Corrida de Obstáculos

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Em João 21, Jesus confronta Pedro com a pergunta: 'Tu me amas?'. A vida cristã é uma corrida de obstáculos, onde o ministério não depende de competência, mas de amor a Cristo. O sermão destaca dois grandes desafios: servir mesmo ferido — superando ofensas e ansiedades — e rejeitar a comparação com o chamado alheio. A aplicação central exige fidelidade: amar ao Senhor, cuidar das ovelhas e simplesmente segui-lo.

Notes
Transcript

Introdução

Encerrar um semestre sempre produz sentimentos misturados.
Estamos gratos pelo caminho percorrido, aliviados com a diminuição da carga e, ao mesmo tempo, tem o cansaço e a expectativa pelo que vem pela frente.
Durante estes meses vocês estudaram, pesquisaram, escreveram, prepararam sermões, planejaram aulas e enfrentaram os desafios próprios da formação ministerial.
Mas, quando mais um semestre termina, permanece uma pergunta mais importante do que todas as avaliações, trabalhos e notas. É a mesma pergunta que Jesus fez a Pedro às margens do mar da Galileia: "Tu me amas?"
Jesus não perguntou se Pedro já estava preparado para liderar, nem se ele se sentia capaz de cumprir sua missão. Perguntou apenas: "Tu me amas?"
Porque, no Reino de Deus, o ministério não começa pela competência, mas pelo amor a Cristo.
O conhecimento é indispensável. A boa formação também. Mas nenhuma dessas coisas sustenta alguém no ministério se faltar aquilo que Jesus procurou primeiro em Pedro.
João 21 registra justamente esse momento. Pedro estava encerrando um ciclo. As negações haviam ficado para trás. Agora Jesus restaura seu discípulo, reafirma seu chamado e mostra que segui-lo não seria um caminho fácil.
O ministério seria uma corrida cheia de obstáculos.
E penso que essa é uma das maiores lições para quem conclui mais uma etapa da sua preparação: a formação não elimina os obstáculos; ela nos prepara para enfrentá-los.
É sobre isso que desejo refletir com vocês nesta noite

Exposição

1º Obstáculo: Servir ferido

15 Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?... (v.15-17)
A tarefa de pastorear e liderar é uma grande benção que Deus nos dá, afinal, somos todos ovelhas! Ninguém é capaz de fazer isso pelas próprias forças.
Pedro não era exatamente a pessoa mais confiável para que Jesus o nomeasse pastor de seu rebanho. Poucos dias antes, havia negado o Mestre três vezes.
Mesmo assim, observando bem estes versículos, vemos que Jesus realmente quis Pedro pastoreando. A repetição da ordem de Cristo (três vezes nos versículos 15, 16 e 17), mais do que enfatizar uma suposta cura interior, destaca a importância da missão que Jesus estava confiando ao seu discípulo.
Jesus não esperou Pedro tornar-se perfeito para chamá-lo. Chamou um homem restaurado.
Isso é muito importante para nós. Quem termina um semestre de estudos também pode terminar cansado. Alguns terminam animados. Outros terminam frustrados.
Talvez alguém esteja decepcionado consigo mesmo. Talvez tenha percebido limitações que antes não enxergava. Talvez tenha descoberto que servir a Cristo é bem mais difícil do que imaginava.
Pedro sabia exatamente o que era essa sensação.
Mesmo assim Jesus lhe disse: "Apascenta as minhas ovelhas."
Deus continua chamando pessoas que ainda carregam marcas da caminhada. Ele não chama pessoas porque nunca fracassaram. Ele chama pessoas que aprenderam a depender dele.
Mas o texto mostra que servir ferido não é fácil.
O versículo 17 diz: "Pedro entristeceu-se..."
A palavra usada aqui pode transmitir a ideia de tristeza profunda, de alguém que foi atingido emocionalmente.
Quem serve a Cristo também passa por isso. Há críticas. Há decepções. Há mal-entendidos. Há momentos em que fazemos o melhor e, ainda assim, somos incompreendidos.
O primeiro obstáculo do ministério não é a falta de capacidade. É permitir que as feridas nos impeçam de continuar servindo.
Por isso, vejamos duas maneiras pelas quais essas feridas costumam aparecer.

I. Quando somos ofendidos (v.17)

Uma pessoa ofendida pode tornar-se um perigo para si mesma, pois podemos acabar justificando nossos pecados pelos pecados dos outros.
Devemos ficar ainda mais atentos ao nosso coração quando somos ofendidos, porque somos filhos de Deus e não devemos agir como tolos.
Provérbios 12.16 diz:
"Quando o tolo é ofendido, logo todos ficam sabendo, mas quem é prudente faz de conta que não foi insultado."
Se a situação exigir uma conversa, Jesus também nos orienta:
"Se o seu irmão pecar, repreenda-o; se ele se arrepender, perdoe."
Se alguém lhe ofender, perdoe. Foi perdoando seus irmãos que José salvou sua família da fome. Foi perdoando nossos pecados que Cristo nos deu a salvação.
Quem ama Jesus continua apascentando suas ovelhas, mesmo quando foi ferido.

II. Quando somos consumidos pela preocupação (v.17)

Talvez Pedro tenha pensado que Jesus estava duvidando do seu amor. Talvez tenha temido não estar à altura da missão.
Não temos como saber exatamente o que se passava em seu coração. Mas sabemos muito bem o que a preocupação faz conosco.
Há pessoas tão preocupadas com o futuro que deixam de viver bem o presente. Há alunos tão preocupados com o próximo passo que esquecem de agradecer pela etapa que Deus acabou de concluir. Há ministros tão preocupados em corresponder às expectativas que deixam de confiar naquele que os chamou.
Lembremos que foi este mesmo Pedro que começou a afundar quando tirou os olhos de Jesus. E o que Cristo fez? Estendeu-lhe a mão.
Assim também hoje. Não devemos viver dominados nem pela ofensa nem pela ansiedade. Temos um Deus que continua sustentando aqueles que chamou para servi-lo.

2º Obstáculo: Comparar o seu chamado

18Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. 19Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me. 20Então, Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o discípulo a quem Jesus amava... 21Vendo-o, pois, Pedro perguntou a Jesus: E quanto a este? 22Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me.
Nestes últimos versículos vemos Cristo ordenando a Pedro que o siga. Esse duplo "segue-me" (v.19 e 22) não significa simplesmente "venha atrás de mim". A palavra tem o sentido de seguir como discípulo, continuar aprendendo com Cristo e viver como Ele viveu.
Mas é interessante observar que Pedro, logo depois de receber sua missão, olha para João.
É curioso. Jesus acabara de falar sobre o futuro de Pedro. Pedro, porém, quer saber o futuro do outro.
E Jesus responde de forma direta: "Que te importa? Quanto a ti, segue-me." É como se dissesse: "Pedro, preocupe-se com a missão que eu dei a você."
Esse continua sendo um grande obstáculo para quem serve a Cristo. Depois de ouvir o chamado de Deus, facilmente passamos a olhar para os lados. Comparamos ministérios. Comparamos resultados. Comparamos dons. Comparamos oportunidades.
Mas Jesus continua dizendo: "Quanto a ti, segue-me."

I. Deus escreve uma história diferente para cada servo (v.18-19)

18Em verdade, em verdade te digo que... outro te cingirá e te levará para onde não queres.
Pedro recebe uma notícia difícil. Jesus revela que seu discipulado terminaria em martírio. Não era o futuro que qualquer pessoa escolheria.
Mesmo assim, Pedro permaneceu fiel.
Ao concluir este semestre, alguns já sabem qual será o próximo passo. Outros ainda não. Alguns terão muitas oportunidades. Outros passarão por um tempo de espera. Alguns servirão diante de muitas pessoas. Outros servirão quase anonimamente.
Mas o valor do ministério nunca foi medido pela visibilidade. Foi medido pela fidelidade.
Por isso não faz sentido ficarmos contrariados quando nossa caminhada é diferente daquela que imaginávamos. Nossa vida pertence ao Senhor.
Ele continua conduzindo seus servos pelo caminho que melhor glorifica o seu nome.
Pedro glorificou a Deus até na sua morte. Nós também somos chamados a glorificá-lo em toda a nossa caminhada.

II. Deus não nos chamou para viver a vocação dos outros (v.20-22)

20Então Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o discípulo a quem Jesus amava...
É exatamente aqui que Pedro tropeça. Em vez de continuar olhando para Jesus, ele começa a olhar para João.
"E quanto a este?"
A resposta de Jesus é firme: "Que te importa? Quanto a ti, segue-me."
Não é uma repreensão contra o cuidado com os irmãos. É uma repreensão contra a comparação.
Hoje esse obstáculo talvez seja ainda maior do que nos dias de Pedro.
Vivemos olhando o ministério dos outros. Comparamos igrejas. Comparamos pregadores. Comparamos professores. Comparamos ministérios infantis. Comparamos números. Comparamos oportunidades.
E, sem perceber, gastamos mais tempo olhando para João do que seguindo Jesus.
Lembremos que as ovelhas pertencem ao Bom Pastor. Os dons pertencem ao Espírito Santo. As oportunidades pertencem à providência de Deus.
Nossa responsabilidade não é viver o chamado de outra pessoa. É sermos fiéis ao chamado que Cristo confiou a nós.
1Coríntios 4.2 “Ora, além disso, o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel.”
Talvez Deus conduza outro irmão por um caminho completamente diferente do seu. Mas a pergunta é: “que te importa?” Quanto a você… Siga Jesus.
É isso que o Senhor espera de um teólogo. É isso que espera de um pregador. É isso que espera de quem dedica sua vida ao ministério com crianças.
O discípulo maduro não mede sua fidelidade comparando sua caminhada com a dos outros. Ele simplesmente continua seguindo o Mestre.

Conclusão

Ao encerrarmos este semestre, é natural fazermos uma avaliação da caminhada.
Talvez alguns estejam felizes com o que aprenderam. Outros pensem que poderiam ter feito mais. Alguns seguem cheios de expectativas. Outros ainda não conseguem enxergar claramente o próximo passo.
Mas, no final de João 21, Jesus não pergunta a Pedro quantos sermões ele pregaria, quantas pessoas ele pastorearia ou quantas igrejas ele plantaria. Também não pergunta se ele se sentia preparado.
A única pergunta foi: "Tu me amas?" E a única ordem foi: "Apascenta as minhas ovelhas."
Depois, quando Pedro começou a olhar para o chamado de João, Jesus encerrou a conversa dizendo: "Quanto a ti, segue-me."
Creio que essa continua sendo a palavra do Senhor para nós hoje.
Talvez você venha a ser pastor de uma grande igreja. Talvez ensine uma pequena classe de crianças durante muitos anos. Talvez pregue para milhares. Talvez discipule uma única pessoa de cada vez.
Isso pertence ao Senhor. O que pertence a você é amar a Cristo, cuidar das pessoas que Ele colocar em seu caminho e continuar seguindo o Mestre.
Que, ao concluir este semestre, vocês saiam daqui com mais conhecimento do que tinham quando começaram. Mas, acima de tudo, saiam daqui amando mais a Cristo.
Porque a Igreja precisa de bons teólogos. Precisa de bons pregadores. Precisa de excelentes professores de crianças.
Mas, antes de tudo, precisa de discípulos que continuem ouvindo e obedecendo à voz do seu Senhor: "Quanto a ti, segue-me."
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