Como Deus quer ser conhecido

A vida na presença de Deus  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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O segundo mandamento (Êxodo 20.4-6 e Deuteronômio 5.8-10) nos ensina como Deus deseja ser conhecido. Diferente do que muitos pensam, o foco não é apenas condenar imagens, mas alertar o povo de Deus sobre a tentativa de reduzi-lo à criação ou substituí-lo por nossa imaginação. Deus é zeloso e nos ama demais para aceitar caricaturas. A aplicação central é clara: não devemos moldar Deus aos nossos gostos, mas ouvi-lo e conhecê-lo por meio de Cristo, Sua perfeita revelação.

Notes
Transcript
Êxodo 20.4–6 / Deuteronômio 5.8–10 — “Não faça para você imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não adore essas coisas, nem preste culto a elas, porque eu, o Senhor, seu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.”
Continuando a série “A vida na presença de Deus”, série onde olhamos mais de perto os 10 mandamentos para saber o que eles revelam sobre Deus e como eles afetam nossa vida.
Na semana passada vimos que o primeiro mandamento nos ensina que Deus YHWH exige exclusividade. Nossa relação com ele é semelhante a um casamento: não há espaço para rivais.
Mas o segundo mandamento responde uma pergunta diferente: Como esse Deus deve ser conhecido? Ou: Quem tem o direito de dizer quem Deus é? Nós ou ele?
Quando lemos este mandamento, normalmente pensamos logo nas imagens dos santos, nas procissões e nas estátuas religiosas. E é verdade que esse texto tem implicações para essas práticas.
Mas o segundo mandamento vai muito além disso. Ele não foi dado primeiro para corrigir os cananeus ou os egípcios; foi dado para corrigir Israel. O alvo principal do mandamento não são os pecados dos outros, mas a forma como o próprio povo de Deus se relaciona com ele.
É por isso que o segundo mandamento não trata apenas de imagens. Ele trata da maneira como conhecemos ao Senhor.
Para compreender isso, vamos dividí-lo em três partes:
Não reduza Deus à criação.

v.4 - “— Não faça para você imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.”

[Desenho: O Escultor. / Conceito visual: Um boneco de palito segurando um pequeno martelo perto de um bloco quadrado de pedra. Significado: Lembra a palavra "escultura" que lemos no mandamento, ensinando que as mãos humanas não podem criar nem moldar uma imagem de quem Deus é.]
A palavra hebraica usada na Bíblia para “imagem de escultura” (פֶ֣֙סֶל֙׀ - pesel) aparece 31 vezes no Antigo Testamento e, em todas as ocasiões, se refere aos ídolos que representam os falsos deuses [1], como em Sl 97.7 e Is 44.17.
Mas Deus não para aí. Ele acrescenta "...nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra." Note que Ele não está falando simplesmente de esculturas, mas de representação. Deus menciona praticamente toda a criação: “céu, terra e águas”. Ou seja, tudo aquilo que o homem consegue ver, imaginar e transformar em símbolo religioso.
Mas por quê? A resposta está em Deuteronômio:
Deuteronômio 4.15–16 “— Tenham cuidado! Guardem bem a sua alma. Porque vocês não viram aparência nenhuma no dia em que o Senhor, o Deus de vocês, lhes falou em Horebe..."
Percebam a lógica. Deus não diz: "Vocês viram uma forma, então reproduzam-na corretamente." Ele diz: "Vocês não viram forma alguma." Ao contrário do que ensinam alguns, o segundo mandamento não trata apenas de imagens de falsos deuses. O próprio contexto de Dt 4 mostra que Deus não queria ser representado por nenhuma forma criada.
O povo ouviu uma voz. O povo recebeu uma palavra. Mas não recebeu uma imagem porque Deus não queria ser reduzido a algo da criação. Quando o homem tenta representar Deus, inevitavelmente utiliza coisas criadas: como um velho barbudo, uma luz brilhante, uma chama, um bebê na manjedoura.
Como não vimos Deus, toda tentativa de representá-lo acaba usando algo da criação para ocupar o lugar daquilo que nunca vimos. São sempre elementos da criação tentando representar o Criador. E é exatamente isso que Deus está proibindo, porque toda tentativa de reproduzir quem Deus é de forma visível, sempre diminui quem Ele é.
Não porque a arte seja má. Mas porque Deus é infinitamente maior do que qualquer representação produzida pelo homem.
Não substitua a Palavra pela imaginação.

v.5a - “Não adore essas coisas, nem preste culto a elas;”

[Desenho: Ouvindo o Livro. / Conceito visual: Um grande ouvido simples desenhado ao lado de um livro aberto. Significado: Destaca que o povo não "viu" Deus, mas "ouviu" a Sua voz. Nossa fé cresce ouvindo a Bíblia, e não inventando imagens na nossa cabeça.]
Mas fique claro que o alvo de Deus neste mandamento não é a arte em si. Deus mesmo ordena fazer palmeiras, anjos e querubins em outros momentos (Ex 25.18-20; Nm 21.8-9; 1Rs 6.23-29). O problema não é a arte. O problema é que nenhum objeto deve ocupar um papel religioso ou fazer algum tipo de “mediação” entre Deus e os homens.
E para tirar qualquer dúvida, enquanto Deus estava dando os 10 Mandamentos para Moisés, o irmão de Moisés, Arão, juntamente com o povo de Israel resolveu fazer um ídolo.
Por quê? Porque Moisés estava demorando. Porque não podiam subir no monte e ver Deus. Eles queriam algo que pudessem ver. Algo que pudessem compreender, ver e ter. Então, Arão fez um bezerro de ouro (Ex 32.1-5).
Mas sabe o que é mais impressionante? Arão fez um bezerro de ouro para a adoração do povo. Eles haviam saído do Egito há cerca de três meses e os egípcios adoravam um deus-touro chamado Ápis[2]. Já em Canaã, a terra para onde eles estavam indo, os deuses El e Baal também eram representados por touros. Contudo, Arão não chama esse bezerro de Ápis, nem de El nem de Baal, mas de YHWH (v.5)! Ele diz:
Êxodo 32.1–5 “ — Amanhã haverá festa ao Senhor.”
O povo não estava trocando Deus YHWH por outro. O povo estava adorando ao Deus verdadeiro, mas usando uma imagem para isso. Estava substituindo a revelação de Deus pela imaginação humana. E o que Deus respondeu?
Êxodo 32.7–8 “Então o Senhor disse a Moisés: — Vá, desça; porque o seu povo, o povo que você tirou do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que eu lhe havia ordenado; fez para si um bezerro de metal fundido, o adorou e lhe ofereceu sacrifícios, dizendo: “São estes, ó Israel, os seus deuses, que tiraram você da terra do Egito.””
Israel pecou não porque rejeitou a Deus, mas porque queria modelá-lo, torná-lo visível, acessível e mais fácil de entender. Mas Deus rejeitou totalmente essa tentativa. Por quê?
Já vimos que Deus não mostrou forma alguma quando se revelou ao povo e que somente sua voz foi ouvida (Dt 4.15). Perceba que, desde o início, o Senhor quer ser conhecido pela Sua Palavra, não pela nossa imaginação. Por isso o salmista diz:
Salmo 95.7–8 “Ele é o nosso Deus, e nós somos povo do seu pasto e ovelhas de sua mão. Hoje, se ouvirem a sua voz, não endureçam o coração [...],” (cf. Dt 28.1; tb Hb 3.7)
Ao invés das imagens de Deus ajudarem a gente a entender mais sobre Ele, elas corrompem nossa relação com Ele, pois é a Palavra dele que nos ensina. A fé bíblica é a fé de ouvir a Palavra, de ouvir a voz de Deus e aprender o que Ele diz sobre si mesmo.
Porque Deus nos ama demais para aceitar uma caricatura dele.

v.5b - “porque eu, o SENHOR, seu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, mas faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.”

[Desenho: O Grande Coração. / Conceito visual: Um coração gigante com um bonequinho de palito feliz desenhado dentro dele. Significado: Simboliza o amor zeloso de Deus. O amor de Deus nos protege e nos envolve, durando até mil gerações.]
E aqui chegamos na razão por trás dessa proibição. O texto começa falando sobre imagens, mas termina falando sobre ódio e sobre amor, porque esse mandamento não é sobre arte, mas sobre nossa relação com Ele.
Deus diz que a idolatria é um problema de amor, de aliança e de fidelidade. Ele é zeloso (ciumento), não porque é inseguro, mas porque ama seu povo, é fiel e não está disposto a nos dividir com mais ninguém — nem com caricaturas de si mesmo.
Imagine um casamento onde o homem ama a maneira como sua mãe o tratava. Aí ele casa e fica apaixonado pela ideia de que a esposa o tratará da mesma forma. Passa o tempo, e ele se irrita porque ela não age como ele gostaria. No fim, ele amava o que achava que sua esposa deveria ser, ao invés de amá-la por quem ela é. Qualquer pessoa quer ser amada pelo que é.
Da mesma forma, Deus quer ser conhecido por quem Ele é. Não como nós imaginamos ou como a nossa cultura diz que Ele deve ser. Ele quer ser conhecido como Ele mesmo se revelou.
E o mandamento termina com uma demonstração desproporcional desse amor. O juízo de Deus alcança até a terceira e quarta geração, mas a misericórdia Dele alcança mil gerações.
Isso significa que Deus é realmente justo e a gente não deveria brincar com este, nem com nenhum mandamento. Mas o amor Dele é incomparavelmente maior. Ele não proíbe imagens por ser um mandão, mas porque ama o seu povo e quer ser conhecido como Ele realmente é.

Aplicação

É fácil enxergar a idolatria dos outros. Difícil é perceber como nós também tentamos moldar Deus à nossa própria imaginação. O segundo mandamento certamente nos impede de ajoelhar diante de imagens de santos, mas ele não para aí. Ele também nos impede de criar versões de Deus que caibam na nossa cabeça e se adaptem aos nossos gostos.
Mas, talvez alguém esteja pensando: "Pastor, então qualquer objeto religioso é proibido?" Não. O problema não é simplesmente ter algo religioso. O próprio Deus ordenou a construção do tabernáculo, da arca, das vestes sacerdotais e de elementos ligados ao culto. Nós temos uma cruz vazia aqui no fundo.
A questão é outra: quando algo começa a desempenhar um papel que Deus reservou para sua própria Palavra?

Fé pelo Ouvir

Quando Moisés relembra a entrega da Lei, ele não diz: "Vocês viram uma forma." Ele diz: "Vocês ouviram uma voz." O povo ouviu. Não viu. Não imaginou. Ouviu. E séculos depois o Novo Testamento continua insistindo na mesma lógica: “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17), não pelo visualizar.
Por isso surgem perguntas que merecem nossa reflexão:
Por que sentimos tanta necessidade de visualizar aquilo que Deus escolheu comunicar por meio da sua Palavra?
Por que Deus não preservou nenhuma descrição física de si mesmo?
E por que os Evangelhos dedicam tantas páginas às palavras, às obras, ao caráter e à glória de Cristo, mas não gastam uma linha sequer descrevendo sua aparência?
Será que isso foi um acidente? Ou será que Deus queria que conhecêssemos seu Filho por aquilo que ele diz e faz, e não por aquilo que conseguimos imaginar?

Objeto ou Rival da Revelação?

Outra pergunta importante é esta: quando algo pretende nos ensinar quem Deus é, nos ajudar a visualizar Deus, compreender Deus ou formar nossa ideia de Deus, será que ele ainda é apenas um objeto? Ou já começou a disputar espaço com os meios pelos quais Deus decidiu revelar-se?
O segundo mandamento nos convida a refletir seriamente sobre isso. Porque o problema não é apenas a adoração de imagens; é qualquer tentativa de substituir a auto-revelação de Deus por representações produzidas pela imaginação humana.
Deus não quer ser conhecido por caricaturas, mas todos nós corremos o risco de fazer essas caricaturas: quando escolhemos apenas os atributos que gostamos ou quando ignoramos aquilo que Deus diz sobre si mesmo. Nesse momento já nos tornamos idólatras, quando tentamos remodelar Deus à nossa imagem.

Conclusão

E aqui está a boa notícia: O Deus que proibiu o homem de fabricar imagens de si mesmo resolveu revelar-se. Mas não através da imaginação humana, nem de esculturas, nem de ídolos.
Ele se revelou em Cristo.
João 1.18 “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o revelou.”
Cristo não é uma imagem produzida pelo homem. Cristo é a auto-revelação produzida por Deus.
Por isso, se queremos conhecer quem Deus é, não devemos olhar para aquilo que os homens inventaram. Devemos olhar para Jesus Cristo, ouvir sua Palavra e confiar nele.
Porque somente nele conhecemos o Deus verdadeiro como ele realmente é.
O segundo mandamento nos lembra que Deus não nos chamou para imaginá-lo. Ele nos chamou para ouvi-lo. E quando ouvimos a voz de Cristo nas Escrituras, encontramos o Deus verdadeiro exatamente como ele decidiu revelar-se.
[1] Apesar da palavra se referir ao ato de talhar ou esculpir algo, ela também é usada para se referir a outros tipos de ídolos, como aqueles feitos de metal derretido e jogados em moldes (Is 40.19; 44.10), ou seja, não é usada somente para esculturas, mas para qualquer tipo de ídolo, seja ele esculpido, moldado, pintado num quadro, impresso num papel ou imaginado no coração.
[2] Ápis era adorado localmente em Mênfis. Havia outro deus-touro em Heliópolis, chamado Mnevis, além de deusas representadas por vacas em outras regiões.
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