A Ressurreição e o Trabalho

A Ressurreição de Jesus Muda Todas as Coisas  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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A Ressurreição e o Trabalho

Série: A Ressurreição de Jesus Muda Todas as Coisas
Em nossa série “A ressurreição de Jesus muda todas as coisas”, temos nos debruçado sobre as implicações da ressurreição de Jesus em dimensões fundamentais da vida cristã — nossa missão e identidade como discípulos, nossas culpas e fracassos, e nossos relacionamentos mais íntimos no casamento, na família e no perdão. Hoje chegamos a uma dimensão que ocupa a maior parte das horas acordadas de cada um de nós: o trabalho.
Deixe-me começar com uma pergunta simples: por que você trabalha? Pode parecer óbvio — para ganhar dinheiro, sustentar a família, realizar sonhos. Mas há uma pergunta anterior que poucos fazem: para que o trabalho existe? O que ele significa? O Pregador em Eclesiastes percorreu todos os campos do esforço humano e declarou uma e outra vez: vaidade (Ec 1.14; 2.11). Há momentos em que todos nós sentimos isso — a sensação de que estamos fazendo girar a roda sem sair do lugar. Que estamos no automático, mas o enfado permanece. Que nos desgastamos sem que nada de verdadeiro reste. Mas precisa ser assim? Veremos que a ressurreição de Jesus tem implicações sobre o que fazemos do amanhecer ao pôr do sol, de segunda a sábado, não apenas nos cultos de domingo.

I. O trabalho tem raízes antes da queda

Para entender o que a ressurreição faz pelo nosso trabalho, precisamos primeiro entender de onde o trabalho vem — e o primeiro lugar que as Escrituras nos conduzem é que o trabalho nasce em Deus.
Em Gênesis 2.2, lemos que “Deus acabou no dia sétimo a obra que fizera, e descansou no sétimo dia de toda a obra que tinha feito”. O escritor de Hebreus retoma essa imagem (Hb 4.10) como modelo de cessação após a obra realizada. Observe: Deus descansou porque havia trabalhado. Antes do homem existir, antes da queda, antes de qualquer pecado, havia trabalho — e esse trabalho era de Deus. Criação e acabamento. Ordem e beleza. Verdade e propósito. Os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e divindade, são conhecidos através das coisas criadas (Rm 1.20) — ou seja, conhecemos Deus, em parte, por aquilo que Ele faz. O trabalho nasce com Deus e em Deus (o primeiro poeta, o primeiro artesão, o primeiro trabalhador, o primeiro empreendedor).
E porque o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26), ele também trabalha. Não porque foi punido. Não porque é ocioso e precisa ocupar o tempo. Mas porque reflete o Criador. Deus instrui Adão e Eva a “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1.28) — termos que carregam a ideia de administrar com mordomia (não somos donos, somos gestores) e desenvolver o potencial da criação. E no jardim, Deus os coloca para “cultivar e guardar” (Gn 2.15) — como num laboratório onde a natureza do trabalho seria formada. O trabalho é expressão da identidade que Deus conferiu ao homem. Por isso a escravidão é uma corrupção profunda: coloca uns a trabalhar não como portadores da imagem de Deus, mas como instrumentos da ambição de outros.
O que o pecado fez ao trabalho, então? Gênesis 3.17-18: “Maldita é a terra por tua causa; com sofrimento comerás dela todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e ervas daninhas.” A queda não inventou o trabalho — ela o tornou árduo. O fruto da desobediência não é a necessidade de trabalhar, mas a resistência da terra ao trabalho. As coisas não virão por si sós; exigirão suor, luta, frustração. E há algo ainda mais grave que o cansaço físico: o pecado corrompeu a motivação do trabalho. O que deveria expressar a glória do Criador passou a ser orientado para a glória de si mesmo. O trabalho criado por Deus tornou-se candidato à idolatria (ou servo dela).
Vale notar que, mesmo nas linhagens mais marcadas pelo pecado, o ser humano continua criando. Os descendentes de Caim criam gado, tocam harpa e flauta, dominam os metais (Gn 4.20-22). A imagem de Deus permanece, mesmo sob o pecado — o impulso criativo não se extingue, mas pode ser desviado. Na Aliança com Israel, vemos com clareza o quanto Deus se importa com o trabalho. Quando Ele vai constituir Sua morada entre o povo escolhido, o primeiro ato de preenchimento do Espírito registrado nas Escrituras não é para profecia nem para liderança militar — é para artesanato. Bezalel e Aoliabe são preenchidos pelo Espírito de Deus “de habilidade, inteligência e conhecimento em todo trabalho de artífice” (Êx 35.31-35) para construir o Tabernáculo. Ou seja, o trabalho não é periférico à relação de Deus com Seu povo. O Espírito que paira sobre as águas na criação é o mesmo Espírito que guia as mãos do artesão.
Estabelecemos o terreno: o trabalho é bom, tem raízes profundas em Deus e foi ferido mas não destruído pelo pecado. Mas o que o restaura? O que o impede de ser, afinal, vaidade? A resposta é encontrada naquele que revela que trabalhos não deveriam ser sem sentido: Jesus.

II. O maior trabalhador veio para realizar uma obra

Há algo notável na forma como Deus escolheu salvar o mundo: enviou Seu Filho como trabalhador.
Marcos 6.3 nos diz que Jesus era conhecido como o tekton — o carpinteiro, o construtor. Aquele que moldava madeira, que trabalhava com as mãos. Que, antes de qualquer palavra pública, passou décadas em uma oficina em Nazaré. É difícil não notar a ironia profunda nisso: Jesus manuseou madeira, pregos e martelo — os mesmos instrumentos que seriam usados para executá-lo. O carpinteiro morreu como obra da carpintaria. Mesmo assim, ele dignificou o trabalho manual.
Logicamente, sabemos que o trabalho de Jesus não se restringia ao ofício. Ele tinha consciência de uma missão. “É necessário que eu realize as obras daquele que me enviou” (Jo 9.4). Acima de tudo, Jesus veio para executar e consumar a obra de redenção. Ele tinha plena consciência de sua vocação. Por isso, Ele foi obediente ao Pai em cada passo, disciplinado diante de cada tentativa de desvio. Teve a aprovação do Pai declarada publicamente. Enfrentou toda a sorte de oposição — o tentador no deserto, os líderes religiosos e políticos — e ainda as provações dentro do próprio grupo mais íntimo. Teve sua missão confirmada em meio à aflição. E morreu de cruz. Suas últimas palavras foram uma declaração de trabalhador que terminou o que veio fazer: “Está consumado” (Jo 19.30).
Mas e se ele tivesse permanecido morto? Se o sepulcro tivesse sido o fim?

III. A ressurreição: o nosso trabalho não é vão

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundando na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (1Coríntios 15.58)
Este versículo é o destino de um capítulo inteiro sobre a ressurreição. Paulo passa cinquenta e sete versículos construindo o argumento para a ressurreição de Jesus — e o conclui com uma exortação sobre trabalho. O “portanto” não é ornamental: é a conclusão lógica de tudo que veio antes. Porque Cristo ressuscitou, o nosso trabalho não é vão.
É primeiramente na obra de redenção que a ressurreição faz o trabalho não ser vão. Se Cristo tivesse permanecido na morte, toda a sua obediência, toda a sua entrega, todo o seu sofrimento teria se encerrado em derrota. A ressurreição é o veredicto do Pai sobre o trabalho do Filho: foi aceito. Foi suficiente. Porque Cristo ressuscitou, toda a sua árdua obra de redenção alcançou o resultado almejado. É isso que Paulo afirma em Romanos 4.25: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação”. Capte isso: a ressurreição declara o êxito da obra expiatória - do sofrimento e morte.
E a partir dessa obra consumada, o trabalho de todo discípulo recebe um fundamento novo. Paulo escreve aos Efésios que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Não somos apenas criaturas que trabalham — somos discípulos que trabalham sob o senhorio de Jesus em tudo que fazemos. O trabalho deixa de ser autoafirmação e passa a ser mordomia: gestão fiel do que foi confiado por um Senhor que um dia pedirá conta (Mt 25.14-30).
O que torna um trabalho vão, portanto, não é a ausência de resultados visíveis — é a sua desconexão com o que Deus intenta realizar através de nós. O que dá sentido ao trabalho é fazê-lo diante de Deus, como para Ele, aplicando com inteligência as capacidades que Ele nos confiou para Sua glória e o bem das outras pessoas.
Há uma história conhecida: um homem passa por uma construção e pergunta a três trabalhadores o que estão fazendo. O primeiro diz: “estou assentando tijolos”. O segundo: “estou construindo uma parede”. O terceiro levanta os olhos e responde: “estou construindo a catedral da nossa cidade”. Três homens, o mesmo trabalho, três realidades completamente diferentes. Em que posição você está? Mas há uma segunda pergunta, talvez mais funda. Uma frase que circula atribuída a Saint-Exupéry — sem confirmação precisa na obra dele — diz assim: “Se você quer construir um navio, não chame as pessoas para juntar madeira ou atribua-lhes tarefas e trabalho, mas ensine-os a desejar a infinita imensidão do oceano”. Você tem construído barcos desejando a imensidão do mar?
Há também uma frase que captura o espírito da teologia da vocação da Reforma — tradicionalmente atribuída a Lutero, embora sem registro histórico preciso, mas que ressoa com o que ele de fato ensinou sobre o chamado: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”. Não é necessário um chamado eclesiástico para honrar a Deus no trabalho. É necessário fazer bem aquilo que Deus nos deu para fazer — como mordomos fiéis do que nos foi confiado. Como diria Tim Keller: “Se é um chamado, fazemos por causa de quem nos chamou, e não por nossa causa. Nosso trabalho diário só é um chamado se for reconcebido como designação de Deus para servirmos ao próximo”.

IV. Trabalhando à luz da ressurreição

Se a ressurreição fundamenta o sentido do trabalho, ela também denuncia o que o corrompeu — e aponta para algo que nossa teologia prática frequentemente não alcança.
Quando o trabalho perde o seu referencial em Deus, ele passa a servir a outros senhores. O músico que abre mão da integridade artística para monetizar rapidamente o que é mais consumível; o ministro que substitui o labor pastoral da fidelidade pela busca de resultados que ele mesmo estabeleceu como meta — ambos colocam no altar do dinheiro, do poder ou da projeção aquilo que Deus lhes deu para servir. E a ambição que nasce daí não é inocente: ela se torna idolátrica quando faz do trabalho um meio para realizar nossas próprias vontades em vez de um instrumento nas mãos de Deus. O problema nunca foi ter ambição, mas o que ambicionamos. Uma coisa é desejar uma igreja que cresça; outra é desejar uma igreja fiel que, ao crescer, glorifique a Deus. Uma coisa é querer que a família prospere; outra é querer uma família onde o Senhor é amado e buscado. Nossa ambição precisa ser piedosa.
Por isso, o trabalho do cristão, que enxerga o mundo a partir do que Deus tem feito no mundo através de Cristo, é fundamentado na realidade que o próprio texto de Paulo aponta: o que fazemos com o corpo e as mãos agora importa porque Deus tem um grande futuro reservado para a criação material. É preciso notar onde Paulo insere a exortação ao trabalho. Não ao final de um capítulo sobre ética geral, nem numa lista de deveres cotidianos. Ele a insere no fechamento do capítulo 15 de 1Coríntios — o capítulo sobre a ressurreição dos corpos. Paulo acabou de argumentar que estes corpos mortais serão transformados, que a morte será vencida, que a criação material tem um futuro (1Co 15.42-54). E então diz: portanto, abundai na obra do Senhor. O portanto conecta a esperança da nova criação com o trabalho presente. Isso não é coincidência — nosso serviço no Senhor está completamente apoiado na ressurreição de Jesus.
A ressurreição não é a fuga da matéria. É a sua renovação. Deus não vai destruir a criação e recomeçar do zero; vai restaurá-la, recriá-la, fazê-la nova. E nisso, o trabalho fiel de seus servos tem participação. A cidade imaginada por João em Apocalipse 21 tem ruas, tem portas, tem nações trazendo sua glória para dentro dela (Ap 21.24-26) — há obra humana redimida na nova criação. O carpinteiro que moldou madeira com integridade, a enfermeira que cuidou com atenção, o professor que ensinou com rigor, o pai que formou filhos com amor — nada disso é perdido. No Senhor, não existe trabalho vão! O que foi feito com fidelidade, sob o senhorio de Cristo, para a glória de Deus e o bem do próximo, tem peso eterno.
Isso não responde todas as perguntas práticas sobre vocação, mudança de carreira ou salário. Mas responde a pergunta fundamental: vale a pena? A resposta é sim — e o fundamento não é sentimento, nem resultado imediato. É a ressurreição.

Conclusão

Ao longo desta série temos meditado em como a ressurreição de Jesus muda todas as coisas. Ela muda a missão da Igreja — que agora anuncia um Cristo vivo. Ela muda nossas marcas como discípulos — moldadas pelo Senhor ressurreto. Ela reveste nossas identidades — não somos definidos pelas nossas circunstâncias, mas por quem somos em Cristo. Ela endereça nossas culpas e fracassos — declarando que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Ela orienta nossos relacionamentos mais íntimos como casamento, família e firma o caminho do perdão. E hoje: ela fundamenta e orienta o nosso trabalho.
Você que é pai ou mãe e sente mais cansaço que retorno — o seu trabalho não é vão no Senhor. Você que serve na igreja e às vezes não vê o crescimento na velocidade que esperava — o seu trabalho não é vão no Senhor. Você que usa suas capacidades profissionais com integridade num ambiente que muitas vezes não valoriza isso — o seu trabalho não é vão no Senhor. Você que faz bem o sapato e o vende por um preço justo, dia após dia, sem que ninguém proclame o seu nome — o seu trabalho não é vão no Senhor.
Porque o Senhor ressuscitou.
E porque Ele ressuscitou, tudo que fazemos sob Seu senhorio, com fidelidade e para Sua glória, carrega o peso da eternidade.
“Sede firmes e constantes, sempre abundando na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor”. (1Co 15.58)
SDG
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