O Fim Não é o Fim

Cristianismo do dia-a-dia  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Em "O fim não é o fim", exploramos Apocalipse 21.1–5 para descobrir que a escatologia bíblica é uma mensagem de esperança, não de medo. O Pr. Pedro Vieira destaca três promessas gloriosas: a renovação de todo o cosmos, a santificação da Igreja como povo unido e, acima de tudo, a presença plena e habitável de Deus entre nós. Esta visão transforma nosso sofrimento atual, garantindo que a dor é temporária, mas a restauração divina é eterna e fiel.

Notes
Transcript
Apocalipse 21.1–5 “E vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva enfeitada para o seu noivo. Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: — Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E aquele que estava sentado no trono disse: — Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: — Escreva, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.”

Introdução

Damos continuidade à nossa série de pregações "Cristianismo do Dia-a-Dia", onde apresentamos algumas das mais básicas doutrinas da fé bíblica. E hoje veremos um assunto que desperta uma imensa curiosidade em diversas pessoas, enquanto é motivo de medo ou desdém por parte de outros: a Escatologia — ou, de forma simples, o que a Bíblia diz sobre o fim… e sobre o que vem depois do fim.
Esse livro bíblico afetou profundamente minha vida, porque, com 17 anos de idade, eu já estava inclinado ao evangelho, mas não tomava uma decisão. Quando eu decidi ler Apocalipse, fiquei completamente apavorado com o destino dos maus e me perguntei para onde eu iria se eu morresse naquele momento. Era o "empurrãozinho" que me faltava...
Apesar desse livro ser um pouco difícil por causa de sua linguagem cheia de símbolos, e apesar das cenas descritas nele causarem arrepios na espinha de muitos, é quase unanimidade no meio acadêmico que o livro de Apocalipse foi escrito com o intuito de trazer esperança, não medo, para os cristãos que eram perseguidos pelo Império Romano.
João[1] o escreveu quando estava exilado na ilha de Patmos, uma pequena ilha próxima à atual Turquia. Lá ele recebeu uma revelação — que é o significado da palavra ἀποκάλυψις — na qual o próprio Jesus Cristo fala com ele de situações que algumas igrejas estavam vivendo, como também anunciou diversas coisas sobre o futuro.
Depois de páginas marcadas por juízo, caos e medo… alguém poderia concluir que o futuro que nos espera é sombrio. Apocalipse 21 nos mostra que o fim é muito mais do que isso. Deus traz três promessas que, de tão poderosas, nos encorajam para viver nossas vidas enquanto Jesus não volta. E dessas três promessas… a última é tão grande… que muda completamente a forma como entendemos o fim — e a forma como vivemos agora.

Exposição

1ª Promessa: Deus promete um novo mundo…

v.1 - E vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.

[Desenho: MUNDO NOVO. Uma paisagem simples com uma montanha ao fundo, um sol sorridente e uma árvore frutífera, sem nuvens de tempestade.]
A primeira é provavelmente a mais conhecida: a promessa de novo céu e nova terra.
Algumas pessoas tendem a achar que, ao morrer, viveremos para sempre nos céus, como almas desencarnadas, pulando de uma nuvem a outra, quem sabe recebendo asas para voarmos. Essa visão é muito comum em desenhos animados e arte popular, então crescemos com essa ideia na mente.
A Bíblia ensina que, ao morrer, o cristão vai para junto de Deus (Lc 23:43; Lc 16:22-23), mas esse não é o destino final — esse é o estado intermediário. A esperança definitiva é a volta de Cristo, quando receberemos nosso corpo glorificado (Fp 3:20-21) e viveremos no novo céu e nova terra.
Há uma discussão sobre se esse "novo céu e nova terra" representa uma nova criação, com a destruição desta terra. Contudo há excelente razão bíblica para crer que não haverá destruição da Criação, mas renovação: a Bíblia trata essa terra como algo que não vai deixar de existir (Jr 31.35-36; 33.20-26), e vimos na pregação passada que a criação está aguardando libertação, não destruição (Rm 8.19-21).
Sendo assim, quando João diz que esse céu e essa terra "já passaram", ele não está dizendo que foram destruídos, mas que já não são mais do mesmo jeito — parecido ao que Paulo diz aos coríntios:
2Coríntios 5.17 “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” [2]
Apesar de sermos "nova criatura", nossa alma e corpo não foram destruídos na conversão. Continuamos a ser as mesmas pessoas, mas algo em nós foi modificado — e isso mudou tudo. Em nosso caso, a transformação foi parcial e será completada com a volta de Cristo. No caso da Criação, ela ocorrerá de uma vez só quando Jesus retornar, e viveremos aqui, nesta terra, mas sem os problemas que ela tem hoje.
Mas alguém poderia dizer: "— Mas João disse que o mar não existe mais! Como será a mesma terra?" Sim, mas é fato bem conhecido que mar, na Bíblia, é símbolo de caos, juízo, tormenta e separação (Gn 1.2; Ex. 14.21-22; Sl 46.2-3; Is 57.20; Jn 1.4,15), e no livro de Apocalipse o mar ganha significado ainda mais profundo — o local de onde o poder demoníaco vem (Ap 13.1), posto lado-a-lado com a morte e o inferno (Ap 20.13).
Quando João diz que "o mar já não existe", ele não está descrevendo a geografia da nova terra, mas proclamando uma verdade muito maior: tudo aquilo que o mar representava — o caos, o mal, o medo, a separação — foi definitivamente eliminado.
Imagina o significado disso para João, isolado em uma ilha-prisão (Patmos), distante dos que amava, separado pelo mar. Quando Cristo retornar e renovar a Criação, ninguém temerá a tormenta, ninguém temerá o isolamento e a separação.
Mas o texto prossegue com a...
2ª Promessa: Deus promete um novo povo…

v.2 - Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva enfeitada para o seu noivo.

[Desenho: Noiva Enfeitada. Um desenho simples do busto de uma noiva com um véu longo e uma coroa de flores pequenas na cabeça, sorrindo.]
Essa parte do texto também tem alguma discussão sobre os detalhes, mas o que ninguém discorda é que há aqui uma referência ao povo de Deus, a Igreja toda [3]. Três coisas chamam a atenção na descrição:
Primeiro, que a Igreja "desce dos céus", pois não existirá mais a divisão entre terra (onde habitamos) e céu (onde Deus e seres celestiais habitam). Terra e céu agora serão um.
Segundo, que a Igreja vem "da parte de Deus" — ou seja, a Igreja é um projeto de Deus e estaremos unidos, como irmãos, para sempre, sem divisões, sem disputas, somente a união de uma grande família celestial.
Terceiro, que ela está enfeitada por Cristo e para Cristo (cf. Ef 5.26-27), ou seja, santificada, adornada com boas obras, do jeito que o noivo Jesus gosta.
Um tempo atrás estava na moda dizer "eu gosto de Jesus, não gosto do fã clube dele", querendo dizer que Jesus é legal, mas as pessoas da igreja não. Neste mesmo espírito, outras pessoas diziam que para seguir a Jesus não precisavam se envolver com a igreja.
Certamente, pessoas de dentro da igreja podem nos decepcionar ou nos causar problemas reais — e, por vezes, essa é a justificativa para que alguns digam frases assim. Contudo essas frases são muito erradas; na verdade, isso é o oposto do que se espera de um crente. O próprio apóstolo João diz:
1João 4.20–21 “Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odiar o seu irmão, esse é mentiroso. Pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E o mandamento que dele temos é este: quem ama a Deus, que ame também o seu irmão.”
Fico imaginando o horror que seria o novo céu e a nova terra para essas pessoas, pois, gostando ou não da igreja (i.e., as pessoas da igreja), é com elas que passaremos a eternidade.
Mas a Igreja estará ataviada: viver em comunidade será algo extremamente agradável para todos nós. Ninguém ficará só; ninguém será rejeitado; ninguém terá que provar seu valor a ninguém, porque o amor uns pelos outros será o nosso dia a dia.
3ª Promessa: Mas acima de tudo… Deus promete a si mesmo.

v.3 - Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: — Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. v.4 - E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. v.5 - E aquele que estava sentado no trono disse: — Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: — Escreva, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.

[Desenho: A tenda do encontro. Uma tenda simples de tecido ou pele com feixes de luz saindo da porta, ícones de pessoas próximos.]
Uma amiga minha era vizinha de um músico muito conhecido no Brasil. Muitas vezes ela ouvia, da janela de casa, os ensaios desse músico. Lembro que eu achava um privilégio ser vizinho de alguém tão famoso. [4]
E o que você faria se fosse vizinho de alguém muito famoso? Se você tivesse acesso diário a alguém muito conhecido e muito querido? Você puxaria assunto com ele? Tentaria tirar uma foto? Contaria para seus amigos?
Já vimos que aqueles que entregaram a vida a Jesus Cristo passarão a eternidade desfrutando diversos privilégios: um mundo renovado, sem nenhum problema, e uma vida em comunidade, união e santidade.
Todavia, por melhor que seja a Criação restaurada, por melhor que seja nossa comunidade de irmãos glorificados, nada disso se compara à maior das promessas da eternidade: o próprio Deus habitará entre nós!
Ele não estará distante, mas junto de nós (v.3). É verdade que Jesus já está em nós através do Espírito Santo (Jo 14.16-17), mas ainda de forma não plena. Quando Ele voltar, a presença de Deus será plena, de maneira que nenhuma dor, morte ou sofrimento existirá. É o fim da perda, o fim da falha, o fim das lágrimas. Você consegue imaginar viver em um mundo… onde nunca mais haverá despedidas?
Pois isso é o que significa estar com Deus! Ele é a maior promessa, Ele é o melhor presente, Ele é a razão pela qual ansiamos esse bendito dia. E estar com Ele vale tanto a pena que devemos falar para todo mundo: "Ele vem… e quando Ele vier… tudo aquilo que hoje nos quebra — será finalmente restaurado."

Aplicações

🩹 1. Não trate sua dor como definitiva
O que hoje te faz chorar já tem data para acabar — não porque você é forte o suficiente para vencer, mas porque Deus prometeu remover completamente tudo aquilo que causa dor. Isso muda como você sofre: com esperança, não com desespero.
2. Não construa sua vida sobre o que vai passar
Tudo aquilo que hoje parece tão importante — dinheiro, status, reconhecimento — faz parte de um mundo que já está passando. Invista no que atravessa a eternidade: Deus, pessoas, caráter.
🤝 3. Leve a igreja mais a sério
Você pode até se frustrar com a igreja hoje, mas ela é o povo que Deus está preparando para a eternidade — e você não terá outra comunidade lá.
⚰️ 4. Encare a morte com esperança
O medo de morrer é um dos medos mais profundos do ser humano — mas Deus promete que a morte não apenas será vencida, ela será eliminada. O cristão ainda pode temer o processo de morrer… mas não precisa temer o destino.
🔥 5. Deseje mais a presença de Deus do que os benefícios
Um mundo sem dor, sem sofrimento e sem morte já seria incrível — mas ainda não seria o céu se Deus não estivesse lá. Se Deus não for o seu maior desejo agora… o céu não será o que você espera.

Conclusão

O fim da história não é sobre o fim… é sobre Deus vindo fazer tudo novo — e nos trazer para perto dEle, para sempre.
[1] Assumo como certa a autoria joanina, bem como sua redação por volta do ano 90 a.D.
[2] “Nova” aqui também é καινός.
[3] Assumo também a continuidade entre Israel e Igreja.
[4] Um integrante da banda Charlie Brown Jr, em Santos/SP.
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