A LETRA E O ESPÍRITO
O SERMÃO DO MONTE • Sermon • Submitted • Presented
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LEITURA DOS TEXTOS
LEITURA DOS TEXTOS
— Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: “Não mate.” E ainda: “Quem matar estará sujeito a julgamento.”
— Vocês ouviram o que foi dito: “Não cometa adultério.”
— Vocês também ouviram o que foi dito aos antigos: “Não faça juramento falso, mas cumpra rigorosamente para com o Senhor o que você jurou.”
— Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente.”
— Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.”
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
O que nos motiva a obedecermos a Deus? O senso de obrigação? Ou o prazer de responder ao seu amor? O caminho mais natural na espiritualidade é o caminho da hipocrisia. Hipocrisia é quando a gente vive apenas de aparência, quando o nosso coração insiste em continuar se entregando à idolatria do nosso próprio ego. É aquela pessoa que, na frente dos outros, age como santa, mas no privado alimenta e retroalimenta todo o tipo de perversidade, maldade e pecado.
O reino dos céus é um reino composto de pecadores que foram libertos da culpa, da condenação e estão sendo libertos da presença e do poder do pecado. Portanto, os discípulos de Jesus são aqueles que lutam contra o pecado não por medo do inferno, mas por um desejo maior que conhecer e amar mais a Deus. O pecado é como aquele doido que entrou no caminho de um maratonista brasileiro que estava em primeiro lugar na maratona das olimpíadas e o impediu de vencer a corrida. A corrida é para se alcançar uma semelhança plena com Jesus Cristo (santificação) e isso deveria produzir em cada um de nós um desejo ardente por prazeres maiores na presença de Deus.
Tu me farás ver os caminhos da vida;
na tua presença há plenitude de alegria,
à tua direita, há delícias perpetuamente.
Antes de tratarmos propriamente da interpretação de Jesus acerca de alguns temas selecionados por ele da Lei de Moisés, nós vamos observar o ponto mais importante que é o princípio geral que está contido em cada um desses versículos que lemos.
EXPOSIÇÃO DO TEXTO
EXPOSIÇÃO DO TEXTO
Primeira coisa que precisamos entender é que Jesus não está estabelecendo uma nova lei, substituindo a Lei de Moisés. O que ele está fazendo é algo mais incrível: ele está assumindo a autoridade que Deus lhe deu para trazer a verdadeira e legítima interpretação da lei que ele mesmo deu a Moisés. Vale lembrar neste momento o episódio da transfiguração de Jesus.
Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro e os irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E Jesus foi transfigurado diante deles. O seu rosto resplandecia como o sol, e as suas roupas se tornaram brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com Jesus. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus:
— Senhor, bom é estarmos aqui. Se o senhor quiser, farei aqui três tendas: uma para o senhor, outra para Moisés e outra para Elias.
Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia:
— Este é o meu Filho amado, em quem me agrado; escutem o que ele diz!
Ao ouvirem aquela voz, os discípulos caíram de bruços, tomados de grande medo. Jesus aproximou-se e tocou neles, dizendo:
— Levantem-se e não tenham medo!
Neste ponto do Sermão do Monte, precisamos perceber que Jesus está revelando a sua divindade. Ninguém melhor que o próprio Deus para interpretar corretamente a Lei de Deus. Como falamos no último sermão desta série, Jesus, ao afirmar que veio “cumprir a Lei”, está demonstrando que veio tanto para ensinar de forma transcendental, quanto reinterpretar a Lei e obedecer na íntegra, cumprindo assim toda a vontade de Deus e fazendo a própria Lei findar nele mesmo. Então o que ele quer agora demonstrar é que ele é a Torah encarnada — Torah significa Lei e Lei aponta não apenas para a letra, mas para o seu ensino e prática na vida — o que lemos em João 1.14 é a descrição de uma nova era na história de Deus no mundo: a Palavra tabernaculou, encarnou, e agora podemos ver a glória do Pai na face do Filho; Jesus é o principal doutor da Lei e agora ele vai trazer a interpretação que deve ser compreendida e aplicada na vida de todo aquele que de fato quer pertencer ao reino dos céus que é o reino de Deus.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.
A Palavra aqui para “Verbo” na tradução hebraica é “Torah”. Em outras palavras, João está dizendo: a Lei se fez carne e, como Deus no tabernáculo de Moisés, a Lei e o próprio Deus habitam entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai. É nessa hora que os ouvintes do Sermão do Monte começam a se espantar com o tamanho da autoridade de Jesus. Jesus fala em nome de YHVH e lança a luz divina sobre as trevas da religiosidade dos escribas e fariseus.
Em vez de focarmos nos pormenores, vamos observar os princípios gerais em torno dessas seis declarações de Jesus sobre a Lei, e com certeza isso vai nos levar a uma compreensão ainda maior de como viver neste mundo com reais discípulos do Mestre.
1- “O que foi dito” aqui não é a Lei de Moisés, mas a tradição oral dos escribas e fariseus.
Uma das grandes características do ensino dos fariseus e escribas era a importância que davam às suas próprias tradições. Viviam citando os seus antepassados. Era precisamente isso que fazia um escriba tornar-se um escriba; ele era uma autoridade quanto às opiniões emitidas pelos pais. Essas declarações envolviam as suas tradições.
Na época da Reforma Protestante, a Igreja Católica Romana detinha o monopólio da Bíblia. O povo ouvia tudo em latim e prevalecia sempre a interpretação dos padres e do Papa. Não havia acesso à Bíblia na língua original do povo; então, eles eram controlados pelo discurso e mantidos na régia doutrinária que era conveniente à tradição católica romana. Quando Lutero e os Reformadores avançaram, uma das coisas mais relevantes que aconteceram foi a tradução da Bíblia para o alemão, francês, suíço, holandês, escocês, inglês etc., o que fez com que as pessoas saíssem desse controle do alto clero e passassem a compreender por si mesmos a verdade de Deus.
Martin Lloyd Jones vai dizer: quando nosso Senhor proferiu as palavras que aqui lemos, a situação na Palestina era extremamente similar a essa. Os filhos de Israel, durante o seu período de cativeiro na Babilônia, tinham-se esquecido do idioma hebraico. Ao voltarem à sua terra, estavam falando um outro idioma, que era o aramaico. Não estavam mais familiarizados com o hebraico, e, assim sendo, não podiam ler a lei de Moisés, como eles a tinham nas suas próprias Escrituras hebraicas. O resultado disso é que dependiam inteiramente do ensino dos fariseus e escribas, no tocante a qualquer conhecimento que porventura tivessem da lei.
É importante entendermos que Jesus possuía totalmente harmonia com a Lei de Moisés porque ele mesmo foi quem deu a Lei ao povo de Israel. O público do Sermão do Monte era praticamente composto por judeus (daí a escolha de Jesus em abordar o conteúdo da Lei), mas que sofria da influência da má autoridade que era exercida pelos escribas e fariseus. A religiosidade cria uma massa que não consegue fazer reflexão, mas tão somente procura uma obediência cega, sem consciência e o pior, movida por um senso de obrigatoriedade e não da alegria.
O interesse de Jesus não estava em estabelecer uma nova lei ou um novo código de ética. Ele veio para implementar o reino dos céus. Lloyd Jones vai comentar:
Jesus teve de reiterar, vez por outra, aquilo que dissera, mais ou menos nestes termos: “Vim ao mundo a fim de fundar um novo reino. Sou o primeiro de uma nova raça de seres humanos, o primogênito entre muitos irmãos; e as pessoas das quais sou o Cabeça caracterizar-se-ão por um determinado tipo e caráter, pessoas que, visto conformarem-se àquela descrição, haverão de comportar-se de uma certa maneira. Agora, entretanto, quero oferecer certas ilustrações acerca de como esses novos homens haverão de conduzir-se neste mundo”.
2- O que importa é o espírito da lei, antes de qualquer coisa, e não só a letra da lei.
Não se esperava que a lei viesse a ser algo mecânico, mas sim, vivificante. A dificuldade inteira, no caso dos fariseus e escribas, era que eles se concentravam apenas em torno da letra, e excluíam totalmente o espírito da lei. Temos aqui um assunto profundo – a relação entre forma e conteúdo. O espírito sempre terá de se concretizar debaixo de alguma forma, e é aí que a dificuldade aparece. As pessoas sempre darão excessiva atenção à forma externa, ao invés de darem atenção ao conteúdo; dão exagerada atenção à letra, ao invés de se apoiarem sobre o espírito.
Paulo vai dizer em 2Coríntios 3.6
o qual nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.
Veja, a ênfase inteira dessa porção bíblica é que Israel estava constantemente pensando na letra, de tal modo que perdia de vista o espírito da lei. O propósito da letra é apenas o de dar corpo ao espírito; mas o espírito é o elemento que realmente importa, e jamais a mera letra. Vamos tomar como exemplo a questão do homicídio. Enquanto os escribas e os fariseus não chegassem a assassinar literalmente a uma pessoa, conforme julgavam, estariam observando a lei sem qualquer falha. Porém, eles perdiam inteiramente de vista o espírito da lei, o qual não abrange meramente o assassinato literal, mas também que toda a nossa atitude para com o próximo deve ser correta e amorosa. De modo semelhante, com todas as outras questões abordadas aqui. O mero fato que alguém não tem cometido adultério, no sentido físico, não significa que já tenha observado a lei. Qual é o espírito da questão, nessa conjuntura? Qual é o desejo do coração de um homem ao olhar para uma mulher? Coisas assim estão em foco aqui. O que realmente conta é o espírito, e não a letra somente.
Em outras palavras, temos de discernir corretamente o ensino bíblico porque nem tudo deve ser compreendido no sentido literal do termo. Dar a outra face, por exemplo, não deixar outra pessoa te atacar e ferir. Caminhar outra milha não implica necessariamente em você andar literalmente mais um quilômetro com alguém que não gosta. Dar a quem te pede emprestado não deve ser entendido como simplesmente ficar sem suas coisas porque a cada dia alguém — sabendo que você empresta tudo e não se importa em receber de volta — vai aparecer em sua casa para te pedir algo e você vai entregar porque “Jesus mandou no Sermão do Monte”.
A conformidade à lei não deveria ser concebida em termos de ações, tão somente. Os pensamentos, os desejos e os motivos são igualmente importantes. A lei de Deus preocupava-se tanto com aquilo que provoca as ações como com essas próprias ações. Novamente, isso não significa que os atos não tenham importância; mas significa, de maneira bem definida, que o único elemento importante não é o ato em si. Isso deveria ser um princípio auto evidente. Os escribas e fariseus ficavam preocupados somente com o ato do adultério, ou com o ato do homicídio, por exemplo. Mas nosso Senhor muito se esforçou por enfatizar, diante dos Seus ouvintes, que é o desejo de fazer essas coisas, na mente e no coração do homem, que, real e finalmente, é a questão repreensível aos olhos de Deus. Com quanta frequência Jesus afirmou, em conexão com isso, que é do coração que saem os maus desígnios e as más ações. O coração do homem é que importa. Por conseguinte, não devemos pensar sobre a lei de Deus, ou sobre a necessidade de agradarmos a Deus, somente em termos daquilo que fazemos ou deixamos de fazer; pois é a condição íntima, a atitude do coração, que Deus observa constantemente. “Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus” (Lucas 16.15 “Mas Jesus lhes disse: — Vocês são os que se justificam diante dos homens, mas Deus conhece o coração de vocês; pois aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus.”).
Nas palavras de Lloyd Jones:
O propósito final da lei não é meramente o de impedir que pratiquemos certos erros; seu objetivo real é conduzir-nos por um caminho positivo, a fim de que não somente façamos o que é direito, mas também que amemos o que é direito.
Deus quer que tenhamos fome e sede de justiça, não apenas para lutarmos contra o pecado, mas para desejarmos profundamente a santidade e encontrarmos prazer nas coisas do Espírito.
3- O propósito da Lei, segundo Jesus, é chegarmos ao Evangelho do Reino de Deus que é justiça, e paz e alegria no Espírito Santo.
Basicamente não somos chamados para uma subserviência cega a certas regras opressivas, mas para o livre desenvolvimento do caráter espiritual. No evangelho, nós crescemos como filhos de Deus para alcançarmos Efésios 4.13 “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo,”. O apóstolo João diz em sua epístola, em 1João 5.3 “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são difíceis de guardar.”. Se a gente pensa nos mandamentos como coisas difíceis de se obedecer, se olhamos com um olhar tão somente negativo, se os ensinos éticos do Novo Testamento são entendidos por nós como ensinos que nos restringem e castram a nossa liberdade, significa então que não entendemos a salvação, porque o objetivo do evangelho que nos salva é nos levar à Romanos 8.21 “na esperança de que a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.”; e essas declarações “Eu, porém, lhes digo...” são um caminho para essa liberdade genuína que somente a fé cristã possibilita a um ser humano.
APLICAÇÕES E CONCLUSÃO
APLICAÇÕES E CONCLUSÃO
1- O propósito da Lei e também do Evangelho não é levar os pecadores a viverem ansiosos e em constante aflição na luta contra o pecado, mas levar os pecadores a amar e conhecer a Deus. Como tem sido a sua relação com Deus? Tem sido na lógica do medo e da culpa, ou na lógica da confiança e da alegria? É prazeroso para você obedecer aos ensinos e mandamentos éticos da Palavra de Deus?
Lloyd Jones: O grande teste que sempre deveríamos aplicar a nós mesmos é o seguinte: “Qual é a minha relação com Deus? Eu O conheço, realmente? Eu O estou agradando?” Em outras palavras, ao nos examinarmos, antes de nos recolhermos ao leito, não deveríamos meramente indagar de nós mesmos se cometemos algum homicídio, algum adultério, ou se nos tornamos culpados disto ou daquilo, para, em seguida, em caso negativo, agradecer a Deus por isso. Não! Pelo contrário, deveríamos perguntar coisas como estas: “Deus ocupou o lugar supremo em minha vida, no decorrer deste dia? Vivi hoje para a glória e a honra de Deus? Cheguei a conhecê-Lo melhor? Tenho demonstrado zelo por Sua honra e glória? Houve em mim alguma atitude diferente das atitudes de Cristo – pensamentos, imaginações, desejos ou impulsos?” Esse é o verdadeiro autoexame. Em outras palavras, devemos examinar-nos à luz do exemplo de uma Pessoa viva, e não apenas em termos de um código mecânico, composto de regras e regulamentos.
Os seis exemplos, selecionados por nosso Senhor, nada mais são do que ilustrações desses princípios básicos.
2- O que importa é o espírito não a letra; os elementos importantes são o intuito, o objetivo e o propósito da lei. Aquilo que precisamos evitar a qualquer custo, em nossas vidas cristãs, é essa fatal tendência de vivermos a vida cristã como algo independente de um relacionamento direto, verdadeiro e vivo com nosso Deus.
3- A disciplina na vida cristã é algo bom e essencial. Contudo, se nosso principal objetivo e intuito é nos conformarmos à disciplina que tivermos estabelecido para nós mesmos, isso bem poderá vir a se configurar na mais grave ameaça contra as nossas almas.
O jejum e a oração são coisas recomendáveis; porém, se jejuarmos duas vezes por semana e orarmos em uma hora determinada todos os dias, meramente a fim de pormos em execução a norma disciplinar que estabelecemos para nós mesmos, então é que teremos perdido inteiramente de vista o objetivo inteiro do jejum e da oração. Não há qualquer valor em qualquer dessas coisas, assim praticadas, ou frequentar assiduamente a igreja, ou qualquer outra atividade religiosa em casa, cuja finalidade seja servir de ajuda à nossa vida espiritual, a menos que coloquemos tudo debaixo do propósito soberano que é a uma mais profunda relação com Deus.
Eu poderia deixar de fumar, ou deixar de beber, de jogar, etc., durante seis semanas, ou mesmo durante qualquer outro período de tempo. No entanto, se durante esse período não se tiver crescimento a minha qualidade de humildade de espírito, se o meu senso de pobreza espiritual não se tiver tornado mais intenso, se a minha fome e sede de justiça e de Deus não tiver aumentado grandemente, então terá sido dispensável qualquer coisa que eu possa ter feito. De fato, para mim teria sido muito melhor se eu nada tivesse feito. Tudo isso envolve o fatal perigo de fazermos dessas coisas finalidades em si mesmas. Poderíamos nos tornar culpados do mesmo erro no que se refere à adoração pública. Se a adoração pública for transformada em uma finalidade em si mesma, se o meu único objetivo em um púlpito for pregar um sermão, e não esclarecer a meus ouvintes o bendito Evangelho de Cristo, a fim de que você, eu e todos nós venhamos a conhecer e amar melhor a Cristo, então a minha pregação terá sido perfeitamente inútil. E isso bem poderá vir a ser o fator que mais condene a minha alma às penas eternas. Essas coisas têm o propósito de nos servir de ajuda, de ilustrações da Palavra de Deus. Que Deus nos guarde de as transformarmos em uma religião, “... porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (II Coríntios 3:6).
