(2Co 5:6-10)

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1. A Tenda Terrena e a Confiança Diante da Morte (v. 6 e 8). Nesta seção, o apóstolo Paulo contempla a perspectiva da morte sem qualquer tremor ou apreensão, demonstrando, pelo contrário, uma confiança inabalável, serenidade e coragem.
A morte, para os cristãos autênticos, perdeu o seu ferrão. Conforme a cosmovisão puritana, a morte não deve ser encarada através do "espelho da natureza", que a apresenta de forma aterrorizante, mas através das "lentes das Escrituras". A morte, para um filho de Deus, nada mais é do que o despir-se de seu tabernáculo terreno, a saída de uma prisão terrena para um palácio celestial, o fim da morte do pecado e o início do descanso. É por isso que o apóstolo afirma ter "audácia" e até "complacência" para encarar o rei dos terrores face a face, preferindo estar ausente do corpo e presente com o Senhor. É preciso algo acima da natureza caída para fazer com que um homem não apenas não tema a morte, mas deseje partir para estar com o Senhor.
Paulo menciona a dádiva de Deus a nós, o Espírito Santo (v.5) na forma de uma primeira prestação com a promessa de maiores presentes que ele ainda tem para nos dar. A própria presença do Espírito na vida dos crentes dá a Paulo e aos coríntios razão de estarem confiantes com respeito ao futuro. Paulo diz a seus leitores que podem sempre estar com ânimo, considerando o penhor de Deus que lhes é dado. O verbo grego tharrein ou tharsein (estar confiante, de bom animo) é uma palavra que só Jesus pronuncia nos Evangelhos e Atos, e que Paulo escreve em suas cartas. O verbo indica medo que desaparece quando é restabelecida a certeza de que Deus está no controle. As expressões estar em casa e estar longe de casa se referem respectivamente a estar em seu próprio país e ser um estrangeiro morando no exterior. E, para alguns coríntios, ser estrangeiro vivendo no exterior significava estar separado do Senhor. Para Paulo, no entanto, significava que ele está no mundo, mas não é do mundo (Jo 17.14, 16).
Sou forasteiro aqui, em terra estranha estou, Celeste Pátria, sim, é para onde vou. Embaixador, por Deus, do reino de além-céus, Venho a serviço do meu Rei. – E.T. Cassel (trad. E. R. Smart, 1907)
CALVINO: Paulo ensina que estamos ausentes dEle, o que aparenta contradição; mas esta dificuldade é facilmente resolvida, quando reconhecermos que há diferentes tipos de ausência e presença. Portanto, Deus está presente com todos os homens no sentido em que Ele os sustenta por seu poder; Ele habita com os homens no sentido em que vivem, se movem e possuem seu ser por intermédio de Deus [At 17.28]. Ele está presente com aqueles que crêem nEle, na mais excelente energia de seu Espírito; Ele vive neles e habita em seu meio e em seu íntimo. Não obstante, ao mesmo tempo Ele está ausente de nós, porque não está presente conosco face a face, pois ainda permanecemos exilados de seu reino e não possuímos ainda aquela bendita imortalidade da qual usufruem os anjos que vivem com Ele.
8. Ele inverte as palavras desse lema e comunica como está ansioso por estar com o Senhor. Ele registra o mesmo ensino em outro lugar: “Tenho o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Paulo quer deixar seu corpo físico e entrar no céu, à presença do Senhor.
Como pode Paulo, que aborrecia a ideia de uma separação de corpo e alma, dizer que prefere estar longe do corpo? O desejo dominante de Paulo é estar com Cristo, pois isso para ele é vida, e morrer é lucro (Fp 1.21). Ele tem de escolher um de três estados diferentes:
1. estar vivo na volta de Cristo e receber um corpo transformado e glorificado;
2. morrer, deixar o corpo e estar em casa com o Senhor com uma alma despida;
3. permanecer no corpo por causa dos compromissos para servir à igreja (Fp 1.24–26).
Dessas três escolhas, Paulo opta pela primeira. Mas se o Senhor tardar e a morte o apanhar, ele optaria pela segunda. Apesar de tudo, por causa do progresso da igreja, ele tem de escolher a última opção. Resumindo, se há uma demora na vinda de Cristo, ele optaria pela segunda.
O Senhor sempre está perto de seu povo (Sl 119.151; 145.18), e quando ele os chama à glória, esse relacionamento continua (Ap 22.7, 12, 20). Eles deixam o corpo e estão para sempre na presença do Senhor. A expressão estar em casa descreve um estado que começa no momento da morte.
CALVINO: Ele repete o que já dissera sobre a segurança do homem piedoso e que, em vez de ser destruído pelas asperezas da cruz ou de ficar desanimado por suas aflições, ele, ao contrário, se torna muito mais corajoso por meio delas. O maior dos males é a morte, no entanto, os crentes têm saudade dela, porque é o início da bem-aventurança perfeita. E, aqui, uma vez mais, significa porque; “nada que nos suceda pode abalar nossa confiança e ânimo, porque a morte, que a outros tanto amedronta, é para nós grande lucro [Fp 1.21]. Porque nada há melhor do que deixar o corpo, para podermos participar da morada de Deus e usufruir de sua presença real e pública. Assim, pela dissolução do homem exterior, não perdemos nada do que nos pertence”.
Note que, como já enfatizamos, a fé genuína produz em nós não simplesmente menosprezo pela morte, mas anseio por ela; assim, ela constitui um sinal de incredulidade em nós, quando o medo dela é mais forte do que a alegria e o conforto da esperança. Os crentes asseiam pela morte, todavia, não com um anseio desordenado, como se quisessem antecipar o dia que o Senhor fixou para ela; porquanto eles lutam em seu posto terreno segundo as conveniências do Senhor, preferindo viver para a glória de Cristo [Rm 14.7], antes que morrer em seu próprio proveito.
2. A Tensão do Estado Intermediário e o Andar por Fé (v. 7) O apóstolo introduz o princípio que rege a vida cristã no presente: "visto que andamos por fé e não pelo que vemos" (v. 7). A condição da peregrinação do crente é que, "enquanto nós permanecemos aqui no corpo, ausentes do Senhor e longe de casa, cada um de nós avança pela fé, não pelo que vemos". A fé supre a falta da visão espiritual plena que só desfrutaremos na glória, perfurando as nuvens e as tribulações atuais para fixar-se nas realidades invisíveis e eternas.
A teologia reformada vê em 2 Coríntios 5:1-10 uma forte prova do "estado intermediário" desincorporado. O ensino é claro de que a alma, ao se separar do corpo na morte, não dorme nem deixa de existir, mas entra imediatamente e de forma consciente na presença de Cristo. O sentido natural da expressão "ausente do corpo", no versículo 8, implica em deixarmos para trás o nosso corpo na sepultura até o tempo da ressurreição, habitando, entrementes, com o Senhor. Desse modo, a morte quebra a união entre a alma e o corpo, mas aperfeiçoa a união entre a alma e Jesus Cristo.
A aparência física se apresenta em forte contraste com o caminhar diário pela fé e confiança completa em Jesus Cristo. Em outras palavras, a imagem exterior que observamos é passiva e transitória, enquanto a qualidade interior da fé é ativa e duradoura. Focalizamos a atenção, não nas coisas visíveis que são temporais, mas nas que são invisíveis e eternas (4.18; Rm 8.23–25; 1Co 13.12; 1Pe 1.8). Vivemos por fé e não por vista.
CALVINO: Ele está explicando que sua expressão – “estamos ausentes do Senhor” – significa que não o vemos ainda face a face [1Co 8.12]. A maneira dessa ausência é esta: Deus não é claramente contemplado por nós. A razão por que Ele não pode ser visto por nós é que andamos por fé. Ora, a fé se opõe diretamente à vista, porque ela percebe coisas que estão ocultas aos sentidos humanos e penetra coisas ainda futuras, que ainda não aparecem. Os crentes se assemelham mais a homens mortos do que a vivos, pois amiúde sentem como que estando abandonados por Deus e conservam sempre os elementos da morte encerrados em seu íntimo. Dessa forma, eles têm que esperar contra a esperança [Rm 4.18]. Porque agora as coisas esperadas são coisas ocultas, como lemos em Romanos 8.24, e a fé é a manifestação de coisas que ainda não aparecem [Hb 11.1]. Assim, não é de admirar que o apóstolo tenha dito que ainda não vemos, enquanto andamos por fé. Na verdade, vemos, porém através de óculos escuros [1Co 13.12]; isto é, no lugar da realidade, descansamos na Palavra.
3. O Tribunal de Cristo e a Responsabilidade Moral (v. 9 e 10) Porque a glória futura é certa, o compromisso ético no presente torna-se absoluto. Paulo declara: "Pelo que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes" (v. 9). E a razão principal para esse esforço diligente é a iminência e a certeza da avaliação divina: "Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo". A ressurreição é o prelúdio imediato para este julgamento, pois os mortos ressuscitam exatamente com o propósito de serem julgados em seus corpos.
CALVINO: Paulo já ponderou sobre o ânimo que os cristãos precisam nutrir para que possam suportar as aflições e para que, ainda que moribundos, venham a ser vencedores sobre a morte, porque por meio das aflições e da morte é que alcançam a vida bem-aventurada.
a única razão para nossa negligência e desleixo em nossos deveres é que jamais ou mui raramente pensamos sobre o que devemos lembrar sem cessar, ou seja, que aqui somos apenas inquilinos, por breve tempo, e, quando nosso itinerário findar, teremos de regressar a Cristo.
Este versículo esmaga qualquer noção de impunidade ou de relativismo moral. Todos os indivíduos da raça humana — justos e ímpios — comparecerão às barras do juízo de Deus para a determinação pública e o anúncio de seus estados finais. Do ponto de vista do aconselhamento bíblico e da responsabilidade humana, o texto não dá margem a desculpas deterministas: se o instrumento do pecado ou da obediência foi o corpo humano, a pessoa é inegavelmente e moralmente responsável diante de Deus por aquilo que fez.
A doutrina reformada esclarece que ser "julgado segundo as obras" não significa ser justificado pelo mérito das obras. Para os crentes, as obras não são a base meritória da salvação, mas a demonstração probatória de que a fé deles era verdadeira e não uma profissão hipócrita e estéril. No último dia, Deus recompensará os homens "segundo as obras", mas todos os crentes o serão unicamente com base na livre graça e na justiça de Cristo lhes imputada, revelando-se assim a glória de uma fé frutífera.
Quer os crentes estejam dentro ou fora do corpo não importa, porque sua meta é agradar ao Senhor. Será que isso quer dizer que no estado intermediário, os cristãos não podem agradá-lo? A resposta é não. Paulo não está se dirigindo àqueles que já morreram e estão com o Senhor. Ele está se comunicando com leitores que estão vivos. Está exortando-os a servir ao Senhor de tal maneira que tanto Deus como nossos semelhantes possam sempre se agradar de nossa conduta (Rm 14.18; Hb 13.21).
Aqui a construção grega mostra que ele se dirige aos cristãos coríntios e presumivelmente a seus oponentes nessa igreja. Ninguém está isento de ser convocado ao tribunal, pois a palavra que Paulo usa é “devemos”; a intimação para comparecer ao julgamento tem origem divina, pois Deus por meio de Cristo emite a intimação. Os acusados devem prestar contas a Deus (Rm 14.10) e de Cristo receberão o veredicto.
Quando o Senhor voltar (1Co 4.5), todas as obras, quer boas ou más, serão reveladas. Nessa ocasião, ele determina a recompensa para cada pessoa por ações executadas pela instrumentalidade do corpo enquanto estava na terra. Jesus diz: “Eis que venho logo! Meu galardão está comigo, e eu darei a todos segundo o que fizeram” (Ap 22.12).
Paulo não está ensinando uma doutrina da obtenção da própria salvação mediante boas obras. Deus nos aceita, não por causa de obras que em si estão manchadas por pecado, e sim por causa da obra meritória de Jesus Cristo. Calvino observa: “Tendo assim nos recebido em seu favor, ele aceita graciosamente também as nossas obras, e é dessa aceitação imerecida que o galardão depende”.
CALVINO: Ainda que isto seja algo que se aplica a todos os homens, nem todos têm disposição suficientemente aguçada para lembrar a cada momento que terão de comparecer diante do tribunal de Cristo. Paulo mesmo, em sua santa preocupação de viver retamente, se colocava continuamente sob o juízo de Cristo. Ainda que a palavra que traduzi por seremos manifestos possa significar simplesmente comparecer, em minha opinião Paulo quis dizer muito mais, ou seja, que sairemos para a luz, visto que, agora, muitos estão escondidos nas trevas. Os livros que agora estão fechados enfim serão abertos [Dn 7.10].
O castigo é atribuído de acordo com o que os feitos maus merecem; não obstante, ao galardoar os feitos bons, Deus não leva em conta seus méritos ou dignidade. Portanto, o único remédio está no fato de que Deus, em sua imerecida bondade, nos aceita e nos justifica, deixando de imputar-nos nossos pecados. Tendo-nos recebido em seu favor, Ele aceita graciosamente também as nossas obras; e desta aceitação imerecida depende a nossa recompensa. Não há qualquer inconsistência em dizermos que Deus recompensa as boas obras preparadas de antemão [Ef 2.10], contanto que entendamos que não há nisso qualquer negação do fato de que é por meio da graça que obtemos a vida eterna.
Conclusão Pastoral O apóstolo não utiliza o ensino sobre o julgamento para promover desespero no crente, mas sim um reverente temor a Deus e um zelo profundo pela santidade. Quando o cristão crê verdadeiramente e reflete sobre o fato de que um dia terá que prestar contas de toda palavra, pensamento e obra diante d'Aquele que está pronto a julgar os vivos e os mortos, essa verdade afeta radicalmente o modo como ele se comporta, mortifica os seus pecados e dedica a sua vida inteiramente ao serviço de Cristo.
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