Cristo e a Lei 1
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Qual é a fonte absoluta da verdade? Qual é o padrão absoluto da moral? Qual é a regra absoluta da justiça? Será se existe?
Onde essa sociedade doentia, flutuando em um mar de relativismo, encontra sua âncora? Essa é a questão. Existe um padrão para viver? Existe uma autoridade absoluta? Existe uma autoridade imutável e uma lei inviolável?
Em Mateus 5: 17-20, vemos que, de fato, existe. Essa lei não é outra senão a lei de Deus. Jesus disse que nem um jota ou til passará dessa lei até que tudo seja cumprido. Ele não veio revogar qualquer partícula da lei ou por de lado qualquer mandamento, mas veio cumpri-la. Em outras palavras, Deus estabeleceu uma lei absoluta, eterna e permanente. Em João 17:17, Jesus disse ao Pai: “A tua palavra é a verdade”.
Relata o pastor Jonh Marcarthur: Uma senhora, editora de uma revista, me disse: “Parece-me que você não percebe que os tempos mudaram. A Bíblia não se encaixa mais hoje”. Eu respondi: “Você falou de forma errada. O problema é que o ‘hoje’ é que não se encaixa na Bíblia, e quem está errado é o ‘hoje’ e não a Bíblia”.
Muitos dizem: “Essa é a sua interpretação. Todos têm sua própria interpretação e é assim que você interpreta isso”. O ponto é este: se a Bíblia confronta uma pessoa onde ela não quer ser confrontada, então nascem os argumentos: “A Bíblia está desatualizada” ou “A Bíblia precisa ser reinterpretada”.
Enquanto estivermos enganados quanto a quaisquer verdades fundamentais, não apenas perdemos o benefício e o conforto dessas verdades, mas também corremos o risco de rejeitá-las quando propostas à nossa consideração, e de nos alistarmos entre os inimigos declarados do Evangelho. Os judeus, quase universalmente, esperavam um Messias temporal. Portanto, quando nosso bendito Senhor apareceu em circunstâncias tão humildes e inculcou doutrinas tão opostas às suas expectativas carnais, o povo pensou que ele era um impostor que os enganava, ou que viera para subverter e destruir tudo o que lhes havia sido transmitido por seus antepassados. Nosso bendito Senhor antecipou e dissipou suas objeções: “Não pensem”, disse ele, “que vim destruir a lei e os profetas; não vim destruir, mas cumprir”.
JESUS REAFIRMOU A LEI E ENSINOU SEU VERDADEIRO SENTIDO
Então, se quisermos ser sal e luz, devemos ser verdadeiramente justos. A única maneira de ter uma verdadeira justiça é ir além da falsa aparência dos escribas e fariseus para uma justiça interior que só é construída em nós pelo poder e autoridade da Palavra de Deus. Assim, a Palavra de Deus é a base para um padrão justo, e Deus nunca mudou. Quando Jesus veio, Ele não revogou o Antigo Testamento, Ele apenas reafirmou seu caráter absoluto e vinculativo.
Ele começa com um alerta: “Não pense”, e é exatamente isso que eles estavam pensando. Eles estavam pensando: “Oh, bem, Ele está aqui e vai colocar de lado a lei e os profetas”. Mas Jesus diz exatamente o oposto do que eles pensavam. Alguns escritos judeus diziam que muitos dos judeus esperavam que o Messias anulasse a lei. Eles interpretaram mal Jeremias 31:31, onde diz: “Eis que eu farei uma nova aliança“, e eles pensaram que a nova aliança anularia tudo o que Deus estabeleceu na antiga, mas eles estavam errados.
Eles viram Jesus romper com tradições rabínicas, violar o sábado – o sábado segundo a interpretação da religião organizada – e interpretar a lei escrita diferente dos mestres religiosos. Assim, eles viram incorretamente que Jesus estava se voltando contra o Antigo Testamento. Em nenhuma hipótese o evangelho de Cristo foi um rebaixamento do padrão da Antiga Aliança. Jesus elevou tanto a lei e o Antigo Testamento que acabou expondo todos os fariseus e os escribas como hipócritas.
Ele diz: “Eu não vim revogar”. A palavra grega pode ser traduzida como “destruir, anular”. É usada, em um sentido físico, de quebra ou destruição de um edifício ou de um corpo. Aqui, no sentido espiritual, Ele diz que não veio destruir a lei, o Antigo Testamento.
Figurativamente, a mesma palavra grega é usada em Romanos 14:20 e Atos 5:38 para significar “tornar inútil, anular, revogar, desautorizar”. Jesus disse: “Não vim fazer isso, mas vim cumprir a lei”.
1. A LEI É DE AUTORIA DE DEUS
“Não pense que eu vim destruir a lei”, e ele usa o artigo definido “a”. Eles sabiam sobre qual lei Ele se referia: a lei que foi escrita por Deus. Em Êxodo 20, onde Deus primeiro estabeleceu o Decálogo, Os 10 Mandamentos, Ele começa dizendo: “Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim” (v. 2-3). É assim que Ele começa: “Eu sou o autor da lei”, “Eu sou o Senhor teu Deus”, “Eu Sou Único Deus, por isso essa lei será a única”.
Em Malaquias 3:6, Deus disse: “Porque eu, o Senhor, não mudo”. Portanto, a lei de Deus não é algo sujeito a mudança por causa da opinião humana e nem foi projetada para atender aos caprichos de uma sociedade caída. A lei de Deus não é algo que você molda de acordo com seu pecado. A lei de Deus nunca muda. Ela é o padrão de Deus.
Por isso Ele começa dizendo: “Eu Sou o Senhor teu Deus, não tenha outros deuses diante de mim”. Este é um padrão intransigente baseado no fato de que Ele é o soberano absoluto. Ele não é um ídolo obscuro ou a divindade remota, mas este é o Deus santo, único do Universo. Sua lei ainda é a mesma. A natureza de Deus é inalterável, Suas leis permanecem. Deus não evoluiu e melhorou Sua lei, Ele é eternamente perfeito, assim como é a Sua lei.
nosso Senhor Jesus declara que não veio para abolir a lei. Suas palavras são muito claras: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir”. E Paulo nos diz a respeito do evangelho: “Anulamos, então, a lei pela fé? De modo nenhum! Ao contrário, confirmamos a lei” ( Romanos 3:31 ) . O evangelho é o meio para o firme estabelecimento e vindicação da lei de Deus.
1.1 QUANDO JESUS FALAVA “LEI”, A QUE ELE SE REFERIA?
Vamos ser específicos sobre a lei. A respeito de que Jesus se refere? Muitas pessoas discutiram isso. Jesus usa o termo “lei” de uma maneira bastante abrangente. Quando os judeus usavam isso no tempo de Jesus, eles tinham quatro ideias, quatro possibilidades.
Em primeiro lugar, às vezes eles usavam o termo “lei” para se referir aos Dez Mandamentos. Em segundo lugar, às vezes eles usavam a palavra para se referir ao Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés. Em terceiro lugar, às vezes eles usavam a palavra para falar de todo o Antigo Testamento. Mas, em quarto lugar, geralmente, quando usavam a palavra “lei”, eles não estavam falando dos Dez Mandamentos, do Pentateuco e nem de todo o Antigo Testamento, mas sobre as tradições orais e escritas que eles receberam de vários rabinos. Sobre isto Jesus disse: “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento (a lei) de Deus”.
Você diz: “Como eles podiam fazer isso?”. O uso mais comum do termo “lei” entre os judeus no tempo de Jesus se referia às inúmeras regras rabínicas. Enquanto a lei de Deus dizia respeito ao homem interior, as inúmeras regras rabínicas tentavam montar uma aparência exterior, procurando convencer o homem de que estava tudo bem. Os escribas escavaram o Antigo Testamento para deduzir o que seria possível e daí fizeram um monte de regras, muitas delas até engraçadas.
Deixe-me dar uma ilustração. Por exemplo, a lei do Antigo Testamento havia dito que você não poderia trabalhar no sábado. Mas eles disseram: “Tudo bem, se não podemos trabalhar no sábado, o que é trabalho?” Eles tiveram que determinar o que é o trabalho, então eles decidiram ter um estudo sobre o que é o trabalho.
Eles decidiram, em primeiro lugar, que o trabalho era carregar um fardo. Então, você não poderia carregar um fardo no dia do sábado. Então, eles disseram: “O que é um fardo? Vamos decidir o que é um fardo”. A lei dos escribas dizia que um fardo seria o equivalente ao peso de um figo seco ou vinho suficiente para misturar em uma taça ou leite suficiente para uma andorinha ou mel o suficiente para colocar sobre uma ferida ou óleo suficiente para ungir um membro pequeno e etc. etc. Para eles, tudo que passasse desses limites seria um fardo.
Você pode imaginar tentar lidar com todas essas coisas? Eles passavam inúmeras horas argumentando se um homem poderia ou não levantar uma lâmpada de um lugar para outro no sábado. Eles faziam grandes discussões sobre se uma mulher poderia ou não usar um broche, pois, se fosse muito pesado, seria um fardo. Eles também discutiram se um homem poderia levantar seu filho no dia do sábado. Essas coisas eram a essência da religião para eles.
Os escribas, você vê, eram as pessoas que escreveram todas essas coisas, e os fariseus foram aqueles que tentaram mantê-las. Para o judeu ortodoxo estrito do tempo de Jesus, a lei era uma questão de milhares de regras e regulamentos legalistas. Então, quando Jesus veio e disse: “Eu não vim destruir a lei”, essa não é a lei a qual Ele estava Se referindo. Jesus não estava falando sobre as tradições dos homens, Ele estava falando sobre a lei de Deus. Ele veio cumprir a lei de Deus, a lei absolutamente inviolável, uma lei que nunca mudou.
Deixe-me ajudá-lo a ver o que Jesus quis dizer com “lei” em Mateus 5:17. Pode ser que Jesus quis dizer os Dez Mandamentos, ou o Pentateuco ou todo o Antigo Testamento. Como nós sabemos?. “Não pense que eu venha destruir a lei ou os profetas”. Isso resolve. “A lei e os profetas” é uma expressão referente a todo o Antigo Testamento. Por doze vezes o Novo Testamento se refere ao Antigo Testamento como “a lei e os profetas”.
Deixe-me dar-lhe alguns sinônimos. Sempre que, no Novo Testamento, você vir os termos “lei”, “lei de Deus”, “lei e profetas”, “Escrituras” ou “Palavra de Deus”, são sinônimos do Antigo Testamento, na maioria dos casos. A menos que o contexto lhe dê uma definição mais restrita.
O que Jesus está dizendo, então, é: “Eu não vim destruir o Antigo Testamento, eu vim cumpri-lo”. Se aqueles judeus tivessem olhos para enxergar, eles teriam visto que estavam olhando cara a cara para o tema de todo o Antigo Testamento, para Aquele que era a consumação de todo o Antigo Testamento. Sobre o que se falou na lei e nos profetas estava de pé na frente deles. Ele foi o único que veio cumprir tudo.
Spurgeon - A vida, a obra e as palavras de Cristo não são uma emenda ou uma revogação do Antigo Testamento. Permanecem firmes e inabaláveis, cumpridas, levadas à perfeição, plenamente preenchidas em Cristo.
Verso 19
O “violar” aqui não simplesmente desobedecer, mas anular, desfazer, dissolver.
A ideia é reduzir a Lei de Deus a nada, tornando-a inoperante, em essência, libertando-nos de suas exigências e padrões.
Somos aqui alertados quanto ao perigo de minimizar a lei de Deus, de despreza-la.
A lei precisa ser corretamente entendida para que seu propósito seja corretamente alcançado. Os escribas e fariseus torciam a lei em nome da lei. Eles deturpavam seu sentido para ostentarem uma espiritualidade de faixada. Vangloriavam-se ao mesmo tempo que violavam a lei e ensinavam ao povo preceitos de homens, em vez de ensinar com fidelidade a lei. Violar a lei é quebrá-la. Ensinar a lei de maneira errada é ser falsa testemunha de Deus. Violar a lei traz consequências graves para o transgressor. Ensinar esses desvios traz desdobramentos terríveis para quem ouve esse falso ensino. A lei não é para ser quebrada, mas obedecida. Não é apenas para ser guardada, mas também para ser transmitida.
Em último lugar, cuidemos em não supor que o evangelho tenha rebaixado o padrão de santidade pessoal
Verso 20
Jesus conclui essa seção com uma das declarações mais sérias do Sermão do Monte:
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.”
Mateus 5:20
Aqui, nosso Senhor não está apenas corrigindo uma interpretação errada da Lei; Ele está desmascarando uma religião inteira construída sobre aparência. Os escribas conheciam a letra, os fariseus exibiam disciplina, o povo os via como exemplos de piedade. Mas Jesus declara que, se a nossa justiça não for maior do que a deles, não entraremos no Reino dos céus.
Isso deve ter soado chocante. Aos olhos humanos, os escribas e fariseus pareciam o ápice da religião. Eram rigorosos, zelosos, separados, cuidadosos com ritos, tradições e detalhes externos. Mas diante de Deus, sua justiça era insuficiente, porque era uma justiça de fachada. Eles limpavam o exterior do copo, mas o interior permanecia cheio de impureza. Honravam a Deus com os lábios, mas o coração estava longe dEle.
Portanto, Jesus não está exigindo apenas uma justiça mais intensa que a dos fariseus, como se bastasse orar mais, jejuar mais, ofertar mais ou obedecer regras com mais rigor. Ele está exigindo uma justiça de outra natureza. A justiça dos fariseus era exterior; a justiça do Reino começa no coração. A justiça deles buscava aplauso dos homens; a justiça do Reino busca agradar a Deus. A justiça deles se apoiava em desempenho religioso; a justiça verdadeira nasce da graça de Deus e se evidencia em obediência sincera.
Esse verso nos impede de cair em dois erros. O primeiro é o erro do liberalismo moral, que tenta diminuir a Lei de Deus para acomodar o pecado. O segundo é o erro do legalismo religioso, que tenta obedecer externamente sem um coração regenerado. Jesus condena os dois. Ele não rebaixa o padrão da Lei, mas também não aceita uma obediência meramente externa.
É importante observar que Mateus 5:20 não está ensinando que o homem entra no Reino dos céus por meio de suas próprias obras. Jesus não está dizendo que, se alguém conseguir produzir uma justiça superior à dos escribas e fariseus, então será salvo por mérito próprio. Essa interpretação entraria em choque com todo o ensino das Escrituras.
A Bíblia afirma claramente que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé. Paulo declara: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” — Romanos 3:28. E ainda: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” — Efésios 2:8-9.
Portanto, quando Jesus exige uma justiça que excede a dos escribas e fariseus, Ele não está apontando para uma salvação conquistada pelo esforço humano, mas para a necessidade de uma justiça verdadeira, superior à mera aparência religiosa. Os fariseus tinham obras externas, mas não possuíam um coração regenerado. Tinham disciplina religiosa, mas não possuíam a justiça que procede de Deus. Conheciam a letra da Lei, mas ignoravam seu verdadeiro propósito. A justiça que excede a dos escribas e fariseus é, primeiramente, a justiça perfeita de Cristo atribuída ao pecador pela fé. Cristo cumpriu a Lei de modo perfeito. Ele obedeceu plenamente onde todos nós falhamos. Por isso, o pecador não é aceito diante de Deus com base em sua própria obediência, mas com base na obediência perfeita de Cristo.
Mas essa justiça recebida pela fé também produz transformação. O mesmo Deus que justifica o pecador também o santifica. A salvação não vem pelas obras, mas a salvação verdadeira nunca permanece sem frutos. Como Paulo afirma em Efésios 2:10, fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras”. As obras não são a raiz da salvação; são o fruto dela.
Assim, Mateus 5:20 destrói tanto o legalismo quanto a falsa graça. Ele destrói o legalismo porque mostra que nenhuma justiça meramente humana é suficiente para entrar no Reino. Mas também destrói a falsa graça porque mostra que o Reino de Deus não é habitado por pessoas que desprezam a santidade. Cristo não salva o homem para deixá-lo escravo da aparência, da hipocrisia e do pecado; Ele salva para transformar o coração e conduzir o salvo à obediência sincera.
