CORAM DEO
O SERMÃO DO MONTE • Sermon • Submitted • Presented
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LEITURA DO TEXTO
LEITURA DO TEXTO
— Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles; porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Agora chegamos ao ponto do Sermão do Monte que vai tratar da espiritualidade cristã. Espiritualidade é a atividade espiritual ou religiosa. Eu prefiro usar a expressão “espiritual” a usar a expressão “religiosa”, porque a religião possui duas maneiras de se compreender: a maneira positiva que envolve o relacionamento ativo e de profunda adoração ao Criador, e a maneira negativa que trata o rito religioso, o local sagrado e as estruturas de poder como meios para se alcançar não mais comunhão e vida com o Criador, mas sim alcançar uma instrumentalização da experiência espiritual para se atingir fins meramente vinculados ao próprio ego e isso por si só já se configura num tipo de idolatria de si mesmo — ou seja, pecado.
Quando falamos de espiritualidade estamos falando daquilo que envolve não o meu “eu” que tem uma “intimidade com Deus”, mas do Deus soberano que domina todo o meu “eu” e me faz viver totalmente imerso e escondido em sua glória. Estamos falando de vida que mergulha nas águas profundas da presença de Deus. Estamos falando de sentir fome angustiante. Sentir sede aguda e dolorosa. Fome não pão e sede não de água, mas fome e sede de justiça, de santidade, de ser preenchido com a plenitude da vida do Espírito. Fome e sede de Deus. Eu e você somos famintos e sedentos, mas nem sempre saciamos as nossas maiores necessidades na fonte de águas vivas que é o próprio Deus.
A religiosidade faz um ser humano usar Deus para fins pessoais egoístas e idólatras. A espiritualidade faz Deus reinar sobre o ser humano e instrumentalizá-lo para cumprir os seus propósitos salvíficos e redentivos.
Há santidade plena em Deus, mas quando se trata do ser humano, como dissse Charles Spurgeon, “há pecado até em nossa santidade”. Quando falamos de viver santidade e se aproximar de Deus, todo cuidado é pouco.
Moisés apascentava o rebanho de Jetro, o seu sogro, sacerdote de Midiã. E, levando o rebanho para o lado oeste do deserto, chegou a Horebe, o monte de Deus. Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo, no meio de uma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça estava em chamas, mas não se consumia. Então disse consigo mesmo:
— Vou até lá para ver essa grande maravilha. Por que a sarça não se queima?
Quando o Senhor viu que ele se aproximava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse:
— Moisés! Moisés!
Ele respondeu:
— Eis-me aqui!
Deus continuou:
— Não se aproxime! Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa.
EXPOSIÇÃO DO TEXTO
EXPOSIÇÃO DO TEXTO
— Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles;
O que acontece com o coração humano quando lida com a questão de ter comunhão com Deus e, consequentemente, mais intimidade que gera mais santiade pessoal?
Quando Isaías viu o Senhor e ficou tão perto dele, qual foi a reação?
No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele. Cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo:
“Santo, santo, santo
é o Senhor dos Exércitos;
toda a terra está cheia da sua glória.”
Os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e o templo se encheu de fumaça. Então eu disse:
— Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!
Então um dos serafins voou para mim, trazendo na mão uma brasa viva, que havia tirado do altar com uma pinça. Com a brasa tocou a minha boca e disse:
— Eis que esta brasa tocou os seus lábios. A sua iniquidade foi tirada, e o seu pecado, perdoado.
Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia:
— A quem enviarei, e quem há de ir por nós?
Eu respondi:
— Eis-me aqui, envia-me a mim.
A reação adequada quando se está mais perto de Deus é TEMOR. Um santo “medo”. Silêncio. Reflexão. Pense bem no que está acontecendo! Deus está presente; então é preciso tremer, ter cuidado, ser prudente, ficar mais disposto a ouvir do que falar, querer discernir tudo, ser edificado e fortalecido. Enfim, a presença de Deus é trazida ao ensino porque Jesus quer mostrar que o nosso alvo nessa vida é alcançar a perfeição cristã.
Mateus 5.48 “Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.”
Agora, é assim na prática de muitos? Tenho quase certeza de afirmar: a maioria de nós pouco ou quase nada sabe sobre a profundidade da revelação bíblica e espiritual acerca da glória de Deus.
De todas as suas necessidades, a maior delas é glorificar a Deus. Deus não nos fez para que vivêssemos em torno de nós mesmos ou de nossas vontades e prazeres. Ele nos criou para um propósito maior: que encontrássemos a plena satisfação de nossas vidas em quem Ele é por meio de Cristo Jesus.
A maioria vive debaixo da tirania do ego, do exibicionismo e da busca pela aprovação dos outros e da fuga da rejeição das pessoas. Tudo o que toca o ego enche a alma de muitos de ansiedade patológica. Muitos de nós querem validação, aceitação, admiração e louvor dos homens — e isso porque a nossa visão é míope para não dizermos absolutamente nula.
Jesus agora vai tratar do propósito mais profundo e maior da nossa existência que é viver para a glória de Deus. Não faremos isso enquanto o nosso coração e o nosso ego for mais precioso do que o Deus que nos criou e formou para o fim maior de tudo que é a adoração.
James K. A. Smith escreveu um livro com o título “Você é aquilo que ama”. Ele ensina neste livro que nossos desejos são definidos pelos nossos amores e que nossos amores guiam a bússola do nosso coração. Quem ama o dinheiro vai desejar tanto o dinheiro que não vai priorizar Deus ou a generosidade e sim o acúmulo e a retenção do máximo de dinheiro para alimentar o próprio desejo de se ter mais e mais. Quem ama a Deus de fato e de verdade, não poderá trocá-lo por nada nem ninguém. Será como José no episódio com a mulher de Potifar, quando disse em Gênesis 39.7-9
Assim, depois de algum tempo, a mulher de Potifar pôs os olhos em José e lhe disse:
— Venha para a cama comigo.
Ele, porém, recusou e disse à mulher do seu dono:
— Escute! O meu senhor não se preocupa com nada do que existe nesta casa, porque eu estou aqui; tudo o que tem ele passou às minhas mãos. Não há ninguém nesta casa que esteja acima de mim. Ele não me vedou nada, a não ser a senhora, porque é a mulher dele. Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?
Este é o ponto. Deus era o maior amor de José. O seu coração foi capturado pelo amor a Deus. Ele não tinha a Lei que ordenava que ele amasse o Criador, mas o amor ao Criador gerou o temor de pecar contra Ele, mesmo diante de uma mulher bonita, sensual e poderosa que tenta convencê-lo de que só estavam eles dois naquela casa.
José sabia de uma coisa muito importante: Deus ESTAVA LÁ.
Quem foi conquistado pelo amor de Deus não pode amar mais nada acima dele. Deus e seu reino se tornam a sua prioridade absoluta e máxima. E é assim que este capítulo 6 de Mateus termina.
Mas busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas.
— Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.
Porém, o nosso coração tem uma tendência maligna de colocar Deus em segundo, terceiro ou até último lugar. E a pessoa que mais costumamos amar com extremamente se chama “nós mesmos”.
D. A. Carson comenta: “Logo, a questão sobre de quem é a aprovação que buscamos se apresenta de outro modo. Assim como as bem-aventuranças me perguntam se é a bênção de Deus que eu quero ou a aprovação de outra pessoa, assim também as exigências de justiça que Jesus apresentou jamais podem ser confundidas com a aparência de piedade: essa justiça agradaao Pai e é recompensada por ele.”
A nossa versão começa aborda bem separando a questão da esmola do versículo 1 (a King James une), mas neste versículo Jesus estabelece o princípio geral: todas as “obras de justiça” devem ser praticadas sem ostentação exibicionista e sem a danosa busca de aprovação social. Em seguida, nos versículos 2-18, ele se concentra nas três obras fundamentais da piedade judaica, isto é, dar esmolas (6.2-4), orar (6.5-15) e jejuar (6.16-18). Ele escolhe essas três para representar todas as outras “obras de justiça”, tratando cada uma da mesma maneira. Em primeiro lugar, ele descreve e condena especificamente cada obra de piedade exibicionista que era típico das diversas formas de farisaísmo, tanto as de antigamente quanto as de hoje. Em segundo lugar, ele faz uma afirmação irônica sobre os resultados limitados dessa falsa piedade: os atores recebem sua recompensa integral (em outras palavras, são bem-aventurados aos olhos do mundo). Entendemos aqui que a recompensa é o aplauso da plateia que varia de gosto, humor e simpatia. E isso é tudo o que os atores recebem. Em terceiro lugar, ele faz uma descrição comparativa da verdadeira piedade e seus resultados. Os próximos sermões tratarão essa verdadeira piedade através desses três exemplos.
porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.
Jesus neste argumento também introduz um conceito teológico muito profundo e vital para a nossa espiritualidade: o CORAM DEO.
Ele alerta os discípulos e candidatos ao discipulado dele que toda a vida é vivida tendo Deus na plateia. Quando você pensa que está só, você está acompanhando de um ser: o seu Pai, que está nos céus.
“Coram Deo” significa literalmente “diante de Deus”[1] e expressa uma perspectiva fundamental sobre como os cristãos devem compreender sua existência. A expressão origina-se da palavra hebraica lifney (que aparece frequentemente no Antigo Testamento), podendo ser traduzida como “antes” ou “na presença de”, e está enraizada na palavra hebraica para “rosto” (panim), transmitindo a metáfora poderosa de agir diante do próprio rosto de Deus.[1]
A ideia central é que vivemos nossas vidas na presença imediata de Deus, onde nada pode ser ocultado dele, pois ele nos vê, observa e cuida de nós.[1] A expressão tornou-se um dos gritos de guerra da Reforma protestante do século 16[2], particularmente importante para reformadores como Lutero. Para Lutero, a preocupação teológica e espiritual central era a verdadeira liberdade do homem diante de Deus (coram deo)[3], uma perspectiva que reconfigurou sua compreensão de justiça e salvação.
Viver Coram Deo não apenas significa existir na presença de Deus, mas também viver sob sua soberania e para sua glória—perante sua face, sob sua autoridade e para seu louvor.[2] R. C. Sproul capturou essa profundidade ao observar que viver Coram Deo significa “viver a vida inteira na presença de Deus, sob a autoridade de Deus, para a glória de Deus.”[1] Esse princípio repousa na realidade inabalável de que Deus nos ama, e esse amor não é condicionado pelo que fazemos, quando fazemos ou como fazemos—ele nos ama porque Deus é amor.[1]
[1] Joe LoMusio e Elmer Towns, God at Center: Make Sense of Who You Are, What God Wants You to Know, and What to Do about It (Eugene, Oregon: Resource Publications, 2021). [Veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui.]
[2] R. C. Sproul, Estudos Bíblicos Expositivos em 1 e 2Pedro, trad. Markus Hediger (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2016), 45–46.
[3] Denis Müller, Jean-François Habermacher, e Jean-Marc Tétaz, “Liberdade”, in Enciclopédia do Protestantismo: Teologia, Eclesiologia, Filosofia, História, Cultura, Sociedade, Política, org. Juan Carlos Martinez, trad. Norma Cristina G. Braga Venâncio (São Paulo: Hagnos, 2016), 1027.
Michael Reeves e Tim Chester no livro “Por que a Reforma ainda é importante?”, escreveram:
“No catolicismo medieval Deus estava no monastério e não no mercado, Deus está na missa e não no lar, quanto mais se enfatiza o sagrado dos lugares sagrados menos Deus é fator de vida no cotidiano. Não é que Deus estivesse ausente, Ele ainda estava ali para vê-lo e contar seus pecados. Mas no catolicismo medieval Deus era uma realidade distante e proibitiva, Ele era acessado, quando muito, pela mediação dos santos. Você nunca seria aceitável para Ele, e assim não pensava, nem desejava, aproximar-se Dele diretamente.”
Essa doutrina do coram Deo representa uma perspectiva teológica fundamental sobre como os cristãos devem viver e agir em todas as dimensões da existência.
O fundamento é que tudo aquilo que realizamos ocorre na presença divina, orientado para a glória de Deus em vez da aprovação humana[1]. Não se trata meramente de uma consciência ocasional da presença de Deus, mas de um princípio que deve permear cada decisão, cada relação e cada atividade — seja na família, no trabalho, nos estudos, na igreja ou nas relações sociais[1].
A importância dessa doutrina está em sua capacidade de reorientar completamente a motivação humana. Mesmo quando autoridades terrenas não reconhecem ou elogiam nossos esforços, é Deus quem observa e, por fim, recompensará os que agiram corretamente[1]. Isso liberta o cristão da escravidão à aprovação humana e o ancora numa realidade transcendente.
A teologia luterana desenvolveu a noção de dois padrões de retidão: a retidão mundana e a retidão piedosa diante de Deus[2], reconhecendo que a vida cristã opera em múltiplos contextos sem que nenhum deles escape à soberania divina. Viver coram Deo protege contra a mentalidade de aproveitar o momento presente sem considerar as consequências espirituais, pois não é possível aproveitar bem a vida sem lembrar-se de estar constantemente diante da face de Deus[1].
Fundamentalmente, essa doutrina transforma a vida ordinária em serviço sagrado, recordando ao crente que é a Deus que prestará contas e é a ele que deve amar com todo o coração, devendo pensá-lo antes de qualquer decisão[1].
[1] Wilson Porte Jr., Unidos pela Cruz: A Mensagem de Efésios para a Igreja de Hoje (São Paulo: Vida Nova, 2017), 315, 317–318.
[2] Franklin Ferreira, Contra a Idolatria do Estado: O Papel do Cristão na Política (São Paulo: Vida Nova, 2016), 198.
Se ele tudo vê e se tudo o que fazemos é em sua presença, então agora precisamos recalcular pelo Espírito Santo a rota do nosso coração para que essa consciência da presença de Deus aumente o nosso temor e nos conduza à verdadeira espiritualidade que Jesus viveu e nos transmitiu no evangelho. Mas lembre-se: quem te vê é o seu Pai, que te ama e que deu o Seu Filho Unigênito para te salvar. A melhor coisa da vida é viver com quem a gente ama e que ama profundamente a gente. A melhor coisa da vida é viver na presença de Deus Pai.
APLICAÇÕES
APLICAÇÕES
1- Para onde a bússola do seu coração está apontando? Para a direção da busca por agradar e servir ao Pai ou para a direção da busca por agradar e receber a aprovação das pessoas?
2- O que você sente quando pensa que Deus está presente em cada instante e lugar de sua vida e história? Medo de punição ou alegria pela certeza da presença amorosa de Deus Pai?
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
Jesus está preparando os discípulos para ensinar a eles que a vida é Coram Deo (na presença e diante da face de Deus) e isso tem implicação tanto no que fazemos em secreto (6.1-18) quanto em público (6.19-34).
Ele exige de nós o que Ele mesmo nos capacita para obedecer. Jesus, ao morrer na cruz pelos nossos pecados e resuscitar para a nossa justificação, estabelece que iremos crescer em boas obras até chegar ao máximo possível da perfeição cristã. E o caminho se inicia na devoção particular. Somos chamados para viver publicamente tudo aquilo que nutrimos no privado. Do quarto para a igreja; do quarto para o mundo.
Precisamos nos arrepender do pecado de ser rico em espírito e querer viver mais em função de alimentar o nosso ego do que glorificar a Deus. E temos que ter essa fé (confiança) de que o Espírito Santo habita em nós para exatamente desfrutarmos da alegria na presença de Deus.
Tu me farás ver os caminhos da vida;
na tua presença há plenitude de alegria,
à tua direita, há delícias perpetuamente.
Foi John Piper quem disse: Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. Entre os cinco “solas” da Reforma, o último é “Soli Deo Gloria” (Glória Somente a Deus). a ideia dessa doutrina construída no tempo da Reforma Protestante é afirmar que glorificamos a Deus tanto na igreja quanto cuidando da casa, trabalhando no mercado secular ou bebendo um copo d’água. Que possamos dar glória a Deus mais e mais, a cada dia, em todo tempo e em todo lugar.
Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.
Amém. Vamos orar.
