O tempo pertence a Deus
A vida na presença de Deus • Sermon • Submitted • Presented
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· 3 viewsEm Êxodo 20.8-11, o quarto mandamento nos convida a compreender o verdadeiro princípio do descanso. Mais do que uma regra sobre um dia específico, a ordem de santificar o sábado revela que Deus deseja moldar o coração humano, combatendo a idolatria do ativismo e da autoconfiança. Ao cessar o trabalho, reconhecemos que o Senhor é o nosso sustento. O oposto da escravidão não é o lazer, mas a adoração que organiza nossa vida ao redor de Cristo.
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Ex 20.8-11 8"Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. 9Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, 10mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que morarem em tuas cidades. 11Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou.
Introdução
Introdução
Continuamos nossa série de pregações "A vida na presença de Deus", onde caminhamos pelos Dez Mandamentos para descobrir o que eles revelam sobre Deus e como moldam a vida do seu povo.
Até aqui vimos que Deus exige exclusividade em nosso coração (1º mandamento), deseja ser conhecido conforme a sua própria revelação, e não segundo os desenhos da nossa imaginação (2º mandamento), e quer que carreguemos o seu santo Nome de maneira digna, representando-o corretamente diante do mundo (3º mandamento).
Agora chegamos ao quarto mandamento. O último daqueles que chamamos de mandamentos “verticais” (aqueles que tratam diretamente da nossa relação com Ele). Talvez este seja o mandamento que mais gera discussões entre os cristãos. Alguns afirmam que ele deixou de existir. Outros dizem que continua obrigatório exatamente como foi dado a Israel. Assim, a pergunta costuma ser: o cristão deve guardar o sábado?
Nós vamos responder essa pergunta, mas faremos isso na próxima mensagem. Hoje nosso objetivo é compreender o princípio do quarto mandamento. Afinal, não podemos aplicar corretamente um texto que ainda não compreendemos. Ao longo da exposição farei algumas aplicações à vida da igreja e mencionarei o Dia do Senhor, mas deixarei para a próxima mensagem a relação entre o sábado da antiga aliança e o domingo cristão.
Então, antes de tudo, precisamos fazer uma pergunta ainda mais fundamental:
Por que Deus separou um dia dentre sete para si?
Como veremos, o quarto mandamento não trata apenas de um dia da semana. Assim como os três anteriores, ele revela algo sobre quem Deus é. O Senhor não quer apenas nosso coração, nossa maneira de conhecê-lo ou nossa forma de representá-lo. Ele também deseja moldar a maneira como organizamos o nosso tempo.
Porque o sábado não é meramente um dia sem trabalho; é um tempo separado por Deus para que seu povo reconheça, desfrute e celebre sua condição de criaturas dependentes do Criador.
Exposição
Exposição
1º: Deus separa um tempo para si
1º: Deus separa um tempo para si
8"Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo.
O mandamento começa com uma palavra interessante. “Lembra-te” (זכר), um verbo que, no hebraico, significa mais do que recordar: traz a ideia de lembrar para tomar uma atitude (Gn 8.1; Ne 13.31). É um chamamento a se preparar para agir. Mas o que exige a ação do povo de Deus? O dia de sábado.
A palavra “sábado” (שַׁבָּת) é o nome do sétimo dia da semana (v.10) e vem de um verbo que significa “parar de fazer”, “cessar” (cf. Gn 2.2). O mandamento diz que esse dia deve ser santificado (קדשׁ), ou seja, dedicado e separado exclusivamente para Deus. É um dia que o Senhor ordenou tratar de forma diferente dos outros.
Propósito: Moldar o Homem
Propósito: Moldar o Homem
Mas não se iluda, o alvo exterior deste mandamento é o dia de sábado, mas Jesus chamou a atenção para o seu propósito maior:
Mc 2.27 “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”.
A intenção de guardar o sábado é moldar algo no homem. Mais do que santificar um dia do calendário, Deus estava ensinando ao seu povo que parte do tempo pertence exclusivamente a Ele. O Senhor não quer apenas ocupar um lugar em nossa agenda; Ele deseja que nossa agenda seja organizada ao redor Dele.
Isso é necessário porque, assim como o primeiro mandamento combate a idolatria do coração, o quarto mandamento combate uma idolatria muito mais discreta: a confiança exagerada em nós mesmos.
2º: Deus ensina seu povo a depender dele
2º: Deus ensina seu povo a depender dele
9Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos
10mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que morarem em tuas cidades.
O quarto mandamento possui duas ordens inseparáveis: “trabalhe seis dias” e “santifique um dia.” Desde a queda, podemos transformar qualquer coisa boa em ruim. Quem é atraído pela preguiça precisa ouvir: “Trabalhe”. Quem faz a vida girar em torno da produção precisa ouvir: “Pare tudo e santifique o sábado.”
Assim, se o primeiro mandamento combate falsos deuses, o segundo combate falsas imagens e o terceiro combate falsas representações, então o quarto mandamento, combate os ídolos que disputam o nosso tempo. Mas que falsos senhores?
Para entender, basta ver que o v.10 diz que “o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, teu Deus”. Se Não dedicarmos um dia para Deus, outra coisa irá ocupar o lugar: dinheiro, carreira, sucesso, lazer.
O problema da Bíblia nunca foi com o trabalho. Desde o Éden, Deus criou o homem para trabalhar. O trabalho é bom, digno e faz parte da nossa vocação.
Mas mandamento acerca do sábado combate idolatrias mais escondidas. A Bíblia condena fortemente a preguiça e enaltece o trabalho como fonte de sustento. Todavia podemos transformar facilmente o trabalho (ou o dinheiro) em um deus para nós.
Quando o trabalho se torna um deus, confiamos apenas em nossa capacidade. Os sintomas dessa doença espiritual são claros:
Orar pouco ou logo desistir de pedir;
Agir sem consultar a Deus e pedir a bênção depois;
Viver preocupado com o futuro e desabar quando algo dá errado.
Por isso, diz:
Jr 17.5 “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” Para evitar tal maldição, Deus requer de nós uma pausa em nossos esforços. E é uma pausa para mim e para todos aqueles que estão sob minha autoridade.
O Oposto da Escravidão é a Adoração
O Oposto da Escravidão é a Adoração
O descanso do Sábado era um recado para nossa carne de que Deus é quem nos sustenta, até quando eu estou “parado”. O descanso do sábado diz a minha alma, “Deus é tão bom que até se eu parar de trabalhar um dia na semana, ele vai me sustentar”.
Mas o mandamento do sábado também combate outra idolatria sutil, pois fala de um dia dedicado ao Senhor.
O povo havia sido libertado da escravidão tinha três meses. Eles trabalhavam sete dias por semana, ou seja, todos os dias. Aliás, não há registros de que alguma sociedade daquela época desse um dia de folga para os trabalhadores, muito menos para os escravos.
E quando Deus prometeu que os libertaria, disse que os libertaria para que eles O adorassem (Ex 3.12). Perceba que, para Deus, o oposto à escravidão, não é o lazer, mas a adoração.
Duas histórias revelam como outras coisas ocupam o lugar de Deus quando não dedicamos um dia a Ele:
A primeira: Em uma igreja rica, muitos faltavam à Escola Dominical para estudar para concursos. Dedicavam-se intensamente para garantir uma boa carreira, mas permaneciam analfabetos espirituais, conhecendo apenas o básico do Evangelho. Com o tempo, alguns se desviaram da fé e outros se tornaram cristãos extremamente frágeis.
A segunda: Em outra comunidade, um professor faltava aos cultos para corrigir provas e planejar aulas. Enquanto priorizava o trabalho, seu casamento, sua família e sua vida moral desmoronavam, a ponto de perder o respeito da igreja, embora ele mesmo não enxergasse o próprio declínio.
Em ambos os casos, a vida inteira dessas pessoas era organizada em torno do trabalho, do dinheiro e do sucesso pessoal — mas não havia espaço para a dedicação de um dia ao Senhor.
Sinal de Amor e Sustento
Sinal de Amor e Sustento
O sábado é um sinal do profundo amor de Deus pelo povo. Por um lado ele diz que Deus quer estar conosco, quer nos abençoar com sua presença. Por outro lado, diz que ninguém jamais será prejudicado por buscar ao Senhor.
Quando obedecemos este mandamento, parando os nossos trabalhos e dedicando o dia para servir a Deus, estamos dizendo a todos que o Senhor YHWH é nosso sustento e nosso prazer, que Ele é a nossa segurança e nosso descanso.
3º: Deus organiza a vida do seu povo ao redor da adoração
3º: Deus organiza a vida do seu povo ao redor da adoração
11Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou.
O mandamento termina aqui com uma justificativa. A Criação se deu em seis dias, mas ao sétimo, Deus descansou. Em Deuteronômio, Moisés acrescenta outra razão: Deus libertou Israel da escravidão:
Deuteronômio 5.15 “Lembre-se de que você foi escravo na terra do Egito e que o Senhor, seu Deus, o tirou de lá com mão poderosa e braço estendido. Por isso o Senhor, seu Deus, ordenou que você guardasse o dia de sábado.”
O sábado fazia Israel lembrar, semanalmente, as duas maiores obras de Deus: a Criação e a Redenção. Hoje, a Igreja faz isso olhando para Cristo. É Nele que contemplamos tanto o Criador (Jo 1.3; Cl 1.16) quanto o Redentor. Em Cristo encontramos o descanso para o qual o sábado apontava; Nele a criação encontra propósito e a redenção alcança a plenitude.
A Função Didática do Sábado
A Função Didática do Sábado
Por que lembrar disso toda semana? Porque a adoração molda como enxergamos a vida. Semanalmente, o povo reaprendia que não era fruto do acaso, que não pertencia a Faraó nem aos ídolos, mas ao Deus que os criou e redimiu. Essa era a função didática do sábado.
O mesmo acontece conosco.
No dia do Senhor que estamos em comunhão com a maior parte de nossos irmãos. Ali podemos ver como a misericórdia do Senhor é abrangente, salvando pessoas diferentes.
No dia do Senhor que ouvimos a palavra de vida eterna sendo ensinada a nós por aqueles a quem o Senhor gentilmente capacitou para isso.
No dia do Senhor que nos dedicamos para buscar o Senhor em oração e leitura de Sua Palavra, sempre recordando aquilo que recebemos em Cristo.
No dia do Senhor que relembramos o sacrifício de Jesus por nós, quando, mastigando o pão, lembramos de seu corpo que foi “moído por nossas iniquidades” e quando, bebendo o vinho, lembramos que o sangue inocente de Cristo foi derramado em favor de mim, pecador e que este mesmo sangue é o que me purifica de dentro para fora, tornando-me alguém aceitável na presença do Pai.
No dia do Senhor que compartilho com meus irmãos a certeza que haverá um descanso eterno. Um sábado muito maior e perfeito que este que podemos viver agora.
Reorganizando o Coração
Reorganizando o Coração
Perceba como tudo isso forma nossa vida. Deus não separou um dia apenas para interromper nosso trabalho. Ele separou um dia para reorganizar nosso coração.
Durante seis dias somos constantemente pressionados pela lógica deste mundo. No dia do Senhor somos lembrados novamente de quem Deus é, do que Cristo fez por nós e de para onde estamos caminhando.
Israel foi libertado de Faraó, mas Deus sabia que outros senhores tentariam escravizar seu povo. Hoje, eles continuam existindo. A pergunta não é apenas se temos um dia para Deus; a pergunta é quem governa a nossa semana. Quais "Faraós" disputam o tempo que pertence ao Senhor? O trabalho? O dinheiro? O sucesso? O entretenimento? Até mesmo um descanso que já não conduz à adoração, mas apenas ao lazer?
Conclusão
Conclusão
Deus nos salvou por inteiro, então é claro que Ele não deseja somente uma parte de nós: Ele nos quer por completo.
Isso inclui o nosso tempo. Inclui cada um dos seis dias de trabalho e, de maneira especial, dedicar um dia da semana para adorá-lo e servi-lo. Sendo honestos, sabemos que não somos tão zelosos assim. Influenciados por uma ideia errada de descanso, alguns enxergam o Dia do Senhor como uma perda de tempo; outros o transformam em um dia para satisfazer apenas seus próprios interesses. Mas Deus nos ensina que o oposto do trabalho não é o lazer — é a adoração.
Israel falhou em cumprir esse mandamento (Ez 20.13-18). Nós muitas vezes também falhamos. Somente Jesus o cumpriu com perfeição: dedicando o sábado ao Pai na comunhão da sinagoga e glorificando-O com obras de misericórdia.
E nós, que fomos salvos por Cristo, hoje somos chamados a participar das obras Dele. Somos chamados a apreciar a presença de Deus juntamente com nossos irmãos no culto e a declarar que somente Deus é nosso sustento e nosso descanso.
Afinal, somos chamados a separar tempo para Deus, a depender de Deus e a reorganizar toda a nossa vida ao redor da adoração a Deus.
