Salvos para um Propósito

Cristianismo do dia-a-dia  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Em 2 Coríntios 5.18-20, o Pr. Pedro Vieira conclui a série "Cristianismo do Dia a Dia" destacando que a salvação não é um fim em si mesma, mas um comissionamento. Fomos reconciliados com Deus por iniciativa divina para nos tornarmos Seus embaixadores. Ser uma "nova criatura" exige enxergar o mundo com novos olhos e assumir o ministério da reconciliação. Não somos apenas salvos para o descanso, mas enviados para proclamar fielmente a mensagem da cruz.

Notes
Transcript
2 Corinthians 5:18–20 NAA
Ora, tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra da reconciliação. Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconciliem com Deus.

Introdução

Encerramos nossa série Cristianismo do Dia a Dia. Após percorrermos a natureza de Deus, a necessidade de salvação, a obra de Cristo na cruz e seus efeitos em nós e na Igreja, veremos que a vida cristã não é apenas sobre o que recebemos, mas sobre o propósito para o qual fomos enviados.
O texto base está em 2 Coríntios, uma carta tensa onde Paulo defende sua autoridade contra acusações de ser "indeciso" ou "fraco" (1.17; 4.7-12). Ele era comparado a "superapóstolos" mais eloquentes, porém dominadores (11.5; 11.20). Paulo argumenta que um verdadeiro representante de Cristo é moldado pelo padrão da cruz. Os coríntios deveriam avaliá-lo não pelo poder humano, mas por Cristo. Mas Jesus usava de seu poder para controlar as pessoas ou preferia servi-las? Ele fazia discursos cheios de pompa ou usava palavras simples para que todos entendessem?
No auge dessa sessão da carta que o apóstolo diz:
2Coríntios 5.17 “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”
Paulo está dizendo: vocês estão avaliando meu ministério com critérios errados. Se vocês são nova criação, precisam enxergar com olhos de nova criação — porque só assim é possível reconhecer o que vem de Deus.
E aqui está o ponto decisivo: Paulo não está apenas corrigindo a forma como eles avaliam o seu ministério — ele está preparando o terreno para mostrar que essa mesma nova criação define também o ministério deles. Porque quem foi feito novo por Deus não apenas vê diferente… mas passa a participar daquilo que Deus está fazendo no mundo.

Exposição

v.18 - Ora, tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,

[Desenho: A Ponte da Cruz (v.18 - Reconciliação). Conceito Visual: Um grande abismo separando duas montanhas. Sobre o abismo, uma cruz deitada serve como uma ponte, ligando os dois lados. De um lado está escrito "Nós" e do outro "Deus".]
Paulo reafirma que Deus é o responsável por nos tornarmos “nova criatura” e que isso se deveu a um processo de “reconciliação” (καταλλάξαντος), termo que ele também usa em 1Co 7.11 para se referir a uma esposa que volta para seu marido após a separação.
A ideia é que, desde o pecado de Adão, o humano “se separou de Deus” (cf. Rm 3.23), mas Deus tomou a iniciativa de “reatar o casamento” através do sacrifício de Jesus na cruz.
Essa relação é ilustrada de maneira vívida pela vida do profeta Oséias, que é abandonado por sua esposa Gômer. Ela prefere se prostituir a permanecer com ele; contudo, o profeta vai atrás de sua desonrosa esposa e a traz de volta (Oséias 1-3). Nesta história, nós somos Gômer resgatada de seu pecado.
Paulo nos lembra que o Senhor, como um esposo generoso, deu o primeiro passo e nos buscou quando ainda estávamos presos em nossos pecados, algo que o apóstolo também disse aos Romanos em
Romanos 5.8 “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores.”
Percebeu? Deus toma a iniciativa e as providências para a restauração do “casamento” enquanto ainda estávamos em adultério. Isso é de uma bondade inimaginável! Através de Cristo, Deus realmente estava nos perdoando e amando. Ganhamos uma nova identidade ou uma “nova certidão de casamento”, para substituir aquela que havíamos desprezado antes.
Contudo, o apóstolo dá um salto e mostra que essa reconciliação concedida por Deus é mais que um privilégio para nós mesmos, mas também um privilégio para repartir... pois Deus não apenas nos salvou — Ele também nos enviou.

v.19 - a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra da reconciliação.

[Desenho: ]
Ser nova criatura não é ser somente diferente ou ter uma nova identidade; é também possuir um novo propósito e objetivo de vida.
O ato reconciliatório de Deus era por nós, claro. O trabalho de Cristo foi nos reconciliar, mas você notou que Paulo diz que Deus nos inclui na tarefa de Jesus? Entenda: Jesus veio com uma missão e, quando Ele nos alcança, nos torna participantes dela.
Então, se por um lado recebemos uma nova certidão de casamento que não merecíamos, também recebemos uma “nova assinatura em nossa Carteira de Trabalho”, pois passamos a ter o privilégio de participar da obra da salvação.
É claro que Paulo fala, em primeiro plano, de seu apostolado. Lembra que esse texto é uma autodefesa? Paulo diz que ele e os demais apóstolos foram comissionados por Deus para levar a palavra da reconciliação. Eles, os verdadeiros apóstolos, pregaram por fala e escrita o Evangelho, e foi através dessa pregação que a obra de Cristo se tornou conhecida dos povos, pois:
Romanos 10.17 “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo.”
O objetivo dos verdadeiros apóstolos é trabalhar pela reconciliação das pessoas a Deus, pregando a obra de Cristo. Os verdadeiros apóstolos não são o centro e não chamam a atenção para si mesmos, mas para o Evangelho.
Este ministério da reconciliação se estende a todos os cristãos — não como apóstolos, mas como portadores da pregação apostólica, porque nós também não somos o centro. Assim, porque Deus não apenas nos salvou, mas nos enviou, participamos da obra de Deus ao anunciar a salvação às pessoas à nossa volta.
Contudo, que tipo de participação é essa? Apenas aguardamos a volta de Cristo? Apenas amamos a Jesus e esperamos que os outros O amem espontaneamente?

v.20 - Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconciliem com Deus.

[Desenho: ]
O crente participa da obra como um embaixador! Um embaixador (πρεσβεύω) é alguém que representa os interesses de outra pessoa, povo ou governante diante de uma outra autoridade [1] e essa palavra também incluía o ato de interceder ou representar alguém diante de Deus através da oração e outros atos religiosos [2].
Na prática, Paulo diz que o verdadeiro apóstolo, assim como o verdadeiro crente, não está neste mundo para buscar os próprios interesses, mas, como um embaixador, trabalha pelo Reino de Deus, o que nos remete à fala de Jesus em:
Mateus 6.33 “Mas busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas.”
Quando entregamos a vida ao Senhor Jesus, Ele se compromete a cuidar de nós. Antes, poderíamos até dizer que confiávamos em Deus, mas, na prática, sentíamos que tudo dependia de nós: de nossa habilidade, esperteza ou saúde, o que gerava ansiedade e frustração.
Agora, sabemos que devemos “lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque ele tem cuidado de nós” (cf. 1Pe 5.7). Estamos todos aprendendo a confiar que Ele nos sustenta e guarda em todas as situações, tanto naquelas que achamos que temos algum controle como nas situações que fogem completamente das nossas mãos.
Mas este “descanso” em Deus não é ocioso. O Senhor cuida da sua vida para que você se dedique às coisas d’Ele. E você deve cuidar com “exortações” (παρακαλέω), palavra que envolve ensinar, pedir com urgência, consolar, fortalecer e recomendar.
Em resumo, porque Deus não apenas nos salvou, Ele nos enviou às pessoas para ensinar que só Jesus Cristo salva (Mt 28.19-20), para apontar Jesus ao que está cansado (Mt 11.28-29) e ao que precisa de consolo (Jo 14.16-18).
Isto é mais que apenas “acrescentar Jesus” à vida; é ter a vida toda voltada para Ele. Por vezes, pessoas acusam cristãos de fanatismo: “agora você só fala de Jesus”. Embora alguém possa ser fanático por causa de regras humanas, pregar sobre Jesus não é fanatismo, é fidelidade. O próprio apóstolo fala em
2Timóteo 4.2 “que pregue a palavra, insista, quer seja oportuno, quer não, corrija, repreenda, exorte com toda a paciência e doutrina.”
Como alguns coríntios resistiam ao ensino de Paulo, avaliando-o com olhos carnais e não como nova criatura, eles não conseguiam pregar o Evangelho adequadamente. Resistir ao ensino dos verdadeiros apóstolos, não os superapóstolos daquele tempo, nem os falsos apóstolos do nosso tempo, faz com que nossa pregação seja afetada e acabamos pregando um Cristo sem cruz, um discipulado sem negar a si mesmo, e o que sobra é apenas uma religião de falso poder e de consolo nas coisas dessa terra, que não torna as pessoas parecidas com Jesus.
Por isso o apóstolo chama os coríntios a viver a reconciliação com Deus, pois, mesmo sendo crentes, por vezes nos afastamos do Senhor, buscando prazeres e confortos passageiros. Nos tornamos frios na fé, fracos diante das tentações e acabamos deixando passar muitas oportunidades de chamar as pessoas ao arrependimento e à salvação que só Jesus pode dar.

Aplicações

1. Viva de acordo com a reconciliação que você recebeu → Não viva distante, frio ou resistente; alinhe sua vida diariamente com a graça de Deus.
Exemplo prático: Se você sabe que está alimentando um pecado, evitando oração ou tratando Deus com indiferença durante a semana, isso é viver como se ainda não tivesse sido reconciliado.
2. Examine seu coração e seus critérios → Pequenas resistências e pensamentos moldados pelo mundo distorcem sua fé e seu discernimento.
Exemplo prático: Quando você valoriza mais aparência, sucesso ou eloquência do que fidelidade a Cristo — seja em líderes, igreja ou na sua própria vida — você está avaliando com “olhos antigos”, não de nova criação.
3. Confie em Deus para viver na missão → Pare de viver como se tudo dependesse de você; Deus cuida de você para que você se dedique ao que é dEle.
Exemplo prático: Ansiedade excessiva com dinheiro, futuro ou controle da vida pode estar te paralisando espiritualmente — você não fala de Cristo porque está ocupado tentando “segurar tudo sozinho”.
4. Assuma seu papel na missão de Deus → Deus não te salvou para assistir, mas para participar da proclamação do evangelho.
5. Transforme sua rotina em campo missionário → Família, trabalho e amizades são os lugares onde Deus já te enviou.
Exemplo prático: aquele colega de trabalho; aquele familiar difícil; aquele amigo que nunca ouviu o evangelho claramente — isso não é acaso, é envio.
6. Fale de Cristo com intencionalidade → O evangelho não se espalha por acidente — Deus escolheu usar pessoas.
Exemplo prático: Se você nunca fala de Jesus, nunca compartilha o evangelho ou sempre “espera a oportunidade perfeita”, provavelmente você não está vivendo como embaixador.
7. Seja fiel à mensagem do evangelho → Não negocie a verdade; um “Cristo sem cruz” pode agradar, mas não salva.
Exemplo prático: Evitar falar de pecado, arrependimento ou cruz para não constranger alguém é suavizar a mensagem — e isso esvazia o evangelho.
8. Viva com consciência de que você representa Cristo → Sua vida e suas palavras comunicam algo sobre Deus — queira ou não.
Exemplo prático: como você reage sob pressão; como trata pessoas; como fala no dia a dia; tudo isso “fala” sobre o Rei que você diz representar.

Conclusão

Ao longo dessa série, vimos quem Deus é, entendemos nosso pecado, contemplamos a obra de Cristo e os efeitos dessa salvação em nossa vida.
Mas hoje aprendemos algo essencial: Deus não apenas nos salvou — Ele nos enviou.
Ele nos reconciliou consigo por meio de Cristo, nos deu uma nova identidade, nos incluiu em sua missão e agora fala ao mundo por meio de nós.
Por isso, a pergunta que fica não é apenas: “Você foi salvo?” Mas: “Você está vivendo como alguém que foi enviado?”
Jesus deixou isso claro quando disse: Mateus 28.19a “Portanto, vão e façam discípulos ...” e também em Atos dos Apóstolos 1.8 “...vocês serão minhas testemunhas...”
Deus continua reconciliando pessoas. E Ele decidiu fazer isso… por meio de nós.
Portanto, viva reconciliado com Deus, participe da missão, e represente fielmente o seu Rei. Porque você não foi apenas salvo. Você foi enviado.
A reconciliação que você recebeu se tornou a mensagem que você carrega.
Uma última pergunta: Onde, na sua própria vida, você está vivendo mais como alguém só salvo… do que como alguém enviado?
[1] Sentido clássico, muito visto desde clássicos como Políbio, chegando aos escritos de Flávio Josefo.
[2] Sentido metafórico, filosófico e religioso, muito comum na religião greco-romana (Aristides) e visto no ambiente judaico-cristão em diversos autores, como Fílon e Orígenes.
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