Apocalipse 14.14-20

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O autor apresenta a duplicidade da ação divina de juízo e salvação, apontando com isso para a soberania do SENHOR a despeito da insurreição do sistema anticristão mundial, que terá, ao final, a devida paga.

Notes
Transcript

Apocalipse 14.14-20: A colheita do fim.

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer…” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura textual anterior: Ap. 14.6-13 - O sentenciamento do mundo pelo anúncio do evangelho e a ratificação da perseverança dos santos.
Objetivo: Elucidar também o caráter condenatório do evangelho, como instrumento do início do juízo divino operante no mundo, e encorajar a igreja a “ressignificar” a morte não como derrota, mas como concessão divina para o descanso de seu testemunho.
Elucidação
Estrutura textual: Colheitas paralelas - Os campos brancos (vv.14-16), e As uvas maduras (vv.17-20).
A imagem dual do juízo que é agora apresentada, fora introduzida pelos versículos 1-13. A alternância entre a posição de triunfo dos 144 mil que representam a igreja, estando de pé ao lado do Cordeiro, cantando gloriosamente, após terem vencido a batalha contra os opositores do Reino Eterno (i.e. os agentes de do Dragão dos capítulos 12-13) (vv.1-5), jungida a imagem do sentenciamento dos ímpios, mediante, em primeiro lugar, o anúncio do evangelho como forma de condenação (vv.6-7), e seu sentenciamento propriamente dito (vv.9-11), justificam uma leitura dupla, paralela, porém, retratando ações distintas.
Os campos brancos (vv.14-16).
O primeiro elemento da subseção é a apresentação do agente da ceifa. O ser assentado sobre uma nuvem, coroado e com uma foice afiada nas mãos, é claramente uma referência a Cristo, tendo em vista sua posição exaltada e o uso da titulação “Filho do homem” cabida ao Messias . Segundo a visão, ele recebe uma ordem de um anjo, que o instrui a “toma[r] a [sua] foice e ceifa[r], pois chegou a hora de ceifa” (v.15).
Não deve causar espanto a ordenação direcionada a Cristo por um anjo, interpretando que este seja um emissário do SENHOR (i.e. do Pai), que finalmente revelou-lhe a chegada “[d]aquele dia e hora” (cf. Mt 24.36).
A concepção de juízo iminente é intensificada pela repetição da alusão ao momento da ceifa, a partir de expressões conhecidas usadas por Cristo Jesus anteriormente. Por exemplo, em João 4.35-38, quando refere-se ao momento próprio para pregação e anúncio do evangelho, Cristo enfatiza: “Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa”. Embora em tal passagem, o foco esteja sobre a pregação do evangelho, e não anúncio de julgamento, na seção anterior de Apocalipse (cf. vv.9-12), a relação entre os dois é ratificada. Enquanto que no Evangelho de João, a prontidão do campo para a ceifa indica o tempo propício para a recepção do evangelho pelos justos, uma cena semelhante é usada para retratar a hora de “colher” aqueles que o ouviram.
Apesar de haver uma concentração maior em indicar a iminência do juízo final de modo amplo, como salientado, a dualidade da presente passagem sugere aplicações desse momento de forma distinta para grupos distinto. Os campos brancos, isto é, ‘secos para a ceifa’, indicam a prontidão dos justos em serem colhidos, isto é, reunidos (cf. Mt 24.31 em que também há uma menção paralela ao lamento das nações e o recolhimento dos escolhidos, dos quatro ventos).
O que estava assentado sobre o trono, “passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada” (v.16), isto é, o tempo do fim e a ação que estava reservada para acontecer à igreja foi concluída: os justos foram reunidos como único povo, e trazidos à presença de Jesus Cristo, estando preservados e separados daqueles que serão alvos de seu juízo condenatório.
2. As uvas maduras (vv.17-20).
À princípio, não uma menção clara de uma natureza diferente entre a colheita da seara e a vindima, senão pelo elemento do “outro anjo, aquele que tem autoridade sobre o fogo” (v.18). Nesse caso, a especificação da informação é elucidativa: o elemento fogo, ao longo do livro de Apocalipse, é usado como instrumento de juízo/julgamento.
Porém, como dito, para além dessa referência, não há uma distinção patente; inclusive, tanto a seara quanto o vinhedo recebem constatações de que estão prontos para serem colhidos: (cp. vv.15,18: “… a seara da terra já amadureceu” … “as suas uvas estão amadurecidas”). Entretanto, essa indistinção é apenas aparente: a partir do v.19, o caráter condenatório da cena é exposto em termos intensos. Um detalhe chama a atenção: é o próprio Filho do homem quem realiza a colheita dos justo (i.e. a seara), demonstrando uma relação pessoal a íntima entre os dois. Por outro lado, um anjo é designado para realizar a colheita das uvas (i.e. dos ímpios), e o arcabouço negativo é remetido em seguida: “… o anjo passou a sua foice na terra, e vindimou a videira da terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus”.
O lagar da cólera de Deus é uma referência a Isaías 63.1-6, em que o profeta alude ao julgamento das nações nos termos de uma grande pisadura de uvas, cujo o produto nada mais é do que a ira e o furor do SENHOR (cf. Is 63.6). Além disso, a conexão proximal com Ap 14.10, estabelece uma ironia: Como será desenvolvido nos capítulos posteriores, a Grande Babilônia (uma representação para a coligação anticristã dos reinos do mundo), usa o vinho como instrumento de sedução com os quais embriaga e seduz os habitantes da terra para segui-la e adorarem a besta (o que também é dito no v.8). Se com vinho, os homens brindaram sua rebelião contra Deus e a promoção de seus sistema anticristão, com vinho haverão de amargar toda a fúria do SENHOR. O vinho da Babilônia era doce, porque era o vinho da prostituição e do paganismo, o vinho que haverão e sorver da parte de Deus será amargo, pois é o sumo da cólera divina em resposta à sua insurreição.
A visão é concluída com a potência e intensidade do julgamento divino:

E o lagar foi pisado

Dois pontos demarcam a fúria do julgamento divino:
a) O lagar foi pisado “fora da cidade”. A referência aqui, pode também ser um adiantamento da visão da igreja/povo de Deus como uma cidade. Assim como no v.8, o mundo e seus sistema político/cultural foi visto como a Babilônia, de igual forma, o povo de Deus é referenciado como a cidade santa (cf. 14.1 “Sião”; 21.2 “a nova Jerusalém… como noiva… para seu esposo”). Assim, o sentenciamento e execução da pena dos ímpios acontecer fora da cidade, é uma ação de preservação, evitando que haja qualquer contaminação ou mistura entre justos e ímpios, além de geralmente ser o lugar onde, no AT, punições contra transgressores eram executadas, isto é, fora do arrial. b) “… Correu sangue do lagar”. A imagem dos cavalos caminhando sobre uma grande quantidade de sangue, ao longo de um cumprido percurso, remete a carnificina da execução. a força da imagem, nesse ponto, reforça a severidade do julgamento divino; algo já realizado anteriormente no livro de Apocalipse.
Síntese principiológica
Comentando o texto de Apocalipse 14.14-20, Leandro Lima afirma:
[…] A descrição da vindima põe fim mais uma vez ao ciclo recapitulativo. O juízo aconteceu, os santos foram recolhidos e a ira de Deus foi derramada sobre o mundo perverso. A história da redenção foi contada novamente nos capítulos 12-14, paralelamente à história contada nos capítulos 4-7 (e também às outras seções), porém revelou novos e impressionantes detalhes a respeito da vitória de Cristo no céu, da expulsão do dragão e sua fúria na terra por meio de seus instrumentos malignos, da perseguição imposta à igreja e da fidelidade que se espera daqueles que confessam o nome de Cristo. O martírio foi mais uma vez enaltecido, bem como sua recompensa. Tudo isso é um grande desafio para o povo de Deus em todas as épocas, a fim de que reveja sua postura em relação ao mundo. Um testemunho precisa ser dado diante dos ímpios. É assim que os candeeiros brilham (LIMA, Leandro — Apocalipse - Comentário Bíblico : O Triunfo do Testemunho — (Portuguese Edition) (pp. 602-603). Kindle Edition).
Isto posto, o texto em análise nos encaminha a contemplação da seguinte verdade:
Aplicação
Não por nossos méritos ou justiça própria (visto não termos nenhuma), mas a mensagem de Apocalipse 14.14-20 consiste na demonstração de que o juízo do SENHOR contra a impiedade, sempre mostrou-se distintivo.
Exemplos dessa perspectiva são claros em toda a Bíblia. No dilúvio, com Ló (cf. Gn 18.22-25), no êxodo, o grande juíz de toda a terra manifestou em momento decisivos da história a simultaneidade de seus atributos e de suas ações graciosas e julgadoras, derramando sobre os justos aquelas, e sobre os ímpios, estas.
Naturalmente, o conceito de justiça ao qual Apocalipse nos chama a contemplar, não é aquela sombra, às vezes distorcida, que se projeta em nosso mundo, tornando sua definição meramente uma reação egocêntrica. A união das duas faces da ação divina (i.e. juíz e salvação), endossam a soberania do SENHOR sobre o curso histórico.
Os justos colhidos, o foram, como dito, não porque eram em si justos, mas por que o próprio Deus, em seu Cristo, os tornou assim. Entretanto, isso em dada diminui a grandeza da justiça de Deus revelada em sua salvação, pelo contrário, a ressalta (cf. Rm 1.16-17).
De contra partida, a outra face dessa mesma moeda é a resposta divina ao levante da humanidade, que deu ouvidos a Satanás e seus agentes, que os convocou a embebedarem-se com o vinho prostituído do paganismo e imoralidade. A vindima é a prova que o caráter santo do SENHOR não será escarnecido sem graves consequências.
Observando essa dupla imagem, a igreja de Cristo deve ser consolada com a mensagem do equilíbrio perfeito entre justiça e misericórdia, graça e vingança, salvação e juízo. O Filho do homem, Cristo Jesus, triunfa sobre o mal, entregando ao SENHOR os frutos de sua colheita: um povo santo, e ciente da grandeza e justiça do caráter do Deus triúno.
Reside, ainda, nessa imagem registrada em Apocalipse 14.14-20, o apelo da igreja ao mundo rebelde: a hora da colheita está próxima, e Aquele que está assentado no trono, está preste a organizar o tribunal: a sega, posicionará a igreja ao lado de Cristo; a vindima, porá os rebeldes à sua frente.
Conclusão
Osborne suas alegações sobre Apocalipse 14, enfatizando que:

Se tudo o que tivéssemos do livro de Apocalipse fossem os capítulos 12 e 13, sentiríamos desespero, pois a falsa trindade parece invencível e está implacavelmente determinada a nos destruir. O capítulo 14 vem como uma lufada de ar fresco, pois vemos que Satanás não está no comando; Deus está. Enquanto o mundo dos incrédulos adora a besta, o povo de Deus adora o Cordeiro no Monte Sião. Enquanto o falso profeta transforma em crime capital a condição de cristão, Deus envia seus anjos de destruição sobre os inimigos de seus santos. Mas ainda há esperança para o mundo, pois junto com os anjos do julgamento Deus envia o anjo com o “evangelho eterno” para oferecer a salvação aos não salvos. Portanto, mais uma vez, trata-se de escolha: a decisão de recorrer à Cristo ou se afastar dele e avançar em direção à destruição.

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