RM 1:18-23 Por que não creio em Deus?

No princípio Deus... E eu com isso?  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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LEITURA

Romanos 1.18–23 “18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; 19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.”

ORAÇÃO

INTRODUÇÃO

Durante as últimas semanas, nós voltamos ao princípio.
Voltamos ao texto que abre as Escrituras e que abre também toda a realidade: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.”
Caminhamos pela narrativa da criação. Vimos Deus chamar a luz à existência. Vimos Deus separar, ordenar, formar, encher, abençoar e declarar boa a obra de suas mãos. Vimos o céu, a terra, os mares, os astros, os animais, o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, e finalmente o descanso do sétimo dia.
Em outras palavras, durante toda esta série, a criação esteve pregando diante de nós.
Ela pregou que o mundo não é fruto do acaso. Pregou que a vida não é acidente. Pregou que o ser humano não é apenas matéria organizada.
Pregou que existe ordem, propósito, beleza, inteligência, bondade e glória por trás de tudo o que existe.
A criação nos colocou diante de uma afirmação inevitável: há um Criador.
Mas agora precisamos fazer a pergunta final.
Depois de tudo isso, por que alguém não crê em Deus?
Será que o problema é que Deus não deixou evidências suficientes?
Será que a criação é muda?
Será que os céus não dizem nada?
Será que o mundo é tão obscuro que o homem pode olhar para a realidade e dizer honestamente: “Eu não tinha como saber”?
O apóstolo Paulo responde que não.
Segundo Romanos 1, o problema do homem não é falta de revelação.
O problema do homem é o que ele faz com a revelação que recebeu.
Deus não está escondido atrás da criação; Deus se manifesta por meio dela. A criação não é um véu que oculta Deus; é um palco que proclama sua glória.
Então, o título deste sermão pode soar estranho: “Por que não creio em Deus?”
Talvez alguém pense: “Depois de uma série inteira defendendo a criação, agora ele vai dizer que não crê em Deus?” Não. A pergunta é uma armadilha proposital.
Porque Romanos 1 vai nos mostrar que, por natureza, o ser humano caído não rejeita Deus porque faltam evidências. Ele não deixa de crer porque Deus não falou; ele resiste porque Deus falou claro demais.
A pergunta, portanto, não é apenas: “Deus existe?”
A pergunta mais profunda é: “Por que o meu coração resiste ao Deus que se revelou?”
Portanto, hoje nós encerramos a série voltando ao ponto principal: no princípio, Deus. E se no princípio é Deus, então a grande questão não é se eu acho Deus conveniente, aceitável ou útil.
A grande questão é se eu vou glorificá-lo como Deus e render-lhe graças, ou se continuarei tentando esconder, dentro de mim mesmo, a verdade que ele tornou manifesta diante de todos.

EXPOSIÇÃO

18a
A ira de Deus se revela do céu contra
toda impiedade
e injustiça
dos seres humanos
Explicação:
Ira: A palavra no v.18a é orgê e é um termo forte para expressar indignação, intenso desprazer e aborrecimento contra algo ou alguém.
Algumas pessoas têm dificuldade em conceber Deus como um ser possível de se irar.
Porém, a ira de Deus nas escrituras nunca é uma explosão emocional ou irracional como nos seres humanos.
A ira de Deus é sua oposição santa, justa e judicial contra tudo aquilo que afronta sua santidade.
A ira divina, em Paulo, está diretamente vinculada à justiça de Deus. Não é instabilidade emocional; é resposta santa ao mal.
Qual é o alvo da ira de Deus? O texto nos mostra duas coisas.
Impiedade (asébeia): Tem sua raiz no verbo sébomai (reverenciar e adorar). Entretanto, asébeia é a ausência ou a falta de reverência e adoração. É uma espécie de negação e desprezo.
Injustiça (adikía): é ausência e a violação da justiça. É deixar de fazer o que deve ser feito. E se opor a verdade.
Impiedade descreve a perversão da relação do homem com Deus; injustiça descreve a perversão moral que decorre dessa impiedade. Em Romanos 1.18, Paulo as une porque a negação de Deus sempre produz desordem moral.
Paulo não está tratando a impiedade e a injustiça de modo genérico; ele fala de como essas coisas são manifestas de maneira por meio de um pecado especifico.
E que pecado é esse?
cf.
18b
que, por meio da sua injustiça,
suprimem a verdade.
Suprimir: Literalmente significa pressionar para baixo, segurar, manter algo preso, dominado, controlado, retido, oculto, escondido.
Ironicamente o objeto suprimido é a verdade.
Verdade (aléteia): está associada à ideia de algo que não pode ser escondido.
Em nosso texto refere-se à verdade revelada e manifesta acerca de Deus.
O que Paulo está dizendo não é que os homens não têm acesso à verdade, mas que eles a conhecem plenamente, mas atuam para suprimi-la, silencia-la e escondê-la em suas próprias consciências.
A ideia não é que a verdade seja fraca ou obscura, mas que o homem está agindo contra ela, tentando retê-la.
Por que os homens têm acesso à verdade?
v.19
Pois
o que se pode conhecer a respeito de Deus
é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou (Faneroo/Faino - fez claro, evidente, descoberto).
v.20a
Porque
os atributos invisíveis de Deus,
isto é, (explicação do que está acima pelo que vem abaixo)
o seu eterno poder
e a sua divindade,
claramente se reconhecem, (repare a ênfase)
desde a criação do mundo,
sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez.
A ideia de Paulo não é que Deus seja visto diretamente com os olhos físicos. Mas, que Deus pode ser percebido por meio das coisas criadas.
De tal forma que “as coisas invisíveis” de Deus, especialmente seu poder eterno e sua divindade, embora sejam realidades invisíveis aos olhos, podem e são “compreendidas pela mente”, humana.
E essa compreensão não é meramente uma informação superficial da realidade, mas as coisas criadas apontam claramente para Deus.
Observe a expressão “claramente percebidas” (καθορᾶται)
Isso é o que chamamos de “Revelação Natural”.
Aquela revelação de Deus que vem por meio da natureza.
|Deus comunica a si mesmo por meio da glória e da majestade dos céus, do mundo e de tudo o que ele fez.
Salmo 19.1–2 “1 Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. 2 Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.”
Isso não significa que a revelação natural é suficiente em termos de salvação.
A criação revela Deus de de modo suficiente para tornar o homem culpável, mas não revela o evangelho de modo suficiente para salvá-lo. Para a salvação, é necessária a revelação especial culminando em Cristo e proclamada no evangelho.
Apesar de não ser suficiente para salvar, o ser humano é responsável pelo que faz com ela.
Eles não conhecem Deus exaustivamente, mas conhecem Deus suficientemente para serem responsáveis diante dele.
Transição: E é exatamente esta responsabilidade que Paulo adverte a seguir.
cf. v.20b
Por isso, (por causa da revelação natural clara de Deus por meio das coisas criadas)
os seres humanos são indesculpáveis.
Indesculpável (Anapologuêtus): Sem possibilidade de defesa.
Não significa apenas der “culpado” em sentido genérico. O termo é mais específico: descreve alguém que não tem uma defesa válida, alguém que não pode alegar ignorância ou apresentar uma justificativa aceitável.
RC Sproul
É muito comum me perguntarem: “O que acontece com o pobre e inocente nativo da África, que nunca ouviu falar de Jesus?”. Esse pobre e inocente nativo da África vai direto para o céu quando morre. Ele não tem necessidade de um Salvador. Jesus não veio ao mundo para salvar pessoas inocentes. Não há nenhum inocente nativo na África, nem na Austrália, na América do Sul, na Europa, na Ásia ou em qualquer outro lugar. As pessoas pensam que aqueles que nunca ouviram falar de Jesus são, certamente, inocentes, mas Jesus veio a um mundo que já se achava sob a acusação de Deus porque o havia rejeitado. Devemos repudiar a ideia de que existam pessoas inocentes em algum lugar.
Transição:
Por qual motivo os homens não podem alegar ignorância quanto ao conhecimento de Deus?
A resposta é dada por meio de uma negativa e uma afirmativa. Ou seja, o que os homens não fazem e o que eles fazem.
cf. v.21a - o que eles não fazem
Porque,
tendo conhecimento de Deus,
não o glorificaram como Deus,
nem lhe deram graças.
O problema levantado aqui é que conhecendo a Deus, nós nos recusamos a honrá-lo como Deus e nem mesmo lhe rendemos gratidão.
v.21b - o que eles fazem
Pelo contrário,
se tornaram nulos em seus próprios raciocínios,
e o coração insensato deles se obscureceu.
O impacto na mente
O texto diz que os raciocínios se tornaram vazios, desviados, incapazes de conduzir o homem à resposta devida diante de Deus.
O resultado da negação de Deus é uma corrupção tanto da mente quanto do coração humano.
A recusa em glorificar a Deus e dar-lhe graças, produziu obscurecimento interior e corrupção da mente.
O impacto no coração
Diferente de nossos dias o coração é visto na bíblia como o centro interior da pessoa humana. Quando Paulo usa a Palavra coração ele esta se referindo ao pensamento, a vontade, o desejo, a percepção moral e a orientação espiritual.
Portanto, Paulo está dizendo que o centro religioso, moral e intelectual do ser humano foi obscurecido quando este suprime a verdade que ele sabe, por natureza, sobre Deus.
O caso é sério e grave: a capacidade racional do ser humano, quando separada do reconhecimento devido a Deus, torna-se vazia, improdutiva e moralmente desviada.
Transição: E a negação da revelação natural produz não apenas corações obscurecidos, mas também corrompe a sabedoria.
Aqui se trata de substituição da verdade, por conhecimentos que jamais conduzem à verdade. Antes leva o coração e a mente humana cada vez mais para longe de Deus.
cf. v.22
Dizendo que
eram sábios,
se tornaram tolos
cf. v23
e trocaram a glória do Deus incorruptível (imortal)
por imagens semelhantes
ao ser humano corruptível (mortal)
às aves,
aos quadrúpedes
e aos répteis.
Repare: Para Paulo a negação da existência de Deus não leva ao ateísmo, mas à idolatria.
Eu penso que isto seja verdadeiro, pelo fato de que o homem como imagem e semelhança de Deus é religioso por natureza. (Sensus divinitatis).
Por causa do pecado, mesmo negando a Deus o homem não deixa de ser religioso, pois há no coração de cada ser humano ainda que suprimido um desejo insaciável por adoração.
Quando o homem rejeita o Deus verdadeiro, ele absolutiza outra coisa. Pode ser imagem religiosa, natureza, razão, ciência, sexo, dinheiro, autonomia, ideologia, identidade, sucesso, família ou o próprio eu.
Thomas Parker
A corrupção desse senso religioso leva a idolatria, pois por esta corrupção o individuo acaba erigindo para si um ídolo pelo qual tenta estabelecer um significado para toda a realidade em sua volta.
Nossas obsessões reveladoras emergem nos padrões cotidianos: aquilo que ocupa nossos pensamentos noturnos, nossas atividades e perseguições, nossas despesas e buscas digitais todos esses indicadores apontam para aquilo que realmente amamos e, portanto, para possíveis ídolos em nossas vidas.
Stephen Altrogge no livro - A conspiração da grama mais verde
Calvino observou que a natureza humana funciona como uma “fábrica perpétua de ídolos,” e nossos corações continuamente criam novas divindades para adorar. Essa produção é incessante: quando um ídolo é satisfeito, como o casamento, imediatamente surge outro, a casa própria, o carro novo, a aposentadoria confortável, em um ciclo contínuo de descontentamento e fabricação de novos deuses.
cf.
Salmo 14.1 “1 Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. [...]
O insensato ao negar a Deus não está apenas sendo ignorante quanto a Ele, mas também está agindo moralmente errado por negar aquilo que ele sabe ser verdadeiro.
A alternativa a Deus nunca é o vazio religioso; é a troca da glória de Deus por alguma realidade criada que passa a ocupar o lugar de Deus.

CONCLUSÃO:

A razão pela qual o homem não crê em Deus não é que Deus tenha se calado, mas que o homem, em pecado, tapa os ouvidos diante da voz de Deus na criação. O problema da incredulidade não é primariamente intelectual; é moral e espiritual. O homem não precisa apenas de mais argumentos; ele precisa de um novo coração.
Em outras palavras: O problema humano não é falta de sinais, mas rejeição da glória de Deus.

APLICAÇÃO

Gênesis 1 nos mostra que Deus falou por meio da criação. Romanos 1 nos mostra que o homem ouviu, entendeu o suficiente, mas suprimiu a verdade.
O que precisamos fazer diante destas verdades?
1º - Reconheçamos que este é o estado natural de todo ser humano. Se somos seres humanos esta é a descrição do quem nós somos por natureza.
Romanos 3.9–12 “9 Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; 10 como está escrito: Não há justo, nem um sequer, 11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.”
2º Mudar essa natureza não está ao alcance humano.
Romanos 3.23 “23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,”
E é aqui que o evangelho se torna glorioso. O mesmo Deus cuja ira se revela contra a impiedade é o Deus que revela sua justiça.
O Deus que seria justo em nos deixar sob sua ira é o mesmo Deus que revelou sua justiça salvadora em Cristo.
Romanos 3.24–26 “24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25 a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”
A criação remove nossas desculpas, mas o evangelho revela nossa única esperança.
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