Um ensaio da eternidade
A vida na presença de Deus • Sermon • Submitted • Presented
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· 1 viewO quarto mandamento revela o desejo de Deus de nos dar um tempo especial. Em Marcos 2 e Hebreus 4, vemos que Jesus não anulou o descanso, mas mostrou ser Ele próprio o Senhor do sábado. O descanso instituído no Éden aponta para a nossa eternidade. Hoje, a Igreja guarda o domingo não como uma regra rígida, mas como um princípio moral e um ensaio semanal da eternidade, adorando a Cristo e aguardando o descanso final.
Notes
Transcript
Introdução
Introdução
Dando prosseguimento à nossa série “A vida na presença de Deus”, hoje vamos detalhar um pouco mais o 4ºmandamento. Semana passada vimos o mandamento de guardar o sábado é provavelmente o mais polêmico entre os cristãos, mesmo entre evangélicos.
Vimos ainda que o mandamento, em sua essência, fala de um dia da semana, mas existe para organizar nossa vida, nosso tempo em torno de Deus, pois o Senhor YHWH deseja que cada pessoa em seu povo tenha um tempo separado por Ele mesmo para que seu povo reconheça, desfrute e celebre sua condição de criaturas dependentes do Criador.
Contudo, como apenas expliquei o mandamento no contexto dos israelitas, duas perguntas ficaram em aberto:
Se o mandamento é para guardar o sábado, porque os cristãos guardam o domingo?
Na prática, como nós devemos guardar o domingo? O que pode e o que não pode fazer?
E para responder essas duas perguntas veremos dois textos que mostram que Jesus não apenas cumpriu o sábado; ele revelou aquilo para o que o sábado sempre apontou. Por isso, somente olhando para Cristo compreendemos tanto o Dia do Senhor quanto a maneira correta de vivê-lo.
Então, observemos primeiro o que Jesus disse sobre o sábado.
Exposição
Exposição
Mc 2.27-28 27 - O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. 28 - Assim, o Filho do Homem é senhor também do sábado.
Mc 2.27-28 27 - O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. 28 - Assim, o Filho do Homem é senhor também do sábado.
Para entender esse trecho, um pouco de contexto. Estamos lendo o Evangelho segundo Marcos. Esse Evangelho se concentra nas obras de Jesus Cristo. Jesus e os discípulos tiveram um ministério itinerante, andando principalmente pela Galileia e parte da Judeia.
Determinado dia, Jesus e os discípulos estavam andando numa roça de trigo ou cevada. Os discípulos tiveram fome, pegaram algumas espigas e comeram os grãos. Era um dia de sábado.
Essa cena não agradou a alguns: os discípulos de Jesus colhiam em dia de sábado. Jesus começou a ser acusado de violar o sábado, ou seja, de não cumprir o quarto mandamento, justamente porque fazia algumas coisas nesse dia.
Quem acusava Jesus de violar o sábado eram pessoas de um grupo chamado de fariseus, que eram muito zelosos no cumprimento da Lei de Moisés. Contudo, esse mesmo grupo era bem conhecido por criar, ao longo dos anos, muitas regras para servir a Deus, regras além da Bíblia.
O 4ºmandamento não dizia que era proibido colher para comer aos sábados. Aliás, em Dt 23.25 há uma autorização específica para colher (com as mãos, não com foice), quando estiver de passagem por uma roça.[1] Essa era uma regra dos fariseus, não da Bíblia.
Para responder aos fariseus, Jesus explica o sábado com duas sentenças:
O Sábado está acima da Lei e abaixo do homem
O Sábado está acima da Lei e abaixo do homem
[Desenho: A coroa. Lembra às crianças que Jesus é o "Senhor do sábado" e possui total autoridade sobre nossas vidas e nosso tempo.]
A primeira afirmação de Jesus é um lembrete que o dia de descanso foi estabelecido na Criação e todas as coisas, muito antes da Lei de Moisés (Gn 2.2-3). O sábado foi instituído antes mesmo do pecado existir, sendo uma benção dada aos homens tanto quanto o casamento, o trabalho, a alimentação, o domínio e a comunhão - todos dados à humanidade antes do pecado e de Israel existirem.
E Jesus enfatiza que quando Deus estabeleceu o dia do descanso, Ele o fez para o homem (ανθρωπος) - não somente para Israel ou os judeus - para que o homem desfrutasse repouso, prazer e principalmente, a presença de Deus nesse dia.[2] Essa ideia é reforçada pelo próprio texto do 4ºMandamento, pois, como vimos semana passada, Deus usa a linguagem “trabalhar seis dias e descansar no sétimo”, a mesma linguagem da Criação. Perceba: o sábado não começa no Sinai, começa no Éden.
Então, o sábado é uma criação de Deus, não apenas uma Lei, e foi criado com o propósito de abençoar a humanidade, não de ser um peso para nós. Não “lembrar do dia de sábado para o santificar” é mais que desobedecer a Deus, mas é negar uma grande benção a si mesmo.
E, mais importante que isso...
O Sábado não é somente sobre um dia, mas também sobre uma pessoa
O Sábado não é somente sobre um dia, mas também sobre uma pessoa
Na primeira sentença Jesus explica por que Deus criou o sábado. Na segunda, ele revela quem possui autoridade para definir o verdadeiro significado desse presente.
Com essa frase, Jesus está fazendo afirmações grandiosas:
Ele está se identificando com o ser divino chamado de “Filho do Homem”, da visão de Daniel (Dn 7.13-14), alguém que possui “domínio eterno”, “glória”, “um reino indestrutível” e que será “servido por todos os povos, nações e línguas”. Vale notar que, no texto de Daniel, esse “Filho do Homem” recebeu domínio sobre todas as coisas.
Como Filho do Homem, Jesus reivindica uma autoridade sobre o sábado que somente o Criador possui. E o restante das Escrituras deixa claro que essa autoridade lhe pertence, porque todas as coisas foram criadas por meio dele [3];
Portanto, não os fariseus, não as tradições dos homens, mas o próprio Cristo é quem pode revelar o verdadeiro significado do Sábado.
Mas, o que é curioso, é que Jesus não dá um novo significado ao sábado, nem anula/acaba com o sábado, ao contrário, para Jesus, a observância do sábado não deixa de existir, mas Ele esclarece e restaura a ideia original, mostrando que ele foi criado para o bem do homem e que seu verdadeiro significado só pode ser compreendido baseado em Jesus Cristo.
Mas se Jesus é o Senhor do sábado, então ainda falta responder uma pergunta: para que Deus instituiu esse descanso desde a criação? O que ele representava? É exatamente isso que Hebreus explica.
Hb 4.9-11 -9- Portanto, resta um repouso sabático para o povo de Deus. 10- Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus descansou das suas. 11- Portanto, esforcemo-nos por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo aquele exemplo de desobediência.
Hb 4.9-11 -9- Portanto, resta um repouso sabático para o povo de Deus. 10- Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus descansou das suas. 11- Portanto, esforcemo-nos por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo aquele exemplo de desobediência.
O autor aos Hebreus desenvolve seu texto em torno da pessoa e obra de Jesus Cristo e, quando chega no capítulo 3, ele relembra que o povo de Israel que foi liberto do Egito, foi infiel a Deus e, por esta causa, não entrou no descanso (simbolizado por Canaã, a Terra Prometida). O autor prossegue, citando o Salmo 95, dizendo que mesmo quem entrou nesse descanso (Canaã), ainda não havia entrado no descanso definitivo de Deus.
O contexto, então é que Deus promete um descanso definitivo para o povo dele, e que esse descanso era só simbolizado pela entrada em Canaã.
Já aqui no capítulo 4, assim como Jesus fez no texto que lemos antes, o autor cita o descanso de Deus na Criação, o sétimo dia (o sábado), como base para o descanso definitivo. Aí que chagamos no nosso texto.
Esse texto possui duas realidades de maior interesse para nós aqui.
Na primeira, ele diz que “resta um descanso” (presente), usando um verbo que indica que este descanso já está disponível hoje, mas depois, ele diz “esforcemo-nos por entrar no descanso”, mostrando que esse mesmo descanso não é vivido de maneira plena hoje, pois haverá um momento em que desfrutaremos esse descanso plenamente no futuro.
Já na segunda, é que o autor vem usando uma palavra para falar do descanso desde o capítulo anterior (κατάπαυσιν), mas quando chega no v.9, ele usa a palavra σαββατισμός, que alude ao descanso do sábado, para se referir a esse descanso que já está disponível, mas ainda não é vivido plenamente.
E o que tudo isso tem a ver com o 4º Mandamento e conosco?
O tempo dos crentes se organiza em torno do descanso prometido
O tempo dos crentes se organiza em torno do descanso prometido
[Desenho: A cadeira. Representa o descanso do Senhor após a Criação e a promessa de alívio e paz definitivos que Ele nos garante.]
Observe que Hebreus também retorna a Gênesis 2. Antes de falar do sabbatismos, o autor cita o descanso de Deus na criação (4.4). Assim como Jesus, em Marcos 2, ensina que o sábado nasceu no Éden e foi feito para o homem, Hebreus mostra que esse descanso da criação apontava para uma realidade maior.
O sábado não começou no Sinai nem terminou em Canaã; Ele começou na Criação, anunciando o descanso definitivo de Deus para o seu povo, a Nova Criação. O descanso olha tanto para trás, como para frente.
Uma promessa futura que é vivida semanalmente hoje
Uma promessa futura que é vivida semanalmente hoje
O descanso a cada sete dias, então, não é um conjunto de regras de “pode, não pode”, mas um “ensaio” semanal daquilo que Deus nos dará no futuro: o descanso eterno.
Assim como viveremos em plena comunhão com o Senhor no futuro, experimentamos semanalmente a uma presença especial Deus.
Assim como adoraremos juntamente com nossos irmãos, o povo de Deus, pela eternidade, toda semana paramos nos trabalhos para nos juntarmos em adoração ao Senhor.
Assim como, livres totalmente do pecado, faremos somente o bem no descanso eterno, a cada domingo nos esforçamos para, de maneira mais intensa, fazer o bem às pessoas à nossa volta.
E, já que citamos domingo,
Aplicações
Aplicações
A igreja cumpre o 4º Mandamento, guardando o domingo
A igreja cumpre o 4º Mandamento, guardando o domingo
Se Jesus cumpriu e esclareceu o significado do sábado, como a Igreja deve viver esse descanso hoje? Para responder isso, vejamos como os apóstolos e os primeiros irmãos o cumpriram.
Ainda no início da igreja, os irmãos começaram a se reunir, não mais no 7º dia (sábado), mas no primeiro dia da semana (Atos 20.7; 1Coríntios 16.2) e, em determinado momento, esse dia recebeu o nome de “Dia do Senhor”, que é o significado da nossa palavra “Domingo” (Apocalipse 1.10, dies dominicus).
É importante perceber que em nenhum lugar a Bíblia diz “troquem o descanso do 7ºdia pelo descanso no 1ºdia”. O que aconteceu foi mais como uma consequência do ensino de Cristo (Ele é o Senhor do sábado) e dos apóstolos que tanto fizeram questão de citar que Jesus ressuscitou no “1ºdia da semana” (Mt 28.1; Mc 16.2; Lc 24.1; Jo 20.1) e que Jesus aparecia para os discípulos no 1º dia da semana (Jo 20.19, 26), como ainda mostravam que o descanso semanal lembrava a Criação, mas apontava para o descanso que só Jesus pode nos garantir (Hb 3-4).
Afinal, se o sábado semanal era uma antecipação do descanso prometido, faz sentido que a igreja passe a celebrar esse descanso no dia da ressurreição, quando Cristo inaugurou a nova criação.
Os apóstolos, inspirados pelo Espírito Santo, trataram como natural que o descanso agora seria celebrado no domingo.
A igreja cumpre o 4º Mandamento por princípio moral, não por regras humanas
A igreja cumpre o 4º Mandamento por princípio moral, não por regras humanas
Ao invés de regras rígidas inventadas pelo homem, como os fariseus, os cristão entendem os princípios morais que norteiam o 4º Mandamento.
Alguns princípios são claros como a luz do Sol:
dia especial para o culto a Deus;
dia para fazer o bem;
dia para descansar do trabalho e confiar na provisão de Deus.
E o que mais? O que pode e o que não pode fazer no domingo? Essa não deveria ser a pergunta, por mais tentadora que seja, essa pergunta tende a nos levar para o erro dos fariseus.
Ao invés disso, pergunte:
essa atividade mostra que estou dedicando o domingo ao Senhor?
isso é algo que claramente busca o bem do próximo?
fazendo isso estou demonstrando confiança em Deus e prazer nas obras dele?
Percebe a mudança? O domingo não é sobre o que eu posso, mas sobre como o Senhor é santificado, adorado e desfrutado em nossa vida.
Conclusão
Conclusão
Deus planejou o descanso desde o princípio. Antes mesmo do pecado existir, havia um dia separado para que o homem desfrutasse da presença do seu Criador. O pecado rompeu essa comunhão, mas não o propósito de Deus. Desde o Éden até Cristo, o Senhor continuou apontando para o mesmo destino: um povo descansando para sempre na sua presença.
Por isso nos reunimos a cada Dia do Senhor. Ainda não desfrutamos plenamente desse descanso, mas, a cada domingo, Deus nos faz lembrar da promessa que um dia se cumprirá. Enquanto esperamos esse dia, ouvimos o convite de Jesus: "Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso." (Mateus 11:28-30).
Todo domingo é um ensaio da eternidade. Hoje descansamos da nossa rotina para lembrar que pertencemos a Cristo; um dia descansaremos para sempre na presença dele.
Então, quero deixar três perguntas para você refletir nesta semana:
O que o seu domingo revela sobre aquilo em que você realmente descansa?
O Dia do Senhor tem sido apenas um dia livre ou um dia separado para desfrutar da presença de Deus?
O que precisa mudar para que o seu descanso semanal reflita a esperança do descanso eterno prometido por Deus?
[1] Levando-se em consideração que as pessoas viajavam a pé ou em lombos de animais, esta autorização está mais ligada à preservação da vida, não parecendo ser uma autorização de “comer qualquer coisa da roça do vizinho, em qualquer momento, em qualquer circunstância”, o que seria uma violação do 8ºMandamento. Ao mesmo tempo, a hierarquia entre determinados mandamentos fica evidente: a propriedade é inviolável, mas não em casos de risco iminente à vida.
[2] Ainda que não haja a palavra “prazer” no texto de Gênesis, a ideia de deleite é inegável e amplamente compartilhada pelos comentaristas daquele texto. No sábado/descanso, o Senhor não descansa por estar cansado ou para recobrar o ânimo, mas por deleite. Ao Sábado, Ele reserva uma benção especial e uma santificação especial (Gn 2.3).
[3] João 1:3, Colossenses 1:16 e Hebreus 1:2.
