(Eclesiastes 9:4-10)

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ECLESIASTES 9:4-6
A perícope de Eclesiastes 9:4-6 dá continuidade à profunda observação do Pregador sobre a mortalidade humana, operando uma transição retórica do desespero diante da morte para a valorização pragmática e teológica da vida. A progressão argumentativa do texto move-se da esperança residual que existe para os vivos (v. 4), passa pela constatação da consciência da mortalidade como uma vantagem epistemológica (v. 5) e culmina na extinção definitiva das paixões e participações terrenas (v. 6).
Eclesiastes 9.4–6 “Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.”
v.4 Salomão fala o que parece muito óbvio: estar vivo é melhor do que estar morto. Por muitas razões, mas a principal delas é que vivo eu ainda tenho esperança. É muito importante entender que Salomão está falando a partir de uma perspectiva descritiva, ele está falando do que ele está vendo. Essa é a linguagem da literatura de sabedoria. Nós sabemos, aprendemos bem com Paulo que, se somos crentes, morrer é melhor do que viver, porque partimos pra estar com Cristo. Mas Salomão está falando do que seus olhos veem. Ele vê que um morto não fala, não escuta, não ri nem sente prazer. Ele está em absoluto silêncio e inatividade. E tem mais, e o mais importante, é que se eu ainda não fui convertido, não cri em Cristo, o fato de estar vivo significa que ainda me resta esperança.
Charles Spurgeon frequentemente advertia em seus sermões sobre a brevidade da vida, a morte põe fim a toda esperança e ação debaixo do sol; o corpo desce à sepultura silenciosa, e a alma comparece diante do Criador, tornando o tempo presente a única e preciosa oportunidade para buscar a reconciliação com Deus antes que as sombras da noite nos alcancem e a nossa porção na terra finde para sempre.
Então Salomão nos força a refletir sobre a brevidade da nossa vida. Ele insiste em mostrar como isso é importante. Como isso nos traz sabedoria e nos prepara para a eternidade. Os tolos não se preparam para a morte. Ele morrem busca uma vida mais duradoura nesse mundo. Insensatez!
A reflexão sobre a morte e a brevidade da vida é o antídoto mais eficaz contra a futilidade e o amor ao mundo. Isso é essencial na mensagem desse livro cuja tese é: Tudo é vaidade! Bolha de sabão. Sentir esse peso, do tempo que foge, deve nos despertar para o serviço de Deus. Spurgeon ilustra essa urgência com o som de um relógio e os passos do caçador: "Cada vez que o relógio bate o nosso tempo diminui mais e mais... Rápido, então, homem! Rápido! Rápido! Rápido! A morte está atrás de você. Não consegue ouvir o seu passo? Ela o persegue como o cão de caça à sua presa".
Devemos ter familiaridade com o túmulo. Sei que já falamos muito sobre isso, mas Salomão está falando de novo. Vamos falar só um pouco mais antes de passar pra próxima parte do texto. Thomas Brooks usa um exemplo interessante:
"Os antigos egípcios eram mais sábios do que nós. Dizem-nos que em cada banquete havia sempre um convidado extraordinário que se sentava à cabeceira da mesa. Não comia, não bebia, não falava, estava totalmente velado. Era um esqueleto que eles colocavam ali, para avisá-los de que mesmo em seus banquetes, eles deviam lembrar que haveria um fim para a vida". Isso servia "como um lembrete aos convidados da sua mortalidade", pois "toda a vida do homem deveria ser uma meditação da morte".
Irmãos, entenda a total diferença dessa perspectiva que estou eu dou pra vocês aqui, da visão que o mundo tem. Manter a morte diante dos olhos não é um exercício de desespero, mas de santidade. Deixa eu explicar de outra forma. Sabe um mal que muitos pais têm feito aos seus filhos? É esconder dos filhos que um dia eles terão muitas dificuldades na vida. É fazer com que seu filho cresça achando que não pode nunca se machucar, se entristecer, que sempre vai ter do bom e do melhor… MAS ISSO NÃO É VERDADE. É uma proteção que vai gerar um adulto fraco, covarde, tímido demais, e surpreso… é aquele jovem que entra naquela etapa da vida e não consegue caminhar se não tiver o pai e a mãe fazendo tudo por ele, e o pior… pensando que é obrigação deles mantê-lo seguro.
Precisamos crescer sabendo que vamos lutar. Precisamos ser protegidos, mas em alguma medida, precisamos ser forjados, pra lutar, pra conquistar… e então cair. Cair em campo de batalha. Precisamos crescer sabemos que vamos morrer. Que o pecado trouxe e traz a morte. Que esse mundo passa. Que essa vida é breve. Que o sofrimento é o alto falante de Deus a um mundo surdo. Precisamos nos preparar. Precisamos estar prontos. E então, a morte será um lucro.
Eclesiastes 9.7–10 “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.”
De repente o Pregador se volta para a vida do dia a dia. Qual a relação que ele faz aqui? Da reflexão profunda sobre a morte, para a vida cotidiana, o trabalho, a família etc.? Ele mostrando como a sabedoria de compreender nossos limites, nossas fraquezas, e especialmente nossa mortalidade, nos faz viver melhor. Mas não no sentindo mundano de prazer pelo prazer, mas de compreender melhor o significado daquelas coisas que Deus me dá. Como eu compreendo melhor o que é a minha família quando eu compreendo que eu estou morrendo; mas não só isso, porque o objetivo de Salomão não é nos tornar mais práticos, mas nos tornar mais santos. Então como eu vivo melhor não só quando eu sei que estou morrendo, mas principalmente quando eu confio que Deus é eterno, que Cristo vive, que a vida é um sopro, mas a Palavra do Senhor permanece eternamente. É isso que me faz viver melhor.
Se você tem tido grandes dificuldades em desfrutar corretamente do seu trabalho, da sua família, do seu tempo, talvez… talvez… isso signifique que você não está aproveitando direito o seu tempo com Deus. Não está colocando essas coisas debaixo da vontade dele.
v.7 Veja como um cristianismo superficial pode nos fazer negligenciar essa ordem de Deus - Deus quer que você aproveite a vida! Que coma com alegria o seu pão, e beba gostosamente o seu vinho, porque ele se agrada das suas obras. Aproveite, meu irmão, o que você tem. O que você conquistou e tem conquistado com esforço, porque foi Deus quem te deu. Te deu pra que você desfrutasse. Veja a visão equilibrada de Salomão: ele diz primeiro que tudo é vaidade. Que tudo passa. Quem lê mal o livro de Eclesiastes passa por cima disso, e não entende que Salomão quer que a gente se alegre no que temos, mas isso debaixo da vontade de Deus, do contrário não desfrutaremos bem do que temos. Segundo Martinho Lutero, o Salomão de Eclesiastes “não está incentivando uma vida de prazer e luxúria, típica daqueles que não percebem essa vaidade, pois isso significaria colocar lenha na fogueira; mas ele está falando de homens santos que percebem a vexação e as dificuldades do mundo. São os seus corações deprimidos que ele pretende encorajar”.
v.8 As vestes brancas e o óleo sobre a cabeça, eram no antigo Oriente símbolos de festividade, pureza e alegria. O crente não deve reservar a alegria apenas para dias excepcionais, mas transformar o cotidiano em uma celebração contínua da bondade de Deus. Como observa Bridges, a regra da vida cristã deve ser "no dia da prosperidade, goza do bem", não com sensualidade, mas com um coração grato que glorifica a Deus.
v.9 No verso 9 ele chega no casamento. Devemos desfrutar da nossa com nossa companheira, com nosso cônjuge. Ele coloca a família aqui como um descanso do peso da vida - Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol”. A família tem sido um peso pra você? Você tem vivido o contrário do que Salomão está ensinando aqui?!… O trabalho é o seu descanso, a vida fora de casa é o seu descanso, seu refúgio… Isso não é triste? Ta tão normal, irmãos, os crentes falarem isso. Sei como pode ser pesado em caso, principalmente pra quem tem filhos pequenos, e hoje eu sei bem o que é isso. Mas mesmo com esse sentimento, a gente não deve falar isso, não repetir como se estivesse normalizando isso, aceitando. A gente precisa mudar esse quadro. Nossa casa deve ser nosso refúgio, nosso descanso, e não nosso fardo. Eu falo especialmente àqueles que tem toda sua família de crentes. Que não luta contra a incredulidade do marido ou da esposa ou dos filhos. Isso é realmente um fardo difícil de carregar. Precisamos orar por esses irmãos. Mas vocês que têm o privilégio de ter seu marido ou sua esposa com você e tem vivido um péssimo casamento, por orgulho, por idolatria, avareza, egoísmo, por desobediência a Deus, à essa palavra aqui, que nós estudando agora. Você está ouvindo Deus falar com você, claramente. Você precisa mudar. Aproveitar sua família, se alegrar no seu casamento. Não aceita essa visão diabólica, anticristã, moderninha, nojenta, de que sua casa é o seu espinho, é seu fardo. Você tá cansado de sua família, está exausto? Então mude. Melhore. Lute pras coisas melhorarem. Salve sua família. Se necessário saia do trabalho, arrume outro, ganhe menos, ou seja lá mais o que você faz pra se esconder, pra se salvar, aproveite a vida com a mulher que amas.
Ryken: aqui a Bíblia está dando uma ordem específica aos maridos, que precisam prestar atenção ao que, exatamente, o Pregador diz. Cada marido é chamado para alegrar a sua esposa. Isso significa passar um tempo juntos como amigos. Em meio a todas as exigências da vida, separem algum tempo para fazerem coisas juntos que ambos gostem de fazer. Significa prezar um ao outro como amantes. Expressem palavras de afeto e viajem – apenas os dois – para alimentar o fogo do amor romântico. Alegrar-se com sua esposa significa também valorizá-la como pessoa. Ouça atentamente ao que ela diz, sem apontar imediatamente onde ela está errada ou tentar resolver problemas que ela nem pede que você resolva antes de compreendê-la. Essas são apenas algumas das muitas maneiras em que os homens são chamados a se alegrar com suas esposas. Talvez seja difícil se deleitar com a sua esposa ou seu marido nesse exato momento, mas será que você consegue obedecer pelo menos a ordem de Deus de amar? Para os maridos, isso significa amar as suas esposas com o mesmo amor custoso e sacrificial que Jesus demonstrou quando morreu na cruz por nossos pecados (veja Ef 5.25–30). É difícil imaginar como um homem pode desfrutar sua esposa (ou como ela pode se alegrar com ele) se ele não estiver dedicado a amá-la como Cristo amou. Amor e alegria andam juntos (como vemos nos poemas de amor de Salomão no Cântico dos Cânticos). Se vocês amarem um ao outro, façam um esforço consciente para terem prazer também. Mas se vocês tiverem dificuldades para amar um ao outro, peçam que Deus lhes dê mais uma vez a graça para amar como vocês costumavam se amar ou, talvez, como nunca se amaram, mas sabem que deveriam fazê-lo.
v.10. No verso 10 o argumento de Salomão desemboca na ação: "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças". Ele está dizendo que cada um de nós deveria fazer o trabalho que Deus nos deu, não o trabalho que ele deu a outra pessoa. Ele fala não só o que devemos fazer, mas como - conforme as tuas forças. Na linguagem do NT:
Romanos 12.11 “No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor;”
Colossenses 3.23 “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens,”
Veja, Salomão está nos ensinando ao mesmo tempo que não devemos viver a vida trabalhando, mas que, enquanto trabalhamos, devemos fazer o nosso melhor. O mundo nos ensinando a inverter nossas prioridades; a Bíblia nos ensinada a fazer bem cada coisa que Deus nos deu pra fazer, e é assim que teremos sucesso. Que nos dediquemos a nossa família, e quanto às coisas coisas, não precisamos pra elas, mas devemos dar o nosso melhor. Devemos ter cuidado com o ócio, com o tempo mal gasto. Com os investimentos errados, incluindo o investimento da nossa força e tempo, que são preciosos, mais do que o ouro ou do que o bitcoin.
Irmãos, essas dicas preciosas de Salomão devem ser guardadas num cofre no nosso coração. Ele está nos ensinado como viver a vida que Deus nos deu.
Tim Keller: “Pecado não é só fazer coisas ruins, mas fazer das coisas boas as coisas fundamentais. É tentar estabelecer uma identidade própria, tornando qualquer coisa mais central para o seu significado, propósito e felicidade do que o seu relacionamento com Deus”.
É exatamente aqui que está o segredo. Repetindo o que já vimos - que se não estamos tendo o desfrute correto daquilo que temos, é porque provavelmente não estamos fazendo para o Senhor, que é Dono de tudo o que é nosso. Quando buscamos essas coisas separadas de um relacionamento com Deus, acabamos perdendo a alegria que elas trazem à vida.
Uma das principais formais de desfrutar bem daquilo que possuímos, talvez a melhor, é ser grato pelo que temos. Sabe quando você reclamando de uma coisa aí de repente você para e reflete, ou então algum irmão precioso de dá um toque e você diz: “poxa… eu deveria ser grato por isso ao invés de ficar reclamando… eu tenho tanto… eu orei tanto por isso…”. Então você diz: “Obrigado Senhor”. A gratidão é preciosa, e geralmente é a ingratidão que nos faz perder o prazer nas coisas.
1Timóteo 4.4 “pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável,”
Outra maneira de você ver as coisas é como disse uma puritana chamada Caroline Perthes, dando um conselho à sua filha casada: “Seu amor mútuo pode ser um meio de bênção e felicidade somente enquanto aumenta o seu amor por Deus”.
Então o verso 10 retoma o tema da morte, como um envelope. Caminhamos pra morte, e isso não deve fazer com que façamos menos, mas que vivamos melhor, vivendo melhor. A sombra da eternidade deve fazer com que eu viva melhor os meus dias, lembrando que tudo isso passa, incluindo meu casamento, que terminará quando Cristo surgir. Mas Jesus dura eternamente, e é olhando pra ele, só pra ele, que eu vivo bem essa vida mortal, temporal. Eu vivo melhor seu quando eu lembro da que eu vou morrer. Mas vivo melhor ainda quando eu lembro que Cristo já morreu por mim, e ele morreu “para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (2Co5:15). Amém!
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