Romanos 10.16-11.10

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Romanos 10:16

Nesse versículo, Paulo identifica, na cadeia de requisitos que levam à salvação, o elo que falta para tantas pessoas: a fé (veja Romanos 10:14). Embora ele tenha se referido, de modo geral, a todas as pessoas em Romanos 10:14-15, aqui provavelmente se concentra especialmente no povo de Israel. Portanto, o versículo é fundamental para o argumento paulino em Romanos 10:14-21 e, de fato, em Romanos 9:30—10:21, porque reafirma a acusação básica de Paulo a seus irmãos judeus (veja também Romanos 9:32 e Romanos 10:3). A expressão “nem todos” é uma lítotes: “somente alguns”. Uma das razões de Paulo expressar a questão desse modo é ecoar a teologia do remanescente que introduziu em Romanos 9:6 (veja também Romanos 9:27): “nem todos os que são de Israel são de fato Israel”. A identificação de Paulo da interrupção na cadeia de Romanos 10:14-15 parece um pouco prematura, visto que, em Romanos 10:18-21, ele continua fazendo o que começou em Romanos 10:15, apontando os elos da cadeia que estão no lugar certo. Mas Paulo não conseguiu resistir ao contraste natural entre a verdade da proclamação das boas-novas (Romanos 10:15) e a reação trágica dos judeus a ela. Surpreendentemente, Paulo caracteriza essa reação como “desobediência”, não incredulidade. Entretanto, desde o início da carta, ele associa fé e obediência (veja Romanos 1:5, “a obediência da fé”) e, neste contexto, está especialmente interessado em mostrar que a situação de Israel não é simplesmente o resultado de uma incredulidade relativamente passiva, mas de uma definitiva e condenável recusa a responder à iniciativa graciosa de Deus (veja Romanos 10:3, 21). Paulo, porém, considera a desobediência e a incredulidade de Israel dois lados da mesma moeda, como a citação de Isaías 53:1 em Romanos 10:16 deixa claro: “Senhor, quem creu no nosso relato?”. Como ele faz em três outras ocasiões em Romanos 9—11 (veja também Romanos 9:27, 29; 10:20), Paulo nomeia Isaías como o autor bíblico.

Romanos 10:17

Esse versículo parece estranhamente situado. O introdutório “por isso” (do grego ara) e seu conteúdo sugerem que ele é uma conclusão da corrente de requisitos para a salvação de Romanos 10:14-15. Assim, alguns estudiosos acham que o versículo está fora de lugar ou até mesmo que foi um acréscimo posterior ao texto de Romanos. Essas alternativas drásticas não são, no entanto, necessárias. Como vimos, é prematuro determinar o único ponto da corrente ao qual Israel não correspondeu, interrompendo a relação paulina dos requisitos que foram cumpridos. O versículo 17 é, portanto, uma transição necessária de volta a esse tema. Ele retoma a conexão entre “crer” e “ouvir/relato” que a citação de Isaías 53:1 em Romanos 10:16 pressupõe e reafirma o segundo passo na série de exigências da salvação: a fé ocorre como resultado de “ouvir” (Romanos 10:14). A última parte de Romanos 10:17, então, reafirma e desenvolve o terceiro passo dessa sequência (Romanos 10:14): ouvir — o tipo de ouvir que pode levar à fé —, que somente pode acontecer se houver uma palavra salvífica clara de Deus sendo proclamada. Essa palavra, por meio da qual Deus está agora proclamando a disponibilidade da salvação escatológica e que pode despertar a fé naqueles que a ouvem, é “a palavra de Cristo”: a mensagem cujo conteúdo é o senhorio e a ressurreição de Cristo (veja Romanos 10:8-9).

Romanos 10:18

Em Romanos 10:17, o foco está no decisivo passo de “ouvir” na sequência de requisitos que levam à salvação. Paulo retoma esse passo e pergunta: “eles não ouviram?”. Provavelmente aqui ele novamente (como em Romanos 10:14-15) está se referindo, de modo geral, a todas as pessoas e, de modo particular, a Israel. A forma da pergunta paulina torna legítimo parafraseá-la com uma afirmação: as pessoas ouviram. Em consonância com o seu interesse ao longo deste parágrafo e de Romanos 9—11, de modo geral, Paulo demonstra a sua declaração apelando às Escrituras: “De fato”, Paulo diz, eles ouviram, pois Salmos 19:4 afirma que “a voz deles alcançou toda a terra, suas palavras, os confins do mundo habitado”. O uso desse texto levanta duas questões. Primeira: qual é o propósito de Paulo ao usar uma passagem que louva a revelação de Deus na natureza (como Salmos 19:1-6 faz) nesse contexto? O objeto implícito do verbo “ouviram” na pergunta dele deve ser “a palavra de Cristo”. Então, “a voz deles” e “suas palavras” no versículo do salmo devem se referir à voz e às palavras dos pregadores cristãos (veja Romanos 10:14-16). Paulo não está, portanto, simplesmente usando o contexto de acordo com o significado original. Sua aplicação provavelmente se baseia em uma analogia: assim como a palavra de revelação geral de Deus foi proclamada por toda a terra, a palavra de revelação especial de Deus, o evangelho, foi difundida por toda a terra. Sua intenção não é interpretar o versículo do salmo, mas empregar a linguagem dele, com os “ecos” da revelação divina que ela desperta, para afirmar a pregação universal do evangelho. Contudo, isso nos leva à segunda pergunta: como Paulo podia afirmar, em 57 d.C., que o evangelho havia sido proclamado “a toda a terra”? Dois aspectos implícitos da linguagem paulina são frequentemente observados. Primeiro, como a palavra oikoumenē (“mundo”) na segunda linha da citação poderia sugerir, ele talvez esteja considerando o Império Romano de sua época, não o globo inteiro. Segundo, o foco de Paulo poderia ser coletivo, não individual: ele afirma que o evangelho foi pregado não a todas as pessoas, mas a todas as nações e, especialmente, tanto a judeus quanto a gentios. Ambas as considerações podem certamente ser relevantes. Entretanto, talvez seja mais simples concluir que Paulo recorre à hipérbole, usando a linguagem de Salmos para afirmar que muitas pessoas, durante a escrita de Romanos, já haviam tido a oportunidade de ouvir. Assim, não pode ser a falta de oportunidade que explica por que tão poucos judeus vieram a experimentar a salvação que Deus oferece em Cristo.

Romanos 10:19

A repetição das primeiras palavras de Romanos 10:18 — “mas eu digo” — marca o versículo 19 como um segundo passo no argumento de Paulo iniciado no versículo anterior. Lá, ele mostrou que não foi a falta de oportunidade de ouvir que impediu que os judeus fossem salvos. Agora, ele dá um passo adiante e, abandonando a sequência anterior dos requisitos, vai mais a fundo na natureza do “ouvir” de Israel. Especificamente, ele levanta e rejeita a possibilidade de que esse ouvir tenha sido meramente um ouvir superficial, não acompanhado de entendimento genuíno. Não — Paulo afirma —, Israel “soube”. Ele emprega explicitamente a palavra “Israel” para deixar claro, pela primeira vez, o real assunto deste parágrafo. Ao mesmo tempo, o uso da palavra enfatiza seu ponto central: seria realmente possível que Israel, o destinatário das numerosas e detalhadas profecias sobre os planos e propósitos divinos, não “soubesse”? O que Israel “sabe”, como o contexto subsequente sugere, é que Deus poderia muito bem agir de tal modo que a pregação de Cristo resultasse na inclusão dos gentios e no julgamento para Israel (veja as citações do Antigo Testamento em Romanos 10:19-21). Isso Israel sabe por meio das próprias Escrituras; sua ignorância, então (Romanos 10:3), consiste na recusa intencional de reconhecer o cumprimento desses textos na revelação da justiça de Deus em Cristo. Israel, Paulo sugere, “vê, mas não percebe; ouve, mas não entende” (Isaías 6:9; veja Marcos 4:12 e paralelos; João 12:40; Atos 28:26-27). Paulo cita Deuteronômio 32:21 como o primeiro passo (“Moisés diz em primeiro lugar”) de sua demonstração, com base nas Escrituras, de que Israel sabia. O versículo faz parte do cântico de Moisés a Israel, no qual ele relata a história dos atos graciosos de Deus em favor de Israel e a resposta obstinada e pecaminosa a esses atos. As palavras citadas por Paulo afirmam a resposta equivalente de Deus à idolatria de Israel: porque Israel provocou o ciúme de Deus “com o que não é deus” (Deuteronômio 32:21), Deus fará Israel ter “ciúme” dos que são “não povo”. A expressão “não povo” provavelmente foi a “deixa” que chamou a atenção de Paulo para esse texto, visto que ele cita a profecia de Oseias sobre aqueles que são “não meu povo” tornando-se o povo de Deus em Romanos 9:25-26. Paulo vê nas palavras uma profecia da missão aos gentios: a inclusão dos gentios no novo povo de Deus provoca o ciúme dos judeus e faz com que Israel responda com ira contra esse movimento na história da salvação. Com base nas próprias Escrituras, portanto, Israel deveria ter reconhecido que Deus estava atuando no evangelho.

Romanos 10:20

Entretanto, não é somente a Lei que antevê o evangelho e a reação negativa de Israel a ele. Os profetas dão testemunho da mesma verdade. Aliás, Paulo sugere, o texto profético testemunha ainda mais fortemente esses pontos: “Isaías também diz ousadamente: ‘Eu serei encontrado por aqueles que não estão me buscando, eu me tornarei manifesto àqueles que não estão perguntando por mim’”. Paulo cita Isaías 65:1, um versículo que, em seu contexto, se refere a Deus se revelar ao povo de Israel. Como fez com Oseias 1:10 e Oseias 2:23 em Romanos 9:25-26, Paulo usa textos do Antigo Testamento que falam sobre Israel e os aplica, seguindo sua “hermenêutica universalizante”, aos gentios. O “gatilho” da ação hermenêutica de Paulo poderia ser a expressão “aqueles que não me buscavam”. A formulação da citação, assim, leva-nos de volta para onde toda essa passagem começou: os gentios, que não estavam buscando a justiça, obtiveram um relacionamento correto com Deus (Romanos 9:30).

Romanos 10:21

Tendo aplicado, em Romanos 10:20, Isaías 65:1 aos gentios, Paulo agora aplica Isaías 65:2 a Israel, aplicação que corresponde ao significado original do texto. A passagem realça tanto a oferta constante de graça de Deus a seu povo quanto a resistência obstinada do povo a essa graça. Mas o que predomina? A constante preocupação graciosa de Deus com Israel? Ou a desobediência de Israel? A pergunta que esse versículo origina em Romanos 11:1 poderia sugerir que a segunda opção está mais perto da verdade, mas, provavelmente, não devemos escolher entre as duas opções. Tanto a graça de Deus em se revelar e alcançar Israel quanto a recusa de Israel a responder a essa graça são importantes para o argumento de Paulo.
IV. A defesa do evangelho: o problema de Israel (Romanos 9:1—11:36)
A. Introdução: a tensão entre as promessas de Deus e a situação de Israel (Romanos 9:1-5)
B. Definindo a promessa (1): a eleição soberana de Deus (Romanos 9:6-29)
C. Entendendo a situação de Israel: Cristo como o clímax da história da salvação (Romanos 9:30—10:21)
D. Resumo transicional: Israel, os “eleitos” e os “endurecidos” (Romanos 11:1-10)
E. Definindo a promessa (2): o futuro de Israel (Romanos 11:11-32)
F. Conclusão: louvor a Deus à luz de seu plano extraordinário (Romanos 11:33-36)

Romanos 11:1-10

Resumo transicional: Israel, os “eleitos” e os “endurecidos”
Um tema singular pode ser identificado ao longo de Romanos 11:1-32, estabelecido no início e no final da seção: “Deus não rejeitou seu povo, a quem de antemão conheceu” (Romanos 11:2); “quanto à eleição, eles [os israelitas] são amados por causa dos patriarcas” (Romanos 11:28). Ao mesmo tempo, Paulo, em Romanos 11:11, indica uma transição em seu argumento. Esse versículo contém os mesmos elementos encontrados em Romanos 11:1: “Por isso, digo” (do grego legō oun) dá início a uma pergunta que espera uma resposta negativa; e uma rejeição decisiva: mē genoitο, “de modo nenhum!”. Além disso, tanto Romanos 11:1-10 quanto Romanos 11:11-32 exibem o final típico das outras unidades literárias importantes nos capítulos 9 a 11: uma citação mista, ou séries de citações, do Antigo Testamento (Romanos 11:8-10, 26-27; veja também Romanos 9:25-29; Romanos 10:18-21).
Há boa razão, então, para identificar Romanos 11:1-10 e Romanos 11:11-32 como duas unidades básicas de pensamento. Ambas as unidades voltam ao forte foco em Israel que iniciou essa seção maior (Romanos 9:1-5), concentrando-se em dois pontos relacionados: “Quaisquer judeus podem ser salvos?” (Romanos 11:1-10) e “Mais judeus, além desses, podem ser salvos?” (Romanos 11:11-32). Como faz frequentemente em Romanos, Paulo usa uma pergunta retórica para introduzir o estágio seguinte de seu argumento: “Por isso, digo: Deus não rejeitou o seu povo, ou será que rejeitou?”. Ele faz essa pergunta por causa do que acabou de dizer sobre Israel em Romanos 10:21: os israelitas são um povo “desobediente e obstinado”, um resumo apropriado do ponto-chave de Paulo na segunda seção principal (Romanos 9:30—10:21) dos capítulos 9 a 11.
Ao mesmo tempo, a resposta dele a essa pergunta retórica inicial retoma temas importantes de Romanos 9:6-29. Como fez ali, Paulo divide aqui Israel em dois grupos: um “remanescente”, que desfruta das bênçãos da eleição e existe em virtude da eleição graciosa de Deus (Romanos 11:5-6; veja Romanos 9:6-13, 15, 16, 18, 22, 23, 27-29) e “os demais”, endurecidos por Deus em obstinação espiritual (Romanos 11:7-10; veja Romanos 9:13, 16, 17, 18, 22, 23). Nessa seção, portanto, e especialmente em Romanos 11:7-10, ele reúne os fios de seu ensino sobre Israel até aqui. Apesar da recusa da maioria dos judeus em reconhecer em Cristo a culminação da história da salvação (Romanos 9:2-3; Romanos 9:30—10:21) — recusa que reflete o próprio ato de endurecimento de Deus —, Deus continua, em fidelidade à sua palavra (Romanos 9:4-6), a tratar Israel como um todo como o seu povo, manifestando sua contínua preocupação com os israelitas na preservação de um remanescente de verdadeiros crentes.
Ao mesmo tempo, Romanos 11:1-10 lança as bases para o que Paulo ensinará sobre o futuro de Israel em Romanos 11:11-32, pois o conceito de um remanescente, usado negativamente em Romanos 9:27-29 — somente um remanescente será salvo —, serve a um propósito positivo no desenvolvimento de Romanos 11:1-10 até Romanos 11:11-32: há um remanescente, uma garantia da fidelidade contínua de Deus a Israel e às promessas que fez à nação. Essa passagem (Romanos 11:1-10), então, funciona como uma transição entre a análise paulina do passado e do presente de Israel (Romanos 9:6—10:21) e a de seu futuro (Romanos 11:11-32). O parágrafo se desenvolve em três seções. A pergunta retórica e a resposta de Paulo a ela (Romanos 11:1-2) introduzem sua tese principal: Deus não rejeitou seu povo. Paulo a defende em Romanos 11:2-6 com o ensino do remanescente. Por fim, Romanos 11:7-10 respondem às implicações dessa situação com uma repetição do entendimento de Paulo da presente situação, com ênfase particular no endurecimento de muitos judeus.

Romanos 11:1

O verbo “digo” (gr. legō) na introdução retórica dessa seção estabelece uma ligação com Romanos 10:14-21, em que Paulo usa o mesmo verbo duas vezes para indicar transições em seu argumento (v. 18-19). Ao mesmo tempo, a expressão “por isso” mostra que ele agora extrai uma implicação do que disse ali. Ou, para ser mais preciso, nega uma implicação que os leitores poderiam ter extraído da seção anterior. Paulo faz isso usando um padrão retórico muito típico de Romanos: uma pergunta que espera uma resposta negativa — “Deus não rejeitou o seu povo, ou será que rejeitou?” — seguida da forte resposta negativa: “De modo nenhum!”.
A pergunta é certamente natural. A recusa de Israel em reconhecer Jesus Cristo, a culminação da história da salvação (Romanos 10:4) e o único mediador da justiça de Deus (Romanos 10:5-13), parece significar que a nação não pode mais afirmar ser “o povo de Deus”. Entretanto, como em Romanos 3:1, em que faz uma pergunta semelhante, Paulo se recusa a admitir a conclusão “lógica”. Apesar de sua desobediência, Israel permanece o povo de Deus — em que sentido, Paulo explicará no restante do capítulo. Como também fez no início de sua análise de Israel (“meus parentes segundo a carne”, Romanos 9:3), Paulo novamente lembra os leitores da identificação dele com Israel: “eu mesmo sou israelita, da semente [descendência] de Abraão, da tribo de Benjamim”.
Paulo talvez se refira à sua identidade judaica para explicar sua motivação em rejeitar a noção de que Deus poderia ter rejeitado Israel de modo tão veemente: como judeu que ainda se identificava com seu povo, ele dificilmente permitiria o abandono divino por parte de Israel. No entanto, é mais provável que o “pois” (gr. gar) introduza uma razão para a negação paulina. Cranfield acha que Paulo se refere a si mesmo em seu papel de apóstolo aos gentios como um modo de indicar o permanente compromisso de Deus com o povo como um todo. Mas a importância do conceito de remanescente nesse contexto (v. 2b-6) torna mais provável que ele queira associar a si mesmo a essa entidade. O próprio Paulo, como cristão judeu, é evidência viva de que Deus não abandonou seu povo Israel. Os judeus, como Paulo, continuam sendo salvos e experimentando as bênçãos que Deus prometeu a seu povo.

Romanos 11:2

Paulo diz de forma positiva o que expressou de forma negativa no versículo 1a: “Deus não rejeitou seu povo”. A formulação reflete Salmos 94:14 e 1 Samuel 12:22. A oração relativa que Paulo adiciona a essa afirmação — “a quem de antemão conheceu” — não define simplesmente “o seu povo”, mas acrescenta uma razão para a afirmação, pois “conhecer” em “conhecer de antemão” se refere à eleição de Deus. Como Amós (Amós 3:2a, NRSV) o expressa: “A vocês [o povo de Israel] somente conheci de todas as famílias da terra”.
O prefixo temporal, pro- (“de antemão”), indica ainda que a escolha divina de Israel ocorreu antes de qualquer ação ou condição de Israel que pudesse qualificar a nação a ser escolhida por Deus. Como Deus poderia rejeitar um povo que ele, em um ato gracioso de escolha, havia tornado seu próprio povo? Como Paulo deixou claro antes na carta, a pecaminosidade e a desobediência humanas não podem cancelar a palavra prometida (Romanos 3:3-4). Quem são os destinatários da escolha graciosa dele? Se a oração “a quem de antemão conheceu” for restritiva, Paulo estaria afirmando somente que Deus não havia rejeitado certo conjunto de pessoas eleitas dentre Israel. Essa concepção tem o benefício de garantir uma rígida consistência no uso paulino do verbo “conhecer de antemão”: tanto nesse versículo quanto em Romanos 8:29, ele se refere a Deus escolher indivíduos para a salvação.
E, certamente, Paulo argumenta a favor de uma eleição para a salvação de indivíduos dentro do conjunto maior do Israel nacional (Romanos 9:6-29). Contudo, o contexto sugere que ele está aludindo à eleição divina do povo como um todo. Afinal, é a condição dessa entidade nacional que é posta em questão pelo que ele disse em Romanos 9:30—10:21 e sobre quem ele, então, pergunta no versículo 1. Além disso, o versículo 28, que parece reafirmar a observação paulina nesse versículo, também atribui a eleição a Israel como nação. Paulo, assim, usa o verbo “conhecer de antemão” para indicar a eleição de Deus, e o propósito dessa eleição é determinado pelo contexto.
Em Romanos 8:29, em que todos aqueles “conhecidos de antemão” também são justificados e glorificados, a eleição é claramente a salvação. Nesse versículo, no entanto, o apóstolo reflete o sentido coletivo comum do Antigo Testamento e judaico de eleição, de acordo com o qual a escolha de Deus da nação de Israel garante bênçãos e benefícios (bem como responsabilidade; observe a continuação de Amós 3:2, citado acima) ao povo como um todo, embora não assegure a salvação para todo e cada israelita (veja novamente o argumento de Romanos 9:6-29). Paulo já aludiu à sua razão para negar a noção de que Deus rejeitou seu povo Israel: em si mesmo, um israelita salvo pela fé em Cristo, ele demonstrou a evidência da contínua preocupação de Deus com Israel (v. 1a). Agora ele torna explícita essa linha de raciocínio e a amplia referindo-se ao remanescente.
Primeiro, ele fornece apoio bíblico para o conceito. A pergunta “Ou vocês não sabem…” indica que ele acredita que os leitores estão familiarizados com “as Escrituras” e as implicações que está prestes a citar. Paulo identifica a passagem com uma fórmula semelhante a fórmulas da literatura judaica: “na seção sobre Elias”. Ele ainda especifica que é um dos textos em que “Elias […] suplicou a Deus contra Israel”.

Romanos 11:3-4

A passagem à qual Paulo se refere é a história do ataque do rei Acabe aos profetas de Yahweh (1 Reis 19:1-18). Após ficar sabendo da matança dos profetas, executada por Acabe, Jezabel ameaça dar o mesmo destino a seu inimigo invencível, Elias (v. 1-2). Elias, então, foge para o deserto, onde lamenta o seu destino (v. 3-14), e o Senhor o conforta com a certeza de que ele está executando seu plano para Israel e para as nações vizinhas (v. 15-18).
Dessa passagem, Paulo cita o lamento de Elias por estar totalmente sozinho após a matança dos profetas (v. 3 — 1 Reis 19:10, 14) e a palavra final de conforto a Elias: “Separei para mim sete mil homens que não dobraram os joelhos a Baal” (v. 4 — 1 Reis 19:18b). Paulo adapta os textos para seu propósito sem, no entanto, alterar o significado deles. Também fornece uma introdução adequada a cada situação, acrescentando o vocativo “Senhor”, no versículo 3, para deixar claro a quem as palavras de Elias são dirigidas e usando a pergunta retórica “Mas o que diz a resposta divina para ele?”, no versículo 4, para anunciar a resposta do Senhor a Elias.
A passagem de 1 Reis, que é um dos textos seminais do remanescente no Antigo Testamento, serve admiravelmente ao propósito de Paulo, com seu contraste entre o aparente estado incorrigível de Israel e a garantia de Deus de sua contínua preocupação com o povo por meio da preservação de um remanescente de verdadeiros crentes. É possível que Paulo faça também um paralelo entre Elias e ele mesmo: cada um deles é uma figura histórica central e se defronta com a aparente ruína do Israel espiritual, mas encontra nova esperança na preservação divina de um remanescente de verdadeiros crentes, pois a preservação de um remanescente não é somente a evidência da presente fidelidade de Deus a Israel. Ela é também uma garantia de esperança para o futuro do povo.

Romanos 11:5

Paulo agora torna explícita a comparação entre a situação de Elias e a própria. Assim como, na época de Elias, Deus havia “separado para ele” um corpo sólido de adoradores fiéis, “no tempo presente”, o tempo de cumprimento escatológico, ele trouxe à existência um “remanescente”. A apostasia de israelitas no tempo de Elias não poderia invalidar a fidelidade e as promessas de Deus a Israel, e o mesmo ocorre na época paulina.
Mas, ele logo acrescenta — lembrando-nos do princípio que desenvolveu detalhadamente em Romanos 9:6-29 —, esse remanescente veio a existir como resultado da eleição graciosa de Deus. Encontramos aqui novamente o equilíbrio cuidadoso que Paulo mantém ao longo de Romanos quando lida com Israel. Ele afirma a importância contínua de Israel no estágio da história da salvação que o evangelho inaugurou. No entanto, nega que essa importância contínua esteja de qualquer modo relacionada com o mérito intrínseco de Israel ou com seu desempenho na obediência da Lei (observe equilíbrio semelhante em Romanos 2:17—3:8; 9:1-29; 11:17-32). Os judeus não são nada diferentes dos gentios nesse aspecto: somente por meio da intervenção graciosa de Deus eles podem ser transformados, de pecadores condenados a morrer, em pessoas justas destinadas à vida eterna (Romanos 3:9, 23, 24; 5:12-21).

Romanos 11:6

O sentido polêmico de “com base na eleição da graça” se torna mais claro nesse versículo, em que Paulo explica exatamente o que essa eleição graciosa acarreta. O princípio da graça é antitético ao das “obras”: se Deus elegeu os indivíduos que compõem o remanescente “pela graça”, ele não poderia elegê-los com base nas obras. A palavra “obras” se refere a qualquer coisa que os seres humanos façam.
Uma vez que o foco paulino está na base para a eleição de Israel, é bem provável que ele estivesse pensando nessas ações humanas como executadas especificamente em obediência à Lei Mosaica. Mas, como insisti antes, não é o fato de que essas obras são obras da Torá que impede que sejam uma base para a eleição. Assim como as referências de Paulo às obras de Abraão (Romanos 4:2-8) e Jacó e Esaú (Romanos 9:10-13) sugerem, o problema dele com as obras não é por elas serem obras da Torá, mas porque são obras humanas.
A polêmica de Paulo, embora esteja focada em Israel por causa da situação particular dele, é aplicável a todos os seres humanos e encontra sua base suprema na condição humana. Por causa de seu pecado, mas também simplesmente por causa de sua condição de criatura, as pessoas não podem obter nada de Deus por si mesmas. “Pois, do contrário”, se os seres humanos pudessem, por meio de suas obras, obter a bênção de Deus (como Paulo mostra na segunda parte do versículo), a graça “já não” seria graça. A graça exige que Deus seja perfeitamente livre para conferir seu favor a quem ele escolher. No entanto, se a graça de Deus fosse baseada no que os seres humanos fazem, a sua liberdade seria violada e ele já não estaria agindo com graça. Contudo, para Paulo, a natureza graciosa da atividade de Deus é um axioma teológico que automaticamente exclui qualquer ideia conflitante com isso.

Romanos 11:7

A pergunta retórica “Que [diremos], então?” marca o início da última seção desse parágrafo. Aqui Paulo trata de uma implicação de seu ensino sobre o remanescente nos versículos 2b-6. Ele afirmou que a existência de um remanescente — judeus que são cristãos — demonstra que Deus não rejeitou seu povo. Em Romanos 9:26-29, ele usa o conceito do remanescente com uma nuança negativa: embora todos os judeus sejam “israelitas” (Romanos 9:4), somente “o remanescente será salvo”. Em Romanos 11:2b-6, no entanto, Paulo cita o remanescente com um propósito positivo: a validade contínua da eleição divina de Israel é manifestada no fato de que há um remanescente.
Entretanto, a própria noção de que há um remanescente recebendo as bênçãos da eleição de Deus implica que há muitos outros israelitas que não as estão recebendo. É para esse grupo que ele volta a sua atenção nos versículos 7-10. Paulo começa com um resumo, de modo geral, da situação de Israel como esboçada até aqui nos capítulos 9—11. Ele diferencia três entidades: Israel como um todo coletivo, os eleitos e os endurecidos. Como entidade coletiva, Israel “não alcançou” o que “está [estava] buscando”. Paulo repete de modo semelhante o que disse sobre Israel como um todo coletivo em Romanos 9:31: “Israel, ao buscar uma lei da justiça, não obteve essa lei”. Esse paralelo permite fornecer o objeto ausente dos verbos nessa afirmação: foi a “justiça”, uma condição correta e justa diante de Deus, que Israel buscou, mas não foi capaz de alcançar.
No entanto, o que Israel como um todo não conseguiu, “os eleitos” obtiveram. Aqui Paulo novamente ecoa seu ensino anterior, em que comparou o fracasso de Israel em obter justiça (Romanos 9:31) com o êxito dos gentios em alcançá-la (Romanos 9:30). Esse contraste leva muitos comentaristas a pressupor que, nesse versículo, os eleitos são compostos também por gentios ou, talvez, por gentios e judeus (todos os eleitos) juntos. Mas o contexto favorece uma limitação a judeus, visto que Paulo parece estar interessado em diferenciar dois grupos em Israel.
São contrastados, então, com os eleitos — que, em virtude da eleição graciosa de Deus, obtiveram uma condição correta diante dele —, os “demais”, os que foram “endurecidos”. Apesar de um verbo diferente no grego, esse endurecimento se refere à mesma coisa sobre a qual ele falou em Romanos 9:18: uma insensibilidade que impede que as pessoas respondam a Deus ou à sua mensagem de salvação. E, uma vez que tanto em Romanos 9:18 quanto no versículo seguinte Paulo atribui esse endurecimento a Deus, está claro que Deus também é o agente implícito do verbo passivo nesse versículo: “os demais foram endurecidos (por Deus)”.
Calvino entendia esse endurecimento como um decreto pré-temporal de Deus pelo qual ele destinou alguns à condenação eterna. E, em geral, os teólogos reformados seguiram o exemplo de Calvino e encontraram nesse versículo apoio para a doutrina da reprovação. Como observei nos comentários sobre Romanos 9:18, essa conclusão é frequentemente desmentida porque Paulo sugere, em Romanos 11:11-32, que o endurecimento de Deus não precisa ser uma condição permanente: chegará o dia em que Deus removerá o seu endurecimento de Israel (v. 25).
E, para ecoar novamente nossos comentários anteriores, as conclusões teológicas devem ser extraídas muito cuidadosamente por causa da combinação das perspectivas individual e coletiva nesses capítulos. Assim, ainda que os versículos 11-32 se concentrem em Israel de uma perspectiva coletiva, os versículos 7b-10 fazem uma diferenciação entre as pessoas dentro da entidade coletiva de Israel. É possível, então, que esse texto, de fato, aluda ao “lado escuro da eleição”: a decisão de Deus de confinar as pessoas no pecado que elas escolheram para si.

Romanos 11:8

Nos versículos 8-10, Paulo fundamenta sua referência ao endurecimento com duas citações do Antigo Testamento. Ele segue o precedente judaico ao usar cada uma das três divisões principais do cânon hebraico: a Lei (Deuteronômio 29:4), os Profetas (Isaías 29:10) e os Escritos (Salmos 69:22-23). A citação no versículo 8, introduzida pela fórmula típica paulina “como está escrito”, extrai a maior parte da sua formulação e sua estrutura básica de Deuteronômio 29:4, um texto que aparece no meio de uma passagem (Deuteronômio 27—32) que exerceu influência considerável na argumentação teológica de Paulo em Romanos.
Esse versículo vem de uma das exortações finais de Moisés ao povo de Israel antes de os israelitas atravessarem o Jordão para tomar posse da Terra Prometida. Moisés os lembra dos grandes atos de Deus em favor deles, mas reconhece que eles não podem apreciar plenamente o que o Senhor fez por eles, pois “o Senhor não deu a vocês uma mente para entender ou olhos para ver ou ouvidos para ouvir”. Paulo muda a declaração negativa original — “o Senhor não deu” — para uma positiva — “Deus deu”. Essa mudança serve melhor ao propósito dele ao citar o versículo, pois ele está apoiando a noção de um ato concreto de endurecimento por parte de Deus (v. 7b).
Entretanto, provavelmente Paulo também é influenciado, nessa alteração, por outro texto do Antigo Testamento do qual ele extrai parte da formulação dessa citação. A expressão “espírito de estupor” vem de Isaías 29:10: “O Senhor derramou sobre vocês um sono profundo [LXX: pneumati katanyxeōs]: ele selou os seus olhos (os profetas); ele cobriu a sua cabeça (os videntes)”. A atenção paulina foi provavelmente atraída para esse versículo tanto pela semelhança de conteúdo com Deuteronômio 29:4 quanto pelo paralelo textual envolvendo “olhos” que são cegados para a realidade de coisas espirituais. Além disso, o texto aparece em uma passagem que fornece muitas referências e citações do Novo Testamento.

Romanos 11:9-10

A segunda citação vem de outra passagem que desempenhou um papel importante em ajudar os cristãos primitivos a entender Jesus: Salmos 69. Essa interpretação tradicional, de acordo com a qual os próprios sentimentos de Davi no salmo são aplicados a Jesus, torna natural Paulo empregar, para os inimigos de Jesus Cristo, o que Davi diz sobre os próprios inimigos.
Provavelmente a atenção paulina também foi atraída para esses versículos pela referência deles a “olhos escurecidos”, uma ligação textual com Deuteronômio 29:4 e Isaías 29:10. Os versículos 22 e 23 no salmo introduzem a oração de Davi para que o Senhor traga desgraça àqueles que o estão perseguindo: “Que a mesa diante deles se transforme em laço; que se transforme em retribuição e armadilha. Que os olhos deles sejam escurecidos para que não vejam e as suas costas fiquem curvadas para sempre”.
O que Davi orou para que acontecesse a seus perseguidores, Paulo sugere, Deus deu aos judeus que resistiram ao evangelho. Possivelmente ele não tinha em mente aplicar os detalhes da citação aos judeus de sua própria época. Assim, é inútil tentar entender o que a “mesa” poderia representar ou o que “encurvar as costas” poderia denotar.
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