Apocalipse 19.11-21

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O autor bíblico registra a vitória de Cristo sobre o sistema anticristão mundial, a partir do retrato da última batalha escatológica.

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Apocalipse 19.11-21: A batalha final - A derrota dos inimigos do Reino dos céus.

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer…” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura Anterior:
Eventos escatológicos: O funeral da Grande Babilônia (cf. 18.9-24) e as Bodas do Cordeiro (cf. 19.1-10).
Contraste: o lamento interesseiro dos ímpios e o regozijo efusivo dos justos.
Objetivo: Estabelecer para a igreja o contraste entre a perenidade da fidelidade ao SENHOR, provada pelo convite à alegria e às bodas do Cordeiro, e o velório mundano em razão da frugalidade dos ídolos em quem confiaram, quando deixaram-se seduzir pelo sistema anticristão global.
Elucidação
Estrutura da seção: (vv.11-21) O confronto final - Cristo, O Rei vitorioso.
1. (vv.11-16): A descrição triunfante do Cavaleiro e seus exércitos - A identificação gloriosa do Cristo ressurreto.
- “… Se chama Fiel e Verdadeiro…; Os seus olhos são como chamas de fogo… Da sua boca sai uma espada afiada…” (vv.11, 12 e 15).
Parte da caracterização do cavaleiro é retirada do capítulo 1, quando João registra seu encontro com o Cristo ressuscitado. A intenção agora é ratificar essa correspondência a fim de que o leitor entenda que Cristo é o cavaleiro branco; não o falso do capítulo 6.1-2, embora tenha sido dada aquele lograr algum êxito em sua campanha, mas o verdadeiro vencedor sobre seus inimigos.
O anúncio à igreja da condição glorificada de Cristo no capítulo um, deve ser agora complementada pela perspectiva dele como o triunfante vitorioso, como aquele que vence todo o conglomerado corruptor mundano que se avessa ao Reino dos céus.
(v.13a): “Está vestido com um manto encharcado de sangue…” - A referência de 63.1-6 como pano de fundo. O arcabouço conceitual da imagem retratada em Ap 19.11-16 é a profecia de Isaías 63.1-6. Naquele contexto Isaías narra a vinda do SENHOR de uma batalha na qual teria vingado seu povo. O SENHOR virou-se contra Edom e uma de suas fortalezas consideradas mais difíceis de ser conquistadas, a cidade de Bozra. Ao descrever sua investida, o profeta narra um diálogo no qual um interlocutor questiona o guerreiro que vem “vestido de roupas manchadas de vermelho” (cf. Is 63.1). A resposta é referida usando a figura do “pisar uvas num lagar”, figura já usada em Apocalipse para descrever sangue, mais especificamente, o sangue dos inimigos do SENHOR atingidos por seu juízo implacável (cf. Ap 14.10, 18-20; 16.19; 17.6), o que de fato ocorreu com a cidade de Edom, segundo a profecia de Isaías. O uso de uma profecia na construção de uma imagem escatológica como a de Ap 19.11-6, além de ampliar o significado, funciona como uma garantia: Assim como o SENHOR vingou seu povo de Israel de um inimigo pontual que uniu-se ao império babilônico para subjugar o povo de Deus, Cristo o fará numa escala muito maior com os inimigos do Reino e da igreja.
(v.16): “Na sua coxa está escrito…” - O cumprimento da “zombaria profética”. Compreendendo a conexão inter-canônica entre Isaías e Apocalipse, esse último aspecto do uso daquela profecia na apresentação do cavaleiro branco, é reforçado como um detalhe pontuado por João em sua visão: A inscrição na coxa e no manto do cavaleiro (v.16). Embora pareça um lugar não usual para uma inscrição, uma referência possível que elucide o detalhe visionário, seja a prática de usar a coxa na ratificação de um juramento (e.g. Gn 24.2-3). O conteúdo da inscrição especifica que tipo de “juramento” fora realizado, pois alude ao momento em que Cristo foi crucificado, quando foi posto no alto da cruz uma placa: “Rei dos judeus” (cf. Jo 19.17-22). Embora os algozes de Cristo estivessem agindo de modo escarnecedor e zombeteiro, estavam, ironicamente, confirmando o seu título por direito. Em seu retorno, segundo a visão de João, a zombaria assumiu o contorno de um juramento; juramento que João vê cumprido: o Senhor, em seu retorno triunfante, publicou sua condição de “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (título ratificado pela referência ao Salmo 2.9), como adiantado em 17.14, quando João assegurou a vitória de Cristo sobre o sistema anticristão mundial.
(v.14a) “Os exércitos do céu o seguiam, montados em cavalos brancos e vestidos de linho finíssimo, branco e puro” — A participação da igreja na batalha e o princípio da retribuição equivalente. Em 6.9-11, os mártires de Cristo são descritos como rogando que o SENHOR manifeste sua justiça, vindicando a perseguição que sofreram por causa da palavra de Deus e do seu testemunho. No capítulo 8.1-5, João descreve a visão dos anjos que tocarão sete trombetas, como resposta de Deus a esse pedido da igreja. Ambos os textos, colocam a igreja de modo indireto dentro do cenário em que o Cordeiro executa os decretos judiciais do SENHOR contra a insurreição ímpia do mundo. Em 19.14, os exército trajados a partir das descrições anteriores dos santos (cf. 18.8), parecem ser compostos exatamente pela igreja de Cristo, agora, ao lado do Senhor, preparados para a guerra. A súplica por vingança em 6.9-10 não assume contornos de uma reclamação de um grupo cujo o orgulho foi ferido, mas de uma comunidade de pessoas que reconhecem o caráter justo do SENHOR (cf. 15.3-4; 16.7; 19.2), e que agora são instrumentos divino na publicação desse caráter. Pela descrição dos santos compondo o vitorioso exército do cavaleiro branco, a igreja não deveria entender que uma rixa pessoal e egocêntrica foi vencida, mas que a retribuição ao mundo por sua sórdida perseguição contra a igreja, é a declaração da justiça divina que julgou o pecado dos insurgentes, simbolizado principalmente pela agressão que perpetraram contra a igreja.
2. (vv.17-21): O contive às aves para o banquete - A obliteração do sistema anticristão mundial e seu adeptos.
a. O contive às aves para o banquete (vv.17-18).
- “Então vi um anjo posto em pé no sol. Ele gritou com voz forte, dizendo a todas as aves que voam pelo meio do céu: — Venham, reúnam-se para a grande ceia de Deus, para comer carne…” (v.17-18a). As cenas de batalhas são usadas como figuras de reforço e convicção da destruição iminente do sistema anticristão mundial. Em 14.19-20, cavalos são usados numa batalha, e o sangue dos derrotados avoluma-se ao ponto de atingirem a altura dos freios em suas bocas, aludindo a um grande número de mortos. Agora, em 19.17-21, a imagem retorna com aves sendo convidadas para comerem a carne dos inimigos do Reino.
A intenção da imagem, certamente, era provocar a compreensão ampla e intensa do juízo divino reservado para aqueles que antes derramaram o sangue dos santos, ao ponto de encherem uma taça; a taça segurada pela mulher que representava a Babilônia (cf. 17.6). A imagem também é retirada de outra passagem bíblica: Ezequiel 39.17-20. Como Beale explica:
A descrição de Ezequiel 39 foi incluída porque seu ponto principal é que, ao derrotar Gogue e Magogue, Deus tornará conhecido o seu santo nome tanto a Israel quanto aos opressores de Israel durante o cativeiro. […] A revelação do nome de Cristo foi a preocupação primordial em Apocalipse 19.11-16. A alusão a Ezequiel 39 confirma a presença dessa preocupação e ressalta a derrota narrada em 19.19-21 como o meio pelo qual Cristo revelará o seu nome na libertação do seu povo e no juízo dos seus opressores (BEALE, 2017, p.390).
b. A obliteração do sistema anticristão mundial e seu adeptos - A batalha (vv.19-21).
Ao terem perseguido e oprimido a igreja, o mundo não somente estava se opondo ao Deus Triuno e seu reino, como também blasfemava do nome de Deus (cf. 13.1, 5-6 (cf. v.6a “A besta abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome…”). A obliteração dos exércitos rebeldes alcança todos os integrantes da insurreição: 1) Os reis e poderosos, que deixaram-se ludibriar pelo engodo do falso profeta (as falsas promessas do sistema anticristão mundial), sendo arregimentados para seu exército (cf. 16.13-14); 2) A besta e o falso profeta.
O último agente rebelde a ser destruído é o dragão, Satanás, sendo deixado por último a fim de que novos desdobramentos dessa mesma derrota sejam explicados a partir do capítulo 20.
A conclusão da narrativa, fecha a estrutura inicial do convite às aves, com a descrição de que elas “se fartaram das suas carnes (v.21c), isto é, o acumulo de aves no céus é um sinal explícito de que a publicidade da afronta ao nome de Deus foi retribuída com o peso devido.
Síntese principiológica
A igreja de Cristo, desde Abel — perseguido e morto por Caim, o filho da serpente — trava uma dura batalha contra o sistema anticristão mundial. Com a vinda de Cristo e a inauguração do eschaton (o período final), a peleja se intensificou, e muitos irmãos foram mortos por causa da palavra de Deus e de seu testemunho.
Essa afronta ao nome de Deus pela opressão de seu povo, não poderia ficar sem resposta, e a intenção de João em Apocalipse 19.11-21, é retratar a iniciativa divina de responder a essa blasfêmia pela retribuição das obras de todos os insurgentes.
Os exércitos do mundo se unem contra Cristo, seu povo e seu Reino. A imagem de uma triunfante vitória de Cristo, representa a efetivação da vontade divina de que seu nome seja vindicado, e com isso, que todo o seu povo participe da aplicação da sentença justa cabida a todos os adeptos do levante rebelde orquestrado pelas forças demoníacas, tendo em vista que resistiram reconhecer o Deus Triuno como único SENHOR (cf. 13.9, 11, 21b).
O texto de Apocalipse 19.11-21 convoca a igreja a compreensão das seguintes verdades:
Aplicações
1. Parte da apresentação/descrição do cavaleiro é retirada da apresentação cristológica do capítulo 1, onde a ênfase do autor foi de demonstrar a condição ressurreta e glorificada de Cristo Jesus. A proposição da repetição dessa caracterização agora no trecho em que é narrada a derrota do sistema anticristão mundial, evidencia ao povo de Deus que a vitória que será consumada pelo retorno do Senhor Jesus Cristo, iniciou-se na cruz do calvário e na ressurreição do Senhor.
Em sua morte e ressurreição, Cristo estava triunfando sobre principados e potestades (Cl 2.14-15). Em parte, a igreja não espera por uma vitória por ser conquistada, mas já desfruta da ciência do desfecho da batalha renhida que trava nesse mundo: Cristo já triunfou sobre os inimigos do Reino, ao ter afirmado na cruz que “estava consumado” (cf. Jo19.30, o que provoca uma “ironia”, pois tanto no capítulo 1 quanto no 19, a arma usada para destruição dos adversário é a espada que sai de sua boca, isto é, sua palavra soberana e determinativa).
Ainda relacionado à caracterização de Cristo na cena;
2. À partir dos elementos visuais que compõem a imagem de Cristo no capítulo 1, o capítulo 19 reforça a condição de Cristo como juíz e soberano sobre a história. Essa imagem é emparelhada agora à visão de Cristo como um grande guerreiro; um guerreiro cujas vestes estão salpicadas de sangue; não seu sangue, mas, dessa vez, o sangue de seus inimigos e da igreja.
É natural que tenhamos uma visão exaltada de Cristo (na verdade, é devido!), mas, geralmente o vemos apenas como o dócil cordeiro, conduzido ao matadouro; raramente pensamos no Senhor Jesus como o hábil guerreiro, que estraçalha aqueles que ousaram blasfemar contra o nome de Deus perseguindo seu povo. Porém, a segurança da igreja quanto a sua vitória na conquista de Cristo, deve-se à uma apreensão do quadro completo de quem é ele: sim, o gentil cordeiro que amavelmente sacrificou-se por sua igreja, mas também o Rei-general, que lidera tropas contra os que se rebelam contra o seu reino, oferecendo os cadáveres da peleja às aves de rapina.
Lembremo-nos que um dos títulos do SENHOR é 'O Senhor dos Exércitos’; ‘O Senhor Forte e Poderoso, poderoso nas batalhas’ (Sl 24.8).
3. Nossa jornada nesse mundo, também é descrita como um batalha. Lutamos contra todo um sistema cultural, político e de pensamento, que milita incansavelmente contra tudo o que se chama Deus (cf. 1Ts 2.3-4), um sistema que não teme querer não se submeter a Deus nem a lhe dar a glória devida.
Ao longo da história o SENHOR demonstrou que esse tipo de sistema sempre fracassa em seu intento. Porém, haverá de chegar o dia em que a execução da sentença condenará cabalmente esse levante.
O encerramento da presente era dar-ser-á, inexoravelmente, com a vitória de Cristo e de sua igreja. É isso que aguardamos confiantemente.
Conclusão
Em Apocalipse 19.11-20, João apresenta uma visão de Cristo como o guerreiro divino que desce do céu para estabelecer seu domínio definitivo. Montado em um cavalo branco, com olhos flamejantes e vestes tingidas de sangue, ele avança como comandante supremo contra as forças do mal que se opõem ao seu reino. Sua vitória não é meramente simbólica—é a consumação da história redentora, onde toda resistência ao seu governo é esmagada. Para a Igreja, isso significa que nossas batalhas espirituais presentes encontram seu desfecho garantido na volta do Rei, e que nenhuma força terrena ou infernal pode frustrar seus propósitos salvíficos.
A visão também nos convida à esperança ativa e à fidelidade perseverante. Enquanto aguardamos esse triunfo final, somos chamados a reconhecer que Cristo já reina e que sua vitória já foi assegurada na cruz e ressurreição. Os inimigos do reino—representados pela besta, pelo falso profeta e pelas hostes demoníacas—serão definitivamente derrotados, e aqueles que se unem a Cristo compartilham dessa vitória. Assim, a imagem do Rei-general não nos oferece apenas consolo diante das adversidades presentes, mas também nos mobiliza para viver sob sua autoridade agora, antecipando o dia em que seu reino será plenamente manifestado e sua glória reconhecida por todas as nações.
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