Ira e Reconciliação - Sermão do Monte - Ep. 4
Ewerton Luis
Sermão do Monte • Sermon • Submitted • Presented
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Abertura
Abertura
Saudações, primeiro culto de Ruben na igreja (responsabilidade)
Estamos detalhando o Sermão do Monte (Mateus 5–7), o principal discurso de Cristo registrado nos Evangelhos. No Sermão Jesus está apresentando como é o Reino de Deus, quais são as características e atributos de quem faz parte desse Reino. Não é um discurso de motivação para viver bem; tampouco um guia de conselhos e dicas; o Sermão é a declaração do único jeito de viver de quem segue a Jesus como Senhor. Quem não segue a Jesus faz as coisas de um jeito; Quem segue Jesus faz as coisas do jeito dEle.
Hoje começaremos a acompanhar a primeira das seis antíteses apresentadas por Jesus ("Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo"). Ressaltando o que vimos semana passada: Cristo não veio reescrever a Lei, ou abolir o Antigo Testamento; na verdade, Ele veio mostrar que nosso entendimento é que estaria embaçado, sem entender verdadeiramente a Vida que emana do texto bíblico. (DITADO “Deus escreve certo por linhas certas; nós que ainda precisamos ler melhor”). Vamos juntos começar a fazer isso de forma prática em nossa leitura de hoje:
Texto-base: Mateus 5:21-26 NVI 23
Texto-base: Mateus 5:21-26 NVI 23
21― Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: “Não assassine”, e “quem assassinar estará sujeito a julgamento”. 22Mas eu digo a vocês que qualquer que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento. Do mesmo modo, qualquer que disser a seu irmão: “Tolo!” será levado ao tribunal. E qualquer que disser: “Insensato!” corre o risco de ser lançado no fogo do inferno.
23― Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que o seu irmão tem algo contra você, 24deixe a sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar‑se com o seu irmão; depois, volte e apresente a sua oferta.
25― Não demore para entrar em acordo com o adversário que pretende levar você ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele no caminho; caso contrário, ele poderá entregar você ao juiz, e o juiz entregá‑lo ao guarda, e você poderá ser lançado na prisão. 26Em verdade lhe digo que você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo.
Introdução
Introdução
Atualmente, percebemos um fascínio cultural crescente por séries e livros de True Crime e documentários sobre grandes criminosos — como aqueles que cumprem pena na conhecida penitenciária de Tremembé.
Diante dessas histórias, a nossa reação imediata é de choque, acompanhada pela pergunta: como alguém pode ter tanto sangue frio a ponto de planejar e executar um assassinato dessa forma? Olhamos para essas telas com um distanciamento confortável, rotulando os criminosos como monstros distantes de nossa realidade. A Jen Wilkin vai dizer que esses tipos de conteúdos nos ajudam a deitar a cabeça em nosso travesseiro lembrando-nos de que, não obstante o que possamos ser, não somos assassinos.
Jesus quer mostrar que o mandamento “não matarás” é mais que uma regra; é um princípio de valorização à vida humana
Acontece que os mandamentos do Decálogo são apenas a superfície de princípios que regem a vida daqueles que temem ao Senhor. Ele deseja mostrar que o mandamento “não matarás” é muito mais do que uma regra jurídica de restrição física; é um princípio absoluto de valorização e zelo pela vida do próximo. Não assassinar é muito mais que um ato físico de homicídio, mas qualquer atentado que venha a ferir a dignidade da vida humana. Irar-se com os outros (e consequentemente, xingar) já pode ser uma redução da valorização do outro, por isso é passível de julgamento;
1João 3.15 “15 Quem odeia seu irmão é assassino, e vocês sabem que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo.”
O simples fato moral é que palavras matam. (Eugene Peterson)
Nesse nível, todos somos tão assassinos quanto aqueles de Tremembé.
Ora, e porque um xingamento estaria no mesmo patamar de um assassinato?
É importante entendermos que tipo de xingamento Jesus está usando como referencial (alunos do 8°ano que não sabem o que significam os palavrões). Vamos qualificar os xingamentos nos dois termos usados por Jesus: “tolo” e insensato:
Chamar de Tolo significa “você é insignificante diante de mim”
Chamar de Tolo significa “você é insignificante diante de mim”
22Mas eu digo a vocês que qualquer que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento. Do mesmo modo, qualquer que disser a seu irmão: “Tolo!” será levado ao tribunal. E qualquer que disser: “Insensato!” corre o risco de ser lançado no fogo do inferno.
TOLO: O termo Raca (rhaka) é a transliteração grega do vocábulo aramaico reqa (ou reqi), que significa literalmente "vazio", "cabeça oca" ou "indivíduo sem valor". No contexto sociocultural da Palestina do primeiro século, este termo era um insulto de exclusão intelectual e social. Chamar alguém de raca equivalia a declarar que o outro era socialmente insignificante, um imprestável destituído de inteligência e relevância. Era o maior sinal de desprezo pelo outro, como se dissesse: “eu nem te considero como gente”.
INSENSATO: Quando traduzido para o universo conceitual semítico, o termo evoca o vocábulo hebraico mōreh, associado à rebeldia teológica, à apostasia e à perversidade moral (conforme o Salmo 14:1: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus").
Portanto, chamar o irmão de "tolo" ou "louco" (mōros) no contexto do Sermão do Monte não constitui uma mera ofensa à sua inteligência, mas sim uma acusação de impiedade deliberada, corrupção moral e exclusão da aliança com Deus. Trata-se de um assassinato espiritual e de reputação, em que o agressor assume o papel de juiz escatológico, sentenciando o outro à perdição.
À medida que a ira vai-se degradando em desprezo, a pessoalidade do outro é desvalorizada. Até podemos estar irados contra alguém sem negar seu valor. Mas o desprezo torna mais fácil para nós machucar, afastar, excluir.
(Jen Wilkin) Quem fala algo parecido é o professor Vladimir Safatle (dessensibilização)
Trazer essa realidade para os nossos dias revela o quanto somos rápidos em adotar xingamentos cotidianos que depreciam, diminuem e anulam o próximo. O grande perigo espiritual desse mecanismo é que, quando eu reduzo a humanidade do outro a um mero clichê ou a um estorvo, eu pavimento o caminho para justificar qualquer atrocidade contra ele. Se o meu semelhante é menos humano do que eu, a sua eliminação — expressa tragicamente na expressão violenta do “CPF cancelado” — passa a ser aceita e até celebrada. Para Jesus, o assassinato da reputação antecede e prepara o terreno para o assassinato do corpo.
Em tempos de extrema polarização política, essa desumanização verbal tornou-se a nossa linguagem padrão. Quando rotulamos alguém como “petralha” ou “esquerdopata”, reduzimos todo o pensamento político do espectro oposto a uma "tralha" sem valor ou a uma patologia e doença mental. Do outro lado, ao carimbar o oponente como “minion”, a linguagem tenta transformá-lo em um ser caricato, sem cérebro, que não pensa por si mesmo e serve apenas aos interesses de um “vilão”.
Quando Jesus condena esses tipos de insulto, Ele está a proteger o "valor intrínseco" do indivíduo contra a desumanização. A agressão verbal e o desprezo são ferramentas de exclusão que tentam despir o outro da sua condição de portador da imagem de Deus, preparando o terreno para a sua eliminação física ou marginalização social.
“A valorização da vida, em todas as instâncias e circunstâncias, precisa ser a marca da nossa justiça, que excede a justiça dos fariseus.” Jesus é categórico ao longo do Sermão: a nossa ética e a nossa justiça precisam superar de longe a justiça exterior e performática dos fariseus, que eram mestres em manter a aparência de santidade enquanto assassinavam a alma do próximo com suas sentenças excludentes.
DIREITOS HUMANOS - uma dessas respostas de justiça que excede os fariseus, onde vários cristãos se reuniram para reafirmar o valor da humanidade existe por ela só, afinal somos Imagem e Semelhança.
"Onde depois começam os direitos humanos? Em lugares pequenos, perto de casa — tão perto e tão pequeno que não podem ser vistos em nenhum mapa do mundo. Ainda assim, são o mundo daquela pessoa (Eleanor Roosevelt)
Você não precisa ir longe para defender e valorizar a vida. Basta olhar ao seu redor, para alguém que esteja ferido por sua causa.
A reconciliação é o único caminho
A reconciliação é o único caminho
23― Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que o seu irmão tem algo contra você, 24deixe a sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar‑se com o seu irmão; depois, volte e apresente a sua oferta.
Após estabelecer a equivalência espiritual entre a agressão interna e o homicídio físico, Jesus apresenta dois exemplos práticos de reconciliação que demonstram a urgência da restauração das relações interpessoais.
O primeiro cenário (Mateus 5:23-24) situa-se no contexto do culto no Templo. Jesus descreve um adorador que, ao aproximar-se do altar para apresentar a sua oferta a Deus, se lembra de que o seu irmão tem "alguma coisa contra ele". É digno de nota que o texto não diz "se tu tens algo contra o teu irmão", mas sim "se o teu irmão tem algo contra ti". O imperativo divino exige que a adoração vertical seja interrompida e subordinada à reconciliação horizontal. Não existe comunhão com Deus se não houver comunhão com meu irmão.
Permita-me explicar essa lógica: a oferta ali entregue era um sinal de RECONCILIAÇÃO com Deus. O sacríficio queimado cumpria um papel na Aliança. E Jesus está dizendo que esse papel de reconciliação só faria sentido se já tivesse sido materializado também no meu relacionamento com o meu irmão.
Se no tempo da Antiga Aliança já era desse jeito, imagina agora que temos livre acesso ao Pai? Não precisamos mais de ofertas e sacríficios para nos aproximar dEle, porque Ele já está conosco! Agora sabe quem não está conosco? Aquele irmão que você feriu, machucou, se afastou...
Quando rejeitamos esse imperativo, escolhemos viver de acordo com O JEITO SEM JESUS, esse ciclo provoca a morte silenciosa dos nossos relacionamentos. Casamentos, amizades históricas e laços familiares inteiros deixam de existir simplesmente porque permitimos que o ressentimento fincasse raízes profundas, transformando a raiva em distanciamento definitivo.
Precisamos ser mais sensíveis no que se refere a essas coisas. Nunca deveríamos permitir que uma desavença permanecesse, muito menos que se desenvolvesse. Não devemos retardar o fazer as pazes. Não devemos nem permitir que o sol se ponha sobre a nossa ira. (John Stott)
Em contrapartida, os cidadãos do Reino são chamados a praticar O JEITO COM JESUS, onde a dinâmica é completamente invertida: o AMOR gera o PERDÃO, que por sua vez conduz à RECONCILIAÇÃO.
Ao insistir na urgência de deixar a oferta no altar para buscar o irmão, Jesus está apontando para o coração mais uma vez. Ele nos lembra de que, no Reino de Deus, o relacionamento importa muito mais que a aparência de piedade. De nada adianta mantermos um rito religioso esteticamente perfeito ou uma fachada de espiritualidade exemplar se os nossos corações estiverem manchados pelo desprezo, pelo orgulho ou pela relutância em fazer as pazes. Para Deus, o verdadeiro culto passa, necessariamente, pela restauração da mesa com o nosso irmão.
