Sem Filtro: Quando as mascaras caem
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"Marcos 11.12–14 diz: "Na manhã seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus teve fome. Viu que, a certa distância, havia uma figueira cheia de folhas e foi ver se encontraria figos. No entanto, só havia folhas, pois ainda não era tempo de dar frutos. Então Jesus disse à árvore: 'Nunca mais comam de seu fruto!'. E os discípulos ouviram o que ele disse."
Já em Mateus 21.18–22 lemos: "De manhã, enquanto voltava para Jerusalém, Jesus teve fome. Encontrando uma figueira à beira do caminho, foi ver se havia figos, mas só encontrou folhas. Então disse à figueira: 'Nunca mais dê frutos!'. E, no mesmo instante, a figueira secou. Quando os discípulos viram isso, ficaram admirados e perguntaram: 'Como a figueira secou tão depressa?'. Jesus respondeu: 'Eu lhes digo a verdade: se vocês tiverem fé e não duvidarem, poderão fazer o mesmo que fiz com esta figueira, e muito mais. Poderão até dizer a este monte: "Levante-se e atire-se no mar", e isso acontecerá. Se crerem, receberão qualquer coisa que pedirem em oração'."
Marcos ainda continua esse relato nos versículos 20 a 26, quando, no dia seguinte, os discípulos passam novamente pelo mesmo caminho e percebem que a figueira havia secado desde a raiz. É nesse momento que Jesus ensina sobre a fé, a oração e o perdão.
Esses dois textos narram o mesmo acontecimento. Quando colocamos Mateus e Marcos lado a lado, conseguimos compreender melhor tudo o que aconteceu. Afinal, por que Jesus amaldiçoou uma árvore? Que fome era essa que levou Jesus a amaldiçoar uma figueira simplesmente porque ela não tinha frutos?
À primeira vista, essa atitude parece até estranha. Parece algo impulsivo, como se Jesus tivesse ficado irritado porque não encontrou o que queria. Mas, quando entendemos o contexto, percebemos que esse episódio está carregado de significado. Existe um simbolismo muito forte aqui. Essa figueira aponta para profecias que estavam se cumprindo, revela uma realidade espiritual daquele tempo e, ao mesmo tempo, fala diretamente ao nosso coração hoje.
O texto começa com Jesus caminhando. Marcos diz que Ele estava saindo de Betânia, enquanto Mateus diz que Ele estava voltando para Jerusalém. Não há contradição. Jesus estava saindo de Betânia em direção a Jerusalém. E isso é importante porque Ele já estava entrando na última semana do seu ministério terreno. Em poucos dias aconteceria a crucificação. Seriam seus últimos ensinamentos públicos, suas últimas parábolas, seus últimos confrontos com os líderes religiosos e o cumprimento das profecias sobre o Messias.
Enquanto caminhava, Jesus teve fome. No caminho, viu uma figueira à distância. Para quem talvez não conheça, não estou falando do time de futebol do Estreito. Estou falando da árvore mesmo, aquela que produz o figo. Inclusive, temos uma figueira aqui perto da catedral, na praça. Era uma árvore grande, cheia de folhas, e de longe parecia saudável e cheia de vida.
Jesus se aproximou esperando encontrar frutos para comer. Mas, quando chegou perto, não encontrou absolutamente nada além de folhas. Marcos faz questão de destacar que ela estava cheia de folhas. Ela tinha aparência de ser uma árvore produtiva, mas, na realidade, não produzia fruto nenhum.
Então Jesus olha para aquela figueira e declara: "Nunca mais dê frutos!" ou, como Marcos registra, "Nunca mais comam do seu fruto". E ali Jesus amaldiçoa aquela árvore.
Mas a pergunta continua: o que isso significa? Por que Jesus fez isso? Será que Ele estava apenas com fome? Ou será que existe algo muito maior acontecendo nesse texto?
Boa parte dos estudiosos entende que a figueira simboliza Israel. Ao longo do Antigo Testamento encontramos diversas passagens em que a figueira representa o povo de Deus. À primeira vista, quando lemos Marcos, parece até que Jesus foi injusto, porque o texto diz que "não era tempo de figos". Mas existe um detalhe sobre a figueira que esclarece muito esse episódio.
A figueira produz primeiro pequenos frutos, antes mesmo das folhas aparecerem. Somente depois que esses frutos começam a se desenvolver é que a árvore fica cheia de folhas. Ou seja, uma figueira completamente folhada deveria apresentar pelo menos esses primeiros frutos. O problema não era a estação do ano. O problema era que aquela árvore anunciava uma realidade que não existia. Ela exibia folhas que prometiam frutos, mas quando Jesus se aproximou não havia absolutamente nada.
Esse é justamente o simbolismo de Israel naquele momento da história. O povo escolhido por Deus para anunciar Sua glória, carregar Sua Palavra e apontar para o Messias demonstrava uma religiosidade impressionante por fora, mas havia perdido seus frutos espirituais. Havia templo, sacrifícios, festas religiosas, aparência de santidade, mas faltava arrependimento, justiça, misericórdia e fé. A maldição da figueira representa o juízo de Deus sobre essa esterilidade espiritual. Aquela geração rejeitou o próprio Messias e, a partir da nova aliança estabelecida pelo sangue de Cristo, Deus passa a formar um único povo composto por todos aqueles que creem em Jesus, judeus e gentios.
Mas como esse texto fala conosco hoje?
A grande pergunta é: será que nós também estamos vivendo uma vida de folhas?
Nossa vida muitas vezes é construída sobre aparências. Vivemos de máscaras, de filtros, de folhas. Queremos parecer algo que não somos. Queremos aparentar possuir uma espiritualidade que, na verdade, não existe. Muitas vezes escondemos quem realmente somos porque não queremos produzir frutos. E produzir frutos exige transformação.
A verdade é que mudar dá trabalho. Mudar significa abandonar pecados, abrir mão de hábitos, renunciar prazeres, deixar coisas que, muitas vezes, são lucrativas, vantajosas ou simplesmente agradáveis para a nossa carne. Então pensamos: "Não vou mudar. Vou continuar vivendo desse jeito. Só não quero que descubram. Não quero que saibam quem eu realmente sou."
Em vez de buscar transformação, investimos na aparência. Construímos uma imagem espiritual. Dizemos as palavras certas, fazemos as coisas certas quando as pessoas estão olhando, participamos das atividades da igreja, mas tudo isso serve apenas para esconder quem realmente somos.
Às vezes pensamos: "Vou trabalhar bastante na igreja. Vou servir em tudo. Vou ajudar em todos os ministérios." Não porque amamos a Cristo, mas porque, enquanto todos olham para o servo, ninguém percebe o homem escondido atrás da máscara.
Vivemos como ilusionistas. Com uma mão distraímos as pessoas, enquanto a outra continua alimentando pecados que ninguém vê. Essa é a verdadeira vida de aparência. É propaganda enganosa.
Somos como aquele ovo de Páscoa cuja propaganda mostra um brinquedo incrível, mas, quando você abre, encontra um brinquedinho minúsculo que não serve para nada. Somos como a thumbnail de um vídeo no YouTube cheia de promessas e um título chamativo, mas, quando a pessoa clica, percebe que não havia nada daquilo. Assim também podemos viver: parecendo vivos, enquanto espiritualmente estamos mortos.
Tocamos instrumentos. Cantamos músicas. Pregamos sermões. Lideramos ministérios. Anunciamos frutos que não possuímos.
No texto, Jesus se aproxima daquela árvore e procura seus frutos. Cristo faz uma investigação cuidadosa. Ele sonda os nossos corações. Ele conhece o mais profundo do nosso ser. Na verdade, Ele nos conhece melhor do que nós mesmos.
Cristo olha para este lugar hoje e vê muitas árvores. Árvores sentadas ouvindo esta mensagem. Árvores em pé pregando. Árvores tocando instrumentos. Árvores cantando. Árvores liderando ministérios. Árvores cheias de folhas.
Mas Ele atravessa toda essa folhagem e procura frutos.
Porque Cristo não quer apenas árvores bonitas. Cristo quer árvores frutíferas.
João 15.8 diz: "Quando vocês produzem muitos frutos, trazem grande glória a meu Pai e demonstram que são meus discípulos de verdade."
Ele tem o direito de procurar esses frutos, porque Ele é o Senhor.
Ele procura uma fé genuína. Um amor verdadeiro pela Palavra. Uma vida de oração. Uma rotina de devoção. Um coração regenerado. Uma vida de serviço. Um compromisso sincero com a pregação do evangelho. Eu poderia passar a noite inteira citando frutos que demonstram uma vida transformada.
Tudo o que Cristo deseja é encontrar, em meio às nossas folhas, um fruto verdadeiro que justifique aquilo que aparentamos ser.
Toda essa história foi extremamente dura para Israel. Jesus amaldiçoou aquela figueira, e Marcos diz que ela secou desde a raiz. Isso significa morte completa. Aquele povo, berço de Abraão, Isaque, Jacó, Davi, Salomão e do próprio Jesus segundo a carne, estava recebendo um severo aviso do juízo de Deus por causa da sua incredulidade.
Isso nos faz lembrar das palavras de Mateus 7.19: "Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo."
Esse será também o procedimento de Cristo no dia do juízo. Quando estivermos diante do tribunal de Deus, aqueles cuja vida nunca produziu frutos de arrependimento mostrarão que jamais pertenceram verdadeiramente a Cristo.
Por isso Jesus diz em Mateus 7.22–23: "Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Não expulsamos demônios em teu nome? Não fizemos muitos milagres em teu nome?'. Então lhes direi claramente: 'Nunca conheci vocês. Afastem-se de mim.'"
Perceba que essas pessoas tinham muitas folhas. Elas profetizavam, expulsavam demônios e realizavam milagres. Mas não tinham frutos.
Essa é a realidade de uma vida hipócrita.
Cristo não mata imediatamente quem vive de aparências. A condenação é muito mais assustadora. É permanecer exatamente como está. Continuar seco. Continuar sem frutos. Continuar distante de Deus até o dia em que o juízo definitivo será revelado.
Mas graças a Deus o texto não termina na condenação.
Jesus aponta uma saída.
Ele fala sobre uma vida de fé. Uma fé que ora, confia em Deus e vê o impossível acontecer. Mas essa fé nunca é apenas um discurso. Ela produz frutos.
Por isso Marcos termina falando sobre perdão. "Quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem."
O perdão já é um fruto. É a evidência de um coração transformado.
Esse texto nos leva a fazer uma pergunta que ninguém pode responder por nós. Nem o pastor. Nem nossos pais. Nem nossos líderes.
Será que eu sou realmente uma árvore frutífera cheia de folhas? Ou sou apenas aquela figueira da beira da estrada, anunciando para todos uma realidade que não existe?
A boa notícia é que Cristo também é a solução para uma vida sem frutos.
Ele já fez tudo o que era necessário. Pelo Seu sangue fomos reconciliados com Deus. Pelo Espírito Santo recebemos uma nova natureza. O Pai nos adotou como filhos. Em Cristo nos tornamos novas criaturas.
Agora, quem foi transformado por Ele não vive apenas de folhas. Vive uma vida que produz frutos para a glória de Deus.
