Romanos 12
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Estrutura da Carta aos Romanos
Estrutura da Carta aos Romanos
I. A introdução da carta (1:1–17)
II. O cerne do evangelho: a justificação pela fé (1:18—4:25)
III. A segurança fornecida pelo evangelho: a esperança da salvação (5:1—8:39)
IV. A defesa do evangelho: o problema de Israel (9:1—11:36)
☛ V. O poder transformador do evangelho: a conduta cristã (12:1—15:13)
VI. A conclusão da carta (15:14—16:27)
V. O poder transformador do evangelho: a conduta cristã (Romanos 12:1—15:13) - Introdução
V. O poder transformador do evangelho: a conduta cristã (Romanos 12:1—15:13) - Introdução
Nessa última seção principal do corpo da carta, Paulo muda o foco de instrução para exortação, de “indicativo” para “imperativo”. Ordens explicitas são raras nos capítulos 1—11 (Veja: Romanos 6:11–13, 19; 11:18, 20). Obviamente, ele teria sido o primeiro a enfatizar que a relevância de tudo o que ensina em Romanos é eminentemente pastoral, pois, se levarmos a sério a verdade do evangelho que apresentou, teremos uma cosmovisão que, de modo absolutamente necessário, influenciará nossa vida de incontáveis maneiras.
Paulo já deixou isso claro no capítulo 6, em que mostra como nossa união com Cristo em sua morte e ressurreição nos conduz a “andarmos em novidade de vida” (Romanos 6:4) e exige que nos apresentemos “a Deus como aqueles que vivem [aqueles que estão vivos dentre os mortos]” (Romanos 6:13). Entretanto, o apóstolo sabe que é vital destrinchar esses princípios gerais sobre o poder transformador do evangelho. Ele faz isso em Romanos 12:1—15:13, enquanto exorta os cristãos a manifestar o poder do evangelho em áreas específicas da vida cotidiana.
Romanos 12:1—15:13, portanto, faz parte da carta e de seus propósitos. A passagem não é um apêndice, um acréscimo de última hora não totalmente relacionado ao real teor — teológico — da carta. Como vimos, embora plenamente teológico e cuidadosamente argumentado, Romanos não é um tratado teológico. A carta é a maior exposição paulina do evangelho. O evangelho libera o poder de Deus a fim de que as pessoas, ao aceitá-lo, possam ser resgatadas dos efeitos desastrosos do pecado, proclamadas “justas” diante de Deus e esperar com confiança a salvação da ira no último dia.
Mas, como Paulo deixou claro em Romanos 6, a libertação do poder do pecado é inseparável da libertação da punição dele. A união com Cristo em sua morte e ressurreição fornece ambas, pois Jesus Cristo é o Senhor; assim, crer nele significa, ao mesmo tempo, um compromisso de obedecer-lhe (veja “a obediência de fé” em Romanos 1:5 e 16:26; observe também a “obediência dos gentios” em Romanos 15:18). O imperativo de uma vida transformada não é, portanto, um segundo passo opcional depois de aceitarmos o evangelho. Ele está enraizado no próprio evangelho e, de fato, faz parte dele. As boas-novas de que Deus está se reconciliando em Cristo com o nosso mundo pecaminoso são reveladas, entre outros modos, nas pessoas que exibem o poder dessa obra reconciliadora em sua conduta diária. Eliminar essa parte de Romanos seria, então, omitir uma dimensão indispensável do evangelho.
A transição de Romanos 11 para Romanos 12 — que espelha transições semelhantes em Efésios 4:1 e 1Tessalonicenses 4:1 — não é, assim, uma transição da teologia à prática, mas de um foco maior no lado indicativo do evangelho para um foco predominante no lado imperativo dele. “O que Deus nos deu” (Romanos 1—11) dá lugar a “o que devemos dar a Deus”. Mas, até mesmo ao nos expressarmos assim, devemos logo acrescentar a observação de que o que devemos dar a Deus não pode ser produzido independentemente da provisão contínua e graciosa d’Ele. A doação de Deus a nós não é simplesmente uma base pertencente ao passado para a obediência cristã; ela é sua fonte contínua. “Indicativo” e “imperativo” não sucedem um ao outro como dois estágios diferentes da experiência cristã; eles são dois lados da mesma moeda.
Um dos aspectos mais notáveis de Romanos 12:1—15:13 é como seus vários temas são semelhantes ao ensino paulino encontrado em outros lugares. A tabela a seguir esboça alguns dos paralelos principais:
Paralelos do Ensino Paulino em Romanos
Transformação e Renovação Mental: Em Romanos 12:1–2, Paulo estabelece a necessidade de uma vida transformada pela renovação da mente. Esse conceito encontra um paralelo direto em Efésios 4:17–24, onde o apóstolo discorre sobre o abandono da antiga natureza em favor de um novo entendimento espiritual.
A Unidade e Diversidade do Corpo: A instrução sobre a unidade do corpo de Cristo e a diversidade de dons, presente em Romanos 12:3–8, é amplamente detalhada em 1Coríntios 12 e também mencionada em Efésios 4:11–17, destacando que os diferentes ministérios servem à edificação de um único organismo.
A Supremacia do Amor e a Lei: A exigência central do amor como o pleno cumprimento da Lei é um tema recorrente. Além de Romanos 12:9–21;13:8–10, Paulo reforça essa ideia em 1Tessalonicenses 4:9–12, na famosa exposição de 1Coríntios 13 e em Gálatas 5:13–15, onde o amor ao próximo sintetiza os mandamentos.
Vigilância e Escatologia: A necessidade de vigilância espiritual diante da proximidade do "Dia do Senhor", descrita em Romanos 13:11–14, espelha as exortações feitas em 1Tessalonicenses 5:1–11, conclamando os fiéis a viverem como filhos da luz.
Convivência entre Fracos e Fortes: Por fim, a orientação sobre a reconciliação entre cristãos "fracos" e "fortes", especialmente no que tange a restrições alimentares (Romanos 14:1—15:13), possui um paralelo fundamental em 1Coríntios 8—10, onde Paulo trata da liberdade cristã e da consideração pela consciência do próximo.
Significativamente, a única seção de Romanos 12:1—15:13 não incluída na lista acima, a exigência paulina de submissão ao governo (Romanos 13:1–7), tem paralelos importantes com o ensino de Jesus (veja Marcos 12:13–17 e paralelos) e com a instrução cristã primitiva (veja 1Pedro 2:13–14). Há outros paralelos com o ensino de Jesus e o ensino da igreja primitiva ao longo desses capítulos. Muitos estudiosos concluem, com base nesses paralelos, que, em Romanos 12:1—15:13, Paulo está simplesmente repetindo ênfases éticas típicas dos primeiros cristãos.
Além disso, essa ênfase na provisão do evangelho para a obediência na vida cotidiana combina com o propósito geral de Paulo em Romanos: a explicação e a defesa do “seu” evangelho. Contra aqueles que poderiam objetar que o abandono da Lei como código de conduta (veja Romanos 6:14–15; 7:1–6) leva à licenciosidade, ele argumenta que o próprio evangelho fornece suficiente orientação ética para os cristãos. Por meio da renovação da mente possibilitada pelo evangelho, os cristãos podem conhecer e fazer a vontade de Deus (Romanos 12:2) e, ao seguir os preceitos do amor, podem realizar tudo o que a própria Lei exige deles (Romanos 13:8–10).
Há alguma verdade nessa descrição, como a natureza quase proverbial de algumas das seções (p. ex., Romanos 12:9–21) indica. Mas também há evidência de que Paulo está escrevendo tendo em vista a situação da igreja em Roma. Romanos 14:1—15:13 é quase certamente dirigido a um problema específico da comunidade cristã romana, e a ausência de um paralelo claro nas outras cartas paulinas com essa exortação a obedecer às autoridades governamentais (Romanos 13:1–7) sugere também que talvez essa passagem tenha especial relevância para os cristãos romanos. Além disso, como observaremos em nossos comentários detalhados, várias das exortações gerais encontradas nos capítulos 12 e 13 têm importância particular para a situação dos cristãos romanos. Assim, embora repitam alguns dos principais temas éticos de Paulo, esses capítulos são claramente dirigidos aos cristãos romanos.
A exortação paulina se divide em duas partes:
Prescrições relacionadas à conduta cristã de modo geral, nos capítulos Romanos 12-13.
Diretrizes para um problema específico que afeta a comunidade romana, em Romanos 14:1—15:13.
As exortações gerais de Paulo nos capítulos 12 e 13 são emolduradas por textos que ressaltam o contexto escatológico em que os cristãos devem exibir seu caráter redimido. Romanos 12-13 são emoldurados por seções que apresentam a igreja como uma comunidade (um corpo) sociopolítica distinta, mantendo-se em uma crítica distância do “mundo” (Romanos 12:2), rejeitando diversas práticas concretas na sociedade mais ampla (Romanos 13:13) e edificando o próprio etos específico por meio da renovação de sua mente (Romanos 12:2) e de “se revestir do Senhor Jesus” (Romanos 13:14).
Paulo pressupõe aqui a imagem de “transferência de domínio” que usou especialmente em Romanos 5—8 para caracterizar a situação dos cristãos: tendo sido transferidos do antigo domínio do pecado para o novo domínio da salvação, pertencemos agora ao “dia”, mas ainda precisamos lutar contra as forças das trevas, visto que estamos aguardando a culminação de nossa salvação (Romanos 13:11–14). Nossa tarefa, então, é nos conduzirmos como aqueles que pertencem ao dia e resistirmos à pressão de nos submetermos ao antigo domínio do qual fomos salvos (Romanos 12:2). As exortações que se situam entre esses dois textos tratam de várias questões de importância para a comunidade cristã primitiva, incluindo a comunidade romana. Essas exortações exibem diversos pontos de contato específicos entre si, mas não pertencem a um arranjo sistematizado.
Paulo começa encorajando os cristãos a avaliar seu lugar na comunidade e em seu ministério para exercê-lo de maneira correta e sóbria (Romanos 12:3–8). A seguir, vem uma série de prescrições curtas e proverbiais que desenvolvem vagamente o tema do amor cristão (Romanos 12:9–21). Ele, então, ordena obediência a autoridades governamentais (Romanos 13:1–7) antes de retornar ao amor, que ele eleva como a virtude que satisfaz o cumprimento verdadeiro e completo de todas as ordens da Lei (Romanos 13:8–10).
V. O poder transformador do evangelho: a conduta cristã (Romanos 12:1—15:13)
V. O poder transformador do evangelho: a conduta cristã (Romanos 12:1—15:13)
☛ A. O cerne da questão: transformação total (12:1–2)
B. A humildade e o serviço mútuo (12:3–8)
C. O amor e as suas manifestações (12:9–21)
D. O cristão e as autoridades seculares (13:1–7)
E. O amor e a Lei (13:8–10)
F. Vivendo na luz do dia (13:11–14)
G. Um apelo por unidade (14:1—15:13)
A. O cerne da questão: transformação total (Romanos 12:1–2)
A. O cerne da questão: transformação total (Romanos 12:1–2)
Romanos 12:1–2 é uma das passagens mais conhecidas do Novo Testamento. Sua fama se justifica: nela, Paulo resume vividamente qual deve ser a resposta cristã à graça de Deus. N. T. Wright comenta: “Toda a obra escrita de Paulo, de fato, poderia ser vista como uma aplicação estendida de Romanos 12:1–2”. Esses versículos desempenham um papel essencial em Romanos. Por um lado, eles retomam o argumento dos capítulos 1—11. Embora Paulo tenha em vista fundamentalmente a totalidade dos capítulos, ligações textuais e temáticas apontam para dois textos como particularmente significativos. O primeiro é Romanos 1, cuja espiral descendente de adoração falsa e insensata (veja Romanos 1:25) e mentes corrompidas (veja Romanos 1:28) encontra agora seu inverso na adoração “racional” e na mente renovada dos cristãos. O segundo é Romanos 6, cuja breve menção da necessidade de os cristãos “apresentarem-se” (Romanos 6:13, 19) como aqueles “que vivem [estão vivos dentre os mortos]” (Romanos 6:13) é reiterada e expandida. Ao mesmo tempo, Romanos 12:1–2 serve de cabeçalho para tudo o que vem a seguir em Romanos 12:3—15:13.
Romanos 12:1
“Por isso” (gr. oun) deve receber importância máxima: Paulo quer mostrar que as exortações de Romanos 12:1—15:13 se baseiam firmemente na teologia dos capítulos Romanos 1—11. O verbo “Rogo-vos” em nosso idioma capta bem a nuança do grego parakaleō em contextos como esse. O seu domínio semântico está em algum lugar entre “pedir” e “ordenar”: uma exortação vem com autoridade, mas com a autoridade de um pregador que é o mediador da verdade de Deus, não com a autoridade de um superior que dá uma ordem. A presença dessa expressão (que não é estritamente necessária para comunicar o que Paulo quer transmitir) chama a atenção para a importância do que vem a seguir.
“pelas misericórdias de Deus” sublinha a conexão entre o que Paulo pede que seus leitores façam e o que ele lhes disse, antes na carta, que Deus fez por eles. Tudo o que escreveu até aqui pode ser resumido sob o tema da misericórdia divina em ação. Paulo acabou de resumir essa misericórdia universal de Deus (Romanos 11:30–32) e expressar louvor a Deus por ela (Romanos 11:33–36). Agora, ele convoca os cristãos a responder. Uma tradução melhor para a preposição “por meio de” é “por causa de(NVT/NTLH)” ou “em vista de”: ela indica não o meio pelo qual Paulo exorta, mas a base, ou mesmo a fonte, da exortação. Em última instância, Paulo é simplesmente o instrumento por meio do qual a própria “misericórdia de Deus” está nos exortando. Como expresso em 2Coríntios 5:20, ele é um “embaixador de Cristo” por meio do qual o próprio Deus exorta seu povo.
O que Paulo exige no versículo 1 — e, por extensão, na totalidade de Romanos 12:2—15:13 — não é nada mais (e nada menos!) do que a resposta apropriada e esperada à misericórdia de Deus como a experimentamos. No entanto, essa resposta não é simplesmente uma barganha do tipo “isso por aquilo”, como se, de má vontade, “pagássemos a Deus de volta” pelo que fez por nós. A misericórdia de Deus não é uma questão somente de benefícios passados; ela continua exercendo o seu poder em nós e por meio de nós. O fato de que a misericórdia divina não produz automaticamente a obediência que Deus exige está claro pelos imperativos dessa passagem. Mas a misericórdia de Deus, manifestada na obra de seu Espírito de renovação interior (veja Romanos 12:2), nos impele em direção à obediência que o evangelho exige. Experimentamos a misericórdia divina como um poder que exerce um domínio total e inteiramente abrangente sobre nós: a graça agora “reina” sobre nós (Romanos 5:21). É, portanto, totalmente apropriado que nossa resposta seja, do mesmo modo, total e inteiramente abrangente: a apresentação de nossa pessoa inteira como um sacrifício a Deus.
Os cristãos não oferecem um sacrifício de sangue no altar, mas oferecem “sacrifícios espirituais” (1Pedro 2:5), como o “sacrifício de louvor, o fruto de lábios que professam publicamente o seu nome” (Hebreus 13:15). Em Romanos 15:16, Paulo caracteriza o próprio trabalho missionário de modo cultual (veja também Filipenses 2:17; e observe Filipenses 3:3;4:18). Em Romanos 12:1, no entanto, o sacrifício que oferecemos não é uma forma específica de louvor ou serviço, mas nosso próprio “corpo”. Não é somente o que podemos dar que Deus requer; Ele requer aquele que dá.
“Corpo” pode, obviamente, referir-se ao corpo físico, e as associações metafóricas com sacrifício tornam essa uma escolha apropriada aqui. Mas Paulo provavelmente tem em mente a pessoa inteira, com ênfase especialmente na interação dessa pessoa com o mundo. Ele está fazendo uma observação especial para enfatizar que o sacrifício exigido de nós demanda uma dedicação ao serviço de Deus nesta vida difícil e, muitas vezes, ambígua deste mundo.
Paulo caracteriza o sacrifício que oferecemos com nosso corpo com três adjetivos. Cada um dos três continua a metáfora sacrificial. Sendo assim, é mais provável que se refira à natureza do próprio sacrifício: ele não morre ao ser oferecido, mas prossegue vivendo e, portanto, continua eficaz até a pessoa oferecida morrer. “Santo” é uma descrição comum para sacrifícios e aqui implica que a oferta de nós mesmos a Deus envolve o ser “separado” do âmbito do profano e uma dedicação ao serviço do Senhor. Esse sacrifício é “agradável a Deus”.
No fim do versículo 1, Paulo acrescenta uma expressão apositiva que qualifica a exortação inteira que acabou de fazer: apresentar a nós mesmos como sacrifício é nossa “adoração logikēn”. O significado da palavra logikēn é notoriamente difícil de ser determinado. A palavra logikos (a forma lexical do adjetivo logikēn) não ocorre na Septuaginta e, além daqui, ocorre somente uma vez no Novo Testamento, em que seu significado também é discutido: em 1Pedro 2:2, Pedro exorta os leitores a “desejar o puro leite logikēn”.
Considerados esse histórico e o contexto, chegamos a duas possibilidades principais para o sentido de logikos aqui:
(1) “espiritual”, no sentido de “interior” — uma adoração que envolve a mente e o coração, em oposição a uma adoração que ocorre de modo meramente mecânico;
(2) “espiritual” ou “racional”, no sentido de “apropriado para seres humanos como criaturas racionais e espirituais de Deus” — uma adoração que honra a Deus lhe dando o que Ele verdadeiramente quer, em oposição à adoração corrompida oferecida por seres humanos debaixo do poder do pecado (veja Romanos 1:23–25);
Certamente Paulo não sugere, como a referência a “corpo” deixa claro, que a verdadeira adoração cristã é uma questão somente de atitude interior. Mas a atitude interior é fundamental para a adoração aceitável, como ele explicita no versículo 2 ao destacar a “renovação da sua mente”. E é somente esse envolvimento da mente, renovada para que possa novamente entender Deus corretamente, que torna essa adoração a única definitivamente apropriada e verdadeira. À luz disso, e reconhecendo que cada uma das traduções comuns, “espiritual” e “racional”, ignora uma parte importante do significado, seria melhor traduzir por “adoração verdadeira e apropriada”.
A palavra “adoração” (latreia) dá continuidade às imagens cúlticas do versículo. Provavelmente, Paulo escolheu o termo deliberadamente para criar um contraste entre as formas de adoração judaica e cristã. Para os cristãos, não há mais “ritual” ou “sacrifício” em sentido literal. Enquanto o judeu olhava para o Templo de Jerusalém como o centro de adoração, os cristãos olham para o passado, para o sacrifício definitivo de Cristo. Todos os cristãos são sacerdotes (1Pedro 2:5; Apocalipse 1:6; 5:10; 20:6), formando juntos o templo em que Deus agora revela a si mesmo de um modo especial. Mas Paulo não “espiritualiza” o ritual. Em vez disso, estende a esfera do cúltico a todas as dimensões da vida.
Assim, o cristão é chamado para uma adoração que não está confinada a um só lugar ou a um só tempo, mas que envolve todos os lugares e todos os tempos: “A adoração cristã não consiste no que é praticado em locais sagrados, em tempos sagrados e com atos sagrados. Ela é a oferta da existência corpórea na esfera que em outros aspectos é profana(comum)”. Crisóstomo comenta: “E como o corpo, pode-se dizer, haverá de se tornar um sacrifício? Que o olho não olhe para nenhuma coisa má, e ele terá se tornado um sacrifício; que sua língua não diga nada imundo, e ela terá se tornado uma oferta; que sua mão não pratique nenhuma obra iníqua, e ela terá se tornado uma oferta completamente queimada”. Reuniões regulares de cristãos para louvor e edificação mútua são apropriadas e, de fato, ordenadas nas Escrituras. E o que acontece nessas reuniões é certamente “adoração”. Mas esses momentos especiais de adoração coletiva são somente um aspecto da contínua adoração que cada um de nós deve oferecer ao Senhor no sacrifício de nosso corpo diariamente.
Romanos 12:2
Paulo deixa em aberto a relação exata entre os versículos 1 e 2. Os dois versículos poderiam ser coordenados, resultando em duas exortações paralelas, mas distintas. No entanto, o versículo 2 provavelmente é subordinado ao versículo 1, indicando o meio pelo qual podemos executar a ampla e radical exortação do versículo 1. Podemos apresentar nosso corpo ao Senhor como um sacrifício genuinamente santo e aceitável somente se “não nos conformamos a esta era [este mundo]”, mas “somos transformados pela renovação da mente”.
A estrutura histórico-salvífica, tão fundamental para o desenvolvimento e a expressão do entendimento paulino da vida cristã (veja particularmente Romanos 5—8), aparece muito claramente aqui. “Este mundo”, ou “esta era”, é o reino dominado pelo pecado e causador de morte a que todas as pessoas, incluídas na queda de Adão, naturalmente pertencem. Mas é “para nos libertar da presente era má” que Cristo entregou a si mesmo (Gálatas 1:4), e aqueles que pertencem a Cristo foram transferidos do antigo domínio do pecado e da morte para o novo domínio da justiça e da vida. Essa transferência, embora decisiva e final, não nos isola da influência do antigo domínio, pois, apesar de pertencermos ao novo domínio, continuamos vivendo, como pessoas ainda no corpo, no antigo domínio.
A ordem de Paulo de “não nos conformarmos a este mundo”, então, baseia-se na teologia de Romanos 5—8 (e de Romanos 6 especialmente) e nos chama para resistir à pressão de sermos “espremidos no molde deste mundo” e no “padrão” de conduta que o exemplifica (veja 1Coríntios 7:31). Uma vez que o verbo “conformar” está no tempo presente, muitos estudiosos acreditam que Paulo deseja que os leitores “parem de se conformar” a este mundo.
O fato de que a renovação da mente é um processo contínuo justifica pensar que Paulo usa esse tempo verbal para realçar a necessidade de trabalharmos constantemente em nossa transformação. A “renovação da sua mente” é o meio pelo qual essa transformação ocorre. “Mente” traduz uma palavra que Paulo emprega especialmente para se referir à “razão prática”, ou “consciência moral”, de uma pessoa. Os cristãos devem ajustar seu modo de pensar sobre tudo de acordo com a “novidade” de sua vida no Espírito (veja Romanos 7:6). Essa “reprogramação” da mente não ocorre de uma hora para outra, mas é um processo que dura a vida inteira e que possibilita que nosso modo de pensar se torne cada vez mais parecido com o modo pelo qual Deus quer que pensemos.
Em Romanos 1:28, Paulo mostrou que a rejeição das pessoas a Deus resultou em Deus entregá-las a uma mente “inútil”: uma mente “desqualificada” para avaliar a verdade sobre Deus e o mundo que Ele criou. Agora, Paulo afirma, o objetivo de sermos transformados pela renovação da mente é que esse estado seja revertido, para que possamos ser capazes de “aprovar” (dokimazō) a vontade de Deus. “Aprovar” a vontade de Deus significa entender o que Ele quer de nós e concordar, tendo em vista praticá-la: “discernir-e-fazer a vontade de Deus”. O fato de que aqui, com “a vontade de Deus”, Paulo quer dizer a direção moral d’Ele está claro pelo modo de a caracterizar: essa vontade é aquilo que é “bom”, “agradável [a Deus]” e “perfeito”.
O ensino paulino sobre a fonte cristã da vontade moral de Deus no versículo 2 merece atenção. Anteriormente, Paulo deixou claro na carta que o cristão não deve mais depender da Lei do Antigo Testamento como um guia completo e imbuído de autoridade para sua conduta (veja Romanos 5:20; 6:14–15; 7:4). “O que, então”, os primeiros leitores de Paulo e nós mesmos hoje poderíamos perguntar, “o que deve ser colocado em seu lugar?”. Paulo responde: a mente renovada do crente. A confiança d’Ele na mente do cristão resulta de seu entendimento da obra do Espírito, que está atuando ativamente para efetuar a renovação no pensamento que ele presume aqui (veja Romanos 8:4–9).
E é importante observar que essa confiança de Paulo em nossa capacidade de determinar o certo e o errado não é desmedida. Paulo sabe que a renovação da mente é um processo e que, enquanto estivermos neste corpo, precisaremos de critérios nítidos e objetivos para avaliar nossa conduta. Logo, ele deixa claro que os cristãos não são desprovidos de “lei”, mas que estão debaixo da “lei de Cristo” (Gálatas 6:2; 1Coríntios 9:21). O cerne dessa lei é o próprio ensino de Jesus sobre a vontade de Deus, ampliado e explicado pelos seus representantes designados, os apóstolos. Mas a visão de Paulo, para a qual ele nos chama, é de cristãos cuja mente é tão completamente renovada que sabemos interiormente, quase instintivamente, o que devemos fazer para agradar a Deus em qualquer situação. Nós precisamos de lei, mas seria trair o chamado de Paulo a nós nesses versículos substituir a contínua renovação da mente, que está no centro da obra de Deus na nova aliança, por ordens externas.
Explicação: Embora as leis de Jesus sejam de extrema importancia para nos dar um norte (os "critérios objetivos"), o plano principal é que você desenvolva seu próprio discernimento moral. Se você focar apenas em seguir ordens como se fosse um adestramento, você perde o ponto principal do cristianismo paulino: tornar-se uma pessoa nova que pensa como Cristo. “para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” pois “não há nada mais insásiavel que viver provando tudo sem sentir o sabor de nada.”
B. A humildade e o serviço mútuo (Romanos 12:3-8)
B. A humildade e o serviço mútuo (Romanos 12:3-8)
O ponto principal deste parágrafo é expresso nos versículos 3 e 5: não pensem de modo muito exaltado sobre vocês mesmos, porque todos vocês são membros do único corpo de Cristo. A diversidade de dons dentro desse corpo é real e importante para o bom funcionamento dele (v. 4, 6-8), mas isso não deve ser usado como razão para o crente valorizar a si mesmo acima dos outros: cada um tem uma contribuição importante a ser feita. Como é frequente nesta parte de Romanos, essa preocupação com a unidade na diversidade também se repete nas outras cartas paulinas. A diversidade de dons dentro de um só corpo é, obviamente, um assunto da maior importância em 1 Coríntios 12. Mas esse parágrafo também compartilha com Filipenses 2:1-4 a palavra-chave “pensar” (phroneō, v. 3; Filipenses 2:5) e associa o pensamento correto com a unidade da comunidade (“tendo o mesmo amor, tendo um só espírito e um mesmo modo de pensar”, Filipenses 2:2).
Por que Paulo passa a focar na comunidade após a seção introdutória dos versículos 1 e 2? O versículo 3, embora não esteja conectado aos versículos 1 e 2 lexicalmente, retoma o conceito da “mente renovada” do versículo 2. A mente renovada, ele sugere, assumirá a forma de um “pensamento” correto sobre nós mesmos (v. 3). Talvez a preocupação de Paulo seja evitar que os crentes adotem uma abordagem individualista demais quanto à transformação. Ele quer, então, que reconheçamos que a transformação de caráter é vista especialmente em nosso relacionamento uns com os outros. A igreja não é uma preocupação menor de Paulo. A unidade e a santidade dela são fundamentais à sua visão do evangelho. Ele poderia ter iniciado com uma exortação à humildade e ao autoexame por causa da prevalecente ênfase cultural romana na posição social. Mas, provavelmente, ele tem em vista também a questão que aborda com alguns detalhes em Romanos 14:1—15:13: a atitude egoísta e arrogante dos crentes romanos em suas relações mútuas. Menos provável é a sugestão de que Paulo está dirigindo seus comentários ao mesmo tipo de pessoas com o qual precisou lidar em Corinto: os “pneumáticos”, cristãos que valorizavam excessivamente algumas manifestações mais evidentes ou espetaculares do Espírito. O próprio livro de Romanos fornece pouca evidência de que essa questão era importante para Paulo aqui. No máximo, talvez, a experiência coríntia tenha levado Paulo a reconhecer, nos dons do Espírito à igreja, o potencial de orgulho espiritual e a consequente desunião.
Romanos 12:3
Ao conectar esse novo parágrafo aos versículos 1 e 2 com um “pois” (grego gar), Paulo deixa claro que as exortações dos versículos 3-8 são casos concretos do modo de vida transformado para o qual o crente é chamado. À luz de sua referência à própria condição apostólica na expressão “por meio da graça que me foi dada”, “eu digo” deve representar um pedido imbuído de autoridade, paralelo a “eu os exorto” no versículo 1. Paulo dirige essa admoestação não a qualquer grupo específico ou algum tipo de pessoa da comunidade romana, mas a “toda pessoa” entre eles (compare com Romanos 11:13-32, em que ele repreende os cristãos romanos pela arrogância deles).
A admoestação paulina se baseia em um jogo de palavras difícil de expressar em nosso idioma, embora eu tenha tentado fazê-lo na tradução acima de forma bastante desajeitada. O termo-chave, que Paulo emprega tanto na forma simples (“pensar”, “pense”) quanto em duas formas compostas (“pense além”; “pensamento sóbrio”), é phroneō. Esse verbo, um dos favoritos de Paulo já usado em Romanos, não indica tanto o ato de pensar em si mesmo (o processo intelectual), mas a direção do pensamento de alguém — como uma pessoa enxerga algo. Neste versículo, está claro que ele está usando o verbo para denotar como uma pessoa vê a si mesma. Em contraste com a nossa forte tendência de nos levar em alta conta, Paulo insiste que devemos nos ver de modo “sóbrio” — de acordo com uma estimativa objetiva, o produto da “mente renovada” (Romanos 12:2).
Essa avaliação informada e correta de nós mesmos, por sua vez, permitirá que vivamos em unidade com os outros crentes: “a ênfase de Paulo no modo certo de pensar [...] está de acordo com sua ênfase maior na unidade”. Contudo, uma estimativa verdadeira e objetiva de nós mesmos exige um critério para nos medir. E isso, Paulo afirma, nós temos, pois Deus “dimensionou a cada um uma medida de fé”. O significado dessa expressão é incerto; depende de interpretarmos “fé” aqui como fé “comum” ou fé “distribuída”. A maioria dos intérpretes defende a segunda visão: cada crente deve pensar de acordo com o grau ou a natureza da fé que Deus lhe concedeu. Essa interpretação corresponde à expressão paralela mais próxima em Paulo (2 Coríntios 10:13), combina com o contexto (veja especialmente “proporção da fé” no v. 6b) e oferece uma explicação natural do verbo “dimensionar, dividir” (merizō). Além disso, ela pode esclarecer a conexão entre os versículos 3 e 4: “a cada um é concedida a própria ‘medida de fé’, como podemos ver nas muitas partes do único corpo”. Os que sustentam esse ponto de vista às vezes pensam que “fé” aqui poderia se referir à resposta cristã básica ao evangelho. Mas é difícil imaginar que Paulo consideraria que essa fé seria dada por Deus em diferentes medidas aos cristãos. Outros, portanto, acreditam que o significado de “fé” aqui seja bastante específico, referindo-se às diferentes capacidades que Deus dá às pessoas para o seu serviço à comunidade.
Entretanto, “medida de fé” poderia ser uma referência à fé que todos os cristãos têm em comum. Segundo essa visão, a fé é a medida. Paulo estaria exortando todos os cristãos a medirem a si mesmos conforme o mesmo critério. Usando a mesma medida, os crentes podem chegar a uma avaliação realista e correta deles mesmos em relação aos outros. Dessa perspectiva, então, o versículo 3 está conectado de modo especial com o ponto principal da frase nos versículos 4 e 5: a unidade que caracteriza o “corpo” cristão. Escolher entre essas duas opções é difícil, mas preferimos ligeiramente a segunda.
Romanos 12:4-5
Como sugerido acima, a principal ligação desses versículos com o que veio antes está na expressão “medida de fé”: há um critério comum de medição, porque (grego gar), embora exista diversidade no corpo de Cristo, também há uma unidade mais fundamental. Nas outras cartas de Paulo, nota-se que a comparação da igreja com um corpo é familiar. Ele primeiro a emprega em 1 Coríntios 12, e ela pode ser encontrada em sua forma mais desenvolvida em Efésios e Colossenses. Estudiosos empenharam-se longa e arduamente para determinar a fonte exata da metáfora paulina do “corpo de Cristo”, mas a imagem é tão natural e era tão comum no mundo antigo que é bem possível que Paulo a tenha extraído de seu ambiente geral, moldando-a na forma final, obviamente influenciado pela sua teologia.
A passagem que mais se identifica com o uso da metáfora nesse texto é 1 Coríntios 12:12-31. Em ambas as passagens, Paulo compara os cristãos individuais a “membros” do corpo humano. E não é somente a metáfora básica que 1 Coríntios 12 e este texto têm em comum. Paulo também a aplica à mesma questão. Assim como em 1 Coríntios 12 ele usa a metáfora do corpo para (entre outras coisas) repreender a arrogância de alguns membros do corpo que se vangloriavam de ter dons mais importantes (v. 22-26), aqui em Romanos 12 Paulo emprega a metáfora para apoiar sua exortação de que os crentes não se considerem além do que deveriam. Ele esboça a base para a comparação no versículo 4 (“assim como”): “nós temos muitos membros em um corpo, e os membros não têm todos a mesma função”. O versículo 5, então, conclui (“assim também”): “nós, que somos muitos, somos um corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros”.
Paulo, partindo da pressuposição da unidade do corpo, argumenta a favor da necessidade de reconhecer uma diversidade saudável dentro desse corpo único. O foco geral da carta e a exortação específica em Romanos 14:1—15:13 poderiam indicar que ele tem em mente especialmente o conflito entre judeus e gentios. No entanto, ainda que Paulo provavelmente veja essa questão específica posterior como uma aplicação relevante do que ele afirma nessa passagem, não devemos limitar indevidamente sua exortação aqui. Assim como em 1 Coríntios 12, seu interesse principal aqui está na diversidade dos dons e na tentação de comparação e falso orgulho resultantes dessa diversidade. Uma questão que não fica clara nesta passagem é se Paulo está pensando na igreja local ou na igreja universal. A omissão de “apóstolos” na lista de dons que vem a seguir (compare 1 Coríntios 12:28 e Efésios 4:11) poderia sugerir que seu foco está na local (em que não haveria, naquele momento, nenhum apóstolo no sentido técnico da palavra). Mas devemos definir “igreja local” como a comunidade cristã em Roma, pois o capítulo 16 deixa claro que os cristãos em Roma, todos eles destinatários da carta de Paulo (veja Romanos 1:7), reúnem-se em várias “igrejas em casas”. A nossa unidade em Cristo, Paulo nos lembra, estende-se além daqueles com quem nos reunimos semanalmente para adorar, incluindo todos os que invocam o nome do Senhor.
Romanos 12:6
Paulo continua ecoando seu ensino de 1 Coríntios 12 ao passar, em seguida, a analisar como os dons exemplificam a diversidade na unidade. Mas, se a progressão lógica geral é suficientemente clara, a progressão sintática não o é. O problema é duplo: (1) qual é a relação entre o versículo 6 e o versículo 5? (2) E com quais verbos, se houver algum, devemos preencher os versículos 6b-8? O particípio [no grego] que inicia o versículo 6 (grego echontes, “tendo”) poderia indicar que o versículo é subordinado ao versículo 5: “Nós, que somos muitos, somos um corpo em Cristo, [...] tendo dons que diferem de acordo com a graça que nos foi dada”. No entanto, o particípio [no grego] no versículo 6 está tão frouxamente ligado ao versículo 5 que funciona praticamente como um verbo independente. Logo, a maioria das traduções e comentários inicia uma nova frase no versículo 6.
Entretanto, para passar à segunda pergunta, como devemos entender essa nova frase? Uma opção é considerar esse particípio [no grego] o verbo dominante nos versículos 6-8. Nesse caso, após mencionar a diversidade de dons no versículo 6a, nos versículos 6b-8 Paulo cita exemplos deles: como a NRSV traduz, “Nós temos dons que diferem de acordo com a graça que nos foi dada: profecia, em proporção à fé; ministério, em ministrar; o mestre, no ensino; o exortador, na exortação; aquele que dá, na generosidade; o líder, na diligência; o compassivo, na misericórdia”. Com esse entendimento da sintaxe, a função dos versículos 6-8 é puramente “indicativa”: Paulo está descrevendo como Deus, em sua graça, distribuiu dons diferentes a seu povo como um modo de edificar a unidade do corpo. A dificuldade com essa visão é que ela não explica de modo suficiente as expressões que Paulo liga a cada dom (“de acordo com a analogia da fé”, “no serviço” etc.). Elas parecem inapropriadas em uma enumeração de dons.
Essas qualificações de cada dom parecem refletir um sentido exortativo subjacente: por exemplo, “se uma pessoa tem o dom da profecia, que ela o use em proporção à fé”. Em harmonia, então, com a maioria dos comentaristas, devemos pressupor uma elipse nos versículos 6b-8 que deve ser preenchida com um verbo no imperativo (como na NASB e ESV; veja minha tradução acima [“que os usemos...”]) ou com uma série de verbos no imperativo (KJV; NIV; CEB; NET; NJB). Paulo, então, não está somente listando dons. Ele está exortando cada membro da comunidade a usar o próprio dom de maneira diligente e fiel para fortalecer a unidade do corpo e ajudá-lo a florescer.
Contudo, antes de passar à exortação, ele nos lembra da bênção extraordinária dos vários dons que Deus deu à igreja. “Temos dons que diferem”, Paulo afirma, e a sua pressuposição de que esses dons estão operantes na igreja romana — que ele não fundou nem visitou — mostra que a diversidade de dons era disseminada, se não universal, na igreja primitiva. Os crentes têm charismata (“dons”) diferentes, mas cada um deles é produto da charis de Deus (“graça”), que todos os crentes têm em comum. Novamente, Paulo realça a combinação de diversidade na unidade que torna a igreja tão rica e forte. No entanto, para que os dons tenham efeitos positivos, eles devem ser usados corretamente — não para enaltecimento próprio (veja v. 3), mas de acordo com sua verdadeira natureza. É nisso que ele se concentra na série de exortações dos versículos 6b-8.
Dois dos dons que Paulo menciona nesses versículos — profecia e ensino — também se encontram em outras listas paulinas de dons. Os dons do versículo 8, no entanto, não têm nenhum equivalente linguístico nas outras listas, embora os ministérios que eles denotam certamente poderiam corresponder ou se justapor a alguns dos dons listados em outros lugares. Esses textos sugerem que Paulo, e presumivelmente a igreja primitiva de modo geral, reconheciam um pequeno número de dons bem definidos e de ocorrência bastante comum, junto com um número indeterminado de outros dons menos definidos, alguns dos quais talvez não tenham se manifestado em todos os lugares e alguns talvez tenham se sobreposto aos outros. Paulo situa os sete dons que ele menciona em dois grupos: um de quatro elementos e um de três.
Talvez seja significativo que o primeiro exemplo é o dom da profecia, visto que ele ocorre em segundo lugar em 1 Coríntios 12:28 e Efésios 4:11 (em que “apóstolos”, não citado aqui, é o primeiro). Como 1 Coríntios 14 especialmente revela, Paulo tinha uma estimativa muito elevada desse dom. A profecia do Novo Testamento poderia incluir previsões do futuro (veja Atos 11:28; 21:10-12), mas não era essa a sua essência. Antes, de forma mais ampla, a profecia do Novo Testamento envolvia proclamar à comunidade a informação que Deus havia revelado ao profeta para a edificação da igreja (veja especialmente 1 Coríntios 14:3, 24, 25, 30). A verdade revelada pelo profeta não tinha a autoridade da verdade ensinada pelos apóstolos, pois a fala profética deveria ser examinada por outros profetas (1 Coríntios 14:29-32). Paulo, porém, sugere, nesse versículo, a necessidade de cada profeta usar o dom corretamente: cada um deve profetizar “de acordo com a analogia da fé”.
Analogia é um termo extraído do mundo da matemática e da lógica, em que denota a proporção correta ou a relação certa. Profetizar, Paulo está dizendo, deve ocorrer “em proporção correta” à fé. Como na expressão semelhante do versículo 3b, a pergunta aqui é o que “fé” significa. Talvez a possibilidade mais óbvia seja que Paulo se refira à fé “carismática” especial que Deus dá a cada profeta. Ele, então, estaria exortando os profetas a se certificarem de que estão profetizando de acordo com o grau de fé que receberam: eles devem transmitir à igreja tudo o que Deus lhes deu para dizer, mas nada mais do que Deus lhes deu para dizer. No entanto, a maioria dos intérpretes acredita que fé aqui não é o ato de crer, mas aquilo em que cremos: o ensino cristão. Certamente faria bastante sentido Paulo insistir em que os profetas avaliem o que estão dizendo em relação ao critério da verdade cristã. E “fé” pode ter esse sentido objetivo em Paulo. Levando tudo em consideração, no entanto, preferimos uma visão semelhante à que adotamos na interpretação “medida da fé” do versículo 3: a “analogia da fé” é a fé básica da qual todos os cristãos compartilham. Os profetas, Paulo estaria dizendo, devem se certificar de que suas declarações estão em proporção correta a essa fé em Cristo.
Romanos 12:7
O segundo dom é o de “servir” ou “ministrar”. Palavras da raiz diak- eram usadas originariamente para denotar “servir à mesa”, um sentido que foi preservado no período do Novo Testamento (veja Lucas 17:8). As palavras referem-se a serviços de natureza pessoal aos outros e implicavam frequentemente, tanto no mundo judaico quanto no gentio, a ideia de subserviência e baixa posição social. Mas Jesus descreveu a própria intenção de servir e exortou seus seguidores a imitá-lo (Marcos 10:45 e paralelos). “Serviço”, então, tornou-se um modo comum de aludir ao trabalho dos cristãos em prol de outros e para a glória de Deus. A tradução “ministrar” traz à luz esse sentido religioso. Paulo usa palavras relativas a “serviço” no sentido de “ministério” cristão em geral, do ministério de Cristo, do próprio ministério específico dele e do de outros, do ministério específico de coletar dinheiro para os santos em Jerusalém e de um ofício ou função especial na igreja (o diakonos, “diácono”).
Paulo nunca menciona, em outros lugares, “serviço” como um dom específico. Por isso, alguns comentaristas acham que aqui ele está empregando a palavra de modo geral para se referir a qualquer tipo de ministério que um cristão poderia ter. Mas os outros dons citados nesses versículos envolvem funções determinadas. Assim, provavelmente, ele está pensando em um dom específico que qualifica a pessoa para ocupar o ofício de “diácono” (diakonos), um ministério que, ao que tudo indica, envolvia especialmente organizar e prover às necessidades materiais da igreja. Ao exortar os cristãos cujo dom é o de “serviço” a usá-lo “no serviço”, Paulo está enfatizando a importância de reconhecer o dom e usá-lo de acordo com sua verdadeira natureza. O dom de “serviço” não deve se tornar ocasião para orgulho (v. 3), mas deve ser o fundamento do serviço sincero e sacrificial a outros. Talvez ele também esteja preocupado com a possibilidade de aqueles que têm determinado dom ministrarem em áreas fora da esfera de seu dom, negligenciando, assim, o dom recebido.
Paulo menciona o dom do “ensino” em duas de suas outras listas de dons (1Coríntios 12:28-29; Efésios 4:11) e, em ambas, ele o listou imediatamente após profecia. Aqui, o apóstolo se refere a “mestre”, não ao dom do ensino. A razão de ele mudar de substantivos abstratos ao descrever os dois primeiros dons — “profecia”, “serviço” — para designações pessoais em relação aos últimos quatro não está clara. Embora tanto a profecia quanto o ensino sejam dons de comunicação que se destinam a exortar a igreja, eles são distintos. “Profecia”, como vimos, tem uma base de revelação: os profetas falam as palavras que Deus “coloca em sua boca”. O ensino, por sua vez, envolve a transmissão da verdade do evangelho como ela foi preservada na igreja. Repetindo, o interesse de Paulo é que aqueles que têm o dom de ensino o usem fielmente.
Romanos 12:8
A palavra traduzida por “exortador” também poderia ser traduzida por “encorajador” (veja NIV; NLT). Mas, vinda imediatamente após “mestre”, ela provavelmente denota a atividade de exortar os cristãos a viverem a verdade do evangelho. Paulo muda a sintaxe mais uma vez ao enumerar os três últimos dons, e novamente é difícil achar alguma razão para isso. “Aquele que compartilha” poderia significar alguém que distribui os recursos da igreja como um todo ou alguém que compartilha os próprios recursos com os menos favorecidos. Decidir entre as duas opções é difícil, mas talvez a especificação “em simplicidade” combine melhor com a situação de alguém que está compartilhando os próprios bens.
“Simplicidade” traduz haplotēs, palavra que significa “singeleza/sinceridade” (de propósito; daí “simplicidade”; veja 2 Coríntios 11:3; Efésios 6:5; Colossenses 3:22). No entanto, quando usada para doação, ela contém nuances de “generosidade”, ou seja, é uma doação que exibe uma singeleza de coração e de propósito (2 Coríntios 8:2; 9:11, 13). Qualquer um dos significados combina muito bem com o contexto. Talvez seja melhor ficar com o significado básico e bem atestado de “simplicidade”. Paulo está encorajando aquele que dá aos outros a fazer isso de modo puro e sem motivação oculta.
O quinto tipo de pessoa com determinado dom que Paulo exorta é ho proïstamenos. A palavra talvez denote alguém que presida algo ou que auxilie outros. Observando que ele insere esse dom entre dois outros referentes a dar, alguns comentaristas defendem o segundo significado. Mas o significado “prestar auxílio” não é bem atestado para esse verbo, e Paulo não parece usá-lo com esse significado em outros lugares. Provavelmente, então, devemos optar pela tradução “alguém que preside”. Mas preside o quê? Paulo não diz, e isso leva alguns estudiosos a achar que talvez ele esteja remetendo a qualquer pessoa que está em uma posição de liderança, quer em casa, quer na igreja. Outros tentam fazer justiça ao contexto, argumentando que ele está aludindo àquelas pessoas que presidem alguma obra de caridade da igreja. Mas Paulo usa duas vezes esse verbo (uma vez em sentido absoluto) para denotar os “líderes” da igreja local (1 Tessalonicenses 5:12; 1 Timóteo 5:17). Provavelmente é esse ministério, geralmente associado com os presbíteros (anciãos)/supervisores (veja 1 Timóteo 5:17), que Paulo tem em mente aqui. Ele exorta os líderes da comunidade a exercerem seu chamado com “zelo” ou “diligência”.
Paulo passa, finalmente, àquele cujo dom é “mostrar misericórdia”. Determinar a natureza exata desse ministério não é fácil. Como Dunn mostra, esse é o único lugar em que o apóstolo emprega o verbo “mostrar misericórdia” associando-o a uma atitude de seres humanos. Observando que a palavra “misericórdia” é usada no Novo Testamento para se referir à piedosa e muito importante atividade judaica de caridade social — prover materialmente aos pobres (veja Mateus 6:3) —, Dunn sugere que Paulo poderia estar pensando aqui especialmente nesse ministério. Entretanto, a conexão da palavra “misericórdia” com a caridade social judaica não é disseminada o suficiente para justificar essa restrição da referência. Provavelmente, então, devemos entender o ministério de modo bastante geral e incluir nele qualquer ato de misericórdia para com os outros, como visitar os doentes, cuidar dos idosos ou incapacitados e prover aos pobres. Aqueles que são ativos nesses ministérios de misericórdia devem tomar um cuidado especial, Paulo adverte, para não fazer isso de má vontade ou com tristeza. Eles devem se empenhar para ministrar com “alegria”.
C. O amor e as suas manifestações (Romanos 12:9-21)
C. O amor e as suas manifestações (Romanos 12:9-21)
Romanos 12:9
Romanos 12:9
As palavras iniciais não estão ligadas explicitamente a nenhum elemento do contexto anterior e, no texto grego, não há verbo. Paulo simplesmente diz “amor sincero”. Essas palavras são o título do tópico a seguir, em que ele prossegue explicando, em uma série de expressões participiais, exatamente o que, de fato, é o amor sincero. No entanto, o acréscimo de verbos em formas que expressem orientações ou ordens em todas as nossas principais traduções — por exemplo, na NIV: “o amor deve ser sincero” — faz sentido. Como nas expressões semelhantes dos versículos 6b-8, o propósito paulino é exortar, não simplesmente descrever.
O amor pelos outros, escolhido pelo próprio Senhor como a essência da Lei do Antigo Testamento (Mateus 12:28-34 e paralelos) e considerado a principal exigência da nova aliança (João 13:31-35), rapidamente foi consagrado como a norma ética fundamental e característica do cristianismo. O amor dos cristãos pelos outros está fundamentado no amor de Deus, expresso na dádiva do seu Filho, e é possibilitado por esse amor (veja, especialmente, João 13:34 e 1 João 4:9-11). Em Romanos, Paulo já nos lembrou desse amor (veja Romanos 5:5-8). Os primeiros cristãos escolheram um termo relativamente raro para expressar a natureza particular do amor que deveria ser o fundamento de todos os seus relacionamentos: agapē. Esse é o termo que o apóstolo usa aqui; o artigo definido (no grego) indica que ele está falando de uma virtude bastante conhecida.
Aliás, Paulo considera o amor tão básico que nem mesmo nos exorta aqui a amar, mas nos exorta a nos certificarmos de que o amor que ele presume que já temos seja “genuíno”. Ao insistir em que nosso amor seja genuíno, ele está nos advertindo a não tornarmos nosso amor um mero fingimento, uma exibição ou emoção exterior que não corresponda à natureza do Deus que é amor e que nos amou.
Na segunda parte do versículo 9, há mais duas exortações, ambas na forma de oração participial no grego. A razão de Paulo escolher expressar essas admoestações com particípios no grego ainda é discutida, mas talvez ele faça isso para indicar a estreita relação das exortações com a exigência inicial de “amor genuíno”. O “amor genuíno”, Paulo está dizendo, irá “abominar o mal” e “se apegar ao que é bom”. Ambos os verbos são muito fortes: a tradução para “abominem” poderia ser também “odeiem intensamente”, e “apeguem-se” pode ser usado para se referir à união íntima que deve caracterizar o relacionamento matrimonial. Assim, Paulo está sugerindo que o amor cristão “genuíno” não é uma emoção sem direção ou algo que somente pode ser sentido, e não expresso. O amor não é genuíno quando leva a pessoa a fazer algo mau ou a evitar fazer o que é bom, conforme definido por Deus em sua Palavra. O amor genuíno, “a coisa de verdade”, levará o cristão a fazer o “bem”, que é o resultado do coração e da mente transformados (v. 2).
Romanos 12:10
Romanos 12:10
As duas exortações nesse versículo compartilham um foco nas relações dos cristãos “uns com os outros”. Elas também compartilham uma estrutura semelhante: cada uma delas começa com a virtude sobre a qual Paulo dá instruções — “quanto ao amor fraternal”, “quanto à honra” —, passa à ênfase recíproca (“uns aos outros”) e conclui com um elemento imperativo.
Após introduzir todas as exortações nos versículos 9-21 com um apelo ao amor sincero, Paulo limita o foco admoestando os cristãos a serem “devotados” (philostorgoi) uns aos outros em “amor fraternal” (philadelphia). Ambas as palavras-chave dessa exortação, cuja raiz é philo-, têm o sentido de relacionamentos familiares. Paulo reflete o entendimento do cristianismo primitivo da igreja como uma família estendida, cujos membros, unidos em comunhão íntima, devem demonstrar uma sincera e consistente preocupação mútua.
O significado geral da segunda exortação desse versículo é suficientemente claro: os cristãos devem estar ansiosos para reconhecer outros crentes e dar crédito a eles. Mas o seu significado exato é discutido. O verbo que Paulo usa significa “ir na frente”, muitas vezes com o sentido de que uma pessoa vai à frente para mostrar o caminho para outra. Entendendo o verbo nesse sentido básico, muitas tradições e comentaristas antigos, bem como mais recentes, acreditam que Paulo quer dizer algo como “superar uns aos outros em demonstrar honra”. Outros, no entanto, sugerem que o sentido do verbo poderia ser incomum, “considerar melhor”, e, então, apresentam a tradução “em honra preferir uns aos outros”. Cada interpretação tem seu ponto fraco, mas se poderia preferir a primeira à luz do fato de que a segunda pressupõe um significado não atestado para o verbo. Paulo exorta os cristãos a se superarem em conferir honra uns aos outros; por exemplo, reconhecendo e elogiando as realizações mútuas e se submetendo uns aos outros.
Romanos 12:11
Romanos 12:11
Como a divisão do versículo indica, a primeira exortação, “em zelo, não sejam preguiçosos”, certamente poderia ser associada com a exortação a seguir, “sejam incendiados pelo Espírito”. Mas, como comentamos, o estilo dessa exortação tem mais em comum com as exortações do versículo 10. Provavelmente, então, devemos relacionar a advertência de Paulo sobre ser preguiçoso no zelo ao seu apelo para que amemos e estimemos uns aos outros, no versículo 10. Ele não especifica o objeto do zelo incansável que nos pede, mas talvez devamos pensar no “culto racional” ao qual somos convocados. A tentação de enfraquecer em nossa responsabilidade vitalícia de reverenciar a Deus em todos os aspectos da vida, de nos tornarmos preguiçosos e complacentes em nossa busca do que é “bom, agradável a Deus e perfeito”, é natural — mas é necessário resistir a ela.
A ideia de “zelo” continua na imagem de ser “incendiado” da segunda exortação. Paulo poderia estar exortando os cristãos a manterem um compromisso forte e emocional com o Senhor em seu próprio espírito. Mas é mais provável que o espírito ao qual ele se refere seja, à luz da referência paralela ao Senhor no versículo 11c, o Espírito Santo. Segundo essa visão, Paulo está nos exortando a permitir que o Espírito Santo nos “incendeie”: devemos nos abrir para o Espírito enquanto ele busca nos incentivar ao “culto racional” para o qual o Senhor nos chamou.
A exortação de “servir ao Senhor” poderia parecer inicialmente um anticlímax, óbvia e geral demais para ter qualquer aplicação real. Entretanto, um exame mais atento do contexto indica algo diferente. O encorajamento a ser “incendiado pelo Espírito” é, como a história da igreja e a experiência atual atestam amplamente, passível de abuso. Os cristãos frequentemente se deixaram levar tão intensamente pelo entusiasmo com as coisas espirituais que abandonaram as normas objetivas da conduta cristã descritas pelas Escrituras. Aparentemente é essa a preocupação de Paulo, e ele busca eliminar qualquer abuso desse tipo ao nos lembrar que ser incendiado pelo Espírito deve nos levar a ser dirigidos por nosso Senhor e a servi-lo. Não é o entusiasmo da exibição egocêntrica (que caracterizava os coríntios) que o Espírito cria em nós, mas o entusiasmo de servir humildemente ao Senhor que nos comprou.
Romanos 12:12
Romanos 12:12
As três admoestações desse versículo estão estreitamente relacionadas tanto no estilo quanto no conteúdo, pois esperança, perseverança e oração são parceiras muito naturais. Até mesmo ao “nos alegrarmos na esperança”, confiando na promessa de Deus de que compartilharemos de sua glória, reconhecemos o lado negativo: o caminho até a culminação da esperança está repleto de tribulações. Paulo, sempre realista, sabe disso e, por isso, aqui, como em outras passagens, ele passa rapidamente da esperança para a necessidade de perseverança. Ao mesmo tempo, entendemos que nossa capacidade de continuar nos alegrando e de “perseverar debaixo de tribulações” depende do grau de atenção que damos ao desafio paulino de “persistirmos” na oração (observe que Paulo passa da esperança à persistência na oração também em Romanos 8:24-27).
Romanos 12:13
Romanos 12:13
Paulo conclui a primeira série de exortações com um chamado para que os cristãos pratiquem o amor e a preocupação uns com os outros que ele mencionou antes (v. 10). Na primeira exortação, ele usa a forma verbal, muito familiar, do termo neotestamentário koinōnia, “comunhão”. No entanto, não está nos exortando à comunhão com os santos, mas à comunhão com as “necessidades” dos santos, ou à participação nelas. Essas necessidades são materiais: comida, roupa e abrigo. Portanto, a comunhão à qual somos chamados aqui é o compartilhamento de nossos bens materiais com cristãos menos favorecidos.
Alguns estudiosos acham que Paulo poderia estar pensando especificamente nos cristãos judeus em Jerusalém (veja Romanos 15:25, 26), aos quais ele estava levando o dinheiro coletado nas igrejas gentias (veja Romanos 15:30-33). Mas, embora não devamos obviamente excluir esses cristãos da referência paulina, nada há que sugira que ele esteja pensando particularmente neles aqui.
Outra dimensão do amor cristão é a prática da hospitalidade. Oferecer hospitalidade a visitantes era importante na época, visto que havia poucas acomodações disponíveis para alugar. E, entre os cristãos, essa necessidade era exacerbada pelos muitos missionários e outros obreiros cristãos que viajavam. Logo, o Novo Testamento frequentemente exorta os cristãos a oferecer hospitalidade aos outros (veja 1 Timóteo 3:2; Tito 1:8; Hebreus 13:2; 1 Pedro 4:9). Mas Paulo faz mais do que isso: ele nos exorta a “perseguirmos” isso — a nos empenharmos ao máximo para receber os viajantes e suprir suas necessidades.
Romanos 12:14
Romanos 12:14
Aqui ocorre uma interrupção na passagem, marcada por uma mudança tanto no estilo — dos particípios com sentido imperativo dos versículos 9-13 para os imperativos do versículo 14 — quanto no tema — das relações entre os cristãos nos versículos 10-13 para as relações de cristãos com não cristãos no versículo 14. Há uma conexão textual com o versículo 13: “persigam [a hospitalidade]” e “os que os perseguem” traduzem o mesmo verbo grego. Mais importante, no entanto, é a conexão temática com o versículo 9: abençoar perseguidores é uma das manifestações do “amor sincero” que abomina o mal e se apega ao bem. E é certamente uma das demonstrações mais notáveis do modo de vida transformado que deve caracterizar os crentes (v. 2).
Nas Escrituras, “abençoar” está tipicamente associado a Deus: “Ele tem e concede todas as bênçãos”. “Abençoar” os próprios perseguidores, portanto, é invocar a Deus para lhes conferir o Seu favor. O oposto disso é, obviamente, amaldiçoar — pedir que Deus envie desastre e/ou ruína espiritual à pessoa. Ao proibir a maldição, bem como ordenar a bênção, Paulo realça a sinceridade e a absoluta determinação da atitude amorosa que devemos ter para com nossos perseguidores.
Embora a perseguição sob várias formas — desde o ostracismo social à ação legal — fosse quase inevitável na igreja primitiva, não há evidência alguma de que, nessa época, os cristãos estivessem passando por algum período especial de perseguição. Então, Paulo provavelmente está dando uma ordem geral, refletindo novamente um item importante da lista de exortação da igreja cristã primitiva (veja 1 Coríntios 4:12; 1 Pedro 3:9). Foi o próprio Jesus quem enunciou pela primeira vez essa exigência do reino, e há boas razões para pensar que Paulo, aqui, alude deliberadamente à própria afirmação de Jesus. Observe as semelhanças:
Mateus 5:44: “Amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem”.
Lucas 6:27, 28: “Amem seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam e orem pelos que os maltratam”.
Paulo parece combinar essas duas formas do discurso de Jesus no Sermão do Monte, o que indica que, talvez, ele esteja citando uma forma pré-sinótica de uma das exigências do reino mais célebres e surpreendentes de Jesus, pois a ordem de Jesus para que Seus seguidores respondam à perseguição e ao ódio com amor e bênção era sem precedentes tanto no mundo grego quanto no judaico. A influência do ensino de Cristo em Paulo é fundamentada no fato de que ele parece aludir, nesse mesmo parágrafo, a outras partes do ensino de Jesus sobre o amor ao inimigo desse mesmo sermão (v. 17a, 21). Obviamente, ele não identifica o ensino como proveniente de Jesus, o que talvez indique não que ele não conhecia sua fonte, mas que a fonte era tão conhecida que não exigia menção explícita.
Romanos 12:15
Romanos 12:15
Mais uma vez, Paulo muda o estilo e o tema, sugerindo que essa parte da parênese combina várias afirmações relativamente independentes. No estilo, os verbos imperativos do versículo 14 dão lugar a infinitivos com sentido imperativo no versículo 15. E ele passa da exortação sobre a relação de cristãos com aqueles fora da comunidade (v. 14) para, novamente, a relação deles com outros cristãos (v. 15, 16).
De fato, a identificação com os outros, tanto em suas alegrias quanto em suas tristezas, é um modo apropriado de os cristãos demonstrarem a sinceridade de seu amor a não cristãos, bem como a cristãos. Mas a exortação de Paulo aqui parece retomar sua afirmação sobre as relações íntimas e mútuas dos membros do corpo de Cristo em 1 Coríntios 12:26: “E, se um membro sofre, todos os membros sofrem juntos; e, se um membro é honrado, todos os membros se alegram juntos”. O amor que é genuíno não responderá à alegria de outro crente com inveja ou amargura, mas participará sinceramente dessa alegria. Do mesmo modo, o amor que é genuíno fará com que nos identifiquemos tão intimamente com nossos irmãos em Cristo que as tristezas deles se tornarão as nossas.
Romanos 12:16
Romanos 12:16
A transição do versículo 15 para o versículo 16 é natural: a identificação mútua para a qual Paulo exorta no versículo 15 é possível somente se os cristãos compartilharem de um modo comum de pensar. A expressão “uns com os outros” do versículo 15 retoma o tema do versículo 10, enquanto o uso da raiz phron- (“pensar”) nas três admoestações desse versículo nos lembra da exigência paulina, no versículo 3, quanto ao tipo correto de “pensamento” entre os cristãos. Esses paralelos deixam claro que o versículo 16 trata das relações dos cristãos entre si.
A primeira exortação de Paulo emprega a mesma linguagem usada por ele em outros lugares para denotar a unidade de pensamento entre os cristãos. No entanto, aqui essa formulação sugere um apelo não tanto para que os cristãos nesse relacionamento “uns aos outros” “tenham o mesmo modo de pensar entre eles”, mas que “tenham o mesmo modo de pensar uns com relação aos outros [uns para com os outros]”. Assim, Paulo estaria dizendo que os cristãos devem demonstrar a mesma atitude para com todas as pessoas, qualquer que seja sua condição social, étnica ou econômica.
No entanto, embora seja possível que ele estivesse enfatizando a demonstração exterior do nosso “pensamento”, isso não nos obriga a adotar um significado diferente para a expressão básica de seu sentido nas demais ocorrências em Paulo. Ele está nos chamando para uma mesma mentalidade. Essa mentalidade em comum não significa que todos devamos pensar exatamente do mesmo modo ou pensar exatamente a mesma coisa sobre todas as questões, mas que devemos adotar uma atitude para com tudo o que envolve nossa vida que resulte da mente renovada do novo domínio ao qual pertencemos pela graça de Deus (veja v. 2).
Como Paulo reconhece em outros lugares (veja, especialmente, v. 3-5 e Filipenses 2:2-4), a maior barreira à unidade é o orgulho. Portanto, ele nos adverte, em seguida, sobre “pensar coisas exaltadas”, isto é, “pensar de forma altiva” sobre nós mesmos. Uma opinião demasiadamente exaltada de nós mesmos — que nos leva a achar que estamos sempre certos e os outros errados, e que nossas opiniões importam mais do que as dos outros — muitas vezes impede que a igreja demonstre a unidade para a qual Deus a chama. O antídoto positivo para esse orgulho, Paulo afirma, é associar-se com “o inferior”. Não há certeza do que ele quer dizer com essa exortação positiva. Talvez o adjetivo seja neutro; nesse caso, ele estaria exortando os cristãos a, em vez de serem altivos, dedicarem-se a tarefas humildes. Mas “inferior” também poderia se referir a pessoas e, assim, Paulo estaria exortando os crentes a se associarem com “pessoas de posição inferior”, isto é, aos marginalizados, pobres e necessitados. É impossível decidir entre as duas opções. Ambas combinam bem com o contexto e têm paralelo no Novo Testamento. Mas, seja como for, Paulo enfatiza o grau de nosso envolvimento com “o inferior” usando uma forma verbal que poderia ser traduzida por “empolgar-se com…”.
A palavra phronimos na última exortação do versículo continua o uso retoricamente notável da raiz phron-. A pessoa que é phronimos se caracteriza por “pensar” e é, portanto, “sábia”. A qualidade denotada pela palavra é, então, positiva. Ela somente se torna negativa quando o critério pelo qual julgamos nossa sabedoria é o nosso próprio. E é em relação a essa subjetividade e arrogância que Paulo nos adverte aqui: “Não sejam sábios aos seus próprios olhos”.
Romanos 12:17
Romanos 12:17
Após dois versículos que exortam os cristãos a respeito de suas relações uns com os outros, Paulo conclui a descrição das manifestações de “amor genuíno” (v. 9a) com admoestações sobre a atitude que os cristãos devem adotar para com não cristãos (v. 17-21). Como no versículo 14, em que ele se refere pela primeira vez a esse tema, seu foco está em como os cristãos devem responder a não cristãos que os perseguem e lhes “fazem o mal” de outras maneiras.
Assim, a proibição de retaliação no versículo 17a desenvolve a advertência paulina, no versículo 14b, de que não devemos amaldiçoar nossos perseguidores. Aqui, novamente, a influência do ensino de Jesus em Paulo é clara, pois Jesus não somente nos exortou a amar e a orar pelos nossos inimigos, mas também, no mesmo contexto, ele nos advertiu a não responder com “olho por olho, dente por dente” (Mateus 5:38). Em um padrão semelhante ao dos versículos 14 e 16, a proibição negativa “Não paguem o mal com o mal” é combinada com uma prescrição positiva: “Considerem o que é bom à vista de todos”.
O verbo “considerar” provavelmente é enfático: “fazer o bem a todos é algo que deve ser planejado, não somente desejado”. A tradução “à vista de todos” é discutida: muitos comentaristas, questionando se Paulo permitiria que não cristãos estabelecessem o critério para o que fazem os cristãos, preferem a tradução: “Considerem fazer boas coisas a todos”. Mas não há um paralelo claro para essa interpretação da palavra grega usada por Paulo aqui. Cranfield sugere uma alternativa diferente: Paulo está nos exortando a demonstrar “à vista de todos” as coisas boas que fazemos. Os não cristãos não estabelecem o critério para “o bem”; eles são a plateia. Mas esse também é um modo incomum de traduzir o grego. Devemos, então, entender as palavras de Deus em seu sentido mais óbvio: Ele quer que busquemos a aprovação diante de não cristãos, procurando fazer aquelas “boas coisas” que eles aprovam e reconhecem. Há, é claro, uma limitação implícita nessa ordem. Ela reside na própria palavra “bem” ou “boas”, pois certamente Paulo não gostaria que nos esquecêssemos de que o “bem” sobre o qual ele fala ao longo desses versículos é definido em associação com a vontade de Deus (v. 2).
Romanos 12:18
Romanos 12:18
A forte relação entre esta exortação — “Se possível, no que depender de vocês, tenham paz com todos” — e a última do versículo 17 é óbvia: ambas insistem em que os cristãos exerçam uma conduta que terá um impacto positivo sobre “todos”. O próprio Jesus exaltou os “pacificadores” (Mateus 5:9) e exortou Seus seguidores a “preservarem a paz uns com os outros” (Marcos 9:50, em que “uns com os outros” provavelmente se refere a pessoas de modo geral, não somente aos discípulos). Assim, embora menos clara do que as alusões dos versículos 14, 17 e 21, essa talvez seja mais uma alusão ao ensino de Jesus.
Não sabemos se havia alguma necessidade especial de exortar os cristãos romanos a viverem em paz com os outros cidadãos romanos. As razões de Paulo para incluir essa admoestação, junto com a semelhante no fim do versículo 17, talvez estejam mais relacionadas à lógica de seu discurso, pois seu encorajamento aos cristãos para que abençoem seus perseguidores (v. 14) e não paguem o mal com o mal (v. 17a) pressupõe que os cristãos estejam em conflito com o mundo ao redor deles. Em considerável medida, ele reconhece que esse conflito é inevitável: assim como o mundo odiou Jesus, ele também odeia Seus seguidores (João 16:33). Paulo admite que grande parte desse conflito é inevitável, acrescentando, à exortação de “ter paz”, a dupla condição “se possível, no que depender de vocês”. Mas ele não quer que os cristãos usem a inevitabilidade da tensão com o mundo como desculpa para uma conduta que exacerbe desnecessariamente o conflito ou para uma resignação que nos leve a não fazer o mínimo esforço para manter um testemunho positivo.
Romanos 12:19
Romanos 12:19
Após um excurso em que exorta os cristãos a se relacionarem positivamente com o mundo (v. 17b, 18), Paulo volta a nos admoestar sobre como devemos reagir à pressão que o mundo exerce sobre nós. “Não se vinguem” (v. 17a) vai um passo além de “não paguem o mal com o mal”. Diante de alguém que está nos fazendo algum mal, poderíamos ser tentados a prejudicar nosso adversário fazendo um mal semelhante a ele. Mas a tentação se torna mais sutil quando buscamos “batizar” essa resposta, vendo-a como um meio de executar um justo e merecido juízo ao nosso opressor.
Talvez porque entende a força dessa tentação, Paulo nos lembra de que somos “amados”: pessoas que, de modo bem imerecido, experimentaram o amor de Deus. Em vez de fazermos justiça com as próprias mãos, devemos “dar lugar à ira”. Ele não diz explicitamente de quem é essa ira, e é possível pensar que aluda à ira do adversário, à nossa ira, ou à ira praticada pelas autoridades governamentais (veja Romanos 13:4). Mas, certamente, a intenção de Paulo é se referir à ira de Deus, como o mostram o artigo definido, “a ira”, e a citação do Antigo Testamento a seguir. Não é nossa tarefa fazer justiça às pessoas más; essa é uma prerrogativa de Deus, e Ele castigará essas pessoas com Sua ira no momento que considerar apropriado.
A proibição de vingança encontra-se tanto no Antigo Testamento quanto no judaísmo, mas tende a se limitar às relações internas, ou seja, com os correligionários. A proibição paulina de vingança, até mesmo dos inimigos, é uma extensão da ideia que reflete a ética revolucionária de Jesus. Paulo reforça sua exortação para se submeter a Deus nas questões de justiça retributiva com uma citação do Antigo Testamento que destaca a determinação de Deus de executar a vingança. As palavras são de Deuteronômio 32:35, mas o tema é bem disseminado, e é possível que Paulo também tenha em vista alguns dos outros textos que enunciam esse tema. Isso talvez explique o acréscimo desajeitado, no fim da citação, da expressão “diz o Senhor”, visto que essas palavras aparecem em alguns dos anúncios proféticos da vingança de Deus.
Romanos 12:20
Romanos 12:20
Paulo continua citando o Antigo Testamento: a exortação no versículo 20 é uma reprodução direta de Provérbios 25:21-22. Ele provavelmente foi atraído para esse texto por várias razões. Primeira: a referência ao “inimigo” talvez tenha chamado a sua atenção, visto que o ensino de Jesus no qual ele se baseia ao longo desses versículos nos exorta a “amar os nossos inimigos” (Mateus 5:43; Lucas 6:27). Segunda: alimentar e dar água ao nosso inimigo é semelhante à ação que Jesus recomenda como a expressão de seu amor: dar a outra face; dar a nossa capa àqueles que tomam a nossa túnica; dar àqueles que nos pedem (Lucas 6:29-30). E a terceira razão: essa resposta aos inimigos é um modo prático de colocar em ação a “bênção” àqueles que nos perseguem (v. 14) e uma forma específica de “fazer o bem à vista de todos” (v. 17b).
O texto indica que agir desse modo com o inimigo significará “amontoar brasas vivas [lit. brasas de fogo] sobre a cabeça dele”. O que se tem em mente com essa imagem não é claro, seja em Provérbios ou em Paulo. A expressão grega para “brasas de fogo” ocorre somente duas outras vezes na LXX e, em nenhuma delas, ela é metafórica (Isaías 47:14; Provérbios 6:28). No entanto, quando usadas metaforicamente no Antigo Testamento, as palavras “brasas” e “fogo” geralmente se referem à presença extraordinária de Deus e, especialmente, ao seu juízo. Então, talvez Paulo veja o nosso ato de dar comida e água ao inimigo como o meio pelo qual (se essas ações não conduzirem ao arrependimento) a culpa do inimigo diante do Senhor será aumentada, o que, por sua vez, acarretará um aumento na severidade do julgamento do inimigo.
É claro que Paulo não estaria dizendo, segundo essa visão, que devemos agir bondosamente para com o nosso inimigo com o propósito de tornar o julgamento dele mais severo. Ele estaria simplesmente observando que as nossas boas ações podem ter esse resultado. Entendida desse modo, essa visão do texto não pode ser rejeitada arrogantemente como “subcristã”, pois há precedente bíblico para ela. A principal dificuldade é que ela não combina bem com o contexto. Nos versículos 17-21, Paulo exortou os cristãos a evitarem um espírito de retaliação. No entanto, independentemente de como a qualifiquemos, essa primeira interpretação se aproxima justamente de encorajar essa atitude. Além disso, o ensino de Jesus, do qual Paulo extrai tanto do que afirma nesses versículos, não contém essa ideia.
A maioria dos comentaristas modernos, portanto, conclui que o apóstolo considera “brasas” uma metáfora para “a angústia ardente da vergonha”. Agir bondosamente com nossos inimigos é um meio de fazer com que fiquem com vergonha de sua conduta para conosco e, talvez, que se arrependam e se voltem para o Senhor, cujo amor personificamos. Embora a base linguística dessa visão não seja o que se desejaria, provavelmente ela é a melhor alternativa. Paulo está nos dando uma motivação positiva para agirmos bondosamente com nossos inimigos. Ele não quer que a proibição de vingança (v. 19) cause em nós uma atitude de “não fazer nada” em relação aos nossos perseguidores. No entanto, ele não está afirmando que atos de bondade para com nossos inimigos infalivelmente resultarão no arrependimento deles. Independentemente do grau de vergonha que nossos atos venham a produzir, eles podem ser desprezados rapidamente e provocar uma hostilidade ainda maior a nós e ao Senhor.
Romanos 12:21
Romanos 12:21
Paulo conclui a série de admoestações a respeito da resposta cristã à hostilidade com um chamado final e geral: “Não sejam tomados pelo mal, mas vençam o mal com o bem”. O uso duplo da palavra “mal” liga esse versículo com o versículo 17a em um arranjo de quiasma. O mal pode nos tomar quando permitimos que a pressão de um mundo hostil nos leve a atitudes e ações que não estão de acordo com o caráter transformado do novo domínio. O apóstolo nos convoca a resistirmos a essa tentação. Mas, mais do que isso, ecoando um tom característico tanto desse parágrafo quanto do ensino de Jesus que ele reflete, ele nos exorta também a dar um passo positivo: trabalharmos constantemente para triunfar, fazendo o bem, sobre o mal que outros fazem a nós.
Ao respondermos ao mal com “o bem”, em vez de com o mal, obtemos uma vitória sobre esse mal. Não somente não permitimos que ele corrompesse a nossa integridade moral, mas também demonstramos o caráter de Cristo diante de um mundo cético e que está nos observando. Paulo indica, no fim dessa importante série de exortações, que aqui está um exemplo crítico do “bem” (agathos) ao qual ele nos convoca a demonstrar nessa seção da carta (veja Romanos 12:2).
