CONTEXTUALIZAÇÃO 1 JOÃO

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PECULIARIDADES DAS CARTAS DE JOÃO
João escreve de forma peculiar, diferente mesmo de Paulo, Tiago ou Pedro. Não há um pluralismo no evangelho pregado por esses escritores inspirados, mas uma “multiforme” inspiração a fim de atingir o público que leria cada escrito.
João, diferente de Paulo, apresenta verdades fundamentais que, no decorrer do texto, vai repetindo-as a fim de firmá-las. Muitas vezes, a palavra fundamental de uma frase determinará a frase seguinte. Além de apresentar muitas antíteses - contrastando o positivo com o negativo.
João não gasta seu tempo de escrita para fundamentar as verdades, como Paulo, mas apresenta e confrota o leitor com verdades fundamentais com brevidade e absolutas, sem precisar ficar explicando toda a doutrina, sendo direto e firme em suas afirmações.
João, ao mesmo tempo que é “curto e grosso” em seu discurso, consegue falar com amor, refletindo que o nosso Deus, apesar de nos exigir viver moralmente segundo a Sua Lei e Moral perfeita, é misericordioso e amoroso para nos capacitar e nos tratar com amor. Algumas palavras são encontradas nos escritos como “filhinhos”, “filhinhos meus”, “amados”, etc, que demonstram esse amor imensurável de Deus que corrige diretamente.
João não é um doutrinador que organiza as teologias de forma sistemática, traçando linhas de conexões profundas para explicar as verdade apresentadas. O apóstolo apresenta as verdades fundamentais, utiliza das repetições afirmativas, não apenas como falta do que escrever, mas é salientar o que é primazia na vida da Igreja.
João demonstra-se “curto e grosso” com as verdades fundamentais, principalmente por estar lutando contra as heresias que ameaçavam a Igreja do primeiro século.
CRISTOLOGIA
A doutrina de Cristo é central nas duas primeiras epístolas - confirmar que Jesus é humano e divino, o Deus Filho. Os falsos profetas (“aliciadores”) não criam que Jesus tinha vindo em carne, negavam que era o Cristo, que era o Filho de Deus e ainda ensinava que Jesus não veio em forma humana.
O fato de muitos negarem a Cristologia, os “aliciadores” e muitos cristãos tinham visão completamente errada de pecado. Afirmavam estar livres do pecado, confessavam não ter pecado, negavam que a comunhão com Deus exija a “prática da verdade”, recusavam seguir o exemplo de Jesus, afirmavam estar com Deus, mas andavam em trevas e diziam que conheciam a Deus, mas não obedeciam.
HEREGES (“ALICIADORES”)
Gnóstico (deriva de γνῶσις - “gnosis” - que significa conhecimento) era um pensamento filosófico, que acabou entrando na Igreja, no qual (I) exaltavam a aquisição do conhecimento, pois o conhecimento é o fim de todas as coisas e (II) consideravam a matéria má. Por isso, sua interpretação das Escrituras era limitada e diferente da compreensão apostólica, gerando divergência.
O mundo é mau, o mau causa uma separação entre o Deus supremo e o mundo, por isso, Deus não criou o mundo; o Deus do Antigo Testamento criou o mundo, mas não é o Deus supremo, mas um poder inferior e perverso; é inconcebível a encarnação do Verbo (de Deus) na matéria, pois o corpo é impuro; não pode haver ressurreição, apenas liberdade dos grilhões do corpo impuro.
LUTA CONTRA OS “ALICIADORES”
João fala sobre aqueles que tentam enganar, aliciar ou enredar para outro caminho (πλαναω) - 1João 2.26. Todavia, não fala direta ou especificamente, mas demonstra os traços desses “aliciadores”:
a) Pessoas dentro da própria Igreja (1João 2.19), oferecendo um cristianismo superior, que se desviaram da mensagem original, reivindicando atuação “profética” especial;
b) Pessoas influenciadas pelo helenismo - gnosticismo e conhecimento obtido por experiências misteriosas e viagens celestiais da alma;
c) Pessoas que viam o cristianismo como uma religião legal, todavia precisava ser “melhorada” para encaixar nos critérios deles. O atrativo era mostrar que o gnosticismo tinha um conhecimento mais elevado e sofisticado da fé. O homem não precisa de um Salvador nem de perdão pelos pecados, pois a alma pura do homem está preso na matéria que é má. Jesus era um ser espiritual que veio despertar o povo pro mundo espiritual. E só os “pneumáticos” ou espiritualmente iluminados alcançam salvação;
d) Pessoas que não teriam compaixão ou amor pelo pecador, todavia, sendo “pneumático” e “ser humano espiritual”, nada importa com o que façamos ao corpo (matéria), nos levando à devassidão e satisfação dos desejos carnais, pois essa matéria já é podre, importando apenas o “pneumático”;
e) Pessoas que não conseguiam conceber que Jesus, sendo Deus, se tornou homem, por conta que a matéria é impura; e
f) Pessoas que diluíam o sacrifício, o amor de Deus e menosprezar o meu irmão.
O SIGNIFICADO ESPECIAL DAS CARTAS DE JOÃO
João, após a influência do gnosticismo e demais vertentes (que são até anteriores ao cristianismo) chegarem e começarem a influenciar a forma como os cristãos primitivos viam a Jesus Cristo, se empenha a mostrar que Ele é a vida. Ao mesmo tempo, João entende a necessidade de enaltecer o amor, que é o próprio Deus. Assim, o homem precisa de forma imprescindível do amor - que é Deus.
Na introdução de 1 João e ao longo da segunda e terceira epistolas, João afirma a unidade das duas naturezas (humana e divina) de Jesus Cristo.
Embora não haja uma assinatura, esta carta que lemos é atribuída ao apóstolo João (chamado por muitos do apóstolo do amor), principalmente pelas semelhanças de forma, exposição e escrita.
Estudiosos datam esta carta sendo do final do primeiro século (entre 85 e 95 d.C.), em Éfeso.
Ainda que não tenhamos evidentemente quem é o público original desta carta (e das demais), conseguimos identificar que é para cristãos de uma igreja plantada, que sofriam com os falsos ensinos sobre Cristo, pecado e filosofia.
Os cristãos da época, talvez primeira, segunda e até terceira geração, tinham provado e vivido as maravilhas dos ensinamentos do próprio Cristo, dos apóstolos e o início da Igreja Primitiva. Porém, muitos imaginavam que a volta de Jesus seria iminente (breve) e, com o passar dos anos sem a volta de Jesus, muitos crentes foram desanimando e vivendo o cristianismo como hábito – morno, formal, nominal, etc.
Esse “testamento de João”, como muitos estudiosos chamam, são instruções e admoestações para “dar um gás” nesses cristãos e para que entendessem que a vida aqui é para Deus e, ainda que Jesus não voltasse iminentemente, o propósito e os ensinamentos dEle deveriam ser vividos.
Como dito antes (e muito bem elucidado pelo Pr. Marcelo e pelo Pr. Diego nos demais sermões desse mês), a Igreja da época estava sendo infestada com pensamentos filosóficos transvestidos de cristianismo – gnosticismo e docetismo (um braço do gnosticismo):
a) Docetismo – do verbo grego dokein que significa parecer, no qual pregavam que Cristo “pareceu” ter um corpo mortal. Isto é, Jesus era um ser espiritual (fantasma), sem corpo físico. O docetismo negava que Jesus era o Verbo encarnado, como homem e como Deus. O professor Cerinto era um dos falsos mestres que ensinavam e pregavam o docetismo e os historiadores tradicionais afirmam que João o tratava como “inimigo da verdade”. O pensamento de Cerinto ia totalmente contra as Escrituras, pois distinguia Jesus homem de Jesus Deus;
b) Gnosticismo – apresentava que o corpo do homem mortal era completamente mal, mas o seu interior, seu espírito era bom e precisava ser desenvolvido/evoluído. O importante era a capacidade mental e espiritual. O pensamento gnóstico era enfático e contrário à comunidade cristã (Igreja), pois o homem precisava “se libertar a alma do cárcere da matéria [...] mediante um conhecimento elaborado, secreto e esotérico”, ou seja, na visão deles, a Igreja tornava o homem “desespiritualizado”, por isso, o homem deveria partir em na jornada da busca espiritual sozinho e pelo conhecimento que não era dado a todos, somente à uma parte dos homens. Semeavam a distinção entre o “homem comum” – aqueles que viveriam a vida física e material como animais – e o “homem espiritual/evoluído” – aqueles que eram espirituais, semelhantes a Deus, caminhavam na luz, não tinham pecado – e afirmavam que o “homem comum” deveria ser extirpado da Igreja, pois era inúteis à fé. Segregacionistas e contrários à vida como Igreja.
Esses pensamentos eram difundidos na Igreja Primitiva e o apóstolo João, contrapondo-se à essas heresias, decide escrever as epístolas à Igreja, ensinamento a verdade bíblica, consubstanciando a veracidade da encarnação de Jesus, como Cristo e Messias e como homem – 100% homem e 100% Deus.
O apóstolo João explica muito bem sobre a vida dos embaixadores no mundo na primeira epístola.
Na carta escrita por volta do final do primeiro século (entre 85 e 95 d.C.), segundo os estudiosos, o apóstolo não deixa claro qual é o seu público original, mas no teor dos escritos, podemos ver que era para cristãos de uma Igreja plantada que estavam sofrendo com falsos ensinos sobre Cristo, pecado e filosofia.
Os cristãos da época, talvez primeira, segunda e até terceira geração, tinham provado e vivido as maravilhas dos ensinamentos do próprio Cristo, dos apóstolos e o início da Igreja Primitiva. Porém, muitos imaginavam que a volta de Jesus seria iminente (breve) e, com o passar dos anos sem a volta de Jesus, muitos crentes foram desanimando e vivendo o cristianismo como hábito – morno, formal, nominal, etc.
Esse “testamento de João”, como muitos estudiosos chamam, são instruções e admoestações para “dar um gás” nesses cristãos e para que entendessem que a vida aqui é para Deus e, ainda que Jesus não voltasse iminentemente, o propósito e os ensinamentos dEle deveriam ser vividos. Ou seja, os embaixadores de Cristo na Terra deveriam refletir a vida de Jesus.
 As falsas doutrinas, como gnosticismo ou docetismo, deveriam ser rejeitadas pelo povo, mantendo a obediência a Deus e aos ensinamentos de Cristo e dos apóstolos.
Então, o apóstolo começa a carta nos instigando à comunhão com Deus, a aversão ao pecado e a remissão dos pecados por Cristo.
Ele também reafirma sobre o mandamento do amor fraternal (comunhão dos santos) e nos assegura que se permanecermos em Deus, venceremos o Maligno.
Na perícope que lemos, o apóstolo nos traz duas posições divergentes: o amor a Deus e o amor ao mundo.
João traz essas posições divergentes para elucidar a incompatibilidade de amar a Deus e amar ao mundo.
Ora, o representante de Cristo sabe também que o amor ao mundo é aversão a Deus; e, para vivermos nesse mundo como embaixadores de Cristo, precisamos amar a Deus e não ao mundo.
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