15. Título exegético: Fé e Circuncisão (Rm 4.9-12)
Romanos: O evangelho é o poder de Deus para salvação • Sermon • Submitted • Presented
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9 Esta bem-aventurança vem apenas sobre os circuncisos ou será que ela vem também sobre os incircuncisos? Porque dizemos: “A fé foi atribuída a Abraão para justiça.” 10 Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou sendo ainda incircunciso? Não foi no regime da circuncisão, mas quando ele ainda não havia sido circuncidado. 11 E Abraão recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda não havia sido circuncidado. E isto para que ele viesse a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados, a fim de que a justiça fosse atribuída também a eles. 12 Ele é também pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado.
Anotações preliminares
Anotações preliminares
Estudo principalmente os seguintes comentários bíblicos Romanos: Schreiner (2018, 2 ed.) e Moo (2018, 1 ed.).
(Eu terei que situar esse texto no contexto maior, especialmente relacionar os capítulos 3 e 4 (o capítulo 4 até o final). Se não o ouvinte poderá ficar perdido quanto ao que Paulo está dizendo nessa perícope escolhida (4.9-12).
Estudo exegético da perícope
Estudo exegético da perícope
1. O Contexto
1. O Contexto
A. Relacione a perícope à unidade literária maior da qual é parte.
A. Relacione a perícope à unidade literária maior da qual é parte.
A. A Justiça de Deus na Morte de Jesus (3.21-26);
B. Justiça pela Fé para Judeus e Gentios (3.27-31);
C. Abraão como o Pai dos Judeus e dos Gentios (4.1-25 - estamos aqui).
No cap. 4 de Romanos, Paulo recorre a Abraão para apoiar sua insistência no fato de que a justiça pode ser obtida somente por meio da fé. O propósito de Paulo aqui não é apenas estabelecer a doutrina da fé somente, mas especialmente extrair as implicações dessa doutrina. A implicação mais importante dessa doutrina é a criação de uma só família, um povo que inclui tanto gentios como judeus. Para cumprir esses propósitos, Paulo “expõe” Gênesis 15.6 em Rm 4.3.
B. Relacione a perícope ao seu contexto imediato.
B. Relacione a perícope ao seu contexto imediato.
Romanos cap. 4:
Nos vv. 1 e 2 de Rm 4, Paulo apresenta seu problema em relação ao “direito” de Abraão de se orgulhar. No v. 3, Paulo cita Gn 15.6 e o expõe durante boa parte do cap. 4 de Romanos. Nos vv. 3-8, Paulo mostra que a imputação da fé de Abraão como justiça é um ato puramente gracioso que exclui qualquer apelo a obras. Nos vv. 9-12, domina o contraponto entre circuncisão e incircuncisão. Aqui, Paulo mostra que a “creditação” da fé de Abraão como justiça ocorre antes de sua circuncisão. Esse mesmo interesse na importância inclusiva de Abraão é realçado nos vv. 13-22, em que Paulo concentra sua atenção na promessa de que Abraão seria pai de muitas nações. A citação de Gn 15.6 no fim do v. 22 leva a exposição de Paulo de volta para onde ela começou no v. 3. Os últimos 3 versículos do capítulo 4 de Romanos aplicam as lições que Paulo extraiu desse texto a seus leitores cristãos.
Por que Paulo escolheu Abraão como ponto de referência para esse desenvolvimento? Segundo o judaísmo do primeiro século (época dos destinatários originais da carta aos Romanos), Abraão era particularmente um modelo de obediência a Deus. Sua justiça e mediação da promessa eram ligadas a essa obediência: argumentava-se até mesmo que ele havia obedecido perfeitamente à Lei antes de ela ter sido dada. Paulo realmente mostra a seus leitores romanos que esse entendimento de Abraão, que os seus oponentes judaicos e cristãos judaicos certamente citavam contra o seu ensino, não era o entendimento dele do que o AT afirmava sobre Abraão. Paulo tira Abraão de exemplo de obediência à Torá para os judeus e o torna um exemplo de fé. Como resultado, Abraão deixa de ser, para Paulo, o pai dos judeus exclusivamente, e passa a ser o pai de todos os que creem. Mas, para o apóstolo, Abraão é mais do que isso: como aquele que recebeu a promessa de Deus primeiro, a fé dele em Deus estabelece o padrão de como Deus viria a lidar com seu povo; e a promessa de que ele, por fim, seria o pai de muitas nações é um indicador fundamental da direção em que o plano de Deus na história está se movendo. Paulo mostra que seu ensino é, de fato, “atestado pela Lei e pelos Profetas” (3.21; 1.2). Ele considerou vital demonstrar essa continuidade por causa do próprio evangelho, que é o evangelho de Deus (1.1).
C. Apresente o fluxo argumentativo da perícope (sua estrutura mais ampla).
C. Apresente o fluxo argumentativo da perícope (sua estrutura mais ampla).
Parte 1: Fluxograma Textual — Romanos 4.9-12
Parte 1: Fluxograma Textual — Romanos 4.9-12
Tradução usada: NAA — Nova Almeida Atualizada.
**SENTENÇA** 9 Esta bem-aventurança vem apenas sobre os circuncisos └── **PONTO** ou será que ela vem também sobre os incircuncisos? **SUPORTE** Porque dizemos: └── **SUB-PONTO** “A fé foi atribuída a Abraão para justiça.” **COMPLEXO** 10 Como, pois, lhe foi atribuída? ├── **PONTO** Estando ele já circuncidado ├── **PONTO** ou sendo ainda incircunciso? └── **PRINCÍPIO** Não foi no regime da circuncisão, └── **PONTO** mas quando ele ainda não havia sido circuncidado. **SENTENÇA** 11 E Abraão recebeu o sinal da circuncisão ├── **ELABORAÇÃO** como selo da justiça da fé │ └── **SUB-PONTO** que teve │ └── **CIRCUNSTÂNCIA** quando ainda não havia sido circuncidado. └── **PRINCÍPIO** E isto para que ele viesse a ser o pai de todos os que creem, ├── **CIRCUNSTÂNCIA** embora não circuncidados, └── **SUB-PONTO** a fim de que a justiça fosse atribuída também a eles. **SENTENÇA** 12 Ele é também pai da circuncisão, ├── **ELABORAÇÃO** isto é, ├── **SUB-PONTO** daqueles que não são apenas circuncisos, └── **SUB-PONTO** mas também andam nas pisadas da fé └── **ELABORAÇÃO** que teve Abraão, nosso pai, └── **CIRCUNSTÂNCIA** antes de ser circuncidado.
Parte 2: Justificativa da Análise e Processo de Pensamento
Parte 2: Justificativa da Análise e Processo de Pensamento
Em Romanos 4.9-12, Paulo desenvolve um argumento cuidadosamente ordenado. A questão central é se a bem-aventurança da justiça atribuída por Deus pertence somente aos circuncisos ou também aos incircuncisos. A resposta de Paulo depende de uma observação histórica: Abraão recebeu a justiça pela fé antes de ser circuncidado.
A primeira linha foi marcada como SENTENÇA porque introduz a pergunta dominante da perícope: “Esta bem-aventurança vem apenas sobre os circuncisos...?” A expressão “esta bem-aventurança” retoma Romanos 4.6-8, onde Paulo citou Davi sobre a felicidade daquele a quem Deus não atribui pecado. Agora, ele pergunta qual é o alcance dessa bem-aventurança.
A frase “ou será que ela vem também sobre os incircuncisos?” foi marcada como PONTO porque completa a alternativa apresentada na pergunta. Paulo coloca lado a lado dois grupos: os circuncisos e os incircuncisos. A força discursiva está no contraste. Ele obriga o leitor a perceber que a questão não é apenas individual, mas comunitária e pactual: quem participa da justiça atribuída por Deus?
A linha “Porque dizemos” foi marcada como SUPORTE porque introduz a base da argumentação. Paulo não responde primeiro com uma conclusão, mas com uma evidência já estabelecida: “A fé foi atribuída a Abraão para justiça.” Essa citação de Gênesis 15.6, já usada em Romanos 4.3, funciona como fundamento lógico para a pergunta seguinte.
O versículo 10 foi marcado como COMPLEXO porque Paulo cria uma construção interrogativa que prepara a conclusão principal. “Como, pois, lhe foi atribuída?” não é uma pergunta neutra; ela direciona o leitor para a circunstância temporal da justificação de Abraão. Paulo quer saber em que condição Abraão estava quando a fé lhe foi atribuída para justiça.
As duas linhas “Estando ele já circuncidado” e “ou sendo ainda incircunciso?” foram marcadas como PONTO porque formam uma alternativa paralela. Aqui, a oposição não é meramente gramatical; é teológica. Se Abraão foi justificado já circuncidado, a circuncisão poderia ser vista como condição para a justiça. Mas, se foi justificado ainda incircunciso, então a circuncisão não pode ser fundamento da justiça.
A resposta “Não foi no regime da circuncisão” foi marcada como PRINCÍPIO porque apresenta a conclusão interpretativa da pergunta anterior. Paulo elimina a opção de que a justiça tenha sido atribuída a Abraão enquanto ele estava “no regime da circuncisão”. A expressão “regime” é importante na NAA porque ressalta não apenas o estado físico de Abraão, mas a esfera ou ordem religiosa associada à circuncisão.
A frase “mas quando ele ainda não havia sido circuncidado” foi marcada como PONTO porque completa o contraste. Paulo não apenas nega uma possibilidade; ele afirma positivamente a outra. A justiça veio antes da circuncisão. Essa anterioridade é o eixo lógico da perícope.
No versículo 11, “E Abraão recebeu o sinal da circuncisão” foi marcado como SENTENÇA porque introduz uma nova etapa do argumento. Paulo agora explica a função correta da circuncisão. Ele não a descarta, mas a subordina à fé. A circuncisão é recebida depois, não antes; portanto, ela não causa a justiça, mas a confirma.
A expressão “como selo da justiça da fé” foi marcada como ELABORAÇÃO porque explica a função do “sinal da circuncisão”. Paulo define a circuncisão como selo, isto é, como confirmação visível de uma justiça já recebida pela fé. A circuncisão tem valor, mas seu valor é derivado e testemunhal.
A frase “que teve” foi marcada como SUB-PONTO porque especifica a justiça da fé possuída por Abraão. Ela mostra que a justiça não era uma possibilidade futura, mas algo já presente na experiência de Abraão.
A circunstância “quando ainda não havia sido circuncidado” foi marcada como CIRCUNSTÂNCIA porque fornece o enquadramento temporal decisivo. Essa informação sustenta todo o argumento: Abraão possuía a justiça da fé antes de possuir o sinal da circuncisão.
A declaração “E isto para que ele viesse a ser o pai de todos os que creem” foi marcada como PRINCÍPIO porque Paulo tira uma conclusão teológica da ordem dos eventos. Se Abraão foi justificado antes da circuncisão, então ele pode ser pai de todos os crentes, inclusive dos incircuncisos. A paternidade de Abraão é definida primariamente pela fé.
A frase “embora não circuncidados” foi marcada como CIRCUNSTÂNCIA porque descreve a condição dos crentes incluídos nessa paternidade. Eles creem, mas não possuem o sinal judaico da circuncisão. Isso reforça o alcance universal do argumento.
A linha “a fim de que a justiça fosse atribuída também a eles” foi marcada como SUB-PONTO porque expressa o propósito ou resultado da condição anterior. Paulo mostra que a justiça atribuída a Abraão pela fé se torna paradigma para os incircuncisos que creem.
No versículo 12, “Ele é também pai da circuncisão” foi marcado como SENTENÇA porque Paulo equilibra sua conclusão. Ele não exclui os circuncisos; pelo contrário, afirma que Abraão também é pai deles. Mas essa paternidade precisa ser corretamente definida.
A expressão “isto é” foi marcada como ELABORAÇÃO porque introduz uma explicação restritiva. Paulo esclarece que “pai da circuncisão” não significa pai de qualquer pessoa circuncidada simplesmente pelo rito externo.
A linha “daqueles que não são apenas circuncisos” foi marcada como SUB-PONTO porque restringe o grupo. A circuncisão sozinha não é suficiente para estabelecer verdadeira descendência abraâmica.
A frase “mas também andam nas pisadas da fé” foi marcada como SUB-PONTO porque completa a condição positiva. O verdadeiro descendente circunciso de Abraão não é apenas quem possui o sinal, mas quem caminha no mesmo padrão de fé.
A expressão “que teve Abraão, nosso pai” foi marcada como ELABORAÇÃO porque identifica de que fé Paulo está falando. Não é fé genérica, mas a fé exemplar de Abraão.
Por fim, “antes de ser circuncidado” foi marcada como CIRCUNSTÂNCIA porque fecha a perícope retomando o ponto decisivo do argumento. Paulo encerra onde concentrou sua prova: a fé de Abraão precedeu a circuncisão. Portanto, tanto incircuncisos quanto circuncisos só participam corretamente da linhagem de Abraão pela fé.
O movimento argumentativo da perícope é: pergunta sobre o alcance da bem-aventurança; base bíblica em Abraão; investigação da circunstância temporal; conclusão de que a justiça veio antes da circuncisão; redefinição da circuncisão como selo; aplicação aos incircuncisos que creem; e aplicação aos circuncisos que também seguem a fé de Abraão.
Parte 3: Legenda dos Dispositivos Usados
Parte 3: Legenda dos Dispositivos Usados
DispositivoExplicação Didática**SENTENÇA**Função: Apresenta a ideia principal ou o próximo passo na narrativa/argumento. Pense nisso como: A espinha dorsal do texto. É a afirmação central à qual as outras ideias se conectam.**PRINCÍPIO**Função: Apresenta uma conclusão ou resultado lógico. Pense nisso como: A "moral da história" ou a aplicação prática, frequentemente introduzida por "portanto" ou "por isso".**SUPORTE**Função: Fornece a razão ou a base lógica para a declaração anterior. Pense nisso como: A resposta à pergunta "Por quê?", geralmente introduzida por "pois" ou "porque".**COMPLEXO**Função: Sinaliza que uma circunstância ou condição será apresentada antes da ideia principal. Pense nisso como: Uma placa de "Atenção: contexto à frente", avisando que a SENTENÇA principal vem depois.**SUB-PONTO**Função: Detalha ou especifica a ideia da linha anterior. Pense nisso como: Um subtópico que aprofunda ou esclarece a ideia principal, respondendo a perguntas como "De que forma?".**ELABORAÇÃO**Função: Adiciona detalhes descritivos, explicando como uma ação acontece ou enriquecendo uma cena. Pense nisso como: Um "zoom" na cena, pintando um quadro mais vívido sem necessariamente avançar a história.**CIRCUNSTÂNCIA**Função: Apresenta o cenário ou a situação que envolve a ação principal. Pense nisso como: Uma informação de fundo que prepara o terreno para a SENTENÇA principal.**PONTO**Função: Destaca itens em uma lista ou ideias gramaticalmente paralelas. Pense nisso como: Os marcadores (•) de uma apresentação, dividindo uma ideia maior em partes claras.
D. Examine os detalhes da perícope.
D. Examine os detalhes da perícope.
Voltando rapidamente ao seu texto-chave, Paulo observa mais um aspecto significativo da creditação da fé de Abraão como justiça — ela ocorreu antes de ser circuncidado. Essa circunstância permite que Paulo afirme Abraão como o pai de todos os cristãos. Paulo deixa claro que não é necessário ser judeu para se tornar um membro do povo de Deus. A fé somente é suficiente para entrar na família espiritual de Abraão. Como o receptor e mediador da promessa, sua experiência se torna paradigmática para sua progênie espiritual.
v. 9
Paulo agora retoma Gn 15.6 para acrescentar uma dimensão à sua aplicação de Salmos 32.1-2. A pergunta levantada é se a bem-aventurança é aplicável somente aos circuncisos ou aos incircuncisos também. A segunda frase do versículo não explica a pergunta inicial nem a responde. Antes, Paulo prepara o terreno aqui para sua resposta.
V. 10
Paulo foca no significado e nas circunstâncias da “creditação” da fé de Abraão. A resposta de Paulo é clara e direta: “Foi quando ele ainda era incircunciso”. A fé de Abraão é creditada como justiça quando Deus lhe prometeu um filho (Gn 15), mas é somente muito mais tarde - vinte e nove anos depois, de acordo com os rabinos 0 que ele é circuncidado (Gn 17).
v. 11
Na primeira parte desse versículo, Paulo amplia sua resposta mostrando a relação entre a justificação de Abraão pela fé e sua circuncisão posterior. Qual foi o significado da circuncisão de Abraão? Paulo afirma que foi um “sinal”, “um selo de justiça de fé que foi sua quando ainda não havia sido circuncidado”. Gn 17.11 chama a circuncisão de um “sinal da aliança”. A fonte de tudo na experiência de Abraão com o Senhor, Paulo sugere, é sua justificação pela fé. “Selo” aqui nota algo que “confirma” a verdade ou a realidade de outra coisa - no caso, a circuncisão de Abraão confirma sua condição justa, uma condição que era sua em virtude de sua fé. Portanto, a circuncisão não tem valor independente; ela nem mesmo “marca” uma pessoa como pertencente ao povo de Deus sem um ato justificador anterior. Abraão foi declarado justo quando ainda era incircunciso. Sua circuncisão posterior simplesmente simbolizou e confirmou essa condição.
Porque Abraão creu quando era incircunciso, ele é o pai de todos os crentes gentios; porque ele creu e também foi circuncidado, está qualificado para ser o pai de todos os crentes judeus. Paulo agora reivindica Abraão e a herança dele (vv. 16-17) para qualquer pessoa que crê.
V. 12
Após a breve interrupção no fim do v. 11, Paulo retoma a sua frase de propósito principal. Mas quem faz parte da categoria “da circuncisão”? Além dos gentios que creem, os filhos de Abraão também são os judeus que creem. De acordo com o tema do parágrafo, Paulo novamente destaca que a fé de Abraão que os cristãos judeus imitam é uma fé que foi exercida, primeiro, quando Abraão estava em um “estado incircunciso”. Os judeus que seguem o paradigma bíblico darão o valor apropriado à sua circuncisão, ou seja, como a marca de um relacionamento que eles desfrutam com o Senhor por meio da fé, não como um visto que garantirá automaticamente a entrada deles no céu.
