Bênçãos paradoxais (Piedade e recompensa)
Sermão do Monte • Sermon • Submitted • Presented
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Introdução: Capítulos que mudaram o mundo
Introdução: Capítulos que mudaram o mundo
Vamos iniciar uma série de mensagens percorrendo o texto do sermão do monte, e como esse texto é relevante.
Existe um texto que mudou o mundo.
Não é um livro inteiro. São três capítulos. Você lê em quinze minutos. E mesmo assim, ao longo de dois mil anos, esse texto interrompeu impérios, moldou movimentos e atravessou continentes.
Um dos maiores escritores que o mundo já conheceu — o russo, Liev Tolstói, autor de Guerra e Paz — chega ao fim da vida em crise. Tinha tudo: fama, fortuna, reconhecimento mundial. Mas algo não fechava. Foi nesse vazio que ele redescobriu o Sermão do Monte. No fim da vida, descobriu nele o coração do cristianismo que havia perdido. Sua obra O Reino de Deus Está em Vós nasceu dessa convicção.
Um jovem hindu de dezenove anos, vindo da Índia para estudar Direito, recebe um Novo Testamento. Ele já havia tentado ler a Bíblia antes e não havia gostado. Mas dessa vez, ao chegar em Mateus 5, alguma coisa mudou. Gandhi, jovem estudante hindu em Londres, escreveu em sua autobiografia: "O Sermão da Montanha me falou diretamente ao coração." O que ele leu ali viria a sustentar a libertação da Índia, que representava um quarto da humanidade.
Décadas depois, Martin Luther King leu Gandhi e percebeu que Cristo havia lhe dado a mensagem, e Gandhi lhe dera o método. O movimento dos direitos civis americanos nasceu desse encontro.
Um russo cristão. Um hindu indiano. Um pastor afro-americano.
Três continentes, três tradições, um único texto — um carpinteiro judeu falando a uma multidão no monte da Galileia.
Hoje começamos uma jornada por esse texto. Vamos percorrê-lo em três partes:
Identidade — quem somos no Reino. As bem-aventuranças, o sal e a luz, a justiça que excede.
Justiça — como nosso coração é transformado. Ira, pureza, integridade, oração, jejum — Jesus indo à raiz do que a religião costuma só aparar.
Vida — como vivemos e decidimos. Tesouros, ansiedade, o caminho estreito, os dois fundamentos.
Mas antes de entrar, vale a pergunta: se esse texto mudou Tolstói, Gandhi e King — por que muitas vezes passa por nós sem nos tocar?
Gandhi mesmo escreveu uma resposta incômoda:
"No Ocidente, esta mensagem fundamental sofreu várias deformações. Muito do que é considerado cristianismo é uma negação do Sermão da Montanha."
Mahatma Gandhi
Que essa série seja, antes de tudo, um retorno. Um ouvir de novo. Como se fosse a primeira vez.
Texto Base: Mateus 5.1-6
Texto Base: Mateus 5.1-6
1 Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele,
2 e ele começou a ensiná-los, dizendo:
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
4 Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
5 Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Ponto 1 - Discípulos de Jesus
Ponto 1 - Discípulos de Jesus
1 Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele,
2 e ele começou a ensiná-los, dizendo:
Jesus tinha passado pelo momento da tentação no deserto e seu batismo. Começava a anunciar "arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo" (Mt 4.17)
É nesse contexto que Jesus vendo a multidão decide algo que fala muito
Jesus subiu ao monte e se assentou.
Jesus deixa claro que o relacionamento com Ele não pode ser apenas admiração à distância — como muitos têm pelo carpinteiro de Nazaré, inclusive Gandhi, que admirou suas palavras mas nunca se rendeu a quem as disse. O Sermão exige rendição, não apenas apreço."
Render-se implica em ouvir, aprender e corrigir. Jesus em um dos seus primeiro movimentos para, senta como um Rabino e ensina aos que estão o seguindo. O QUE ELE ENSINA, PRA QUEM ELE ENSINA?
O sermão é dirigido primariamente aos discípulos, mas com as multidões escutando. Jesus está descrevendo o modo de vida do Reino para quem já decidiu segui-lo — e ao mesmo tempo expondo essa vida diante de todos como um convite e um confronto.
"A verdade sobre como devemos ler o sermão é que ambos os extremos estão errados. Jesus sustentou esses padrões como princípios de vida no reino, mas também concluiu que era preciso muito mais do que mero esforço humano para alcançar esses padrões. Os objetivos do sermão podem ser alcançados, mas apenas por aqueles que conheceram o novo nascimento e que têm acesso ao poder capacitador do Espírito Santo. Jesus proferiu o sermão para aqueles que já eram seus discípulos, cidadãos do reino de Deus e filhos na família de Deus. Sem a transformação do novo nascimento, este sermão nos levará apenas ao otimismo superficial ou desespero irremediável."
John Stott, Lendo o Sermão do Monte com John Stott
O gesto de Jesus se sentar não é fadiga — é autoridade. No mundo antigo, o rabino se sentava para ensinar. De pé, a pessoa fala. Sentado, ela ensina. Jesus está assumindo a postura do Mestre. E os discípulos, ao se aproximarem, estão assumindo a postura de quem se rende ao ensino.
Ponto 2 - Reconhecer o que não temos
Ponto 2 - Reconhecer o que não temos
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
4 Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
Aqui começam as bem aventuranças, entender o que significa isso é primordial para que a mensagem do sermão não seja perdida
O povo que escutava aos pés de Jesus, quando ouviram ele falando makarios , sabia do que Ele estava falando.
A palavra grega significa Felicidade, então Felizes são...
Mas essa essa palavra era usada para descrever os deuses — uma felicidade transcendente, autossuficiente, que não dependia das circunstâncias do mundo.
Quando aplicada aos humanos, a palavra significava alguém que tinha alcançado um estado de privilégio que se aproximava do divino — alguém abençoado pelos deuses.
Não era uma emoção. Era uma condição objetiva de privilégio.
Mas Jesus estava usando a mesma palavra que aquele povo já tinha ouvido falar centenas de vezes, dentro do contexto judáico
1 Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores!
A mesma palavra, O homem do salmo primeiro era feliz quando… E Jesus assim começa
A igreja brasileira contemporânea respira uma teologia que confunde makarios com eutychia — bem-aventurança com sorte favorável, boas circunstâncias, vida bem-sucedida.
"Deus te abençoe" virou desejo de prosperidade. "Bênção" virou conquista material. A consequência é que, quando a vida aperta, a pessoa conclui que Deus retirou a bênção — quando, na verdade, ela nunca tinha entendido o que a bênção era.
O Sermão do Monte abre exatamente desfazendo essa confusão. E o caminho para entender as quatro primeiras bem-aventuranças — pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça — começa aqui: bem-aventurado não é quem se sente bem, é quem está bem diante de Deus.
E quem está bem diante de Deus, quem reconhece o que não tem.
3 “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
A palavra pobre aqui não tem relação com pobreza material nem humildade, pobres de espírito são aqueles que reconhecem que não tem nada, que não podem nada, que dependem Daquele que é rico para os manter e sustentar. A palavra tem relação com mendigo, É alguém espiritualmente falido — sem nada para oferecer, sem mérito para apresentar, sem virtude para barganhar.
"Jesus nos chama de mendigos no início do Sermão. E D. T. Niles, um pastor do Sri Lanka, captou bem o que isso significa para a missão da Igreja, ele diz:
“O evangelismo é um mendigo dizendo a outro mendigo onde encontrar pão.”
E D. T. Niles
Não temos nada a oferecer que seja nosso. Apenas a memória do lugar onde fomos saciados.
A jornada de ser discípulo de Jesus começa com o reconhecimento que não temos nada que possa nos trazer a felicidade da qual ele fala no sermão, que Dependemos Dele para alcançar, nos salvar.
Salmo 34.18 “18 O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”
Isaías 66.2 “2 Não foram as minhas mãos que fizeram todas essas coisas, e por isso vieram a existir?”, pergunta o Senhor. “A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra.”
Lloyd-Jones tem um tratamento clássico desse texto. Ele argumenta que ser pobre em espírito não é:
Ser introvertido ou tímido — temperamento não é espiritualidade
Ter baixa autoestima psicológica — Jesus não está abençoando neurose
Praticar falsa humildade — a pessoa que diz "ah, eu sou um nada" enquanto secretamente se acha melhor que os outros
Renunciar a bens materiais voluntariamente — pobreza monástica não é o ponto
É, na verdade, uma consciência profunda da própria bancarrota espiritual diante de Deus.
É a postura de Isaías diante do trono em Isaías 6 — "Ai de mim! Estou perdido!".
É a postura do publicano em Lucas 18 que não levanta os olhos e bate no peito — "Tem misericórdia de mim, pecador!".
É a postura de Pedro em Lucas 5 — "Aparta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!".
A esses é dado o Reino do Céus, Numa cultura brasileira evangélica marcada por coaching cristão, vitória, prosperidade, empoderamento — quão diferente soa esta primeira bem-aventurança?
Jesus não abre o Sermão dizendo "você é mais que vencedor, declare e receba". Ele abre dizendo "bem-aventurado é o mendigo espiritual". Dele é o Reino!
Em seguida ele diz os que choram...
4 Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
Não tem como chorar de tristeza e estar feliz, não é esse choro, é o choro do reconhecimento, da nossa condição:
-Senhor, não sou merecedor, como alcançarei teu favor, que todos meus pecados e lutas que não consigo vencer.
O Senhor olha para mim e vc meu irmão e diz, aos meus pés vcs terão consolo.
Pai perdoa o que eles fazem, vinde a mim vós cansados e sobrecarregados, eu os aliviarei
Nossa relação com o mestre é de uma felicidade plena, porque temos o consolador, Ele prometeu mandar e Ele está aqui, o Espírito Santo
O bem-aventurado é alguém que vive no presente sustentado pelo futuro garantido.
Por isso pode chorar e estar bem-aventurado ao mesmo tempo — porque a lágrima de hoje não tem a última palavra. O Consolador tem.
Entendendo isso eu percebo que o que recebo transborda.
Ponto 3 - O que nos é dado transborda
Ponto 3 - O que nos é dado transborda
5 Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Podemos ver uma progressão nesses versículos
Pobre de espírito — reconhecimento da bancarrota espiritual
Os que choram — resposta emocional a esse reconhecimento (o pesar pelo pecado e pela condição, mais a certeza do consolo prometido)
Os Humildes/mansos — postura interior que nasce de quem foi consolado: não preciso me defender, não preciso me afirmar, porque já fui acolhido
Fome e sede de justiça — desejo ativo que emerge naturalmente: quem se viu vazio, foi consolado e descansou na graça agora deseja a justiça do Reino — para si e para o mundo
Não que esses passos acontecem em progressão, isso vem tudo ao mesmo tempo, no processo de discipulado aos pés de Jesus.
Que consigo ser Manso e humilde não porque controlo meu temperamento, mas porque entendendo que não dependo de outros para obter o que só Cristo pode me dar, me liberto da prisão da vaidade e orgulho
Consigo me ver nunca situação de injustiça e conseguir me manter manso, pois o que preciso já veio dele. Não preciso mostrar o que não sou, porque fui aceito como sou por Ele.
Não preciso mais fingir ser quem não sou, assim a humildade aflora
E embalado nisso tudo, não tem como não ter fome e sede dessa justiça, e que fome é essa?
a fome de justiça, no v.6, é uma palavra forte no grego, com sentido de fome e sede intensas, urgentes.
Não é apetite leve. É a fome de quem não come há dias e a sede de quem caminhou no deserto. Por que essa intensidade? Porque emerge do vazio reconhecido na primeira bem-aventurança.
Quem se sabe espiritualmente falido precisa da justiça de Cristo — não a deseja como acessório, a deseja como sobrevivência.
Conclusão - Precisamos começar novamente
Conclusão - Precisamos começar novamente
Assim temos material em versículos capazes de reformular nossa vida.
Se Gandhi se inspirou, se Tolstói foi confrontado por ele e King lutou baseado nisso tudo, o consolador que aqui está lhe convida a sentar, ouvir as palavras de Jesus, perceber que só Ele tem o que precisamos.
Chegou a hora de parar de lutar por caminhos que o mestre não nos mostrou, que o Reino dos céus começa reconhecendo o Seu senhorio e se rendendo a Ele.
Eu te convido a deixar as palavras Dele penetrarem seu coração, que o consolador, O Santo Espírito, faça o que você não consegue, porque você de fato não consegue.
E que Ele seja de verdade seu Mestre e Senhor
Vamos orar.
