A Ressurreição e o Casamento

A Ressurreição de Jesus Muda Todas as Coisas  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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SÉRIE: A RESSURREIÇÃO DE JESUS MUDA TODAS AS COISAS — Sermão 5
Igreja Cristã Evangélica do Calvário — Ubajara
Efésios 5.25–32

A RESSURREIÇÃO E O CASAMENTO

I. Introdução

Nesta série temos meditado em como a ressurreição de Jesus muda todas as coisas. A proposta não é abordar a ressurreição de forma abstrata — é responder com precisão: como a ressurreição de Jesus influencia cada área da nossa vida? Começamos pela missão da Igreja, descemos para as marcas do verdadeiro discípulo, passamos pela identidade do crente, culpas e fracassos, e chegamos hoje ao casamento.
Há um ano, na série “O Rei que se Tornou Servo”, pregamos a partir de Marcos 10.1–12. Jesus foi provocado pelos fariseus com uma pergunta sobre divórcio — e sua resposta foi, antes de responder sobre a exceção, voltar à ordenança. Voltou à criação. Gênesis 1.27, 2.24 — Deus os fez homem e mulher, e o que Deus uniu ninguém separe. O casamento é instituição divina. Quero que relembremos isso.
Na segunda mensagem da atual série, expusemos Colossenses 3, e os versículos 18–19 apareceram ali — esposas submissas, maridos que amam. Mas o argumento era como uma ressurreição verídica produz frutos em um verdadeiro discípulo. O casamento passou por dentro de um contexto maior, rapidamente. Não foi acidental avisarmos que voltaríamos. Hoje chegamos ao casamento como tema central.
As perguntas que nos movem são estas: com a ressurreição de Jesus, como fica o casamento? O que a ressurreição revela sobre o que o casamento é [ou sempre foi]? Como vivemos a vida conjugal a partir da realidade da ressurreição? Como casamentos que já na criação devem ser voltados para Deus experimentam agora a nova criação que Deus tem feito através de Cristo Jesus? Como nosso casamento, que vive na realidade da temporalidade, vive à luz da eternidade?
Para responder, vamos a Efésios 5.22–32. Paulo passa versículos instruindo sobre o casamento — e então, no versículo 32, revela algo que muda a leitura de tudo o que veio antes. Vamos ler o texto:
Nova Versão Internacional 5.22 Deveres Conjugais

22 Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, 23 pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. 24 Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.

25 Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela 26 para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, 27 e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. 28 Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. 29 Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, 30 pois somos membros do seu corpo. 31 “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.” 32 Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja.

“Este mistério é grande — e digo isto com referência a Cristo e à Igreja.” Paulo instrui sobre o casamento por seis versículos e então é como se virasse o texto pelo avesso. O que parecia ser uma instrução conjugal era, o tempo todo, uma instrução sobre Cristo e a Igreja. Esse versículo 32 não é a conclusão que Paulo acrescenta ao final — é a premissa que ele guardou para o momento certo. É a realidade teológica que abre tudo o que veio antes. E é o ponto de entrada desta mensagem.

II. Exposição

1. A ressurreição revela o sentido que o casamento sempre carregou (v.32)

“Este mistério é grande.” To mystērion touto — a palavra ‘mistério’ no vocabulário paulino não é algo obscuro ou irracional. É uma realidade que estava velada mas que foi revelada em Cristo. E o mistério aqui é preciso: o casamento entre homem e mulher foi criado como reflexo de uma realidade anterior e maior — a união entre Cristo e a Igreja.
Note a inversão que isso produz. A lógica natural seria: Paulo olha para o casamento humano e usa-o como analogia para descrever Cristo e a Igreja. Mas Paulo está dizendo o oposto. O casamento humano não é o original — é o reflexo. Cristo e a Igreja é a realidade. O casamento humano foi criado para ilustrar algo que o precede eternamente. Como observa Keller em O Casamento: você não pode compreender o casamento sem compreender o evangelho, porque o casamento foi desenhado para ilustrá-lo. A ressurreição muda nossos casamentos não porque ela modifique o casamento — mas porque ela revela o sentido que o casamento sempre carregou.
E aqui entra a ressurreição de forma direta. Apocalipse 19.6–9 descreve o destino para o qual o casamento aponta: “e vi as bodas do Cordeiro, e a sua esposa já se aprontou”. O casamento do Cordeiro é a consumação do que todos os casamentos humanos anteciparam. E a ressurreição é o evento que garante que esse casamento acontecerá. Sem ela, Cristo não volta. Sem a volta de Cristo, o casamento do Cordeiro em Apocalipse 19 é uma promessa sem fundamento histórico. Mas se Cristo ressuscitou — e ressuscitou — então o mistério de que Paulo fala não é poesia. É o destino garantido para o qual cada casamento cristão aponta.
Isso tem uma implicação que muda completamente a forma de avaliar um casamento. Como toda parábola, o casamento é temporário. Jesus declara em Mateus 22.30 que na ressurreição não haverá casamentos — “serão como os anjos de Deus no céu”. Mas isso não é diminuição — é revelação da natureza do sinal. O que é temporário nem sempre é sem valor ou sem glória. Muitas das melhores e mais formativas coisas que vivemos se encontram no ordinário da temporalidade. O dia em que trocamos votos e alianças. A criança que andava pela casa e de repente se tornou adulta. O conto de fadas que nos deu coragem para desafios morais da vida real. Coisas temporárias ficam. Permanecem além do seu prazo de validade.
O casamento é temporal não porque seja menos importante, mas porque é sinal. E sinais são substituídos pela realidade quando ela chega. Viver o casamento à luz dessa verdade significa duas coisas simultaneamente: levá-lo com seriedade plena porque é o sinal mais íntimo de uma realidade eterna — e segurá-lo com as mãos abertas porque não é o destino final. O cônjuge não é o destino. É um companheiro de jornada em direção a um destino que os ultrapassa a ambos.
Aplicação: O critério de avaliação de um casamento muda quando você sabe para onde ele aponta. A pergunta não é apenas “estamos felizes?” — é “estamos sendo um sinal fiel do amor de Cristo pela Igreja?” Um casamento que persiste, perdoa, serve e glorifica a Deus não é apenas bem-sucedido na escala humana. Discipula e cria um ambiente de santificação. Está proclamando algo de real sobre o amor de Cristo e sobre um futuro que a ressurreição garante.

2. A ressurreição traz à luz o amor que o casamento exige (v.25–27)

Agora que Paulo revelou a chave — o mistério do versículo 32 — podemos reler os imperativos com os olhos certos. Paulo abre com um imperativo que, quanto mais você o examina, mais pesado ele fica: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela”.
O padrão não é “amem bastante”. Não é “amem sacrificialmente quando possível”. O padrão é Cristo que foi à cruz. Cristo que se entregou. Cristo que amou a Igreja não quando ela era amável, mas quando ela era inimiga (Rm 5.8). E os versículos 26–27 revelam o propósito desse amor: “para que a santificasse... para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, porém santa e sem defeito”. O amor de Cristo não apenas protege a Igreja — transforma. O marido que ama como Cristo não apenas sustenta a esposa — a desenvolve. Como Paulo dirá no versículo 28: aquele que ama a sua mulher ama a si mesmo.
Meus irmãos, isso é o amor triunfante que a ressurreição revela. Cristo ressuscitou e recebeu um nome acima de todo nome porque foi obediente até a morte — e morte de cruz (Fp 2.8–9). O amor que vence não é o amor que evita o custo. O evangelho de Jesus nos apresenta cabalmente que o amor triunfante é aquele que está disposto a maior abnegação. É o amor que atravessa o custo e ressurge do outro lado. Não que o casamento seja uma cruz — mas ele possui as suas cruzes. Não no sentido de simplesmente suportar o insuportável (“engolir sapos”). Mas no sentido de que um tipo de serviço exige um tipo de amor: o amor sacrificial. Se não estamos dispostos a morrer ao eu, não estamos prontos para casar. O casamento não é a coroação de um namoro que deu certo. É a porta de entrada de uma vida em que duas pessoas deixarão de ser o que eram e se tornarão novas pessoas na comunhão matrimonial.
E há uma ameaça que precisa ser nomeada: um inimigo do casamento contemporâneo não é a ‘falta de amor’ — é o excesso de expectativa. Quando a identidade não está ancorada em Cristo, o casamento se torna o lugar onde buscamos o que só Deus pode dar: identidade última, pertencimento incondicional, felicidade completa, amor que nunca falha. Entramos no casamento — erroneamente — para sermos felizes. Não que não possamos ser felizes nem que a felicidade não seja consequência de um casamento que encontra seu alvo. Mas casamos para, unidos ao nosso cônjuge, nos auxiliarmos na tarefa de viver para a glória de Deus. O casamento é uma das principais escolas do discípulo. E nela uma das virtudes mais imperativas e desafiadoras será o amor.
Os sermões anteriores desta série já lançaram o fundamento para isso: sua vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3.3), você é amado pelo Pai antes da fundação do mundo (1Jo 3.1). Quem sabe isso não chega ao casamento pedindo o que o cônjuge não tem condições de dar. A ressurreição liberta o cônjuge de uma responsabilidade que o destruiria — e liberta o casamento de uma decepção que seria inevitável. O cônjuge não precisa ser o Senhor. O Senhor já ressuscitou.
Aplicação: Examine o que você está pedindo ao seu casamento. Se o seu cônjuge falhar em amar como você precisa ser amado e isso abalar a base de quem você é — a base está no lugar errado. Não é demérito do seu cônjuge — é diagnóstico de onde sua identidade está ancorada. A ressurreição muda não apenas o destino eterno: muda o endereço da nossa identidade agora. E quando a identidade está certa, o casamento respira — e há espaço para amar um amor que não busca os próprios interesses.

3. A ressurreição torna possível o casamento que Paulo descreve (v.25–28)

Se o ponto anterior estabeleceu a demanda, este ponto responde a pergunta que essa demanda inevitavelmente levanta: como? Como um marido ama sua esposa como Cristo amou a Igreja — quando Cristo foi à cruz e ele é apenas um pecador que não consegue encontrar as chaves de casa? Como uma esposa se submete voluntariamente a um homem falho — quando a sujeição que Paulo descreve pressupõe um marido que é como Cristo? Como um marido ama uma esposa que parece querer dominá-lo? Como um casal pratica o perdão que o próprio Jesus ensinou — “setenta vezes sete” — dentro de quatro paredes, na rotina, nas brigas repetidas?
A resposta não está no esforço moral acumulado. Está em Romanos 6.4: “fomos sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida.” A vida nova que a ressurreição inaugura é a fonte do amor que Efésios 5 exige. Não é imitação de Cristo — é participação em Cristo. Gálatas 2.20: “já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”. O marido que ama como Cristo não está se esforçando para ser Cristo — está deixando que Cristo, que habita nele pelo Espírito, ame através dele. A ética conjugal de Efésios 5 é impossível sem Romanos 6.4.
Isso ilumina a ética que Paulo articula nos versículos anteriores. As instruções conjugais — a submissão da mulher e o amor sacrificial do marido — não são convenções culturais do primeiro século. São ética de nova criação. A submissão da mulher é tipológica: reflete a relação da Igreja com Cristo — que não é servidão, mas confiança voluntária em quem, sendo cabeça, é também Salvador. Paulo é preciso: não é submissão à figura masculina em geral, mas ao próprio marido — àquele com quem ela firmou aliança diante de Deus. A esposa que confia voluntariamente na liderança de um marido falho não está sendo ingênua — está agindo a partir de uma realidade concreta: Cristo ressuscitou. O amor do marido é cristológico: reflete o amor de Cristo que foi à cruz não por uma noiva limpa, mas para torná-la. Um casamento que vive essa ética não está sendo arcaico — está sendo escatológico. Está vivendo agora o que a nova criação tornará universal.
E o casamento é o lugar onde o perdão é mais necessário e mais difícil. A intimidade da vida conjugal significa que é ali que as falhas ficam mais visíveis, as feridas mais profundas e a memória das ofensas mais persistente. É também ali onde vivemos mais intensamente textos como “perdoai-vos mutuamente, como também Deus em Cristo vos perdoou” (Ef 4.32). A ressurreição fundamenta esse perdão de duas formas. Primeiro: a ressurreição é a declaração do Pai de que a obra expiatória de Cristo foi aceita — você foi perdoado de uma dívida impagável, o que cria a base e a lógica para perdoar dívidas menores. Segundo: a ressurreição garante que o amor que atravessa a morte vence. O perdão conjugal também exige uma espécie de morte ao eu. E quem sabe que morrer não é o fim — que a ressurreição é real — consegue morrer ao eu dentro do casamento com uma esperança que quem não crê não possui. Perdão conjugal é vitória da ressurreição dentro do lar.
Aplicação: O melhor casamento não é o perfeito — é o casamento onde o marido ama a esposa sacrificialmente, onde a esposa confia voluntariamente na liderança do marido, onde o perdão é real porque a ressurreição é real. Um casamento que aponta para além de si mesmo. E guarde: o melhor presente que você pode dar aos seus filhos sempre será um bom casamento. Seus filhos aprenderão o que é o amor de Cristo pela Igreja não primeiramente num sermão — mas nas quatro paredes da sua casa, no dia a dia ordinário de dois pecadores redimidos que ainda estão aprendendo a morrer um pelo outro.

III. Conclusão

Paulo chega ao versículo 32 e revela a premissa que sustentava tudo: este mistério é grande — Cristo e a Igreja. Com isso, revela também o peso do que estamos falando quando falamos de casamento. Não é apenas uma instituição social. Não é apenas um contrato entre duas pessoas. Não é um projeto de felicidade pessoal. É um sinal. Aponta para o amor de Cristo pela Igreja. Aponta para o casamento do Cordeiro que a ressurreição garante.
Quando a ressurreição é real — quando o túmulo está vazio e Cristo realmente voltará — o casamento ganha uma seriedade e uma serenidade que nenhuma outra visão de casamento consegue dar. Seriedade: porque o sinal importa exatamente porque a realidade que ele representa é real. Serenidade: porque o destino de ambos os cônjuges é maior do que o casamento pode conter — e isso liberta o casamento da pressão de ser tudo.
O casamento mais forte não é o que os dois se amam muito. É o que os dois sabem de onde vem o amor, para onde vai e em quem está fundado.
Soli Deo Gloria
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