O Deus Santo e seu Povo

A vida na presença de Deus  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Em Êxodo 19.1-25, antes de entregar os Dez Mandamentos, Deus revela o contexto de Sua aliança com Israel. Ele relembra a libertação graciosa do Egito, chamando o povo para ser Seu tesouro particular e uma nação santa. Contudo, a impressionante manifestação divina no Sinai — com fogo, nuvens e trovões — demonstra a absoluta santidade de Deus e o perigo do pecado. O temor gerado aponta para a nossa profunda necessidade de Jesus Cristo, o Mediador perfeito que nos reconcilia com o Senhor.

Notes
Transcript

Introdução

Temos visto a série de pregações “A vida na presença de Deus”, que trata dos 10 Mandamentos, um dos textos mais conhecidos da Bíblia.
Semana passada vimos que os quatro primeiros mandamentos fundamentam a ideia de certo e errado para o cristão, sendo consequência da relação graciosa de Deus com seu povo. Ou seja, Deus dá mandamentos aos seus filhos porque já os ama e já os quer bem.
Antes de detalhar cada mandamento, voltaremos um capítulo hoje para entender o contexto e o “clima” em que foram dados. Isso evitará que os vejamos como meras proibições, permitindo enxergar o que realmente são: o fruto de uma relação profunda entre Deus e nós, seu povo.

Exposição

v.1 - No terceiro mês depois da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia desse mês, eles chegaram ao deserto do Sinai. v.2 - Tendo partido de Refidim, vieram ao deserto do Sinai, no qual acamparam; ali Israel acampou em frente ao monte. v.3 - Moisés subiu para encontrar-se com Deus. E do monte o SENHOR o chamou e lhe disse: — Assim você falará à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel: v.4 - “Vocês viram o que fiz aos egípcios e como levei vocês sobre asas de águia e os trouxe para perto de mim.

Havia pouco mais de três meses que Deus se apresentara como o “Eu Sou” (YHWH). Havia três meses que os israelitas deixaram a escravidão, presenciando o Senhor fazendo milagres para dobrar o orgulho de Faraó e abrindo o mar para o povo passar.
Aquelas pessoas estavam impressionadas com Deus. Que poder para derrotar a maior nação do mundo e controlar a natureza! Que misericórdia profunda para livrar um povo escravo! O grande EU SOU é incomparável.
Agora eles chegam a uma montanha chamada Sinai[1] e acampam ao pé do monte.
Essa parada não é por acaso. Antes da libertação, Deus dissera a Moisés que o povo adoraria ali (Êx 3.12); portanto, mais que descanso, aquilo era cumprimento de promessa: o chamado para cultuarem juntos naquele lugar.
A frase final dessa seção traz duas afirmações especiais:
Primeiro, Deus diz que os levou em asas de águia. As águias da região cuidam dedicadamente de um só filhote, apontando para a atenção do Senhor com Israel.
Segundo, e mais profundo, o Senhor os trouxe para si. Quando Deus liberta seu povo, não o abandona à própria sorte (“te libertei, agora se vira”), mas o traz para perto. O objetivo divino sempre foi a proximidade e o relacionamento com os salvos. O alvo final não era a mera liberdade, mas a comunhão.
Quem é salvo por Deus, deve desejar a presença dele.
Você foi liberto, salvo do seu pecado? Você consegue ver que Jesus o tirou da velha vida? O que mudou em você desde que Jesus entrou em sua vida?
Ainda, você deseja a presença dele? Você quer cultuá-lo com os irmãos ou quer mais outras coisas que cultuar a Deus?

v.5 - Agora, pois, se ouvirem atentamente a minha voz e guardarem a minha aliança, vocês serão a minha propriedade peculiar dentre todos os povos. Porque toda a terra é minha, v.6 - e vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” São estas as palavras que você falará aos filhos de Israel. v.7 - Moisés foi, chamou os anciãos do povo e expôs diante deles todas estas palavras que o SENHOR lhe havia ordenado. v.8 - Então todo o povo respondeu a uma só voz: — Tudo o que o SENHOR falou faremos. E Moisés relatou ao SENHOR as palavras do povo.

Apesar de Deus trazer o povo para si, a realidade é que foram 420 anos vivendo no Egito. Tempo suficiente para os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó aprenderem os costumes daquele país. Eles eram israelitas, mas, por dentro, também um pouco egípcios.
Como vimos, o objetivo de Deus era fazer deles Seu povo. O Senhor esclarece que tudo já é d'Ele, então, num sentido, os israelitas já Lhe pertenciam, mas agora teriam uma relação mais profunda e exclusiva com Deus.
Naquela época, os reis se viam como donos de todas as terras e pessoas do reino. Apesar disso, eles tinham acesso restrito a quase tudo, exceto ao seu tesouro particular (סְגֻלָּה֙ - sĕgullâ). Deus diz que os israelitas são esse tesouro particular d'Ele.
Deus propõe esse relacionamento íntimo, mas, para isso, eles seguiriam leis diferentes de todos os outros povos.
Veja que Deus é Salvador, mas é também Senhor. Ele nos transforma em Seu povo, cuida, livra e nos liberta. Então, se somos Seu povo, devemos agir como tal. E o povo aceitou.
Quem é chamado por Deus deve aceitar ser transformado em um novo povo.
E você? Você quer ser parecido com o povo de Deus ou com o povo sem Deus? Sua identidade está em ouvir e obedecer a Deus ou ouvir e obedecer aos costumes e teorias do mundo?

v.9 - O SENHOR disse a Moisés: — Eis que virei a você numa nuvem escura, para que o povo ouça quando eu falar com você e para que também creiam sempre em você. Porque Moisés tinha anunciado as palavras do povo ao SENHOR. v.10 - E o SENHOR disse a Moisés: — Vá ao povo e consagre-o no dia de hoje e amanhã. Que eles lavem as suas roupas v.11 - e estejam prontos para o terceiro dia, porque no terceiro dia o SENHOR, à vista de todo o povo, descerá sobre o monte Sinai. v.12 - Marque ao redor do monte limites para o povo, dizendo: “Tomem cuidado para não subir o monte, nem tocar a sua extremidade. Todo aquele que tocar o monte será morto. v.13 - Mão nenhuma tocará nele. Se o fizer, será apedrejado ou flechado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá. Quando soar longamente a trombeta, então subirão o monte.” v.14 - Moisés desceu do monte para junto do povo e consagrou o povo; e lavaram as suas roupas. v.15 - E Moisés disse ao povo: — Estejam prontos no terceiro dia. Que até lá ninguém tenha relações com a sua mulher.

Deus queria estar perto de seu povo, mas há um grande problema: Deus é santo e as pessoas são pecadoras. A Bíblia diz:
Êxodo 33.20 “E acrescentou: — Você não poderá ver a minha face, porque ninguém verá a minha face e viverá.”
Hebreus 12.14 “Procurem viver em paz com todos e busquem a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.”
O povo já havia sido liberto, mas não devia chegar a Deus de qualquer jeito. Mas o Deus que salva, também é o que santifica: Ele realmente quer que estejamos na presença dele, por isso nos instrui nos próximos passos.
Perceba que, quando Deus impõe limites para seu povo, é também para preservá-los.
Imagina alguém que gosta muito de comer pequi. A pessoa ama aquele sabor, mas quem conhece o pequi sabe que, por mais que você goste dele, é necessário comer do jeito certo, raspando levemente a polpa com os dentes, para não correr o risco de quebrar o ouriço e encher a boca com os espinhos do caroço.
De forma similar, para se achegar a Deus não basta querer ou gostar. Deve-se aproximar com reverência, lembrando que ainda que Ele chame o crente de “amigo”, Ele não deixou de ser o Deus alto, sublime e perfeitamente santo.
Veja o exemplo de Moisés. Deus o tratava como amigo:
Êxodo 33.11 “O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com o seu amigo. Depois Moisés voltava para o arraial. Porém o moço Josué, seu auxiliar, filho de Num, não se afastava da tenda.”
Mas o Senhor também exigiu reverência dele, quando Moisés se aproximou:
Êxodo 3.5 “Deus continuou: — Não se aproxime! Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa.”
E isso não mudou com Jesus. Ele mesmo disse:
João 15.14a “Vocês são meus amigos se fazem o que eu lhes ordeno.”
er crente nos dá a liberdade de estarmos em paz na presença de Deus, mas não nos dá a liberdade de tratá-lo como um igual. Ele é o SENHOR.
Então, quem deseja se aproximar de Deus, deve se santificar.
E quanto a você? Quando você vai orar ou vem a igreja, percebe que é aceito por graça (tem consciência de seus pecados e os lamenta de verdade) ou acha que orar ou ir à igreja é uma atividade comum?

v.16 - Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões e relâmpagos, uma espessa nuvem cobriu o monte, e ouviu-se um forte som de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial tremeu de medo. v.17 - E Moisés levou o povo para fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. v.18 - Todo o monte Sinai fumegava, porque o SENHOR havia descido sobre ele em fogo. A fumaça subia como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia com violência. v.19 - E o som da trombeta ia aumentando cada vez mais. Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão. v.20 - O SENHOR desceu sobre o monte Sinai, sobre o alto do monte. O SENHOR chamou Moisés para o alto do monte e Moisés foi até lá. v.21 - E o SENHOR disse a Moisés: — Desça e avise ao povo que não ultrapasse o limite até o SENHOR para vê-lo, para evitar que muitos deles sejam mortos. v.22 - Também os sacerdotes, que se aproximam do SENHOR, devem se consagrar, para que o SENHOR não se volte contra eles. v.23 - Então Moisés disse ao SENHOR: — O povo não poderá subir o monte Sinai, porque tu nos advertiste, dizendo: “Marque limites ao redor do monte e consagre-o.” v.24 - E o SENHOR respondeu: — Vá, desça; depois você subirá, e Arão virá com você; porém os sacerdotes e o povo não devem ultrapassar o limite para subir ao SENHOR, para que Deus não se volte contra eles. v.25 - Então Moisés desceu ao povo e lhe disse tudo isso.

O que vem em seguida é uma “Teofania”, uma manifestação visível de Deus. Mas Ele não aparece em uma brisa suave, nem no canto de pássaros.
Imagine-se lá por um momento. A montanha está à sua frente, mas você não vê mais o topo, porque uma nuvem escura o cobriu. O chão debaixo de você começa a tremer. Fogo aparece por todo o monte, trazendo um calor assustador e uma fumaça que arde os olhos. Ao mesmo tempo, muitos raios começam a cair na montanha. O barulho dos trovões é ensurdecedor. De repente, um som de trombeta começa a soar e vai aumentando cada vez mais, mas ninguém está tocando.
Você sabe. Não é uma tempestade: Deus está chegando ao monte. O Deus que abriu o mar, libertando você e afogando os egípcios.
Você está com muito medo, mas não foge — quer estar perto. Moisés traça um limite para você não chegar perto demais e morrer. Ao mesmo tempo, aquela cena te atrai e te aterroriza. Você sabe que há uma distância entre você e Deus.
A pergunta que você faria não é se Deus existe. Mas quem é que pode sobreviver diante dele."
Não foi uma cena fácil; Deus apareceu de maneira temível e o povo deveria sentir medo, como o próprio Senhor confirmou mais tarde (Dt 5.28-29). Apenas Moisés e Arão poderiam subir. O povo percebeu naquele dia que precisava de um mediador; alguém entre Deus e os homens. Quem tem consciência de seus pecados e da santidade de Deus sabe que precisa de ajuda. E esse mediador perfeito é Jesus, o Cristo.
Assim como Moisés representou o povo de Israel diante de Deus no monte Sinai, Jesus nos representa diante do Pai no monte do Gólgota.
Não importa quanto tempo de conversão que nós tenhamos, o temor do Senhor é o que nos leva à cruz de Cristo e a cruz de Cristo que nos leva a Deus.
No seu dia a dia você percebe que precisa de Jesus para cada detalhe da vida? Você continua percebendo a santidade e a seriedade de Deus?

Conclusão

Imediatamente após esta cena, Deus dá os 10 mandamentos ao povo. Eles sabem que foram escolhidos por graça; Deus os amou antes de eles poderem obedecer. Ao mesmo tempo, sabem que esse Deus amoroso é também temível e deve ser obedecido.
Que nós aprendamos a viver com Jesus com a mesma consciência de quem sabe que é amado, sabe que é povo de Deus, mas que, por isso mesmo, deve obedecê-lo.
[1] Há muita incerteza sobre a questão dos nomes Horebe/Sinai. Além da ideia de que sejam dois nomes para um mesmo monte, há uma hipótese de que se trata de uma mesma montanha, mas com dois picos distintos: um chamado Horebe outro chamado Sinai (John Gill); outra informa que Horebe é a região ampla, enquanto Sinai é o monte específico; uma terceira, da “crítica das fontes”, atribui os nomes à preferência das tradições javista e eloísta (mas é excessivamente dependente dessa abordagem).
Calvin comenta o v.1: “nor can any be prepared to obey God, except he be bowed down and subdued by fear” e “To this end also did God shake the earth, to arouse men’s hearts from their slumber, or to correct them by taming their pride” (CALVIN, J.; BINGHAM, C. W. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010. v. 1p. 314) Penso em Paulo, ficando cego por ação divina e, assim, se dobrando a Deus.
O contraponto para todo esse terror da presença vingadora de Deus é a misericórdia e graça do próprio Deus em Cristo Jesus (Hb 12.18-22). A lei, de fato, é para nos fazer fugir para Cristo. Nas palavras de Calvin, "because the Law was propounded to men, who sought the means of flattering themselves, as the mirror of the curse, so that, in themselves lost, they might fly to the refuge of pardon” (CALVIN, J.; BINGHAM, C. W. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010. v. 1p. 316).
Muitos milagres na promulgação da lei, porque a Lei deve despertar mentes entorpecidas/dormentes pelo pecado. Calvino: “Now, we understand why the promulgation of the Law was ratified by so many miracles; viz., because, in general, the authority of the divine teaching was to be established among the dull and careless, or the proud and rebellious” (CALVIN, J.; BINGHAM, C. W. Commentaries on the Four Last Books of Moses Arranged in the Form of a Harmony. Bellingham, WA: Logos Bible Software, 2010. v. 1p. 316)
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