Quando Deus nos Surpreende

DAS PALMAS ÀS DORES (PÁSCOA)  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Transcript

Introdução:

Começamos com as palmas — a entrada triunfal, a celebração, as expectativas de um povo que queria um rei político. Depois viemos às dores — a traição, a cruz, o silêncio pesado do sábado. E no último domingo vimos o raiar da esperança: o túmulo vazio, as mulheres correndo, Pedro e João chegando ofegantes para confirmar. A ressurreição havia acontecido.
Mas hoje o texto de Lucas que vamos ler nos apresenta dois homens que estavam em Jerusalém quando tudo isso aconteceu. Eles ouviram o relato das mulheres. Souberam do túmulo vazio. Receberam a notícia — e mesmo assim estavam indo embora. Caminhando tristes, de volta para casa, de volta para o comum.
A ressurreição havia acontecido. Mas ainda não havia chegado até eles de verdade.
E é exatamente aqui que a história de hoje começa — e talvez seja aqui que muitos de nós também estamos. Você pode conhecer a história da ressurreição, pode tê-la ouvido muitas vezes, e ainda assim caminhar com o coração pesado, de volta para Emaús. Hoje quero lhe dizer que é justamente nesse caminho que Jesus aparece.

Texto Base: Lucas 24.13-35

Lucas 24.13–35 NVI
13 Naquele mesmo dia, dois deles estavam indo para um povoado chamado Emaús, a onze quilômetros de Jerusalém. 14 No caminho, conversavam a respeito de tudo o que havia acontecido. 15 Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles; 16 mas os olhos deles foram impedidos de reconhecê-lo. 17 Ele lhes perguntou: “Sobre o que vocês estão discutindo enquanto caminham?” Eles pararam, com os rostos entristecidos. 18 Um deles, chamado Cleopas, perguntou-lhe: “Você é o único visitante em Jerusalém que não sabe das coisas que ali aconteceram nestes dias?” 19 “Que coisas?”, perguntou ele. “O que aconteceu com Jesus de Nazaré”, responderam eles. “Ele era um profeta, poderoso em palavras e em obras diante de Deus e de todo o povo. 20 Os chefes dos sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram; 21 e nós esperávamos que era ele que ia trazer a redenção a Israel. E hoje é o terceiro dia desde que tudo isso aconteceu. 22 Algumas das mulheres entre nós nos deram um susto hoje. Foram de manhã bem cedo ao sepulcro 23 e não acharam o corpo dele. Voltaram e nos contaram ter tido uma visão de anjos, que disseram que ele está vivo. 24 Alguns dos nossos companheiros foram ao sepulcro e encontraram tudo exatamente como as mulheres tinham dito, mas não o viram.” 25 Ele lhes disse: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram! 26 Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?” 27 E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras. 28 Ao se aproximarem do povoado para o qual estavam indo, Jesus fez como quem ia mais adiante. 29 Mas eles insistiram muito com ele: “Fique conosco, pois a noite já vem; o dia já está quase findando”. Então, ele entrou para ficar com eles. 30 Quando estava à mesa com eles, tomou o pão, deu graças, partiu-o e o deu a eles. 31 Então os olhos deles foram abertos e o reconheceram, e ele desapareceu da vista deles. 32 Perguntaram-se um ao outro: “Não estava queimando o nosso coração, enquanto ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?” 33 Levantaram-se e voltaram imediatamente para Jerusalém. Ali encontraram os Onze e os que estavam com eles reunidos, 34 que diziam: “É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35 Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como Jesus fora reconhecido por eles quando partia o pão.

Ponto 1 - Expectativas frustradas

Lucas 24.13–35 NVI
14 No caminho, conversavam a respeito de tudo o que havia acontecido.
A tirania dos fatos: O cenário aqui é, duas pessoas que frustradas com os últimos acontecimentos, estavam voltando para casa. E os fatos eram: Jesus morreu, o túmulo está vazio (o que gerava mais confusão que esperança) e o projeto político de libertação de Israel faliu.
O percurso era de Jerusalém, centro de tudo que tinha acontecido, para Emaús, 12 km aproximadamente de distância. Caminho que deveria durar entre 2 e 3 horas de viagem. Dava tempo de muita conversa.
Eles estavam saindo do lugar das promessas — e voltando para Emaús — o lugar da rotina, do "plano B".
Nós somos seres racionais, observamos o mundo ao nosso redor para ter nossas conclusões. E diante do cenário que eles presenciaram, olhando apenas para ele, a conclusão era óbvia, DEU TUDO ERRADO.
Lucas 24.13–35 NVI
21 e nós esperávamos que era ele que ia trazer a redenção a Israel. E hoje é o terceiro dia desde que tudo isso aconteceu.
O "Nós Esperávamos": O versículo 21 é doloroso: "nós esperávamos que era ele que ia trazer a redenção". A frustração nasce quando o que Deus faz não se encaixa no que achamos que Ele deveria fazer.
Não é assim na nossa vida, observamos as dificuldades da vida. Nosso olhar percebe o contexto e nossas capacidades, ou a capacidade da sociedade que estamos. Então era natural a pergunta, E AGORA?
Nós somos assim. Olhamos para a conta, para o diagnóstico, para o conflito familiar e concluímos racionalmente: "Acabou". Mas a nossa racionalidade é limitada pela falta da perspectiva da ressurreição.
Os discípulos de Emaús não eram loucos nem incrédulos por estarem tristes; eles eram apenas lógicos. Eles estavam lendo os fatos. O problema é que eles estavam lendo o livro da história de Deus apenas até o capítulo da sexta-feira, esquecendo que o Autor já tinha escrito o domingo.
2Coríntios 5.7 “7 Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos.”
Ponto 1: A surpresa de que Deus está no caminho, mesmo quando achamos que Ele falhou.

Ponto 2 - O Deus que caminha, fala e se revela

A surpresa de um Deus que caminha e fala conosco
Jesus se aproxima, mas eles não o reconhecem. Há algo profundo aqui: a dor às vezes cega nossa percepção da presença de Deus.
Lucas 24.13–35 NVI
17 Ele lhes perguntou: “Sobre o que vocês estão discutindo enquanto caminham?” Eles pararam, com os rostos entristecidos.
"Jesus é o Grande Ouvinte. Ele não interrompe a confusão dos discípulos no caminho; Ele entra nela. Ele convida a história a ser contada, tratando nossa dor com a dignidade da escuta antes de tratá-la com a autoridade da resposta. Ele não tem pressa em chegar ao destino porque Ele está interessado nas pessoas que caminham com Ele."
Eugene Peterson
O Deus que Escuta: Jesus faz perguntas. Ele deixa que eles coloquem a dor para fora. Ele acolhe a tristeza e ganha a simpatia deles pela Sua humanidade e paciência. Deus não tem pressa com quem está sofrendo.
Deus acolhe a nossa dor. A relação com alguém começa quando abrimos o nosso coração. Quantas vezes alguém que conhecemos nos conta uma história que já sabemos, mas não interrompemos, porque sabemos como é importante para ela falar. Deus age assim, Ele quer lhe ouvir, participar da sua dor.
"Jesus, o mestre da alma, começa onde estamos, e não onde deveríamos estar. Ao fazer perguntas para as quais Ele já tem as respostas, Ele não busca informação, mas busca a nossa entrega. Ele permite que coloquemos tudo para fora para que possamos esvaziar o coração da nossa própria narrativa e preenchê-lo com a narrativa do Reino."
J K A SMITH
Lucas 24.13–35 NVI
25 Ele lhes disse: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram! 26 Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?” 27 E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.
Quando Jesus toma a palavra, Ele não oferece um "sentimentalismo". Ele oferece a Palavra. Ele mostra que o sofrimento não foi um erro de percurso, mas o plano de Deus desde o início (Moisés e os Profetas).
Lucas 24.13–35 NVI
32 Perguntaram-se um ao outro: “Não estava queimando o nosso coração, enquanto ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?”
Isso não é crueldade. É respeito. Jesus os ama o suficiente para não deixá-los confortáveis numa narrativa errada. E então, começando por Moisés e todos os profetas, Ele expõe as Escrituras — mostrando que o sofrimento não foi um erro de percurso, mas o plano de Deus desde o início.
A Palavra queima. Não porque machuca, mas porque ilumina o que estava escuro. E quando aqueles dois chegaram ao fim daquele caminho, confessaram entre si: "Não estava queimando o nosso coração enquanto ele nos falava?" (v. 32)
Essa é a marca da Palavra viva. Ela não nos diz o que queremos ouvir — ela nos diz o que precisamos ver. E só conseguimos suportar essa verdade porque Ele já nos ouviu primeiro.
"Jesus não nos deu um manual de instruções; Ele nos deu a Si mesmo e as Escrituras que testificam dele. A autoridade de Cristo e a autoridade da Bíblia permanecem ou caem juntas."
John Stott
Não há Jesus sem Escritura, e não há Escritura viva sem o Cristo que a habita.
Chegamos ao clímax. Eles chegam a Emaús, e Jesus faz como quem vai mais adiante. Mas eles insistem: "Fique conosco." E Ele fica.
À mesa, Ele toma o pão, dá graças, parte — e os olhos deles se abrem.
Tudo que veio antes — a escuta, a caminhada, a Palavra exposta — estava apontando para esse momento. A ressurreição não é apenas um fato histórico para ser debatido; é uma realidade para ser experimentada na comunhão com Ele. Os olhos se abrem não na estrada, não no argumento, mas na mesa, no partir do pão, no gesto íntimo de quem compartilha a vida.
É aqui que está o coração do Ponto: Jesus não veio apenas nos informar sobre a ressurreição. Ele veio nos convidar para dentro dela. A nova vida não é uma doutrina para ser assimilada — é uma companhia para ser vivida. É vida Nele, com Ele, a partir Dele.
"Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória." (Colossenses 3.4)
Se a história de Cristo terminasse na Cruz, teríamos apenas um modelo de conduta. Com a ressurreição — e com o Cristo que parte o pão conosco — temos uma fonte de vida. Um profeta morto nos deixa instruções; um Senhor ressurreto nos oferece Sua própria presença.
Ponto 2: A surpresa de que Jesus não veio apenas explicar a ressurreição — Ele veio nos revelar que a nova vida é vida em companhia Dele.

Ponto 3 - Vivendo a ressurreição

O desafio de ser Nova Criatura (O "Já e o Ainda Não")
Lucas 24.13–35 NVI
32 Perguntaram-se um ao outro: “Não estava queimando o nosso coração, enquanto ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?” 33 Levantaram-se e voltaram imediatamente para Jerusalém. Ali encontraram os Onze e os que estavam com eles reunidos,
"Levantaram-se e voltaram imediatamente para Jerusalém." (v. 33)
Esse versículo é simples e devastador ao mesmo tempo. Pouco antes, eles estavam indo embora — rostos tristes, passo pesado, de volta para o comum. Depois do encontro com Cristo, a direção mudou. Não gradualmente. Imediatamente.
É isso que o encontro com o Cristo ressurreto faz. Ele não aprimora a rota antiga — ele muda a rota.
O movimento — o poder que nos levanta
Mas é importante entender de onde vem esse movimento.
Eles não se levantaram por força de vontade ou por resolução pessoal. Eles se levantaram porque algo havia acontecido dentro deles — o coração havia queimado, os olhos haviam sido abertos, e o Espírito que habita no Cristo ressurreto havia começado a operar.
Esse é o padrão do evangelho. Deus age primeiro — e então nos convida a participar. O Espírito impulsiona — e então você levanta. A graça transforma — e então você muda de rota.
Não há mérito no levantar, mas há responsabilidade. Deus não levanta por você; Ele te dá poder para levantar.
Isso significa que a ressurreição não é apenas uma doutrina para ser afirmada no credo. É uma força que opera em você hoje. O mesmo poder que ressuscitou Cristo dos mortos habita em quem crê — e esse poder é suficiente para vencer o que você julgava invencível.
A nova ética — novas criaturas vivem diferente
Quem muda de rota, muda de vida. Não pode ser diferente. Uma nova criatura não carrega os mesmos hábitos, os mesmos compromissos, os mesmos padrões da criatura antiga — como se a ressurreição fosse apenas um evento espiritual sem consequências práticas.
A graça não é um saldo de perdão que usamos para continuar pecando com segurança. Viver a ressurreição é participar da natureza divina. E isso impacta tudo:
A ética sexual — fidelidade no casamento, pureza antes dele, a sexualidade vivida dentro da ordem que Deus criou, homem e mulher, conforme a Palavra. Não porque a cultura permite ou proíbe, mas porque somos de outro Reino.
A ética da palavra e da integridade — manter o que foi prometido mesmo quando cumprir custa caro. Ser o mesmo na luz e no escuro.
A ética do relacionamento — perdoar quando não há garantia de mudança do outro, pedir perdão quando o culpado foi o outro, amar de forma radical e sem reciprocidade calculada.
A ética da ambição e do dinheiro — não ser escravizado pelo próximo aumento, não escravizar o próximo através do poder, não ser absorvido pelo consumismo que o mundo oferece como substituto de sentido.
Isso não é uma lista de exigências. É o retrato de quem vive Nele. É a ética de Cristo — e só conseguimos vivê-la porque vivemos Nele, pelo poder do Seu Espírito.
O "já e ainda não" é real: o Reino já está aqui, o Espírito já habita em nós, a transformação já começou. Mas nossa natureza caída ainda resiste, e a plenitude só virá na glória. Isso nos dá confiança para lutar e humildade para não condenar o irmão que ainda luta.
O novo propósito — voltamos para contar
Os discípulos não voltaram para Jerusalém para ficarem aquecidos pela experiência. O texto diz que encontraram os Onze e contaram o que havia acontecido no caminho (v. 35). O encontro com Cristo os transformou em testemunhas.
É aqui que a nova ética encontra a missão. Novas criaturas não vivem a ressurreição apenas para dentro — elas a carregam. A forma como você trata seu cônjuge, como conduz seu trabalho, como perdoa quem te feriu, como usa seu dinheiro — tudo isso é testemunho. Você é embaixador de uma nova ordem, e sua vida inteira é a mensagem.
Marcos 1.15"O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas."
O arrependimento não é apenas remorso — é mudança de direção. É exatamente o que aqueles dois fizeram naquela tarde em Emaús. Encontraram Cristo, mudaram de rota e foram contar.
Esse é o convite para você hoje.
Ponto 3: A surpresa de que a ressurreição não nos deixa no mesmo lugar — ela nos levanta, nos transforma e nos envia.

Conclusão - A esperança que nos faz prosseguir

Aqueles dois discípulos saíram de Jerusalém de manhã com o coração partido. Voltaram à noite com o coração queimando.
A diferença não foi o cenário — era a mesma estrada, a mesma distância, os mesmos fatos. A diferença foi que Cristo entrou no caminho.
Talvez você tenha chegado aqui hoje como eles saíram — com o peso de uma expectativa frustrada, de uma dor que não passa, de uma fé que ouviu falar da ressurreição mas ainda não a sentiu chegar de verdade. Talvez você esteja no meio do caminho para Emaús agora mesmo.
Jesus está nessa estrada com você.
Ele quer ouvir o que você carrega. Ele não vai esconder a verdade — mas vai apresentá-la com o cuidado de quem te ama. E no momento certo, à mesa, os olhos se abrem.
O convite é simples e exige tudo: se render e se arrepender. Render a narrativa que você construiu sobre o que Deus deveria ter feito. Arrepender dos caminhos que te afastam Dele. E mudar de direção — como dois homens que estavam indo para Emaús e voltaram imediatamente.
A mesa está posta. O pão está sendo partido.
Levante-se.
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