesus Cristo do que jamais ousamos esperar. É essa aceitação que quebra as correntes do medo de Corinto.

4. (Como, Por Meio dEle, Posso Fazer Isso?) - A Cidade e a Promessa: Vivendo sob a Soberania de Deus.

Como, então, você volta para a sua "Corinto"? Seja ela o seu escritório, a sua sala de jantar ou o seu grupo de amigos. Como você vive a fidelidade que discutimos no início? Você não faz isso tentando ser mais forte, você faz isso estando mais maravilhado com o que Jesus fez. A sua vida recomeça quando você entende que a promessa "Eu sou contigo" não é um prêmio para os corajosos, mas um combustível para os medrosos.
Ao contemplar que o Rei do Universo foi desamparado na cruz para que você nunca fosse abandonado, o seu coração começa a mudar. O medo da rejeição humana, aquele ídolo que discutimos antes, começa a perder o brilho diante da aceitação divina. Paulo ficou em Corinto por um ano e meio "ensinando a palavra de Deus entre eles" (v. 11). O que deu a ele essa resistência? Foi a consciência de que Deus tem "muito povo nesta cidade".
Isso muda tudo na sua segunda-feira. Se Deus tem "muito povo" na sua empresa ou na sua vizinhança, você não precisa mais "converter" as pessoas pela força da sua retórica ou pela pressão do seu moralismo. Você passa a ser um colaborador de Deus. Você pode descansar na soberania dEle. Se alguém o rejeita, você não se sente destruído, porque a sua identidade está em Cristo, não no seu índice de aprovação. Se alguém se interessa, você não se orgulha, porque sabe que foi o Espírito Santo quem abriu o coração, não a sua habilidade.
A aplicação prática agora é a coragem humilde. A ironia é que o Evangelho torna você a pessoa mais ousada da sala, porque você não tem nada a perder, e ao mesmo tempo a pessoa mais humilde, porque você sabe que tudo o que tem é graça. Você começa a falar de Jesus não para "ganhar uma discussão", mas porque você descobriu um tesouro e não consegue guardá-lo apenas para si. Como Paulo, você pode "sacudir as vestes" contra a incredulidade sem amargura, porque o seu coração está satisfeito em Deus.
O Espírito Santo capacita essa nova vida ao lembrar você, constantemente, de que o Cristo ressurreto está sentado no trono. Quando você enfrentar oposição, ouça a voz do Senhor dizendo: "Não temas, mas fala e não te cales". Mas ouça isso não como um chicote, mas como um convite. O convite de um Pai que diz: "Eu já venci o mundo, agora venha comigo e veja o que Eu vou fazer através de você".
A pergunta final para você, ao sair daqui hoje, é esta: se você realmente acreditasse que o Senhor da Glória está ao seu lado e que Ele já tem pessoas escolhidas ao seu redor aguardando a Sua Palavra, como isso mudaria o seu tom de voz amanhã? Como isso mudaria o seu nível de ansiedade? A missão não termina em Atos 18; ela continua através de você, impulsionada não pelo medo de falhar, mas pela alegria de ser amado por Aquele que nunca falha.

Conclusão

Por fim, olhe para esta cena em Corinto e veja o seu próprio coração. Se você ainda não entregou sua vida a Cristo, talvez o que o impeça seja o mesmo medo que assombrou Paulo: o medo do que os outros vão pensar ou do que você terá que abrir mão. Mas veja a beleza do que Jesus oferece. Ele não é um mestre exigindo que você seja herói, Ele é o Herói que se tornou fraco para que você fosse aceito. Ele enfrentou o julgamento e a rejeição final para que você nunca precise temer o julgamento de ninguém. Hoje, Ele convida você a sair da prisão de tentar agradar ao mundo e entrar no descanso de ser amado por Deus. Renda-se a Ele agora.
E para você que já crê, mas se sente exausto e calado: lembre-se de que o seu valor não vem do sucesso do seu testemunho, mas do sucesso da obra de Cristo. Você não prega para ser aceito, você prega porque já é amado. O "muito povo" que Deus tem nesta cidade pode estar sentado ao seu lado amanhã. Vá, não com a força da sua retórica, mas com o descanso da presença dEle. Ele prometeu: "Eu sou contigo". E se o Senhor da Glória é por nós, quem poderá ser contra nós? Amém.
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