Jesus, O Cristo
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Origem (Eternidade, condições e natureza; nascimento, forma e família)
Sobre Jesus a bíblia diz muito, em João 20.31 (“Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.”), fica expresso a finalidade do livro, apresentar Jesus como o crível Filho de Deus e doador da vida mediante o próprio nome.
Ele não é somente o Filho de Deus, mas é o que detém o poder de fazer outros, filhos de Deus, pelo poder do seu próprio nome, conforme João 1.12 (“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome;”). Crer no nome de Jesus equivale a receber a Jesus e isso libera sobre os crentes um poder capaz de os fazê-lo filhos de Deus, torná-los semelhantes a Jesus, O Filho de Deus, isso é uma devolução à condição de imagem e semelhança de Deus, expressos em Gênesis 1:26. João ilustra que como um homem precisa ter a vontade de gerar um filho e o faz em sua carne e em seu sangue, Deus teve uma vontade de gerar filhos e o fez (João 1:13). E quando ele teve essa vontade, o próprio Verbo se fez carne, como a imagem humana para todos os outros filhos (João 1:14). Esse Filho, Jesus, possui a característica de ser cheio de graça, de verdade e de possuir uma glória “como” do unigênito do Pai (Idem). A descrição da graça é de uma dádiva, a da verdade de aquilo que não pode ser mudado. Então Deus deu ao crente uma dádiva, uma superabundante dádiva, chamada de “graça sobre graça” (João 1:16), uma totalidade, plenitude, de Jesus compartilhada com o crente e isso não pode ser mudado, é uma verdade, a graça e a verdade em Jesus andam juntas. Mas há, também, uma glória, aquela que precede toda a criação, a glória do unigênito do Pai, do Filho presente em todo o ato criativo de Deus, o Filho modelar de toda a criação, o Filho autor de toda a criação, o Filho imagem exata e resplandecente de Deus (Hebreus. 1:3), o Filho Deus unigênito, o coração do Pai, o que revela “como” o Pai é, a que o caracteriza (João 1:18).
Os fariseus estavam preocupados com João, porque ele batizava em caráter universal, destoando do mikveh judeu, o seu tanque de purificação cerimonial, cujo objetivos era tornar o homem puro cerimonialmente. Não tinha a ver com pecado e sim com os ritos da lei e do templo. Uma mulher após o parto, um homem que fosse curado da sua lepra ou um levita que tocassem em um corpo morto poderia passar pelo mikev para se habilitarem a frequentar o templo novamente e isso se repetiria quantas vezes fossem necessários. O batismo de João, por sua vez, não era ritualístico, possuía caráter moral e espiritual, seu efeito não deveria ser temporário, mas permanente, portanto, João estava inaugurando algo novo por seu caráter universal, daí o questionamento farisaico de se ele era o Messias, Elias ou um dos profetas para que usasse de autoridade para um rito de caráter tão abrangente quanto ao efeito temporal e a universalização de oportunidades. Essa era a deixa que João aproveitou para dizer, já estar aí aquele que tem a autoridade para tanto, aquele de quem “não sou digno de desatar as correias das sandálias”.
E na sequência João o apresenta como “O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1:29). Era como se João subisse o nível narrativo: o mikev purifica ritualmente, o “meu” batismo purifica moralmente, mas o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo porque ele batiza com o Espírito Santo (1:33). Mas há algo incrivelmente poderoso na narrativa joanina, ele declara: “eu vi o Espírito descer sobre ele e como eu vi, posso testemunhar que ele é O Filho de Deus” (João 1:32 e 34). O Poderoso Filho de Deus é o igualmente Poderoso Cordeiro de Deus que levará os discípulos de João a elevarem o nível do seu comprometimento transicionando a sua vida discipular para aquele a quem João apontava, o que tem o poder de tirar o pecado do mundo (João 1:35-37), muito além de um comprometimento moral, público e universal, o que já era muito bom. A permanência com Jesus os fez acessar de imediato a revelação de que ele era o Messias e que isso deveria ser publicizado (João 1:41). Natanael, um dos mais incrédulos, nesse momento inicial, do que será o corpo íntimo de seguidores de Jesus faz uma declaração tríplice de identidade de Jesus: Tu és O Mestre, O Filho de Deus e O Rei de Israel. Isso é entendível, quando observamos o que provocou a declaração: Filipe disse a Natanael: “Encontramos aquele de quem falou Moisés”. Moisés declarou em Gênesis 49:10 que viria aquele que seria o “dono do trono de Judá – O Siló” e que todos os povos lhe deveriam obediência, logo, O grande Mestre, O grande Filho e O grande Rei. Então Jesus se apresenta como “O Filho do Homem” aquele sobre quem os anjos de Deus descem e sobem, uma alusão a visão de Jacó da Betel, Jesus é a Betel de Deus, a casa de abrigo, o verdadeiro tabernáculo de Deus com os homens, Mestre, Rei, Senhor e Deus.
Sob esse entendimento do objetivo do livro e do percurso revelador de quem é Jesus, que nos remetemos ao ápice do capítulo que se impõe na introdução: Jesus é O Princípio, A Palavra, O que está com Deus e O que é o próprio Deus (João 1:1). Sendo O Princípio, ele é tudo que havia antes de tudo; mas ele também é A Palavra em movimento, cheia de conteúdo, o sopro, o que emerge da garganta, e com o poder de criar; ele é o que está com, o ser relacional, individualizado; mas é também o ser com quem se relaciona, ele é Deus. João tem a percepção clara e indescritível de quem ele é e avança na exposição da revelação apresentando-o como O Criador, mas também, O meio pelo qual todas as coisas foram criadas, isso é poderoso porque o coloca em contato direto com o que cria, não é somente o que dar a ordem, é também o que a executa, também o único que pode prover, mas também a própria provisão, a “matéria” que deu origem a tudo (João 1:3); ele é A Vida de tudo, tudo ganha vida nele, ele é o ambiente em que a vida se manifesta na criação, ele é A Vida. Essa Vida é A Luz dos homens, A Luz que remove o homem da ignorância, que desfaz o poder das trevas (João 1:4-5), e mesmo que o homem não o quisesse, ele é A Luz que ilumina a todos os homens, o que faz com que todos indistintamente seja indesculpável perante ele (João 1:9). E aqui surge a grande cisão calcada na liberdade de escolha, é possível ao homem escolher não o conhecer – não ter experiência com ele, é possível ao homem não o receber, essa é a essência do discutido livre arbítrio; do outro lado estão os que o receberam, a esses fora concedido o privilégio de participarem da natureza dele, da nossa natureza original, nele recuperada, a de filhos de Deus. Ele é somente o criador, que tem o poder de recriar e usou o mesmo modelo original de criação A Palavra e O Meio, Jesus quis e Jesus se deu; ele é A Vontade e o que se fez carne, fez-se tabernáculo que inclui a todos, os que queiram, por graça e verdade (João 1:13-14). João viu a sua glória, todos podemos ver, é glória como do unigênito do Pai! (João 1:14).
Quando os discípulos viram a primeira evidência miraculosa de quem ele era, foi em um momento especial de festa de casamento, quando da água ele faz excelente vinho (João 2). Sua mãe, como provável servidora da festa detecta o problema a tempo, tem liberdade para ordenar os serviçais e autoridade para pedir ajuda ao seu filho. Ele, entretanto, percebe que os cálculos da sua mãe seriam de difícil solução e que só um milagre resolveria o problema. Daí a resposta de que a sua hora ainda não era chegada, sobre “ser chegada a hora”, João é o que mais enfatiza essa expressão. E a destaca nos lábios de Jesus algumas vezes, contudo, no capítulo 17, ela aparece como o alvo ministerial de Jesus (João 17:1-3). O que temos aqui é Jesus declarando que: Pai e Filho glorificam um ao outro; que ele detém autoridade sobre toda a carne; que mediante a sua autoridade ele concede vida eterna, a qual consiste em conhecer ao único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, o enviado. Jesus é o que concede salvação e ela não admite outros deuses nem outros senhores, não há tolerância alguma para esse fato. Retornando ao capítulo 2, João afirma que com esse milagre Jesus manifestou a sua glória, talvez de forma antecipada pelo pedido de sua mãe; e que os seus discípulos creram nele, colocando a fé como extremamente importante na vida de quem se dispõe a o seguir (João 2:11).
Sob essa fé, os discípulos o seguem ruma a Jerusalém, para a primeira das três páscoas de que João faz menção da participação de Jesus (João 2:13), os demais evangelistas só mencionam a última. Como o costume judaico era participar das festas, talvez Jesus tenha participado de outras mais. Ali Jesus expulsa os negociantes que ocupavam o pátio externo ao templo e é arguido sobre a autoridade evidenciada por sinais para esse agir. A resposta é clara e aqui parafraseada: “me matem e em três dias ressuscitarei” (João 2:19); ninguém entendeu, até que ele ressuscitou e isso levou os discípulos a crerem mais nas escrituras e nas palavras de Jesus (João 2:22), colocando as palavras de Jesus e as escrituras no mesmo nível de aceitação. É João construindo um percurso lindo de revelação da glória de Jesus e da necessidade de cremos nele. Muito embora, ele já houvesse dado a resposta aos judeus, os sinais se manifestavam naquela festa e levou muitos a crerem em seu nome.
Dos crédulos, um procurou a Jesus, na verdade, movido por uma curiosidade de fé, Nicodemos é o seu nome, principal entre os judeus e notável demais para ser visto com Jesus, por isso o faz à noite. Ele, membro da elite farisaica faz uma declaração importante: “tu és mestre vindo da parte de Deus e as evidências disso são os sinais que manifestas”. O que ele está a dizer é que Jesus era o prometido, o messias, o enviado de Deus aos homens, o restaurador do reino de Israel (João 3:2). Compreendendo Jesus o interesse dele, as questões do reino de Deus, lhe afirmou que era necessário um novo nascimento para ver o reino de Deus. Era como se Jesus enxergasse que Nicodemos compreendia que ele poderia ser o messias, mas não compreendia o quanto isso representava na relação pessoal com ele. Jesus estava lhe ensinando sobre a essência do reino e do seu rei, sobre a condição de ser participante disso e de como o homem precisa se submeter em fé, mais que nutrir uma curiosidade religiosa. Jesus lhe fala sobre a necessidade de crer publicamente – “nascer da água; e de experimentar interiormente – “nascer do Espírito”, isso põe o homem dentro do reino de Deus (João 3:5). Quem faz isso é o único que desce e sobe ao céu livremente, esse que tem tal poder, é o que será levantado no madeiro (João 3:13-14), a mais absurda e impossível de todas as contradições de tudo que se possa imaginar em qualquer tempo, e o ato de conseguir crer nele, sob toda essa verdade é a porta para a vida eterna (João 3:15). A motivação para tudo isso é a natureza de Deus, o seu imensurável amor estampado nas palavras de João 3:16, por isso ele enviou o seu filho, não como juiz, mas como salvador, o julgamento é arbitrado pelo próprio homem no seu ato de fé ou na falta dela (João 3:17-18). Entretanto, a fé não dirige tudo, o amor é o determinante, o que amamos direciona o nosso destino, podemos amar as trevas, o que equivale a fazer dela o nosso deus, ou amar a luz a tal ponto que desejemos viver nela. O amor se expressa na nossa prática, se operamos o que é mal acabamos por nos refugiar nas trevas e se amamos o que operamos, acabaremos por amar o lugar tenebroso e isso será um fatal impedimento à fé e à sua manifestação (João 3:19-21).
Mas voltemos a pensar em quem é o Jesus apresentado em João, ele é o noivo, que crescerá nos corações dos que se abrirem em fé, que será maior que qualquer ministério humano e provocará alegria em quem dele depender, Jesus, o noivo que purifica a noiva (João 3:25-30)
